Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Aarhus

A biblioteca do futuro

0
DOKK1, na dinamarquesa Aarhus, a maior biblioteca pública da Escandinávia

DOKK1, na dinamarquesa Aarhus, a maior biblioteca pública da Escandinávia

 

Escandinávia exporta conceito de espaço dedicado não apenas ao empréstimo de livros, mas também ao lazer e a serviços, além de servir como ponto de encontro. Alemanha começa a aderir à ideia.

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

Um burburinho em inúmeras línguas preenche uma das salas da Kölner Volkshochschule, em frente à Biblioteca Municipal de Colônia. Uma “sala de conversação” foi criada na escola para servir de ponto de encontro de refugiados e de todos aqueles que ainda precisam dominar o idioma alemão. Aqui, todos podem aproveitar gratuitamente as ofertas da Biblioteca Municipal, utilizar programas de aprendizado nos computadores ou emprestar livros e jogos.
Além de um espaço de encontro, a “sala de conversação” é palco de leituras em diversos idiomas e disponibiliza materiais didáticos em diferentes línguas. Mentores auxiliam famílias sírias, afegãs e romenas a se adaptar à cidade e à Alemanha.

A biblioteca de Colônia é reconhecida na Alemanha por suas inovações. Em 2015, ela recebeu o título de Biblioteca do Ano, por sua ousadia com projetos midiáticos e pela estratégia de transformar o local num espaço de encontros e não apenas de empréstimo de livros. A ideia não é nova: o conceito de “Makerspace” vem dos Estados Unidos e especialmente da Escandinávia. Na Finlândia e na Dinamarca, as bibliotecas públicas têm como papel serem espaços de conhecimento para todos.

Na Dinamarca, é lei que toda comunidade tenha uma biblioteca em bom estado. E para isso não há economia de verbas, como na Alemanha, por exemplo, onde muitas bibliotecas municipais já precisaram ser fechadas. Para atrair o público jovem, o Estado de bem-estar social dinamarquês criou locais vivos e atrativos, nos quais o empréstimo de livros e mídias tornou-se quase secundário.

Além de livros, DOKK 1 oferece opções de lazer para crianças e adultos

Além de livros, DOKK 1 oferece opções de lazer para crianças e adultos

 

Mais que livros
A biblioteca DOKK 1, na dinamarquesa Aaarhus, representa o novo conceito de biblioteca: um local para todos aqueles com fome de conhecimento. A cidade industrial e portuária no sul do país será a Capital Europeia da Cultura de 2017, e, para isso, toda a zona portuária ganhou um projeto arquitetônico completamente novo. E a DOKK 1 está lá, aberta 24 horas e ponto de encontro para jovens e adultos. A transformação num centro de conhecimento foi perfeitamente bem sucedida.

Na biblioteca, não se pode apenas emprestar livros, CDs ou DVDs, mas também estender o passaporte, entregar a declaração do imposto de renda ou emitir a carteira de motorista. A maior biblioteca pública da Escandinávia, inaugurada há alguns meses, é tanto um centro de serviços para o cidadão quanto espaço de conhecimento. Enquanto esperam para serem atendidas, as pessoas leem ou estudam.

A DOKK 1 abriu a cidade de Aarhus para novas possibilidades. Tudo é gratuito e equipado com novas e modernas tecnologias, que incluem uma impressora 3D. Ali, ler romances, escutar música e jogar xadrez no computador é tão importante quanto estudar livros especializados.

Schulz: "As bibliotecas do futuro devem realmente inspirar as pessoas, mesmo sem livros"

Schulz: “As bibliotecas do futuro devem realmente inspirar as pessoas, mesmo sem livros”

 

Espaços inspiradores

“As bibliotecas do futuro devem realmente inspirar as pessoas, mesmo sem livros”, constata Knud Schulz, diretor-geral da DOKK 1. Foram mais de dez anos de planejamento e implementação. Por todos os lados, há espaço para encontros e trocas. Uma área para pais e filhos, sala de brincadeiras, sala de leitura com vista para o porto e zonas de silêncio para estudo dão ao local um caráter cosmopolita.

Para Schulz, o futuro está na aprendizagem ao longo de toda a vida e no intercâmbio de conhecimentos entre gerações – e este é o principal objetivo de seu trabalho na biblioteca. Até um ateliê com máquinas de costura e equipamentos profissionais faz parte da DOKK 1, mostra ele. Jovens poderiam aprender com pessoas mais velhas como consertar uma torradeira estragada em vez de comprar uma nova, acrescenta.

“O conhecimento se forma em espaços que propiciam trocas entre as pessoas”, diz Schulz. Um conceito que a Biblioteca de Colônia já começou a adotar, fazendo do aprendizado uma forma de diversão.

Na berlinda, bibliotecas se reinventam no Brasil e no mundo

2
A futura biblioteca de Aarhus, na Dinamarca, será parte de um complexo multiuso e tecnológico

A futura biblioteca de Aarhus, na Dinamarca, será parte de um complexo multiuso e tecnológico

Paula Adamo Idoeta, na BBC Brasil

Reduções nas verbas, perda de protagonismo do livro para mídias digitais e, em muitos casos, declínio no número de visitantes. O cenário atual é preocupante para bibliotecas públicas de todo o mundo, mas muitas estão aproveitando o momento para se revitalizar, embarcar em novos formatos e em novas tendências urbanísticas.

O objetivo é atrair antigos e novos visitantes e, em muitos casos, virar um centro de referência sociocultural, em vez de apenas um local de leitura.

Na Dinamarca, a futura biblioteca de Aarhus será parte de um grande complexo urbano, inserido nos planos de revitalização da baía da cidade.

O complexo, a ser concluído em 2015, vai incluir repartições públicas, espaços para shows, cursos e reuniões, áreas para serem alugadas à iniciativa privada e um café com vista para a baía. Móveis modulados permitirão que as salas da biblioteca sejam usadas para diferentes propósitos ao longo dos anos, de acordo com a demanda dos usuários.

“É muito mais do que uma coleção de livros”, diz à BBC Brasil Marie Ostergard, gerente do projeto. “É um local de experiências e serviços. Notamos que precisávamos dar mais espaço para as pessoas fazerem suas próprias atividades ou para se encontrar.”

Manguinhos e Carandiru

Aarhus resume as ambições da nova biblioteca – que incorpora novas mídias, cria espaços multiuso em constante transformação, é parte de um plano urbanístico transformador e almeja fomentar novas pesquisas e ideias.

Mas há exemplos semelhantes em todo o mundo, da Ásia e Oceania à América Latina, inclusive no Brasil.
Aqui, novas tendências inspiraram a construção de bibliotecas como a de Manguinhos, na zona Norte do Rio, para atender um complexo de 16 favelas com um acervo de 27 mil títulos, além de salas para cursos gratuitos, para reuniões comunitárias e para projetos multimídia. Um café e um cineteatro devem ser inaugurados neste semestre.

A biblioteca-parque de Manguinhos é mais do que um espaço de leitura, dizem responsáveis

A biblioteca-parque de Manguinhos é mais do que um espaço de leitura, dizem responsáveis

A iniciativa, repetida em outras áreas do Rio, é parte do projeto biblioteca-parque, copiado de Medellín, na Colômbia.

Na cidade colombiana, áreas carentes receberam grandes bibliotecas que servem para conectar outros espaços públicos e oferecer também cinema, cursos, shows de música.

De volta ao Brasil, exemplo semelhante é visto também na Biblioteca de São Paulo, erguida junto ao Parque da Juventude, na área do antigo presídio do Carandiru (zona Norte).

“É uma retomada da função da biblioteca, antes vista como um lugar muito elitizado ou como um mero depósito sucateado de livros”, opina à BBC Brasil Adriana Ferrari, coordenadora da unidade de bibliotecas da Secretaria da Cultura paulista.

Acervo e futuro

Mudar a forma de se relacionar com o público significa também mudar o acervo, incorporando DVDs, games e, é claro, e-books e leitores digitais, como o Kindle.

Para aumentar o apelo ao público, em especial o mais jovem, as bibliotecas também têm ampliado seu acervo de best-sellers, indo além dos livros clássicos – algo que pode incomodar os mais ortodoxos.

Para Ferrari, porém, oferecer best-sellers e uma agenda cultural intensa é essencial nas novas bibliotecas. “Tem que ter novidade todo dia e aproveitar as ondas”, diz ela.

Isso inclui promover os livros da série Crepúsculo, por exemplo, “sem fazer juízo de valor” sobre a qualidade da obra. “Aos poucos, a qualificação desse leitor vai acontecendo.”

Na opinião de Antonio Miranda, professor da Universidade de Brasília e consultor na criação de bibliotecas, o futuro reserva três tipos de modelos para as bibliotecas: a patrimonial, com acervo sobretudo histórico e clássico; a híbrida, que mescla o acervo antigo ao de novas mídias; e a sem livros – totalmente digitalizada e focada, por exemplo, no ensino à distância.

EUA

Erguida em área carente, biblioteca de Medellín inspirou modelo usado no Brasil

Erguida em área carente, biblioteca de Medellín inspirou modelo usado no Brasil

Nos EUA, tem aumentado o número de bibliotecas que oferecem mais best-sellers e criam ambientes semelhantes ao de livrarias, com cafés, vending machines, aluguel de salas para reuniões e espaços que não exigem silêncio dos visitantes.

Reportagem do New York Times relata que muitas bibliotecas estão preenchendo o vazio deixado pelo fechamento de livrarias no país.

Apesar disso, trata-se de um momento de crise para o setor. Relatório da Associação de Bibliotecas da América (ALA, na sigla em inglês) cita cortes “draconianos” nas verbas estatais para as bibliotecas e disputas com editoras envolvendo o empréstimo de e-books.

Sem dinheiro, a Filadélfia, por exemplo, suspendeu uma grande reforma que planejava para sua biblioteca pública e quer buscar apoio privado, bem como cobrar usuários pela oferta de “serviços premium”.

Mas seu plano contempla também as novas tendências bibliotecárias: aumentar a presença virtual, adaptar seu espaço a novas demandas e engajar visitantes com projetos de alfabetização e empreendedorismo.

“A biblioteca do futuro pode ser um centro de criatividade, para a criação de aplicativos virtuais e promoção de mudanças na comunidade”, afirma à BBC Brasil Maureen Sullivan, presidente da ALA.

“O novo conceito é o de ser um espaço de produção de conhecimento e cultura fora do ambiente acadêmico”, opina Vera Saboya, superintendente de leitura do Estado do Rio, responsável pela biblioteca de Manguinhos.

Go to Top