livrarias

Na contramão da crise, Livraria Travessa vai abrir mais unidades e prevê maior faturamento

0

 

Segundo o Valor, a livraria projeta que nesse ano apresente um faturamento bruto de R$ 78 milhões, valor 15% superior ao de 2017

Publicado no Infomoney

SÃO PAULO – Ao mesmo tempo em que as gigantes Livraria Cultura e Saraiva enfrentam uma gigantesca crise, fechando lojas e até mesmo entrando com pedido de recuperação judicial, a rede Livraria da Travessa planeja inaugurar duas unidades em março do ano que vem.

Hoje ela conta com nove livrarias abertas no Rio de Janeiro e São Paulo e diz que somente 14% de suas vendas são feitas através da internet. Diretor-geral da livraria, Rui Campos disse em entrevista para o jornal Valor Econômico que além de expandir o número de unidades, está “alterando seu mix de produtos” para atender à demanda crescente de produtos de papelaria.

Ainda segundo o jornal, a livraria projeta para este ano um faturamento bruto de R$ 78 milhões, valor 15% superior ao de 2017.

Como comparação, a receita bruta da Cultura no ano passado foi de R$ 800 milhões. Isso mostra o quão pequena a Travessa ainda é ao lado das gigantes.

A proporção é a mesma ao falarmos das dívidas que cada rede possui: juntas, a Saraiva e Cultura somam dívidas de R$ 960 milhões e a Livraria da Travessa, menos de R$ 200 mil, referente ao resíduo de um empréstimo feito com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Ela vai na contramão da crise. Campos disse ao Valor que as vendas de livros “sempre cresceram”; as de CDs e DVDs caíram e parte do espaço destinado a esses produtos agora apresenta itens de papelaria.

Sua relação com as editoras brasileiras, diferente também do que acontece com a Saraiva e Cultura, está melhor do que nunca. Campos diz que a Travessa está “sempre rigorosamente em dia com seus pagamentos” e que usa um software de compartilhamento de dados com as editoras, que indica o status das vendas e estoques e lhes dá “segurança”. Somente às editoras, as gigantes devem mais de R$ 280 milhões.

Quem se aproveita da situação é a Amazon, uma das “responsáveis” pela crise do mercado na visão das redes. Ela enviou às editoras, ainda nessa semana, uma carta oferecendo a possibilidade de antecipar o pagamento de recebíveis a taxas mais baixas do que a média do mercado.

A Amazon ainda detém apenas 10% do mercado de varejo de livros no Brasil, mas vê esse número crescer cada vez mais.

Como Livraria Cultura e Saraiva mergulharam em uma crise profunda

0

Seriamente endividadas, Cultura e Saraiva lutam para sobreviver. Mas livrarias menores mostram que nem tudo está perdido.

Emerson Alecrim, no Tecnoblog

Lojas da Livraria Cultura e Saraiva são presença certa em shoppings e regiões comerciais de grandes cidades brasileiras. Algumas delas, como a Livraria Cultura da Avenida Paulista, em São Paulo, são tão visitadas que parecem até pontos turísticos. Mas, por trás da aparente bonança, essas empresas enfrentam uma crise capaz de levá-las à falência.

A Livraria Cultura foi a primeira a tomar decisões drásticas. A companhia assumiu o controle da Fnac no Brasil em 2017, mas, neste ano, fechou todas as unidades da rede, incluindo a loja virtual. Dias depois, a companhia fez um pedido de recuperação judicial. As dívidas da Livraria Cultura são estimadas em pelo menos R$ 285 milhões.

Cerca de um mês depois, a principal concorrente seguiu pelo mesmo caminho: com dívidas na casa dos R$ 675 milhões, a livraria Saraiva pediu recuperação judicial em 23 de novembro, ironicamente, no dia da realização da Black Friday, uma das datas mais importantes para o comércio.

Ninguém esperava por isso. Resta, então, a pergunta: o que levou as duas maiores livrarias do Brasil a mergulhar em uma crise tão profunda?

O primeiro sinal de alerta: a estranha aquisição da Fnac

Por razões culturais e econômicas, vender livros no Brasil nunca foi uma atividade fácil. Apesar disso, livrarias e editoras não só sobreviveram como expandiram as suas operações ao longo das últimas décadas. Elas aparentavam conhecer tão bem as peculiaridades do mercado brasileiro que conseguiam se desvencilhar com maestria das dificuldades do setor.

Mas, em 2017, o tapete que encobria os estragos começou a ficar pequeno. As duas maiores livrarias brasileiras adotaram a estratégia de “continuar sorrindo e acenando”, mas as editoras, principalmente as pequenas, sentiram as consequências.

Reclamações sobre atrasos nos pagamentos às editoras começaram a ganhar força em 2016, mas tinham relação com livrarias de pequeno ou médio porte que, provavelmente, estavam sendo afetadas pela crise econômica do país.

Em 2017, ficou claro que as livrarias maiores também estavam enfrentando dificuldades. A Livraria Cultura, por exemplo, já estava há meses atrasando pagamentos aos fornecedores. No entanto, uma estranha manobra camuflou a situação: a Livraria Cultura adquiriu as 12 unidades brasileiras da Fnac, que meses antes já falava em sair do Brasil.

Na verdade, não foi bem uma aquisição. A família Hertz, dona da Livraria Cultura, topou assumir as operações da Fnac no Brasil em troca de € 36 milhões (na ocasião, algo em torno de R$ 130 milhões). Para a Fnac, repassar esse dinheiro pareceu ser um bom negócio, pois o simples encerramento de suas operações no país poderia custar muito mais.

Para a Livraria Cultura, o dinheiro poderia aliviar as contas. Só que uma mudança de mãos não faz os problemas sumirem magicamente. Além do caos dentro de casa, a Livraria Cultura agora tinha que desarmar a bomba deixada pelos franceses da Fnac.

Até hoje não está claro se a Livraria Cultura tinha mesmo intenção de reavivar as operações da Fnac ou se planejava fechar as lojas da rede gradativamente. O fato é que nenhuma das 12 unidades sobreviveu. A loja online também fechou. Olhando em retrocesso, a gente percebe que essa incomum negociação foi o preâmbulo de uma crise devastadora.

Livraria Laselva: a primeira gigante a cair

Em um passado não muito distante, o meu ritual consistia em fazer check-in e, logo em seguida, comprar revistas na Laselva para ler durante o voo. Apesar de ter tido lojas em shoppings e rodoviárias, a rede ficou conhecida por instalar unidades nos principais aeroportos do Brasil.

A Laselva chegou a ter mais de 80 lojas espalhadas pelo país. Sabe quantas restaram? Isso mesmo, nenhuma. Atolada em dívidas que somavam mais de R$ 120 milhões, a empresa entrou em recuperação judicial em 2013. Em março de 2018, a 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de São Paulo decretou a falência da rede.

Foi um susto para o mercado editorial, mas não a ponto de causar pânico generalizado. Enquanto a Laselva seguia o seu plano de recuperação — ou, pelo menos, deveria seguir —, Cultura e Saraiva expandiam as suas operações auxiliadas com empréstimos de bancos, incluindo o BNDES.

O problema é que essa expansão foi pautada principalmente pela expectativa de crescimento, não pelo aumento da demanda. Em outras palavras, as duas empresas montaram mais lojas esperando que elas iam naturalmente atrair mais clientes, e não necessariamente porque a procura por livros e outros produtos relacionados estava aumentando.

Como uma bola de neve, as dívidas começaram a se acumular. Mas não foram os bancos que sentiram o impacto. As editoras é que estavam na linha de frente. Como Saraiva e Cultura respondem por cerca de 35% das vendas do setor — esse número pode passar de 50% com relação às pequenas editoras —, muitas delas podem fechar as portas se uma solução não surgir em tempo hábil.

Isso porque o mercado editorial segue uma dinâmica própria. Em vez de comprar livros para revendê-los, geralmente, as livrarias recebem lotes das editoras para remunerá-las conforme as vendas vão sendo realizadas. Trata-se de um sistema conhecido como consignação.

Com a crise das livrarias, as editoras não têm recebido pelos livros que forneceram e que, em muitos casos, foram comercializados há tempos pelas livrarias. É um efeito dominó que atinge editoras de todos os portes.

Muitas diminuíram a produção ou o ritmo de lançamentos por falta de capital de giro ou por conta das incertezas que assombram o setor. Outras estão se negando a fornecer livros para Cultura e Saraiva ou apenas estão topando fechar negócio fora do sistema de consignação.

Por que livrarias grandes entraram em crise?

A decadência da Laselva aconteceu em um contexto diferente do atual. A companhia atribuiu o problema aos resquícios da crise internacional de 2008 e a mudanças no sistema de licitação da Infraero, por exemplo.

Já Livraria Cultura e Saraiva apontam para fatores como os preços praticados pela Amazon, a recente crise econômica do Brasil, a defasagem dos preços dos livros no país e a falta do hábito de leitura pelo brasileiro.

Esses argumentos podem fazer sentido, mas só até certo ponto. Nos três casos, a principal causa da crise parece ser uma só: falha de gestão. O caso da Livraria Cultura talvez seja o mais emblemático: se a Fnac estava pagando para que outra empresa assumisse as operações brasileiras, não estava visível que alguma coisa não ia bem ali?

Apontar o dedo para a Amazon é contraproducente. A gigante norte-americana tem crescido no Brasil por, entre outras estratégias, comprar lotes de livros em vez de consigná-los, o que eventualmente a permite negociar valores e, assim, baixar preços.

Mas, antes mesmo de a Amazon chegar ao Brasil, Saraiva e Cultura já praticavam descontos agressivos. Em muitos casos — muitos, mesmo —, os preços das lojas online eram mais convidativos do que os das lojas físicas. Certamente, esse é um dos fatores que afastaram os clientes das livrarias de tijolo e cimento.

Também não adianta colocar a culpa nos ebooks. A linha Kindle faz cada vez mais sucesso, mas os leitores brasileiros que estão preferindo livros digitais aos físicos representam uma minoria dos consumidores.

As livrarias também reclamam dos preços dos livros que, nos últimos anos, não acompanharam a inflação. O contrassenso desse argumento é que, apesar disso, os livros continuam sendo caros para a maioria dos consumidores.

Há alguma movimentação no sentido de negociar com o governo a desoneração do setor ou promover uma política de controle de preços, mas esses não parecem ser os melhores caminhos, pelo menos não isoladamente.

Já o argumento da falta de hábito de leitura retrata um cenário real, mas que tem pouco impacto sobre a atual crise das grandes livrarias, pois o problema existe há tempos e aparece como consequência da falta de políticas públicas voltadas à educação e cultura. Esse, sim, é um problema que o governo deveria priorizar.

Certa vez, no metrô, uma senhora me elogiou por eu estar lendo a Bíblia. Na verdade, o que eu lia era uma versão pocket de um dos livros de As Crônicas de Gelo e Fogo. Não sou de responder com prepotência ou sarcasmo, então apenas agradeci. Mas essa situação me perturbou porque, naquele instante, eu me dei conta de que, provavelmente, a Bíblia é o único livro que um sem-número de brasileiros tem acesso.

Mudar essa realidade requer tempo e boa vontade política. Não dá para esperar que uma solução surja no curto prazo, muito menos que ela seja orientada pelos interesses das livrarias.

Há luz no fim do túnel para as livrarias?

Recuperação judicial é coisa séria. Quando uma empresa chega a esse ponto, não há solução óbvia ou fácil para o problema. Mas, definitivamente, demonizar novas tecnologias ou insistir em modelos de negócios que funcionavam anos atrás não resolve.

Exemplos de que uma gestão mais realista dá resultados estão bem abaixo dos nossos narizes. Enquanto Cultura e Saraiva agonizam, a livraria mineira Leitura cresce apostando em lojas mais enxutas e localizadas em regiões que não recebiam muita atenção das grandes redes, a exemplo das cidades de Mogi das Cruzes (SP) e Sete Lagoas (MG).

Hoje, a Leitura tem cerca de 70 lojas e poderá ter mais se a Saraiva aceitar a proposta de vender cinco de suas unidades fechadas a ela. Cortar o mal pela raiz também é uma estratégia mandatória ali: se uma loja da Leitura dá prejuízo por mais de dois anos, ela é fechada sem dó. Foi o que aconteceu com a unidade que a companhia mantinha em um ponto mainstream: a Avenida Paulista.

Outra rede que vem se sobressaindo é a Livrarias Curitiba, que completou 55 anos neste mês. A companhia também tem crescido seguindo a fórmula de olhar para locais que eram pouco visados pelas concorrentes maiores. Na capital paulista, por exemplo, a Curitiba tem lojas fora das áreas mais nobres: no Shopping Aricanduva (Zona Leste) e no Shopping Tucuruvi (Zona Norte).

É difícil saber se Livraria Cultura e Saraiva irão conseguir dissipar as nuvens carregadas que pairam sobre elas, mas os exemplos das livrarias menores mostram que, a despeito de todas as dificuldades, o mercado editorial brasileiro não está morto.

Reorganizar a casa, cortar excentricidades e negociar como as editoras com mais empatia — e não como se elas fossem um mal necessário, como tem acontecido — é um bom começo. Ou recomeço.

Rede mineira Leitura faz propostas por cinco lojas fechadas pela Saraiva

0

Publicado na IstoÉ

A corrida pela reacomodação do mercado de livrarias, após a líder de mercado fechar 20 de suas lojas, já começou: a livraria Leitura, hoje a segunda maior rede do País, fez propostas para tentar assumir cinco dos pontos de venda que a rival Saraiva fechou nas últimas semanas. Algumas dessas unidades ficam na capital paulista, onde a mineira, forte fora do eixo Rio-São Paulo, tem presença discreta. De acordo com o presidente da Leitura, Marcus Teles, é possível que duas ou três das ofertas realizadas resultem na mudança da bandeira Saraiva para a Leitura.

Nas últimas semanas, o Estado conversou com diversas editoras de livros sobre a situação do setor, e executivos apontaram a Leitura como a principal candidata a compensar parte do baque que o mercado de livros sentirá com as dificuldades enfrentadas pela Saraiva. Com dívida de R$ 485 milhões, a líder do setor está com pagamentos atrasados com as editoras e tenta um novo acordo para evitar a recuperação judicial, caminho já traçado por outro peso pesado do mercado, a paulistana Cultura.

Assim como as editoras, o presidente da Leitura afirma que a crise enfrentada por grandes livrarias está menos ligada ao produto em si e mais a questões específicas da administração das empresas. Segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), as vendas de livros acumulam expansão de 3,65% em volume e de 5,37% em valor de janeiro a outubro de 2018, na comparação com o mesmo período de 2017. Entre os caminhos seguidos pelas rivais que Teles afirma querer evitar estão a forte aposta nas vendas pela internet – setor no qual, segundo ele, as margens costumam ser negativas – e a abertura nas “megastores”.

Sem bater de frente com as concorrentes ao escolher abrir mercados em capitais pouco servidas por livrarias – como Teresina, João Pessoa e Porto Velho – e em cidades do interior, como Mogi das Cruzes (SP), a rede mineira cresce se desviando de dívidas e com olhos atentos à rentabilidade. “Se uma loja dá prejuízo por mais de dois anos, nós a fechamos”, explica Teles. Uma das “vítimas” desse pragmatismo foi a unidade que a Leitura chegou a abrir na Avenida Paulista.

A “tradição” de encerrar pontos deficitários deverá ser mantida em 2019, quando a Leitura pretende abrir sete lojas – incluindo as conversões da Saraiva -, mas deverá encerrar duas. Desta forma, a Leitura deverá fechar 2019 com 75 unidades, número próximo às 84 que a Saraiva tem hoje. Depois de alguns anos de retração, o empresário diz que a rede voltou a crescer em 2018 – cerca de 8% no acumulado do ano – e prevê uma alta maior, de aproximadamente 10%, no ano que vem. A empresa não revela faturamento, mas o Estado apurou que a receita está próxima da marca de R$ 480 milhões.

Liderança

Com duas das principais rivais em crise, a Leitura pretende manter o ritmo de crescimento para, dentro de três ou quatro anos, ser a livraria líder em varejo físico no País. Para ganhar espaço, a empresa está buscando oportunidades em espaços ignorados pelas grandes redes. Em São Paulo, está assumindo pontos de venda nos terminais rodoviários Tietê e Barra Funda, por exemplo. A ideia é manter os gastos com aluguel sob controle, com lojas que variem entre 300 e 500 metros quadrados.

Embora persiga a liderança no varejo físico de livros, Teles diz que não está interessado em fazer o mesmo movimento no e-commerce. Ausente das vendas pela web desde 2014 – após encerrar uma operação que perdurou por 16 anos -, ele prepara o retorno da Leitura ao meio virtual para 2019, mas sem grandes ambições. O presidente da Leitura pretende aproveitar os ativos que já tem, usando as lojas físicas como eixos de distribuição. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Crise no mercado editorial leva Saraiva a fechar 20 lojas

0

Entre as lojas fechadas estão as dos shoppings Anália Franco, West Plaza e Plaza Sul, em São Paulo (Saraiva/Divulgação)

Empresa afirma que lojas fechadas representam 38% dos negócios da companhia, que vai focar em vendas pela internet

Publicado na Veja

Depois de a Livraria Cultura entrar com pedido de recuperação judicial, agora foi a vez de a rede Saraiva tomar uma medida drástica. Nesta segunda-feira (29), ela anunciou o fechamento de 20 lojas espalhadas pelo Brasil. A empresa não confirma a relação das livrarias fechadas, mas segundo fontes do mercado, estão entre elas os pontos de Londrina, Santos (Avenida Ana Costa), Campinas (Galeria Shopping), Alphaville, Tamboré, Granja Viana, Mogi das Cruzes e dos shoppings Anália Franco, West Plaza e Plaza Sul.

Em comunicado, a Saraiva disse que vem tomado “medidas voltadas à evolução da operação e perenidade do negócio”. Isso inclui, além do fechamento das lojas, o fortalecimento do seu e-commerce, que hoje representa, segundo a empresa, 38,4% do negócio. A rede tem, no momento, 84 livrarias.

“Em linha com sua estratégia, as iniciativas refletem um esforço da companhia em obter rentabilidade e ganho de eficiência operacional, dentro de uma estrutura mais enxuta e dinâmica. Nesse sentido, as medidas adotadas pela companhia incluem o fechamento de algumas lojas. Com este movimento, a empresa dá continuidade ao seu plano de transformação, que inclui aberturas, reformas e fechamentos de unidades, a fim de manter sua operação saudável e cada vez mais multicanal”, informa a Saraiva em nota.

A Saraiva diz que focará sua atuação no segmento de livros — outras categorias de produtos devem ser vendidos por lojistas do marketplace. “A empresa focará seu negócio no mercado de livros, que representa a essência da companhia e é hoje a categoria mais vendida pela rede. Complementar ao universo de leitura continua a ofertar produtos de papelaria, games, filmes e música. Com isso, os itens de tecnologia, que incluem telefonia e informática, passarão a ser vendidos no modelo de negócio de marketplace próprio, que atualmente já opera integrado ao nosso e-commerce.”

A empresa diz que o marketplace faz “parte da transformação digital da companhia”. “Que vem agregar uma experiência ainda mais qualificada e inclui categorias de produtos complementares e em sinergia ao negócio, como smartphones, computadores, brinquedos, artigos de decoração, entre outros.”

A Saraiva e a Cultura são protagonistas (e também responsáveis) por uma das piores crises do mercado editorial brasileiro. Nos últimos meses, não estão conseguindo liquidar o pagamento para seus fornecedores — agravando ainda mais a situação das editoras.

Ao mesmo tempo, livrarias como a Martins Fontes e as redes Leitura, Livrarias Curitiba, Travessa e Vila, mais conservadoras em sua gestão, estão conseguindo passar um pouco mais tranquilamente pela atual crise.

(Com Estadão Conteúdo)

Seria irresponsabilidade manter a Fnac, diz presidente da Livraria Cultura

0

 

SÉRGIO HERZ: Presidente da Livraria Cultura aposta em maior inserção no universo digital para conseguir retomar o rumo da empresa / Divulgação (Gabriel Rinaldi/Divulgação)

Sérgio Herz, que comprou operação da Fnac em 2017, diz que marca ficou inviável inclusive na internet e vai aproveitar base de clientes.

Mariana Desidério, na Exame

São Paulo – A Livraria Cultura fechou na semana passada a última loja da rede de livrarias Fnac no Brasil, e encerrou as vendas no site da marca francesa. Segundo o presidente da Cultura, Sérgio Herz, a manutenção das lojas tornou-se inviável.

A operação da Fnac foi comprada pela Cultura em julho do ano passado. A companhia brasileira recebeu 130 milhões de reais para assumir a rede francesa no Brasil, que acumulava prejuízos e estava comprometendo os resultados globais da Fnac Darty, companhia de capital aberto e dona da marca.

A Fnac Darty chegou a dizer em relatório que a Cultura tinha “um ambicioso plano para a Fnac” e iria “construir um nome forte, por meio de um combinação de dois grupos criando valor e sinergias”.

No entanto, com a crise do mercado, a manutenção das lojas seria uma “irresponsabilidade”, disse o presidente da Livraria Cultura.

“Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos”, afirmou Herz por e-mail.

O empresário detalhou que, pelo acordo firmado na venda, a Cultura precisaria pagar royalties à rede francesa pelo uso da marca Fnac, mesmo com lojas deficitárias, o que também pesou na decisão de encerrar as operações.

“Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura”, disse.

A Fnac chegou ao Brasil nos anos 1990, e tinha 12 lojas em operação, todas com amplos espaços em pontos comerciais valorizados (e caros) – opção semelhante à da própria Livraria Cultura. A operação tinha necessidade de grande volume de capital de giro, já que, além dos livros, apostava na venda de eletrônicos.

A Fnac Darty reportou faturamento de 7,4 bilhões de euros em 2017, e lucro líquido ajustado de 54 milhões de euros. O Brasil representava menos de 2% do volume de vendas total da companhia.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Sérgio Herz, presidente da Livraria Cultura:

A Livraria Cultura fechou a última loja da Fnac no Brasil e também encerrou as operações do site. Quais os planos para a marca Fnac no Brasil? Há intenção de abrir novas lojas em outros locais no futuro?

Em 2017 compramos as posições da rede francesa no Brasil, algo que já vinha sendo discutido há muito tempo. Naquele momento, conseguimos fechar um negócio interessante: tivemos a possibilidade de ampliar bastante a nossa base de clientes e a nossa oferta de produtos. Com a deterioração do cenário econômico brasileiro e o encolhimento dramático do mercado editorial como um todo, encolhimento da ordem de 40%, ficou claro para mim que não seria mais possível manter lojas físicas com fraco desempenho, muito menos lojas que trouxessem prejuízos. Seria uma irresponsabilidade minha tentar manter isso no meio de uma recessão como a que vivemos.

Além disso tudo, a marca não nos pertence, ou seja, pelo acordo firmado na venda, em breve teríamos que começar a pagar royalties por uma rede de baixo desempenho. Julgamos que a melhor saída seria otimizar a base expandida de clientes com a vinda da Fnac e incluir, num futuro próximo, novas categorias de produtos nas lojas da Livraria Cultura. Tomadas essas decisões, encerramos não só as lojas físicas, mas o site da Fnac.

O que o fim das lojas Fnac expõe sobre o mercado de livrarias no Brasil e como a Livraria Cultura tem lidado com esse cenário?

Estamos, todos nós, profissionais do setor, atravessando um momento difícil. Além dessa crise econômica profunda, cercada de incertezas e sem diretrizes claras, temos também a mudança de comportamento bem visível da parte do cliente, que está comprando cada vez mais pela internet. Há também as mudanças no varejo como um todo. Cada vez mais as pessoas estão indo para ambientes de compra digitais, essa é a verdade.

O preço do livro no Brasil está defasado há muitos anos. De 2014 até o fim de 2017, a inflação acumulada foi de aproximadamente 32%, enquanto o preço do livro subiu somente 7%. Como se vê, houve um aumento claro de custos e uma forte queda nas receitas. Enfim, a soma de todos esses fatores traz muita insegurança não apenas para as livrarias, mas para toda a cadeia de produção do livro. Estamos todos implicados e precisamos encontrar soluções sensatas, negociadas.

Quais os planos da companhia para as lojas físicas da Livraria Cultura?

Quero trabalhar com poucas, mas ótima lojas. Estamos, atualmente, com 15 pontos físicos na Livraria Cultura. Me parece um bom tamanho para o momento. Iremos transformar a antiga Fnac Goiânia numa nova Livraria Cultura, no primeiro semestre de 2019. Assim estamos nos preparando para ser uma rede mais enxuta, mais dinâmica, mais atraente para os clientes.

A Cultura inovou ao criar teatros em suas livrarias, estimulando eventos e temporadas de qualidade. Levamos gastronomia para nossas lojas. Em 2015, abrimos o estrelado restaurante Manioca na nossa loja do Shopping Iguatemi, na capital paulista. Recentemente, inauguramos um laboratório de criatividade e inovação, numa parceria com a Faber Castell, dentro da nossa loja do Shopping Market Place, também São Paulo. Iremos inaugurar em novembro mais um restaurante na loja do shopping Bourbon de São Paulo, no bairro da Pompéia. Acreditamos nessa forma de atrair o cliente para o mundo físico, oferecendo a ele algo que é muito mais do que apenas passar pelo caixa e colocar um produto na sacola.

Nossos consumidores vão continuar a ter ótimos motivos para frequentar nossas lojas físicas: um acervo maravilhoso, um serviço ao cliente melhor ainda, uma programação cultural de alto nível, um ponto para um bom café ou um drink, uma mesa para uma refeição leve e transada, espaços divertidos para crianças, até porque leitores são formados desde pequeninos… enfim, estes são os nossos planos.

Quais os planos da Cultura para reforçar sua operação online?

Esperamos crescer em média 20% nos próximos anos. Estamos concentrando esforços para construir um site muito mais moderno, atraente, dinâmico, integrando operações com a Estante Virtual, que é o maior marketplace de livros usados da América Latina. A Estante Virtual, empresa hoje no nosso grupo, é o exemplo de que acreditamos muito no reuso de produtos e na economia compartilhada. Criamos um laboratório de inovação digital, o Eva Labs, sediado no Rio, dentro da Estante Virtual, cuja missão é exatamente a de construir novas soluções para os desafios do varejo na era do e-commerce. Nossos engenheiros estão trabalhando a todo vapor.

A Livraria Cultura tem atrasado pagamentos a editoras. Quais os planos da companhia para regularizar a situação?

Infelizmente, é verdade. Por sete décadas, a Livraria Cultura teve um histórico de honrar seus compromissos. Mas, ao navegar essa crise horrível, tivemos que atrasar pagamentos, sim. Tem sido uma situação muito dolorosa para a empresa, mas temos planos consistentes para voltar à situação normal.

Ex-funcionários da Fnac fizeram um protesto e reclamam que não receberam multa rescisória. O que a empresa diz sobre isso?

Entendo e respeito o protesto, mas, como já disse, estamos no caminho da normalização de todos os nossos compromissos com fornecedores e, claro, ex-funcionários. Serão indenizados.

A Saraiva, também em crise, iniciou um processo de reestruturação operacional. A Cultura pensa em fazer o mesmo?

Já fizemos nossa reestruturação com a ajuda da consultoria Heartman House. Agora estamos trabalhando na estrutura de capital para normalizar nossas operações.

Qual foi o faturamento da Cultura em 2017 e previsão para 2018? Qual o tamanho da dívida da companhia? E números de lucro/prejuízo?

Não informamos esses números.

A Cultura recentemente comprou a Estante Virtual. Há intenção de fazer novas aquisições?

A compra da Estante foi estratégica, pois estávamos querendo muito entrar no mercado do livro usado. É uma empresa enxuta, opera como uma plataforma, portanto, com custo operacional muito baixo, e é rentável. No momento, não temos intenção de novas aquisições. A hora é de arrumar a casa para os nossos clientes.

Go to Top