Canal Pavablog no Youtube

eventos

Fé, devoção e 40 horas de fila: a saga dos fiéis e do padre Marcelo Rossi no Recife

0

Capital pernambucana foi a 12ª cidade do roteiro de lançamentos de “Philia”, em evento com oito horas de duração

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Luiza Maia, no Diário de Pernambuco

A primeira fã chegou às 6h do dia anterior, improvisou uma cama e fez refeições ali mesmo, em frente à Livraria Cultura do Paço Alfândega. O padre Marcelo Rossi estava acordado desde as 3h. Em tarde de tanta fé quanto esforço físico, o religioso recebeu cerca de 5 mil pessoas no lançamento no Recife, ontem, do livro Philia, sobre 14 males da alma.

“Deus permitiu que eu passasse por uma depressão. Eu podia ter escondido. Mas se eu escondesse, não é o meu jeito de ser. Eu mostei para as pessoas a verdade: eu passei por uma depressão, mas eu venci e agora posso ajudar as pessoas a vencer também”, contou o autor, sobre a doença. “Cheguei ao ponto de a vida perder o colorido para mim”, diz ele. Philia, o terceiro livro dele, é inspirado na depressão e anorexia que o fizeram perder 60 quilos.

“Comi uma misturada”, brincou o pedreiro José Lopes, o segundo a chegar, junto com a irmã, atrás somente de Dona Osana, 33, moradora de Surubim. Os dois cederam lugar à senhorinha falante de 82 anos conhecida como Maria Alegria, que chegou às 8h da segunda, de carona com um vizinho. “É um lugar a que a gente vem e só encontra gente boa, amigos”, comemora ela, já no terceiro encontro com Rossi – foi a 10ª da fila em 2011, durante a sessão de autógrafos de Ágape, e visitou duas vezes o Santuário Mãe de Deus, em São Paulo.

Durante a manhã, guarda-chuvas coloriam a fila, que se estendia pelas ruas vizinhas, no Bairro do Recife, e abrigavam os fiéis do calor típico da cidade. Ali, enquanto esperavam, compartilhavam lanches, pães e bolos trazidos de casa ou comprados das dezenas de ambulantes que deixaram outros pontos da cidade para seguir o padre.

Onde há gente, há pipoca, manda a lei dos vendedores itinerantes. E é por isso que o pipoqueiro Jorge Luiz dos Santos, 45, deixou a Rua Nova para aproveitar o movimento em frente à livraria. Apurou mais que o dobro de um dia comum e abriu a gavetinha de alumínio para mostrar a conquista. Os irmãos, Pio e Ana, colegas de profissão, também estavam nos arredores. Outro que comemorava era Gilberto Costa, 64, “pipoqueiro desde que se entende por gente”. Aproveitou para comprar uma maçã do amor, comercializada na barraca da frente.

A tarde de autógrafos começou com uma Ave-Maria. “Ao trabalho”, disse o padre, logo concluída a oração. O cansaço daquele homem tão alto e magro era visível – antes de chegar ao local, às 14h30, ele já havia caminhado 10,5 km na orla de Boa Viagem (por isso acordou às 3h) e concedido três entrevistas. Nas primeiras duas horas e meia de evento, deu quatro pequenas pausas, para descansar, tomar café e energético. Numa delas, conversou rapidamente com o Viver.

Após as 17h, as assinaturas à mão foram substituídas por carimbos e bênçãos, acompanhados por fotografias, que serão disponibilizadas no site https://www.flickr.com/photos/globolivros/. A dupla de voluntários do Santuário Laerte e Antônio (o pai do padre, de 73 anos) marcava cada livro. Às vezes, pilhas de 10 exemplares.

Recife foi a 12ª cidade de 70 destinos previstos na travessia de aproximação com os leitores. Com Ágape, 60 eventos ajudaram a catapultar o livro ao topo dos mais vendidos, com 10 milhões de unidades. A turnê de Kairós (que não passou dos 2 milhões) passou por apenas 20 locais. Philia já vai em 900 mil.

Sentados no auditório da Livraria Cultura, os fiéis davam sinais de esgotamento físico. Alguns levavam pequenas cadeiras dobráveis, sacolas com alimentos. Outros carregavam os filhos, sobrinhos, netos. Até bebês. “Quando a gente consegue tocar uma criança, consegue tudo”, acredita o padre.

O pequeno Lucas, de 5 anos, foi um dos responsáveis por fazer valer a pena todo aquele esforço, diz o padre. O garoto acompanha as missas, aos domingos, e acredita que a bênção do padre pode ajudar no tratamento da Doença de Perths, que compromete os movimentos da perna. Ele mora em João Alfredo, no Agreste pernambucano, e foi trazido pelos pais, os agricultores Lucicleide e Justino Manuel.

A médica Henny Barreto, 80, se locomovia com ajuda de um andador, depois de sofrer um acidente na BR-101, mas estava lá. A doméstica Amara Gouveia, 32, queria pedir oração para o marido, que bebe muito, e para a filha, cardiopata, de apenas três meses – mas já abençoada pelo padre Marcelo. Maria de Lourdes, 61, sofre depressão desde criança. “Estou em cada capítulo”, confessou, com os olhos marejados, logo após conseguir o autógrafo.

Outras histórias ficaram perdidas, mas denunciadas pelos olhares cheios de devoção e paixão de cada um. São narrativas de dificuldades e superações. Mas, acima de tudo, de esperança, vindas de pessoas simples, de várias cidades pernambucanas e estados vizinhos. As primeiras palavras eram sempre de gratidão. E a bênção retribuía.

Feiras literárias existem para estimular mercado e não para promover leitura, diz gestor

0

Segue o debate sobre a função dos eventos literários no Brasil

flip-2011-logo

Afonso Borges, em O Globo

Alhos e bugalhos. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Suzana Vargas, na edição passada do Prosa, comparou (no artigo “O que se festeja nas festas literárias?”) eventos com eventualidade. O jogo de palavras é saudável, mas às vezes ilude. Não tem sentido comparar a realização de eventos literários, sejam quais for, com a necessidade de se educar uma população e aumentar o índice de leitura — mesmo que isso ocorra, em muitos casos.

Em primeiro lugar, eventos não são necessariamente, eventuais. A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) é um evento e não é eventual. Realiza-se todos os anos. O projeto “Sempre um Papo”, que realizo há 29 anos, bate a marca das 5 mil atividades realizadas. E os exemplos de programas consistentes pelo Brasil, como o Fliaraxá, a Fliporto, a Feira de Porto Alegre e tantos outros, nos ultrapassam. Em recente debate no Salão do Livro de Paris, dividi a mesa com Jean Zarzana, falando exatamente deste tema — “A relevância dos eventos literários no Brasil e a questão da leitura” —, ao lado de Antônio Campos e Guiomar de Grammont. Zarzana, curador de 13 das 15 edições do Salão do Livro, é reticente com relação ao assunto: “não tenho a mínima ideia se os Salões do Livro que realizei aumentaram o índice de leitura”, disse, “mas sei do impacto que eles produziram no mercado”.

Esta é a função dos salões, feiras, festivais e bienais: dessacralizar o livro. Somente popularizando este produto ornado de mitologia é que a população vai ler mais. Mas este não é o centro da questão, ainda. O que deve ser dito, de uma vez por todas, é que o principal objetivo dos eventos literários não é o aumento dos índices da leitura no Brasil. E Suzana tem toda razão em seu texto. Isso é tarefa da educação formal. Um dos países que detém os mais altos índices de leitura no mundo é a França. E lá o livro é tratado como tal: um negócio. E dos mais rentáveis da economia. No Salão do Livro de Paris, assim com o de outros países, o que vale é o bom funcionamento do motor: o autor está ali para o livro ser vendido. Por que no Brasil existe tanto pudor em assumir isso? Por que tanta firula e discussões inócuas? O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso?

No Brasil, há um moto-contínuo terrível, decorrente do mito que demoniza quem vende muito. Paulo Coelho é o ícone deste ritual estúpido. Antes, porém, Tom Jobim já preconizava isso em frases célebres sobre a fama. Os índices de leitura na França são altíssimos porque não se discute isso. Livro é para ser vendido e lido, de preferência. Mas antes de ser lido, vendido. E basta. Vejam a reação divertida do Milton Hatoum, ao ser eleito a estrela do Salão do Livro: “Não quero vender muito, porque se eu for chamado de best-seller, no Brasil, fica ruim…” A participação dos autores brasileiros no Salão foi sensacional. A despeito da forma como os escritores foram tratados pela organização, com honorários vergonhosos, os debates foram ótimos. Mas vejam: dê-se o devido crédito às editoras francesas, às entidades do livro e à Academia, que compuseram uma excelente programação paralela, entupindo a agenda dos autores de atividades. Uma palavra a mais: Luiz Ruffato foi a grande estrela do Salão. E isso ninguém disse. E ele não foi convidado pela organização brasileira e sim pelas suas editoras naquele país. Desde o discurso em Frankfurt, o mineiro Ruffato segue carreira solo, e brilhante, pelo mundo.

A eterna e complexa discussão do preço do livro, por exemplo, encontrou um oásis no Fliaraxá. Um acordo entre a rede Leitura e os organizadores colocou um contraponto nesta questão. A mais recente edição vendeu 40 mil livros em 4 dias. Como? A livraria colocou mais de 15 mil livros para vender com preços entre R$ 1 e R$ 10. Tornou-se, assim, o coração do Festival. De crianças a operários, ninguém saiu dali sem um livro debaixo do braço.

De resto, é importante dizer também que hoje vivemos o momento do autor. Não vale mais o livro, como objeto. Antigamente, o escritor passava anos escrevendo um livro e, por ele, era celebrado, e convidado. E vinha, cheio de graça, desfrutar de seu esforço solitário e criativo, metamorfoseado em páginas de um livro. Hoje, não. Hoje é o tempo do autor, da sua fala, da sua presença. O livro é sua extensão, seu… produto (palavra áspera, para os puritanos).

Esta é a verdadeira tarefa dos eventos literários: colocar autor e livro, postos frente a uma mesa de autógrafos, pronto para vender sua obra. Colocar o autor à frente de uma mesa de debates e seus leitores, na próspera tarefa de divulgar seu livro. Colocar o livro e a literatura em seu devido papel: fundamento e alicerce das outras artes. Aí entra a festa, o festival, com o cinema e as artes cênicas como atração, mas em segundo plano. Cada macaco no seu lugar. Ou, no caso, cada coruja em seu galho.

* Afonso Borges é gestor cultural, criador do projeto “Sempre Um Papo” e curador do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá)

Exposição apresenta fotos de escritores feitas por Daniel Mordzinski em hotéis

0

Entre os retratados na mostra que tem entrada gratuita estão Vargas Llosa, Borges, Saramago e Verissimo; veja galeria de imagens

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Mario Vargas Llosa deitado fazendo anotações. Agustina Bessa-Luís passando batom no banheiro. José Eduardo Agualusa sentado na cama, com a mala pronta. Salman Rushdie dentro da banheira, de roupa e comendo frutas. Essas cenas foram presenciadas, ou montadas, pelo fotógrafo Daniel Mordzinski ao longo de sua trajetória profissional – recheada de encontros com célebres escritores.

Uma exposição em São Paulo vai apresentar cerca de 50 fotografias tiradas por ele exclusivamente em hotéis. Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel, que já passou pelo festival Fliaraxá em 2014, fica em cartaz no Sesc Bom Retiro até o dia 8 de março. A curadoria é de Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo – série de encontros realizados com escritores em Belo Horizonte e também em São Paulo.

EXPOSIÇÃO QUARTOS DE ESCRITA – RETRATO DE ESCRITORES EM HOTEL

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação > Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação > Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação > O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação > Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação > Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação > A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Daniel Mordzinski/Divulgação
>
A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Há retratos, ainda, de Eric Hobsbawm, Nadine Gordimer, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, José Saramago, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Herta Müller e de brasileiros, como Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2, e João Paulo Cuenca, entre outros autores.

Daniel Mordzinski, também conhecido como o fotógrafo dos escritores, nasceu em Buenos Aires, mas vive em Paris há quase quatro décadas. Suas fotos já foram publicadas em veículos como Le Monde e El País e foram tema de exposição na Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Inglaterra, Grécia, França, México, Colômbia, Argentina e outros países.

Exposição – Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel
Sesc Bom Retiro ( Alameda Nothmann, 185, tel. 3332- 3600)
Até 8 de março
De terça a sexta, das 9h às 20h30; sábados e domingos, a partir das 10h
Grátis

Campeão da Olimpíada Brasileira de Matemática é aprovado em Princeton

0

Publicado por G1

Murilo Zanarella, de 17 anos, levou a medalha de ‘ouro especial’ na OBM.
Jovem foi para a 2ª fase da USP e Unicamp, mas mira faculdade no exterior.

Murilo Zanarella levou medalhas em 50 olimpíadas nacionais e internacionais na área de exatas (Foto: Arquivo pessoal)

Murilo Zanarella levou medalhas em 50 olimpíadas nacionais e internacionais na área de exatas (Foto: Arquivo pessoal)

Desconcertado, Murilo Corato Zanarella, de 17 anos, solta uma risada tímida quando perguntado se é um viciado em olimpíadas de exatas. O jovem, que nasceu em Campinas e mora em São Paulo, já participou de 50 edições de diferentes provas de exatas, nacionais e internacionais, conquistando mais de 30 medalhas em olimpíadas de matemática, e acaba de ser aceito na Universidade de Princeton, em Nova Jérsei (EUA), após ter um desempenho notável em uma das provas.

A aprovação em Princeton veio logo após Murilo ganhar a medalha de ouro especial na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e obter a prata na Olimpíada Internacional. O título brasileiro foi conquistado após um ótimo desempenho na prova, já que a diferença de pontos entre ele e o segundo melhor colocado na categoria ensino médio foi maior do que a média das provas – 379 pontos contra 302. O resultado da OBM foi divulgado nesta quarta-feira (17).
Apesar de tantas conquistas, Murilo garante que não liga muito para a competição, e que as olimpíadas valem muito mais pela paixão à matemática. “A competição deixou de ser importante para mim, agora é pela matemática. Antes eu participava pelo desafio e, com o tempo, fui mudando e vi que o mais importante é estudar a matemática, a competição é um extra”, afirmou o jovem ao G1.

A matemática da escola é uma coisa mecânica, de copiar o que o professor passa. Na olimpíada é mais criativa, mais próxima da matemática de pesquisa” – Murilo Corato Zanarella, estudante

Zanarella também foi aprovado para a segunda fase dos vestibulares da USP e Unicamp em ciência da computação, e disse que pretende fazer a segunda fase mesmo com a aprovação em Princeton. Porém, se passar, dará preferência à matrícula no exterior, além de tentar outras instituições norte-americanas, como Harvard, MIT, Yale e Stanford, para realizar seus estudos voltados à matemática.

Amante dos números desde o início do ensino fundamental, o estudante contou que sempre teve facilidade com matérias de exatas, e que prefere muito mais os problemas das olimpíadas aos exercícios normalmente feitos em sala de aula. “A matemática da escola é uma coisa mecânica, de copiar o que o professor passa. Na olimpíada é mais criativa, mais próxima da matemática de pesquisa”, comparou o rapaz, que já participou de olimpíadas de física, astronomia, robótica e até de linguística.

Para facilitar a vida do repórter e não perder a conta mediante tantos títulos conquistados, ele organizou todos os títulos em um arquivo de texto, detalhando os anos em que participou e as medalhas obtidas.
Maratona para o cérebro

Para quem não conhece como funcionam as olimpíadas de exatas, a coisa vai muito além de contas e fórmulas, e algumas fases tem quase a duração de um vestibular. Porém, a regra de não poder utilizar uma calculadora continua valendo.

Na OBM, por exemplo, há três fases: a primeira, apenas de múltipla escolha, a segunda fase com questões de respostas diretas, na qual o candidato precisa colocar apenas o resultado e uma parte discursiva, na qual é necessário descrever também o raciocínio e, por fim, a terceira fase na qual os competidores têm 4 horas e meia para resolver três problemas bem complicados.

De acordo com o medalhista, não é preciso apenas saber a fórmula ou a conta corretas, mas sim organizar uma série de métodos e ideias antes mesmo de começar a resolver a questão. “Você precisa investigar o que está acontecendo e encontrar alguma coisa para começar a trabalhar com o raciocínio”, explicou Murilo.

Murilo, ao lado dos irmãos Henrique e Matheus, também medalhistas (Foto: Arquivo pessoal)

Murilo, ao lado dos irmãos Henrique e Matheus,
também medalhistas (Foto: Arquivo pessoal)

Família medalhista
Murilo é o filho do meio da família, e tem dois irmãos, de 15 e 20 anos, que também disputam olimpíadas na área de exatas. A tradição, segundo ele, começou com o filho mais velho, Matheus, que hoje faz engenharia elétrica na Unicamp.

Já o caçula, Henrique, foi medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Física e está participando do processo seletivo que definirá as equipes que representarão o Brasil nas Olimpíadas Internacionais de Física (IPhO e Iberoamericana).

Para que tantos prêmios fossem alcançados, a rotina de estudos é parte crucial do dia a dia de Murilo, que dedicou metade do ano para estudar para as olimpíadas e a preparação para tentar faculdades no exterior. Após vencer a prova internacional, o jovem se dedicou aos vestibulares e exames obrigatórios para o ingresso em instituições estrangeiras, como o SAT, uma espécie de “Enem norte-americano” e o Toefl, que avalia a proficiência de inglês do candidato.

Apesar de toda essa carga preparação, o medalhista destaca que o mais importante é estudar enquanto houver motivação, e não abrir mão de momentos para descansar e curtir um pouco. “Tem que ter um momento para relaxar, não adianta ficar estudando o dia inteiro. Os momentos que eu quero estudar são quando eu quero estudar mesmo, não adianta ter uma rotina fixa. Você rende mais quando não é uma obrigação. Quantas horas eu estudo? Depende muito do dia, depende de quanto eu estou animado”, exemplificou.

A matemática da escola tem um efeito bola de neve gigante. Se você tem dificuldade em um conceito simples, vai ser mais difícil entender algo mais complicado. – Murilo Corato Zanarella, estudante

Chegando ao pódio
“Só adianta você fazer a olimpíada se você realente gosta de matemática. A gente tem muito material na internet. Na minha época, não era tanto assim”, aconselhou Murilo, destacando que é preciso mesclar paixão e motivação para alcançar as medalhas nas olimpíadas. Uma dica é procurar materiais por conta própria, como vídeos no YouTube voltados para essas provas, e tentar contato com professores e outros medalhistas.

Já para quem não tem a intenção de se tornar um “atleta dos números” e quer se garantir na escola, o jovem destacou que é preciso paciência e perseverança ao aprender, e uma boa dica é não deixar de aprender conceitos mais básicos antes de tentar recuperar o ritmo do andamento das aulas.

“A principal dica é não deixar de lado. A matemática da escola tem um efeito bola de neve gigante. Se você tem dificuldade em um conceito simples, vai ser mais difícil entender algo mais complicado. Vale a pena correr atrás de resolver um problema simples, antes de correr atrás de algo mais complicado”, concluiu o rapaz.murilo3

Flipobre: a feira literária feita em casa

0

Conheça a Flipobre, uma iniciativa dos escritores brasileiros fora dos grandes eventos literários.

1

Walter Alfredo Voigt Bach, no Homo Literatus

Confesse: quando se fala em evento literário, algumas das primeiras imagens são os autores e autoras em suas confortáveis cadeiras, acompanhados por um mediador a lhe disparar perguntas sobre a obra, a pessoa e afins, perante a um público de mudez cronometrada, ouvindo atentamente cada palavra do escritor. Este é posto em frente ao público, e resta a ele encarar uma fila de gente o pentelhando após a palestra, atrás de uma foto para o Facebook ou Instagram, um autógrafo, um elogio sincero (existe) e camaradagens parentes, pois ele é a estrela, “o” cara, cercado dos prêmios mais importantes, pessoa reconhecida pela crítica especializada.

Mas, na boa, o cara bajulado pela imprensa não é o único escritor decente deste nosso Brasil, tampouco o único premiado. Há muita gente tão competente quanto ele que pode ter algo interessante para contar. Na criação por novos espaços para o diálogo entre escritores e público (você e eu!), foi criada a Flipobre. Sim, você leu certo, é Flipobre.

Nome e iniciativa brasileiríssimos de Diego Moraes e Roberto Menezes, a ideia é dar espaço a escritores nem sempre presentes no ‘grande circuito literário’. É para fortalecer a literatura, nas palavras deles, evitando os vícios do nosso (sempre em formação) mercado literário; e a ideia teve apoio de gente de todo canto e presente em vários meios literários, desde projetos como 2 Mil Toques e Mamíferos a autores inseridos no “meio”, como Carlos Henrique Schroeder.

O que os organizadores podem nos dizer após a primeira edição?

O Homo Literatus conversou com Diego Moraes e Roberto Menezes.

Homo Literatus – Quais os próximos passos da Flipobre, considerando seu potencial de alcance?

Diego Moraes: Expandir. Conversar com autores da América Latina, Portugal e Moçambique. Criar mesas redondas de entrevistas.

Roberto Menezes: Ainda estamos conversando sobre isso. Mas uma coisa certa que vamos fazer é uma série de entrevistas, onde todos os membros do Hangout conversam com um escritor convidado.

HL – Em uma das mesas comentou-se da nova geração de leitores, com gostos diferentes de leitura. Quais medidas os autores e produtores de conteúdo sobre literatura podem tomar para conhecer e se aproximar do público?

DM: Usar todas as plataformas possíveis na internet.

RM: As medidas já estão sendo tomadas, com escritores divulgando a sua obra em rede sociais, com escritores indo a escolas conversar com novos leitores. Só que ainda falta espaço pra isso se intensificar e o principal, o poder público precisa ajudar mais nesse processo também, acompanhando esses novos nomes e não só aqueles apresentados pelas grandes editoras.

HL – Uma interpretação possível do nascimento da Flipobre é a constante chamada a um círculo dos mesmos autores para os grandes eventos, em detrimento de autores considerados menores em termos de alcance comercial ou de premiação em nosso mercado editorial. Como a Flipobre pode influenciar nisso?

DM: Conscientizar divulgando bons autores publicados por editoras pequenas, mas não queremos fazer marketing encaminhando autores para grandes festivais. Não tenho interesse em participar de eventos do tipo.

RM: A Flipobre veio com a intenção de somar ao abrir uma nova porta pra escritores sem acesso às já existentes. Não vamos ficar rodeando o que já existe, temos que criar outras vias, nem tudo é o mercado editorial, escritores podem ser lidos sem passar pelo crivo das grandes editoras.

HL – Além de questões diretamente relacionadas ao mercado editorial, como a necessidade de uma editora, foram abordados temas como machismo e estética. Por que esses temas e quais outros a organização pretende debater?

DM: Os participantes da Flipobre escolhem os temas através de votação.

RM: A Flipobre pretende abordar muitos temas, como a religião, experiências em sala de aula, tradução, edição. Muita coisa ficou de fora na primeira edição, a gente espera que na próxima seja possível colocar mais mesas redondas, porque tem muita gente querendo ser ouvida.

Go to Top