Leitura (iStockphoto/Getty Images)

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Maria Carolina Maia e Meire Kusumoto, na Veja

Alguém pode dizer que um clássico nunca sai de moda. Isso não é inteiramente verdade. Há ciclos de interesse e de oferta que os tornam mais atraentes de tempos em tempos. Mais quentes. É o que se vê agora no mercado literário brasileiro, e em boa hora. Em um momento em que a economia caminha para a recessão e grandes títulos como O Pequeno Príncipe caem em domínio público ou rumam para tal, duas pequenas editoras começam a operar focadas nesse nicho, e outras duas já consolidadas, a Hedra e a Rocco, preparam coleções — de holandeses “esquecidos” e de obras canônicas para jovens, respectivamente. É uma boa notícia para o leitor, que tem no filão o seu investimento mais seguro.

Consagrados pela qualidade e pela maneira como tocam o público, tanto de sua época quanto das que se seguem a ela, clássicos são livros formadores não apenas de leitores, mas de escritores e de outras obras, de cultura e de imaginário coletivo. Quando se fala de amor, não conhecer a história de Romeu e Julieta é, guardadas as proporções, o mesmo que boiar naquela conversa sobre a novela que você não acompanha. “Um clássico nunca perde a importância. Lendo clássicos, a gente se aproxima do nosso passado comum”, diz Juliana Lopes Bernardino, da Poetisa, editora que iniciou trabalhos no final de 2014 com a ideia de tirar da gaveta traduções feitas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde sua sócia, Cynthia Beatrice Costa, estuda.

O primeiro livro lançado pela editora, que tem sede em Florianópolis, foi uma tradução integral de Bela e a Fera, que só contava com adaptações no mercado brasileiro. O texto é assinado por Marie-Hélène Catherine Torresta, professora da UFSC. O próximo título da Poetisa, previsto para março, será o infantil O Coelho de Veludo, da inglesa Margery Williams (1881-1944), nunca editado no país. Lançado em 1922 na Inglaterra, o livro está entrando em domínio público, algo que, pelas leis brasileiras, acontece 70 anos após a morte do autor. “Nossa intenção é ter de quatro a cinco lançamentos em 2015. Além de clássico ter um retorno mais garantido, há a questão do domínio público. São obras que não custam tanto para a editora”, diz Juliana.

Os clássicos de aventura

A Odisséia

Espécie de sequência de Ilíada, que narra a Guerra de Troia, A Odisseia retrata a volta de Odisseu, o herói do conflito, para seu reino, Ítaca, e para sua mulher, Penélope. Ao longo de 24 cantos e mais de 12 000 versos, o personagem enfrenta uma tormenta e perde seu rumo, o que o leva a encarar toda a sorte de aventuras e levar dez anos para concluir a viagem. No Brasil, o livro é publicado por casas como Penguin, Cosac Naify e Editora 34. Ao lado de Ilíada, este poema épico escrito por volta do século VIII a.C. e atribuído a Homero é considerado o texto inaugural da literatura ocidental.

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Dom Quixote

Considerado o primeiro romance moderno, Dom Quixote foi publicado em 1605. No livro, o espanhol Miguel de Cervantes retrata o fidalgo decadente Alonso Quijano, ardoroso fã das histórias de cavalaria que perde o juízo e assume a personalidade de Dom Quixote de La Mancha, partindo em aventuras ao lado do fiel escudeiro Sancho Pança. Idealista, Dom Quixote está sempre em busca de justiça e chega a enfrentar um conjunto de moinhos, que pensa se tratar de gigantes que se colocam em seu caminho. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Editora 34.

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Moby Dick

No livro publicado em 1851, o americano Herman Melville retrata a viagem do navio baleeiro Pequod, da costa dos Estados Unidos para o Pacífico Sul. O narrador da história, o marinheiro Ishmael, aceita integrar a tripulação sem saber que a trajetória da embarcação foi definida por seu capitão, Ahab, que deseja se vingar do cachalote Moby Dick. Em uma de suas viagens anteriores, Ahab enfrentou o animal e sobreviveu, mas perdeu uma das pernas e seu antigo navio. No Brasil, o livro é publicado por casas como Cosac Naify e Editora Landmark.

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Robinson Crusoé

No romance de 1719 do inglês Daniel Defoe, Robinson Crusoé é um marujo que perde quase tudo ao naufragar perto de uma ilha da América do Sul. No local, que ele apelida de Ilha do Desespero, ele sobrevive com os objetos que consegue resgatar do navio, no que será uma longa espera por resgate. Ele vive por vinte anos sem qualquer contato com outro ser humano, até que encontra e salva um nativo de um ataque de canibais e o transforma em seu criado. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Edições BestBolso.

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O Coração das Trevas

Publicada originalmente como uma série na revista inglesa Blackwood (1817-1980), a história do britânico de origem polaca Joseph Conrad foi transformada em livro em 1902 e serviu de inspiração para um dos filmes mais conhecidos do diretor Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (1979). O enredo acompanha a viagem do marinheiro Charles Marlowe pela selva africana, onde descobre a crueldade dos métodos empregados na exploração e na venda de marfim, principalmente por Kurtz, um comprador do material. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Hedra.

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Em domínio público também entrou neste ano outro clássico que, como Bela e a Fera, é consumido por crianças e adultos, o campeão de vendas O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry (1900-1944). Presença constante nas listas de mais vendidos, onde pode ser visto com a marca da Agir, editora que o publica no país desde 1952, o livro agora deve ganhar edições da L&PM, da Geração Editorial e da Autêntica, entre outras. Preocupada com a perda de seu menino de ouro, a editora do grupo Ediouro já tratou de preparar produtos que compensem o fim da sua exclusividade. No final de 2014, a Agir firmou um contrato de licenciamento com os representantes e herdeiros de Saint-Exupéry para a criação de novos projetos, que já começam a ser publicados a partir de abril deste ano. O primeiro deles é uma versão adaptada para crianças pequenas, feita por Geraldo Carneiro e Ana Paula Pedro.

Se a Agir corre para mitigar o prejuízo causado pela queda em domínio público de O Pequeno Príncipe, a L&PM comemora a novidade. A gaúcha anuncia que a sua edição corrigirá “erros” presentes na da rival, como a omissão de uma estrela em uma cena em que o astrônomo olha por um telescópio. “Na margem interna da página, vê-se uma estrela (justamente o corpo celeste que está sendo observado pelo personagem). Nas edições brasileiras disponíveis para o público até 1º de janeiro de 2015, a estrela era omitida”, diz a editora, que tem 30% de suas vendas feitas de clássicos e para 2015 prepara também uma nova edição de A Divina Comédia, de Dante.

“Para o leitor, o benefício óbvio de toda essa movimentação entre as editoras é que há uma diversificação maior nas prateleiras: o mercado brasileiro atualmente é um dos mais aquecidos do cenário literário internacional, pois as editoras querem agir com rapidez para colocar nas prateleiras o que o público quer ler”, diz Larissa Helena, editora na Rocco Jovens Leitores, que prepara a coleção Memória do Futuro, organizada pelo poeta e tradutor Marco Lucchesi. Outra boa notícia: os livros terão texto na íntegra, e não aquelas adaptações para leitores iniciantes que quase sempre empobrecem a obra. “Clássicos são histórias com apelo universal, que têm qualidade extraordinária na narrativa e que deixaram marcas indeléveis na literatura.”

Histórias Clássicas de Amor

Romeu e Julieta

A trágica história de amor de Romeu e Julieta foi escrita por William Shakespeare entre os anos 1591 e 1595. Filhos únicos de famílias inimigas, os Montecchio e os Capuleto, os jovens se conhecem em uma festa promovida pelo pai de Julieta e se apaixonam. Para fugir do casamento arranjado pelo pai com Páris, Julieta bebe uma poção que a fará dormir e parecer ter morrido, mas acordará a tempo de ser salva por Romeu. O mocinho, no entanto, descobre a morte da amada antes de saber que ela se trata de uma farsa e toma veneno, tirando a própria vida. Ao acordar, Julieta percebe o que aconteceu e se mata com o punhal de Romeu. No Brasil, o livro tem edições por casas como L&PM e Saraiva.

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Madame Bovary

O livro do francês Gustave Flaubert causou controvérsia ao ser publicado, em 1856, por contar a história de uma mulher adúltera. Emma, uma jovem sonhadora que passou a adolescência na companhia de romances açucarados e arrebatadores, se vê frustrada em um casamento entediante com Charles Bovary, um médico do interior da França. Para escapar de seu dia a dia maçante, ela se aventura fora do casamento duas vezes, primeiro com Rodolphe, depois com Léon. No Brasil, o livro tem edições por casas como Penguin e L&PM.

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Anna Karenina

Publicado originalmente entre 1875 e 1877 na revista The Russian Messenger, o livro do russo Liev Tolstói conta a história de Anna Karenina, casada com o político Aleksey Karenin, com quem leva uma vida confortável. Ao visitar um irmão em São Petersburgo, Anna conhece o Conde Vronsky, por quem se apaixona. Seu marido logo descobre o caso, mas pede apenas discrição do casal para (mais…)