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Hábitos digitais estão ‘atrofiando’ nossa habilidade de leitura e compreensão?

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Será que uma geração que se acostumou a ler tudo online vai perder o poder de fazer uma leitura profunda e crítica de um texto complexo? (Foto: Getty Images via BBC News Brasil)

Será que uma geração que se acostumou a ler tudo online vai perder o poder de fazer uma leitura profunda e crítica de um texto complexo?

Publicado na Época Negócios

A neurocientista cognitiva americana Maryanne Wolf costuma ser abordada, em suas palestras e aulas, por pessoas que se queixam de não conseguir mais se concentrar em textos longos ou “mergulhar” na leitura tão profundamente quanto conseguiam antes.

“As pessoas estão percebendo que algo está mudando em si mesmas, que é seu poder de leitura. E há um motivo para isso”, diz Wolf.

A razão, segundo a pesquisadora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), é que o excesso de tempo em telas – celulares e tablets, desde a infância até a vida adulta – e os hábitos digitais associados a isso estão mudando radicalmente a forma como muitos de nós processamos a informação que lemos.

Segundo um livro de Wolf prestes a ser lançado no Brasil (O Cérebro no Mundo Digital – Os desafios da leitura na nossa era; ed. Contexto) e algumas pesquisas sobre o tema, o fato de lermos cada vez mais em telas, em vez de papel, e a prática cada vez mais comum de apenas “passar os olhos” superficialmente em múltiplos textos e postagens online podem estar dilapidando nossa capacidade de entender argumentos complexos, de fazer uma análise crítica do que lemos e até mesmo de criar empatia por pontos de vista diferentes do nosso.

Tudo isso tem o poder de impactar desde a nossa performance individual no mercado de trabalho até nossa tomada de decisões políticas e a vida em sociedade.

Mas o que acontece com a leitura no nosso cérebro, e o que podemos fazer a respeito?

O circuito da leitura
Wolf, que é diretora do Centro de Dislexia, Aprendizagem Diversa e Justiça Social da UCLA, explica à BBC News Brasil que, ao contrário da visão e da linguagem oral, a habilidade de ler e interpretar letras e números não é algo com que nascemos: a leitura é resultado de um circuito que os seres humanos começaram a criar no cérebro cerca de 6 mil anos atrás.

‘As pessoas estão percebendo que algo está mudando em si mesmas, que é seu poder de leitura. E há um motivo para isso’, diz Maryanne Wolf (Foto: Getty Images via BBC News Brasil)

Esse circuito cerebral começou a se desenvolver quando nossos antepassados passaram a contar cabeças de gado e a criar símbolos para fazer seus primeiros registros escritos. E evoluiu, em (relativamente) pouco tempo, até a elaborada capacidade que temos hoje, de processar argumentos, sutilezas e emoções impressos nas páginas de livros e jornais.

“Não existe, portanto, um circuito genético para ler, que se desenvolva logo que uma criança nasce”, explica Wolf à BBC News Brasil.

“(A habilidade de) ler é algo que precisa ser criada no cérebro, e o circuito vai refletir a linguagem que a pessoa usa, seu sistema de escrita, e o meio pelo qual lê.”

Ou seja, esse circuito é moldado pela forma como lemos e pelo tempo que gastamos na leitura. Como os hábitos digitais atualmente favorecem uma leitura pouco aprofundada, em que apenas passamos os olhos por textos diversos, o perigo, diz Wolf, é que a habilidade de entender argumentos complexos – sejam eles presentes em um contrato legal, em um livro, em uma reportagem mais longa – pode ser “atrofiada” caso não seja exercitada.

Em um cenário de leitura apenas superficial, “o circuito da leitura no cérebro não vai alocar tempo suficiente para um processamento cognitivo” necessário para um processamento crítico, diz a acadêmica.

“Ao apenas ‘passar os olhos’ em um texto, a pessoa passa por cima da argumentação, dos pontos mais sofisticados do texto, e receberá menos da substância de pensamento que é importante para a análise crítica.”

Tempo de tela
A preocupação principal de Wolf e de acadêmicos como ela é o que acontecerá com as gerações mais jovens, habituadas desde os primeiros anos de vida a passar horas nos celulares e tablets e a consumir ali toda a sua informação, com rapidez e diversas distrações.

Embora muito se fale dos riscos que o excesso de tempo passivo diante de telas pode causar para a saúde infantil – dos problemas de visão à obesidade -, só agora a ciência começa a explorar o potencial impacto dos hábitos digitais sobre o poder de leitura e a concentração dessas crianças no futuro.

Uma meta-análise feita por estudiosos da Espanha e de Israel analisou dados de 171 mil pessoas na Europa, coletados entre 2000 e 2017, para comparar a compreensão de leitura dos participantes nos meios digital e papel.

O estudo diz que ainda é difícil chegar a conclusões absolutas, porque o desempenho das pessoas é “inconsistente”, mas identificou o que chama de “inferioridade da tela”: a leitura digital parece não favorecer as habilidades de compreensão dos leitores, e o processamento das informações é mais “raso” nesses meios online.

O que acontecerá no futuro ainda é difícil prever. O estudo levanta a possibilidade de as vantagens da leitura no meio impresso se perderem ao longo do tempo.

Já Maryanne Wolf teme que, em vez disso, as pessoas percam aos poucos as capacidades de leitura que levamos milênios para desenvolver no nível atual.

“É isso o que me preocupa nos mais jovens: eles estão desenvolvendo uma impaciência cognitiva que não favorece (a leitura crítica)”, diz a acadêmica. “Deixamos de estar profundamente engajados no que estamos lendo, o que torna mais improvável que sejamos transportados para um entendimento real dos sentimentos e pensamentos de outra pessoa.”

É nesse aspecto que Wolf acredita que a “leitura rápida” pode reduzir a nossa capacidade de sentir empatia pelos demais ou de superar mais limites de conhecimento. E também dificultar o nosso entendimento sobre o que está acontecendo na política, na economia ou em qualquer outro fenômeno social complexo, que exija uma leitura cuidadosa e que tenha causas – e soluções – não simplistas.

“As pessoas ficam muito mais suscetíveis a fake news e demagogos que criam falsas expectativas”, opina ela.

Outra possível consequência é que diminua nossa capacidade de pensar mais criticamente e de levar em conta diferentes pontos de vista, habilidades consideradas cada vez mais importantes no mercado de trabalho à medida que empregos que exigem menos capacitação vão sendo automatizados.

O psicólogo Daniel Goleman, que também estuda esse assunto, alerta para o que chama de “atenção parcialmente contínua” – citando, por exemplo, participantes de seminários que, de olho em seus celulares e notebooks, não conseguem prestar atenção plena ao que diziam os palestrantes do evento.

O perigo, diz ele, é que percamos parte da nossa habilidade de chegar ao fim de leituras e de tarefas offline.

É preciso ser realista
No entanto, os pesquisadores concordam que não adianta querer evitar o inevitável: as pessoas leem cada vez mais online e de modo rápido, e isso certamente não mudará em um futuro próximo.

“Está claro que a leitura em meios digitais é uma parte inevitável das nossas vidas e uma parte integral do campo da educação”, diz a meta-análise europeia.

“Ainda que os resultados atuais indiquem que a leitura em papel deva ser preferida à leitura online, não é realista recomendar que se evitem os dispositivos digitais. No entanto, ignorar os resultados de um robusto efeito de inferioridade da tela pode (…) impedir que leitores se beneficiem plenamente de suas capacidades de leitura e que crianças desenvolvam essas habilidades.”

Wolf lembra, ao mesmo tempo, que são inegáveis os benefícios da internet e da leitura online para democratizar e agilizar a transmissão de informação. Para ela, o primeiro passo é termos consciência do que está acontecendo com nossa capacidade de leitura.

“Quero reforçar que não vejo isso como uma questão binária, como uma oposição (entre telas e material impresso). Temos apenas de saber qual o propósito do que estamos lendo e qual é a melhor forma de fazê-lo. Não se trata de escolher um meio em detrimento do outro, mas sim entender o que está acontecendo com nosso cérebro e entender o propósito do que se está lendo”, diz a pesquisadora.

“Se eu precisar ler algo simples e superficial, a tela é ótima. Mas se for algo complexo, que necessite de um olhar sob diferentes perspectivas, em que precise discernir o verdadeiro valor da informação, então tenho de pensar se o meio vai promover o processamento mais lento e profundo de uma análise crítica.”

Como incentivar a leitura crítica
Não há, diz ela, uma receita universal para preservar nossa habilidade de leitura crítica, mas sim a necessidade de prestar atenção a nossos próprios hábitos e aos das crianças.

Para algumas pessoas, bastará concentrar-se em uma leitura sem distrações – mesmo que seja online – e manter o olhar atento para múltiplas perspectivas e pontos de vista. Outros talvez precisem ter a autodisciplina de limitar seu tempo diário diante das telas, para ter o que ela chama de “vida digital mais saudável”, além de retomar o hábito de ler livros impressos.

E, para crianças e adolescentes, eis algumas recomendações do livro de Wolf:

– Ensinar a evitar o “multitasking”. A realização de múltiplas tarefas simultaneamente online dá aos jovens a capacidade de lidar com múltiplos fluxos de atenção, mas cria dependência de dopamina (que recompensa o cérebro por buscar constantes estímulos) e desestimula a memória;

– Proteger o tempo ocioso das crianças, ou seja, não deixar que todo momento de ócio vire desculpa para usar telas. É no ócio que nasce a criatividade;

– Ler livros para as crianças, antes mesmo de elas começarem a falar. Isso estimula conexões neurais, a atenção recíproca entre pais e filhos, a experiência tátil dos livros e é, diz ela, o “começo ideal para uma vida de leitor”. Wolf faz coro com especialistas que sugerem que crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas a telas;

– Entre dois e três anos, limitar a no máximo meia hora o tempo diário de tela. Para os maiores, limitar a duas horas diárias. Wolf acha que não adianta proibir totalmente as telas, porque isso só causará mais obsessão por elas. O jeito é buscar equilíbrio;

– Sobretudo entre 2 e 5 anos de idade, cercar as crianças de lápis coloridos, livros, números e música, que estimulem a criatividade e a exploração física do meio. O aprendizado de música e de esportes também ajuda a ensinar disciplina e recompensas de longo prazo;

Por fim, ela lembra que muitas crianças conseguem manter a conexão com os livros mesmo acessando tablets e celulares com moderação. “O importante é estimular a formação de uma mente curiosa”, escreve ela. “A formação cuidadosa do raciocínio crítico é a melhor maneira de vacinar a próxima geração contra a informação manipuladora e superficial, seja em texto (de papel) ou em telas.”

Quer ler mais livros? Veja 8 dicas que podem ajudar

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Estas dicas podem aumentar a sua taxa de leitura (Foto: Daria Shevtsova/Pexels)

Melhor organização, livros sempre à mão e referências: veja como você pode aumentar a sua taxa de leitura

Publicado na Época Negócios

Quer aumentar a quantidade de livros que você lê por ano? Alguns bilionários são famosos por seus hábitos de leitura. O investidor Warren Buffett lê mais de 200 páginas por dia. Bill Gates, cofundador e ex-CEO da Microsoft, compartilha rotineiramente os melhores títulos que leu.

Apesar de parecer que temos cada vez menos tempo para ler, uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia mostra o contrário: o que falta é prioridade. De acordo com o estudo, a população consome em média mais de cem mil palavras por dia. A questão é que essas palavras estão em e-mails, comentários de fotos no Instagram ou postagens do Facebook.

Veja algumas dicas compiladas pela Harvard Business Review para adequar a rotina com a leitura de livros:

1. Livros em locais estratégicos
Deixe os exemplares visíveis e coloque poltronas perto das prateleiras. Isso vai estimular o seu cérebro a ler. Se você não tiver espaço em casa, visite a biblioteca mais próxima, escolha um livro e o devolva após a leitura. O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia: “Não posso dormir sem que esteja cercado de livros”. Siga o exemplo.

2. Luz vermelha
Use luz vermelha no período noturno. O autor Michael Breus, diz no livro The Power of When, que a luz vermelha ajuda na produção de melatonina (hormônio que faz o corpo identificar o momento de dormir) e faz com que você tenha uma boa noite de sono. Já a luz azul tem efeito oposto: o deixa ativo e desregula o ciclo noturno e ainda pode danificar a visão.

3. Proibido celular
Parece clichê, mas evite o celular. Hoje, ele é a maior máquina de distração dos seres humanos. É o que diz o livro Irresistible, do professor Adam Alter. Os smartphones são projetados para serem viciantes e a dica para não cair na armadilha e usufruir do tempo para a leitura é: deixe a tela inicial vazia e coloque o aparelho em modo avião quando estiver em casa.

4. Organização tipo biblioteca
Organize seus livros usando o método decimal de Dewey. Separe-os por categoria, por exemplo: ciência, religião e curiosidade. Além de ser utilizado por inúmeras bibliotecas, vai facilitar – e muito – a procura de um livro específico que você queira ler. Coloque etiqueta de identificação e use um aplicativo que o ajude com a busca.

5. Referências

À medida que você começa a aumentar a taxa de leitura, o próximo desafio é escolher o próximo livro. Para ter mais indicações, ouça podcasts e abuse de sites e apps. Eles são ótimos para aumentar o seu repertório.

6. Curadoria de conteúdo
Deixe de seguir todas as novidades. Selecione só as melhores fontes. Lembre-se do que o cientista Herbert Simon disse: “O que a informação consome é óbvia: consome a atenção de seus destinatários. Assim, uma riqueza de informações cria uma pobreza de atenção”.

7. Livro de papel
Leia o livro físico. O autor Seth Godin diz que as pessoas perdem o foco quando optam pela leitura por meio de iBooks. O motivo é simples: a depender do dispositivo de leitura, a atividade é interrompida muitas vezes por notificações. Um aparelho dedicado, como o Kindle, pode ser mais apropriado por não ter interrupções.

8. Bate-papo com vendedores
Converse com os vendedores das livrarias. Diga uma história que você tem interesse em ler. Eles vão indicar um livro que tenha o roteiro de acordo com a sua necessidade.

Livro é caro? Não há bibliotecas? Por que os moradores de São Paulo não leem?

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Biblioteca do Parque Villa-Lobos, um dos equipamentos públicos mais legais de SP
Crédito: Nelson Kon/Divulgação/BPV

Pesquisa sobre hábitos culturais feita pelo Ibope, a pedido da Rede Nossa São Paulo, expõe as razões apontadas pelos moradores da cidade para não ler

Bia Reis, no Estadão

Diz o senso comum que no Brasil se lê pouco porque o livro é caro e porque não há bibliotecas por perto. Muitos podem considerar o preço alto e morar em lugares onde não há equipamentos públicos, é verdade, mas esses não são os motivos apontados pelos moradores de São Paulo para não ler. É o que indica pesquisa sobre hábitos culturais na cidade feita pelo Ibope a pedido a Rede Nossa São Paulo. O levantamento, divulgado nesta terça-feira, 9, ouviu 800 pessoas entre 6 e 21 de dezembro de 2018.

Segundo a pesquisa, apenas 3% dizem que não leram nos últimos três meses porque o livro é caro; outro 1% afirmou não ter dinheiro para comprar um. A falta de uma biblioteca por perto é apontada como razão para não ler por 2% dos entrevistados.

As maiores razões para não ter lido um livro são não gostar de ler/não ter o hábito de ler, citado por 34% dos entrevistados, e falta de tempo, por 32% (que é relativa, já que muitos de nós gastamos algumas horas do dia na internet, não é?). Além disso, 9% das pessoas contaram que não têm paciência para ler, o que também indica de alguma forma falta de hábito. Juntos, esses três motivos somam 75%.

São citados também como razão para não ter lido um livro nos últimos três meses o fato de preferir outras atividades (14%), ter dificuldade para ler (6%), se sentir muito cansado para ler (6%), preferir ler revistas e jornais (5%), não ter lugar apropriado para ler (1%) e não saber ler (1%).

O fato é que as pessoas não leem porque não se transformaram em leitores, porque não foram conquistados pelo livro, por inúmeras razões. Quando a leitura é um hábito estabelecido, falta de tempo ou de paciência não são razão para não ler. Afinal, a gente se esforça para arrumar tempo para o que gosta, o que faz sentido, não é?

Você leu nos últimos três meses?

Perguntados se leram algum livro nos últimos três meses, 38% dos entrevistados responderam que sim, leram um livro inteiro; 20% que sim, leram partes de um livro; e 42% que não. Isso significa que mais da metade dos moradores de São Paulo (58%) tiveram contato com ao menos um livro no período.

Entre os que leram livros completos, o maior porcentual está entre pessoas de 25 a 34 anos (49%), seguido pelas de 16 a 24 anos (43%), de 35 a 44 anos (39%), mais de 55 anos (33%) e de 45 a 54 anos (28%).

A pesquisa reforça a ideia de que pessoas com melhor nível econômico e formação são mais leitoras do que as pessoas com pior nível econômico e formação. Entre os entrevistados com nível superior, por exemplo, 20% afirmaram não ter lido nenhum livro nos últimos três meses – o porcentual sobe para 69% quando se tratam de pessoas que só fizeram o ensino fundamental (1.º a 9.º ano). Entre os entrevistados da classe A, 61% leram um livro inteiro e 18% não leram nenhum; na classe B o porcentual é de 56%, na C, 29%, e na D/E, 10%.

Você frequentou bibliotecas?

Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo
Crédito: Gabriela Biló/Estadão

Questionados se frequentaram alguma biblioteca no último ano, 79% responderam não e 20%, sim (1% não soube opinar). O maior porcentual ficou entre os jovens de 16 a 24 anos: 34% responderam que foram a uma biblioteca no período. A frequência cai conforme a idade avança – entre 25 a 34 anos, 26% responderam sim; entre 35 e 44 anos, 16%; entre 45 e 54, 12%; e mais de 55, 15%.

A pesquisa também aponta que, diferentemente do que muita gente pensa, as bibliotecas são mais frequentadas por pessoas das classes A e B do que C e D. Entre os entrevistados com melhor condição econômica (classe A), 44% disseram ter ido a uma biblioteca nos 12 meses anteriores à pesquisa. O porcentual cai para 28% entre as pessoas da classe B, para 15% entre a classe C e chega a apenas 5% nas classes D e E.

O Ibope também encontrou diferenças entre a frequência de acordo com a região onde a pessoa mora. O centro concentra o maior porcentual de frequentadores: 32% dos entrevistados responderam que foram a uma biblioteca no último ano ante 28% dos moradores da zona oeste, 27% da zona norte, 21% da zona sul e apenas 12% da zona leste.

A pesquisa questionou os moradores de São Paulo sobre o que os fariam frequentar mais espaços culturais. A pergunta não é direcionada às bibliotecas, mas inclui este tipo de equipamento. É curioso observar que se destaca o item “preços mais acessíveis”: 42% dos entrevistados de todas as idades afirmam que frequentariam mais atividades culturais se o preço fosse mais acessível. Nas bibliotecas públicas não há nenhum tipo de cobrança, nem para as atividades nem para a retirada de livros. Entre os outros itens avaliados estão proximidade de casa, facilidade de acesso, horários e diversidade da programação.

Como ensinar habilidades socioemocionais para as crianças por meio da Literatura

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Crianças aproveitam o “faz de conta” para elaborar suas prórias questões: Crédito: Pixabay

Além de estimular sentimentos como empatia, personagens podem ensinar crianças e adolescentes a lidar com emoções complexas no processo de crescimento

Camila Cecílio, na Nova Escola

Observar através da janela a cidade que, embora às vezes suja, guarda muitas belezas. Perceber que há pessoas diferentes convivendo em um mesmo espaço – um rapaz tatuado que não tira os olhos do celular, um homem cego com seu cão-guia, um músico e seu violão ou uma senhora segurando um vidro cheio de borboletas. Essas são algumas das experiências que o menino Cadu tem ao andar de ônibus no livro Última parada, Rua do Mercado, de Matt de la Pena.

Ao lado da avó, Cadu aprende que é preciso ser gentil com os outros, dizer boa tarde e oferecer o assento no ônibus a quem mais precisa. “É um convite para olhar ao redor com disponibilidade para perceber a poesia nos detalhes e, principalmente, nos outros”, diz a obra, que faz parte do conteúdo trabalhado com crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental no Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR), para desenvolver nos pequenos habilidades socioemocionais, como a empatia.

Estudos feitos por universidades ao redor do mundo indicam que ler torna as pessoas mais empáticas. A pesquisa de autoria do professor Keith Oatley, do Departamento de Psicologia Aplicada e Desenvolvimento Humano da Universidade de Toronto, no Canadá, aponta que, ao investigar a vida de personagens da ficção – suas emoções, motivações e pensamentos –, o leitor pode formar suas próprias ideias e aplicá-las na vida real.

Para Oatley, que também é romancista, o estudo reforça a necessidade das humanidades em escolas e universidades como parte do processo educacional. Fortalece, ainda, a ideia de que a ficção, não apenas em livros, mas em romances, contos, peças e filmes, não é apenas entretenimento, mas “tão importante quanto estudos de engenharia e negócios”.
Literatura, uma aliada no dia a dia escolar

Professora e pós-doutora em Artes pela Universidade de Campinas (Unicamp), Fernanda Maria Macahiba Massagardi acredita que ensinar não é simplesmente determinar, informar e deixar as crianças ansiosas com “uma quantidade desumana de conteúdo sem sentido”, mas sim mediar, levar o aluno a pensar e agir a partir de reflexões individuais e coletivas. Ela sustenta que, além de possibilitar a imersão em um mundo de sensibilidades, a educação literária contribui para o desenvolvimento cognitivo e afetivo, na medida em que proporciona a formação de um sujeito crítico, que não apenas decodifica, mas interpreta e recria situações. Em sua tese de doutorado, Percursos da Literatura na Educação – Ensinar Contando Histórias, a pesquisadora analisa as obras Nárnia, de C. S. Lewis, e Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, nas quais aponta a relação de alguns personagens com o desenvolvimento da criança.

Livros usados por escola pública de Fortaleza (CE). Crédito: Camila Baccin

Trazer essas relações para a sala de aula requer um professor com conhecimento sobre o processo criativo, a representação do mundo na criança, a aquisição de conhecimentos, a vida real e os sonhos de seus alunos – além de entender quais fatores incentivam as crianças a buscar momentos de prazer e conhecimento na leitura.

Por seu lado, as crianças aproveitam o “faz de conta” para elaborar, ainda que de maneira inconsciente, seus pontos de vista. Celize Ogg Nascimento Domingos, coordenadora pedagógica dos anos iniciais do Ensino Fundamental do Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR), conta que os pequenos são capazes de observar conflitos e emoções de personagens. Na instituição, o conteúdo trabalhado com alunos do 1º ao 5º ano aborda, especialmente, questões relacionadas às diferenças, presentes em livros como Diversidade, de Tatiana Belinky, O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha, e o já citado Última Parada, Rua do Mercado. Os efeitos da literatura transpõem a sala de aula e acabam chegando aos responsáveis, diz a coordenadora.

“Pedimos aos pais para buscar na literatura formas de conversar com a criança, que muitas vezes não sabe verbalizar algumas coisas, mas encontra na fantasia um repertório maior para se comunicar”, diz ela. Celize cita como exemplo crianças que sempre pedem para ouvir as mesmas histórias. “Significa que aquele enredo vai além da fantasia, que está trazendo emoções que fazem com que ela, de alguma forma, se reconheça ali”.

A noção de que os livros guardam não apenas ensinamentos, mas também sentimentos e realidades particulares e sociais foi um aprendizado pessoal da pesquisadora Fernanda Massagardi. Para ela era mágico perceber que a Narizinho de Monteiro Lobato, como ela, também subia em árvores e gostava de se debruçar sobre as margens de um rio. “A mágica da literatura é que ela pode não ser real, mas oferece experiências muito mágicas”.
O aluno como protagonista de sua própria história

Para os jovens, a percepção da relação entre a literatura e as habilidades socioemocionais é um pouco diferente, mas o impacto é tão grande quanto. A experiência da Escola Estadual Aloysio Barros Leal, no Ceará, mostra que por meio do exercício de se colocar no lugar das pessoas é que se aprende a ter um olhar generoso.

Situada na periferia de Fortaleza, com uma significativa parcela da comunidade do entorno de origem negra, há três anos a escola passou a trabalhar obras das escritoras Conceição Evaristo e Angela Davis com seus alunos. “Quando trago Conceição Evaristo, trago uma escritora negra que traz na cor de sua pele o mapa de sua história, trago alguém que relata a história das mães, avós e bisavós desses alunos, que conta a história das mulheres brasileiras”, conta a professora Camile Baccin, especialista em Ensino Metodológico de Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Com isso, diz ela, os alunos exercitam autoconhecimento, empatia, sensibilidade. “Muitos dos meninos e meninas se identificam e se reconhecem nas narrativas e na poética dessa escritora”.

O projeto surgiu de uma preocupação da professora em desenvolver nos jovens as competências socioemocionais para lhes dar ferramentas e lidar com um cotidiano em que o preconceito e os tantos “nãos” ouvidos todos os dias contribuem para torná-los insensíveis. “Comecei a me perguntar de que forma a literatura poderia impactar no desenvolvimento socioemocional desses jovens que vêm de uma realidade tão árida, de vidas tão duras, cheios de faltas, sem estrutura familiar e socioeconômica”, diz.

Partindo do que considera os principais pilares das habilidades socioemocionais – conhecer, fazer, ser e conviver – Camile apoiou seu trabalho na música e na literatura. “A gente se questiona: como é que minhas experiências podem desenvolver uma relação com a arte da literatura? Peço a eles que tragam suas histórias e seus relatos para que possamos confrontar com os textos. Eu trago as músicas dos Racionais MC e eles reconhecem as características da vida deles nas músicas do Mano Brown, enfrentando e quebrando paradigmas de uma sociedade tão injusta”.

O que diz a BNCC?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tem 10 Competências Gerais como pilares: conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; e responsabilidade e cidadania.

As competências são definidas como uma mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

Socioemocionais na prática

Essa definição aponta para a necessidade de os alunos serem capazes de utilizar os saberes adquiridos para dar conta do seu dia a dia, sempre respeitando princípios universais, como a ética, os direitos humanos, a justiça social e a sustentabilidade ambiental.

Na prática, as escolas devem promover não apenas o desenvolvimento intelectual, mas também o social, o físico, o emocional e o cultural, compreendidos como dimensões fundamentais para a perspectiva de uma educação integral. A despeito de todas as novas tecnologias, Fernanda Massagardi reforça que “o professor é o grande guardião do saber na hora de ensinar habilidades socioemocionais”.

A seguir, a professora Camile Baccin explica, passo a passo, como trabalhar habilidades socioemocionais com alunos do Ensino Médio. Para isso, ela escolheu uma atividade que pode ser desenvolvida em quatro horas de aula, com o intuito de despertar a empatia por meio do texto literário.

Passo 1: A escolha do texto
A escolha do conteúdo a ser trabalhado com os alunos deve ser minuciosa. Camile, por exemplo, avaliou todo o contexto de suas turmas do Ensino Médio e decidiu priorizar a literatura feminina negra com textos que recaem, sobretudo, na existência difícil das personagens femininas afrodescendentes, que enfrentam um cotidiano racista, estruturado num sistema historicamente preconceituoso. Tudo é intersecção: gênero, raça e classe, por isso a escolha do material.

Passo 2: Conhecendo os escritores

Os escritores podem ser apresentados aos alunos por meio de slides e/ou entrevistas disponíveis em vídeos em plataformas como o Youtube. Para isso, a dica é organizar a sala em semicírculo para, em seguida, iniciar um debate.

Passo 3: A entrega do texto escolhido
Camile propõe que o material escolhido seja entregue individualmente a cada aluno. O momento deve ser de leitura individual e silenciosa.

Passo 4: A apresentação do conteúdo
A ideia é apresentar o conteúdo para toda a classe. Se for a leitura de um poema, por exemplo, a sugestão da professora Camile é que cada aluno leia, de forma voluntária ou escolhidos pelo professor, uma estrofe.

Passo 5: As vozes da sala
Agora é hora de ouvir os alunos. Promover o debate a partir do conceito de identidades e levantar a questão: quem se identifica com o livro/texto/poema?

Passo 6: O que é empatia?
Nesse debate, discuta o significado de empatia para preparar os alunos para uma produção escrita. A sugestão é que os alunos escrevam relatos pessoais relacionando suas histórias com o conteúdo abordado na aula.

Passo 7: Anotações
As anotações serão entregues à professora para uma revisão e devolvidos na aula seguinte para a reescritura. O resultado do processo pode ser um painel com a exposição dos relatos e dos textos lidos. O título do painel sugerido: Por que desenvolver a empatia é importante?

Aprenda sete dicas para conservar livros

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Mesmo com toda as possibilidades tecnológicas de leitura, o livro físico ainda é fonte de imenso prazer. A encadernadora Christiana Lee, do Ateliê Manufatura , ensina como mantê-lo sempre nos trinques.

Publicado no IBahia

1. Umberto Eco já sabia

Lave as mãos antes e depois de manusear livros antigos. Sempre que possível, use luvas descartáveis e não molhe as pontas dos dedos para virar uma folha. A saliva é ácida e danifica o papel. Além disso, o exemplar pode ter focos de fungos e bactérias. Quem já leu “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, sabe do que se trata.

2. Para ler, não escrever

Não use livros como apoio. Esse hábito pode danificar as capas, e o peso força a lombada, desestruturando-a. Anotações também estragam as folhas. Se for necessário, use lápis de grafite macio. Lapiseiras e canetas deixam marcas, e, com o tempo, a tinta pode furar o papel.

3. Sem sujeira

Limpe a biblioteca com espanador ou flanela seca para não acumular poeira. Isso evita que as laterais dos volumes escureçam e a sujeira se instale por dentro. Uma vez por ano, passe uma trincha de cerdas macias dentro deles. Abrir os volumes com frequência também evita cheiro forte ou que as páginas grudem.

4. Nada no meio

Não guarde folhas, flores ou papéis velhos dentro do livro. Esses materiais podem manchar as páginas e facilitar o aparecimento de fungos. Não consuma alimentos enquanto estiver lendo, já que restos de comida atraem bichos.

5. Onde parei?

Não use clips para indicar em que ponto interrompeu a leitura. A ferrugem de objetos metálicos corrói a celulose. Também não dobre os cantinhos, pois, com o tempo, o papel fica quebradiço e acaba se rasgando. Use um marcador apropriado.

6. Maneire na luz

Não exponha exemplares ao sol ou à luz forte, pois as cores ficam desbotadas e o papel, amarelado e quebradiço. Já a umidade facilita a proliferação de fungos, então, se o livro molhar, deixe-o aberto em local arejado.

7. Guarde na vertical

Livros devem ficar retos, não muito apertados e com espaço entre o fundo da estante, para que “respirem”. Obras grandes podem até ficar deitadas, mas o ideal é que tenham o mesmo tamanho ou formem uma pirâmide pequena, pois o peso deixa marcas naquelas que estão embaixo.

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