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Textos

Leituras radicais

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Texto escrito por Vanessa Bárbara no Blog da Companhia

Durante muito tempo, minha única frustração na vida foi não poder levar os livros comigo para o chuveiro, grudando-os com ventosas à parede do box e tentando virar a página com os dentes. Naquela época, não existiam livros infantis emborrachados e nem audiobooks (até hoje, a Bíblia narrada pelo Cid Moreira me desperta uma curiosidade sem fim).

Fato é que interromper um romance nunca é agradável, e por isso há quem tenha o desastroso hábito de ler pendurado nas alças dos ônibus, ou mesmo enquanto anda — antes isso do que perder o ponto de descer, dizem. Eu mesma já fui vista plantada em plena calçada, nas últimas páginas de O Senhor dos Anéis, dando um passo e parando, outro passo e parando, e só não me sentei no meio-fio porque podiam me prender por perturbação da ordem pública. Há os que leem atravessando a rua e, quando a calçada está excessivamente cheia, fazem uma parada estratégica no canto de um prédio para terminar um capítulo.

Já li em cima do telhado, principalmente volumes de suspense e terror, sob a ameaça constante de quebrar uma telha e cair. Outra vez, instalei-me no beiral externo da praça Buenos Aires, ou seja, na rua, em busca dos últimos raios de sol daquela tarde, e li Elizabeth Costello. Ganhei uma moeda.

Os locais mais visados para a prática da leitura são a cama (abajur opcional), a poltrona, o banheiro, a mesa da cozinha, a praia e a sala de espera dos médicos. Alguns leem durante refeições solitárias, no cabeleireiro, no aeroporto, nos trens e nos parques. Há quem devore um volume inteiro enquanto espera um amigo atrasado, mesmo que de pé e procurando um facho de claridade em meio à penumbra.

Cresci numa família de gente que gosta de comer lendo (ou de ler comendo, uma das principais causas de obesidade em intelectuais), o que, se não preza pela sociabilidade em termos de interação familiar, ao menos pode render assuntos dos mais variados, sobretudo quando alguém acha algo engraçado e decide ler em voz alta. Meu sobrinho, do alto de seus 20 meses de idade, já demonstra um nítido comichão literário no decurso das refeições, quando costuma pedir para analisar os folhetos promocionais de supermercado e os cardápios de pizzarias.

Semana passada, o estudante paraense Diego Uchôa postou no Facebook esta foto de um gari lendo um livro dependurado no caminhão de lixo. Mais de 7 mil pessoas compartilharam a imagem, e, embora a maioria se limitasse a enaltecer a força de vontade essencial para vencer na vida, não é bem isso o que me vem à mente. Afinal, qual será o título da obra? Também me pego a pensar nesse braço esquerdo astutamente preso ao suporte do caminhão (ele deve ter prática no desporto radical) e na disponibilidade quase absoluta das duas mãos para o manejo do livro — como qualquer bom leitor também irá reparar, admirado.

É gente que aproveita qualquer brecha no cronograma para ler mais um trecho de um romance policial, nem que, para isso, tenha que o fazer dirigindo, com o livro sobre o volante. Ou enquanto pratica a equitação.

Pesquisando por aí, encontrei relatos de gente que lê enquanto passeia de bicicleta ou toca órgão na igreja — esta última, aliás, é uma ocorrência comum, já que os músicos são obrigados a escutar várias vezes o mesmo sermão nas missas e correm o risco de cochilar bem em cima do instrumento. Devo confessar que já levei um livro de bolso para ler num show de rock, enquanto a banda de abertura tocava, e se não me engano era um Dostoiévski (mas também podia ser um gibi do Cebolinha).

Nesses termos, ninguém supera a minha mãe, que leu um romance inteiro nas arquibancadas de um estádio de futebol. Foi num Juventus vs. Joinville, na rua Javari, pela Taça São Paulo de Futebol Junior de 1986. Os gols foram de Camus (contra), Duras e Dumas (de barriga).

Este livro veste que é uma beleza

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Publicado originalmente na SEGS

A mesma pergunta se repete ano após ano. Se dá livros de presente em ocasiões como o Natal? E a resposta também que se repete: Sim, e muito. Cabe nessas linhas analisar com grande isenção, até com alguma frieza, este saudável hábito de se presentear com livros.

Um livro aproxima as pessoas. Quando alguém arrisca pensar no alinhamento entre o conteúdo da obra e o do presenteado, é um passo de comunhão. A gente nota na hora da abertura do pacote, nas feições expressadas pelo futuro leitor.

Alguns livros raramente são dados de presente. Difícil lembrar de embrulhar o “Minha Luta”, de Hitler, por exemplo. A crônica, o humor e os romances são os campeões de bilheteria.

Muitos outros pontos são favoráveis para se lembrar do presente-livro. Eles não apertam o joanete, vestem que é uma beleza, até para quem ganhou uns quilinhos e só usa preto ultimamente. Uma cor cítrica na capa não assusta, como aquela camisa de cor berrante que você deu no último amigo-secreto, lembra?

É delicado presentear com perfume: as influências de clima e temperamento dificultam a escolha. Se o lugar é quente, mais vai um adocicado; se é frio, amadeirado, ou vice-versa.

Também tem aquele primo que só é visto nas festas de fim de ano, o chamado primo-longe. Para os não tão chegados, sempre é recomendável um Verissimo. Suas crônicas ou romances não têm contra indicação, é tiro e queda. Ao seu lado desponta a também gaúcha Martha Medeiros, lida em massa por mulheres de todo o país.

E também tem os livros da moda, os livros-febre. Biografias de personalidades, como a do Steve Jobs. Os vampiros adolescentes e os livros nascidos de série de TV.

Vale lembrar quando damos ou ganhamos um livro comprado em alguma viagem, dentro ou fora do Brasil. Uma vez comprei uns cartuns do Quino, em Buenos Aires. Quando pego esse livro em mãos naturalmente me voltam aqueles dias especiais que tive na companhia da família.

Os autografados também são especiais. Imagina ganhar um livro assinado pelo próprio autor. Valem também livros usados, adquiridos em sebos, com anotações nos rodapés.

E a generosidade de quando emprestamos um livro? Não vejo outro artigo que seja tão emprestado e se multiplique tanto como um livro, que renda tanto em tantas mãos diferentes.

Por fim, para os inseguros e indecisos, foi criado o vale-livro. Quando você tira o chefe num amigo-secreto, ou o amigo em questão é tão secreto que você sequer o conhece, o vale funciona como uma luva. Ainda mais se você não se deparar com um livreiro tão cheio de sugestões como esse que vos fala.

Ler ainda é o melhor remédio

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Publicado originalmente no F5

Não é de agora que o “Programa do Jô” (Rede Globo) tem entrevistado escritores que lá se apresentam para lançar os seus mais recentes livros. E são trabalhos bastante diversos, que por vezes têm até uma forte relação entre si.

Outra noite, foram convidados do programa os psicanalistas Paulo Sergio Rosa Guedes e Júlio César Walz. Eles estavam lançando “O Sentimento de Culpa” (Editora do Autor). O tema por si só já é interessante. Quem nunca se sentiu culpado?!

Que o ‘sentimento de culpa’ não serve para nada e que destrói muitas vidas se não for trabalhado ou resolvido de alguma forma satisfatória, todos sabemos. Mas que ele é “sem dúvida, um sentimento delirante de grandeza”, como afirmaram convictos os doutores, para mim foi surpresa.

“Nosso grande problema é justamente o não saber como se criam as coisas, as dificuldades, os prazeres, enfim as vicissitudes de nossa vida”, afirma Walz. “Mas precisamos saber que elas fazem parte de nós, são essenciais em nossa vida.Como é muito difícil aceitar e conviver com esse fato, tentamos substituí-los por culpados, responsáveis”. Concluindo, o psicanalista enfatiza: “daí a vida sem sentido, daí o sentimento de estar apenas passando o tempo ao invés de aproveitá-lo, aí o denominado “sentimento de culpa”. Mas bah! Isso é assunto pra mais de metro, diria um primo gaudério.

Inteligentes, bem falantes e, aparentemente, muito bem intencionados, os autores de “O Sentimento de Culpa” deixaram um gostinho de ‘quero mais’ na sua curta entrevista no “Programa do Jô”. Já é sem dúvida uma das minhas próximas leituras. Se não ler este livro vou me sentir culpado!

Da culpa para a superação, outro livro lançado no Jô essa semana foi “O Poeta e o Passarinho” (Editora Biruta). Uma grande lição de vida do jornalista Ricardo Viveiros, que de uma tragédia pessoal –perdeu dois entes muito queridos em acidente de carro, conseguiu transformar sua dor em poesia e solidariedade. “O Poeta e o Passarinho” tem ilustrações do artista plástico Rubens Matuck e é a primeira obra de Viveiros dedicada ao público infanto-juvenil.

Embora tenha se mantido sereno ao relatar o drama pelo qual passou há quinze anos, Ricardo ao mesmo tempo parecia estar revivendo o enorme sofrimento. “Perdi um filho com 26 anos, lindo…”, foi como iniciou o seu depoimento. Comovente é pouco. Avassalador. Lembrei de minha mãe que me dizia sempre: “Perder um filho é a dor mais doída. Deus não vai fazer isso comigo!”. Não fez. Ela se foi primeiro que os filhos como planejara. Mas antes, bastava pegar uma gripe forte e ‘morria de medo de morrer’, para não dar esse desgosto para a minha mãe. Não suportaria a culpa!

“Sentimento delirante de grandeza”? Preciso ler “O Sentimento de Culpa” urgentemente.
Culpa, superação –autoestima! “Não Comi, Não Rezei, Mas Me Amei” (Matrix) foi o livro lançado também no “Programa do Jô” pela coordenadora dos “Vigilantes da Autoestima”, Gisela Rao.

Muito descontraída, divertida e sem papas na língua, Gisela foi uma das poucas convidadas do programa que conseguiu falar mais que o Jô! Contou histórias do arco da velha, cheias de humor e malícia. Ainda soltou pérolas, como: “engordar é a arte do inferno, e a celulite é feita pelo tridente do capeta!”. Falando em ‘engordar’, Zeca Camargo e Renata Ceribelli também lançaram nesta quarta-feira em São Paulo o livro “Medida Certa –Como Chegamos Lá” (Ed. Globo). A ideia é: se eles puderam, você também pode!

Segundo Gisela Rao, seu blog dos ‘vigilantes’ já tem mais de dois milhões de acessos e, para participar dos debates são vetados três itens básicos: autodepreciação, lista de desgraças e complexo de vítima! Culpa então, nem pensar!

Desilusão digital

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Texto escrito por Ivan Lessa publicado originalmente na BBC Brasil

Uma pequena voz interior, assim como a de um imitador do bom João Gilberto, bem que me dizia, “Cuidado, moreno, não vai nessa! Você está muito velho para isso!”.

Fiz ouvidos de um mercador persa de conto de Malba Tahan ou alegoria de Paulo Coelho.

Os meus seguidores neste pedaço de BBC Brasil que me é gentilmente cedido três vezes por semana saberão que estou me referindo aos garranchos que, neste espaço, arrisquei na última sexta-feira, dia 9, falando – pior, gabando-me – de mesmo na idade avançada em que me encontro ter deixado de lado preconceitos lúdicos e, finalmente, após anos de troças e deboches, ter aderido de corpo e alma às redes sociais, a saber, Facebook e Twitter.

Eu deveria, para emplacar um lugar-comum velhusco como eu, ter me recolhido à minha insignificância. Burro velho não aprende.

Ou, como dizem aqui meus vizinhos britânicos, you can´tteach an old dog new tricks (atenção para duas linhas de Aprenda Inglês com a BBC, ou seja, “você não consegue ensinar truques novos a cães velhos”.).
Não dá mesmo.

No início do mês, tentei beber da água pura e rejuvenescedora da informática, ou cibernética, sinonimizem como quiserem ou souberem (que eu nada sei), e lembrem os que tomaram conhecimento ou saibam os que o desconhecem, que eu preenchi a devida papelada inexistente, ou virtual para “parecer estar por dentro” e online (viram? não estou tão por fora assim) e ingressei para as hostes onde uma porção esmagadora da humanidade segue aos uivos de Lady Gaga e Justin Bieber ou blogueia com a desenvoltura daqueles cronistas brasileiros, que já os tivemos às pampas e de grande qualidade, e que hoje nada mais são do que matéria para uma pouca provável reedição em formato de livro eletrônico.

Somos todos uns Rubens Bragas, uns Fernandos Sabinos, uns Paulos Mendes Campos e muitos, mas muitos et ceteras mesmo.
Volto a mim mesmo de cabeça baixa e rabo imaginário entre as pernas. Sim, eu, como Dalva de Oliveira (“Olha o veio dando vexame! Olha o veio babão citando passadismos!”), errei, sim, só que manchando meu próprio nome.

Resumo, que ainda o sei fazer: dei com os burros n´água ao preencher os simples quesitos de ambas as popularíssimas redes sociais.

Misturei alhos com bugalhos, não houve tolice superada de nosso léxico em que eu não tenha fracassado como aquele velho cão de que falei linhas acima.

Até no sexo, nunca meu forte, errei. Botei “feminino” no Twitter, fazendo olhos e boquinhas e rebolando e acariciando meus peitos caídos.

No Facebook, perdi-me como o cego Aderaldo de nossa literatura de cordel (até quando minhas lembranças ultrapassadas?) e sapequei zona postal e endereço eletrônico errados.

Ambas as organizações sociais me avisaram, delicadamente, dando-me todas as deixas de forma civilizada e cristã de como aderir corretamente às suas sociais empreitadas.

Não houve jeito.

Com os pés inchados, que já os sinto escavocando o terreno a meu redor em busca da cova, desisti daquilo que eu deveria ter logo reconhecido como tarde, tarde demais.

Fico a batucar minhas mágoas no computador e, olhe lá!, já é para sentir-me em dia com os tempos.

De qualquer forma, agradeço ao Facebook e ao Twitter a elegância com que deixaram que eu mesmo, sem ajuda de ninguém, quebrasse minha cara oberta de rugas.

Durou pouco, não deu em nada, mas foi um prazer. Tive algumas horas, dias mesmo, de palpitante expectativa.
Fico por minhas paisagens pastando o que houver no caminho como o dinossauro digital que sou.

Telefonarei para os cinemas para saber o horário das sessões. Comprarei discos nas poucas lojas que sobraram e não na Amazon. Gravarei meus programas de TV prediletos em vídeocassetes. Enviarei telegramas ou cartas escritas à mão aos amigos que sobraram. Terei sempre uns trocados no bolso para a cabine telefônica da esquina. Darei um jeito no fax que adormece no fundo do armário. Consultarei as páginas amarelas. Pagarei minhas contas, sempre com cheque, no banco ou nos correios. Consultarei mais a enciclopédia que encima minha estante de livros poeirentos.

E, com a bravura tola que ainda me resta, combaterei em nome e honra de Gutenberg.

Anti-heróis

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Texto escrito por Camila Kehl no Livros Abertos

Sou o que dá para se chamar, como diz o poema de Drummond, de gauche. Gauche da geração Y, o que consegue ser ainda mais hilário — praticamente inimaginável. Sou ao mesmo tempo o anjo torto, aquele que vive nas sombras, e o ser errante e desajeitado que é praticamente empurrado em direção à vida. Há, em mim, o desejo de permanecer escondida, a necessidade inelutável de ir em frente e a inequívoca falta de jeito. Uma combinação risível, sem dúvida, e bem menos incapacitante do que parece. O fato é que, se na maior parte do tempo me sinto incomodamente deslocada e até profundamente apartada, vejo a literatura como uma espécie de sopro de ar puro, como uma brisa agradável e fresca em um final de tarde abafado de verão. A literatura sempre fez parte da minha vida. Já disse, em outras oportunidades, que não consigo contar minha própria história sem mencionar os livros e sua participação no meu desenvolvimento; assim, desde muito nova os associo a uma espécie de refúgio (e as qualidades deste refúgio vão depender inteiramente da obra que estiver em minhas mãos). O fato é: uma vez nele, eu me sinto em casa.

É curioso, e ao mesmo tempo é perfeitamente compreensível. É mais do que sabido que a arte não é a vida: é apenas uma maneira de enxergá-la. Não se trata, entretanto, de uma fuga — ao contrário. Arte também é coragem, enfrentamento, ao mesmo tempo uma tomada e uma perda de fôlego. Todos os movimentos artísticos, de alguma forma, se inspiram em algo palpável; o realismo define com evidente precisão o fato de que fazer e consumir arte é também encarar a vida de frente, como olhar para o sol. Assim, a literatura não é exatamente uma pálida imitação da existência, visto que também se apresenta com matizes de cores e é composta por picos de emoções e diversos questionamentos demasiado humanos, além de reconstituir nossos passos pelo mundo. A literatura funciona como uma miragem interessante e voyeurística da vida — e dos pensamentos — de outra pessoa.

A literatura, deliciosa e necessária, é um buraco de fechadura. O espaço através do qual enxergamos é minúsculo — por isso que só cabe um olho por vez, e aí se encontra a razão (se bem que apenas em parte), daqueles que dizem que é uma arte intimista. Mesmo que uma personagem diga pouco, seus gestos demonstram muito: ainda que a consciência não seja das mais ativas, a figura do narrador se impõe e faz a mágica acontecer. O inverso, óbvio, também é válido — quando, em primeira pessoa, alguém expõe suas angústias e conta sua história. Assim, de parágrafo em parágrafo, ainda que se insinue e volte a se esconder, parte de um indivíduo ou de uma situação é posta sob a luz. Admiremos. Temos, diante de nós, uma análise bela da existência, um ponto de vista diferente, um novo olhar sobre nós mesmos. Diante do leitor está uma essência perfeitamente possível.

Não é à toa que as personagens mais emblemáticas da literatura são anti-heróis. Demasiadamente humanos. Nada deixa isso tão claro quanto Dom Quixote, O cavaleiro da triste figura.

Quando se separa as obras pertencentes aos lados (nem sempre distinguíveis) da boa e da pretensa literatura (está última sendo, aí sim, um pálido reflexo de todas as possibilidades de alcance da arte narrativa), enxerga-se, nos gestos e diálogos e linhas de raciocínio e cenários, a diferença gritante entre o humano, e portanto falho, e aquele ranço detestável de perfectibilidade que, quando não vem acompanhado da insinuação de que é um estado inalcançável, e uma busca praticamente patológica, nada tem a acrescentar.

Já a vida, embora esteja recheada de todas as mazelas e sofrimentos e belezas e pecados descritos nos livros, não é assim tão irresistível, embora forneça a matéria-prima para o que tanto nos encanta nas páginas. E não só porque somos nós os protagonistas de nossa própria história, vivenciando na carne os medos, angústias, decepções e desilusões tão comuns. A vida é cruel — e nos barra — na medida em que olhar tão apaixonadamente para o outro tem sido uma tarefa cada vez mais penosa. Desconfiados, erguemos muros. E do alto de nossa fortaleza lançamos pedras em quem quer que tente escalá-la, protegendo não-sei-o-quê que nos é tão caro (talvez nossa reputação). Apressados, desesperados, fechamos os olhos e os ouvidos para o outro enquanto nos refugiamos em compromissos inadiáveis, que escondem ou não nos permitem chegar (porque nos falta coragem, disposição, consciência e, principalmente, uma folga para respirar) a quem realmente somos.

Nosso tempo é frenético. Já não cabemos nele. Nessa pressa, não há mais espaço para os anti-heróis que tentam e erram, e tornam a errar, e se tornam maravilhosamente errantes; não há mais lugar para o poeta que saboreia a vida ora com calma, ora com fúria; não há mais espaço para o experimentador; não há mais espaço para o questionador — a impressão que se tem é que a maior parte de nossos problemas se resolve com um punhado de pílulas. Dom Quixote, nesse sentido, não caberia no século XXI. Tampouco Jose Arcadio Buendía, que é mais jovem que aquele que o antecedeu no quesito “excentricidades”. E nem Harry Haller, nem Elizabeth Bennet, nem, é lógico, o alter-ego de Marcel Proust.

É por isso que digo que sou gauche, e não sem constrangimento. Não há mais lugar para os desajustados, os que vivem de fora dessa normalidade artificial, morna e rasa. Quem nasceu com as oportunidades que eu tive deve, necessariamente, tornar-se um vencedor — e não há dúvidas sobre o que é ser um vencedor: acumule dinheiro e poder, diz o senso comum, e você terá vencido na vida.

Gosto da literatura por isso: porque as personagens mais emblemáticas não estão travestidas de uma aura de sucesso e perfectibilidade indefectível. São falhas, desengonçadas, perdidas, hilárias, vivas. E é fácil chegar ao seu âmago, e também identificar-se com elas.

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