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Textos

Dos livros

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Texto de Raquel Gonçalves publicado originalmente no A Preto e Branco 

 

Acredito, com aquela força da razão e do coração, que a vida está nos livros. Toda a vida. Assim, folha a folha, palavra a palavra.

A minha, pelo menos, fez-se de livros. Das primeiras letras soletradas, à alegria de conseguir ler a fio, quase sem fôlego, quase suspensa da matéria dos dias.

Vou de mão dada com o meu irmão pela estrada grande, Aquela por onde passam muitos carros e é preciso cuidado. Olhar para a direita, depois para a esquerda, e atravessar a passo largo. 

Em frente à escola, de amplas janelas fechadas pelas ‘férias grandes’, uma carrinha exibe a orgulhosa inscrição de ‘Biblioteca Calouste Gulbenkian’. Estamos no início dos anos 80 e os livros são uma raridade. Demasiado caros para orçamentos que se esticam até ao fim do mês.

O cartão da biblioteca é o trunfo que se guarda entre outros tesouros. A lata do chocolate, o cromo difícil, o bilhete do primeiro filme no cinema.

Sem senha ou palavra-chave, o cartão dá acesso à magia dos livros. Daqueles que se levam para casa com prazo de leitura e antecipada derrota por não nos pertencerem por inteiro.

Não sei que mês era, mas lembro-me que o meu primeiro livro falava de unicórnios, animais encantados e mundos fantásticos. Parece que ainda consigo ver as imagens, sentir o cheiro das folhas, a capa grossa e brilhante, orgulhosa.

Não sei se foi magia do unicórnio, mas a partir daí não consegui parar de ler. Tenho dos livros o sentido de pertença sem reservas. A vida por inteiro.

Um homem, uma mulher, um livro

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Martha Mendonça, no Blog 7×7

A história é real, um amigo me contou ontem.

Ele é casado há três anos. Vive bem com a mulher, cada um tem seu trabalho, ainda não têm filhos. Não costumam brigar muito, no máximo aquelas discussões normais – e até saudáveis – de quem vive sob o mesmo teto. Vamos chamá-lo de Paulo e ela, de Marina.

Há cerca de um mês, Marina chegou em casa com um livro de auto-ajuda feminino debaixo do braço: um best-seller americano que pretende ensinar às mulheres como agir. Fora emprestado pela irmã, solteira.

De umas semanas pra cá, Marina mudou com Paulo. Adotou um tom por vezes imperativo, noutros acusatório. Reclamou de seu comportamento, de sua dedicação extrema ao trabalho, da falta de atenção que lhe dava. Era ele falar A e ela retrucava: pois eu quero B! Nas discussões, adotou um vocabulário estranho. Expressões que ele nunca tinha ouvido dela antes. Teses sobre homens e mulheres. Até que ela citou um ensinamento do livro. Algo que falava sobre “mulheres-capacho”, “mulheres boazinhas”, “cônjuge dominante”, etc. Então caiu a ficha para Paulo: Marina seguia os passos do livro.

O casamento virou um inferno. A harmonia que existia acabou. Marina levava tudo a ferro e a fogo, não admitia decisões que não fossem as suas. A gota d’água foi na semana passada, quando ela pediu que Paulo a buscasse no trabalho e ele alegou que não podia, pois estava acompanhando a avó que precisava fazer compras num shopping. Marina desligou o telefone, se fechou e dias depois, no aniversário de Paulo, não lhe deu qualquer presente. Foi fria e distante.

Discutiram feio e Paulo disse que não aguentava mais: pegou o livro e rasgou em picadinhos. No meio de sua raiva, imaginou que Marina partiria para cima dele, agressiva, diante da destruição de sua “bíblia”. Mas aconteceu justamente o contrário: ela sentou-se na cama e começou a chorar. Depois o abraçou e confessou: estava aliviada.

Paulo me garante que o livro, ali na cabeceira do quarto deles, exercia uma espécie de feitiço sobre a mulher. E que ele a libertou.

Eu não sei qual a moral da história, mas ri muito quando ele me contou. Acho que homens e mulheres estão passando por uma fase de construção de novos tipos de relacionamento, num momento em que nós não somos mais tão ferrenhamente feministas e nem eles machistas. No meio dessas mudanças de papeis, o mercado tem tantos livros, guias e fórmulas mágicas que podem deixar muita gente perdida, confusa.

O importante é cada um criar sua própria receita de ser feliz.

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