Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged abolição

Laurentino Gomes inicia livro sobre escravidão

0
Divulgação

Divulgação

Ubiratan Brasil, na Tribuna do Norte

País homenageado na 17ª Bienal Internacional do Livro do Rio, a Argentina montou uma bela agenda de debates. No sábado, por exemplo, Noé Jitrik, Mempo Giardinelli e Maria Moreno discutiram sobre a literatura no exílio. Mais que a escrita utilizada por refugiados como meio de desabafo, o trio mostrou que existem variações significativas no termo. “A escrita exilada de Henry Miller, por exemplo, tem um sentido completamente diferente da minha”, constatou Giardinelli que, enquanto o americano morou voluntariamente em Paris, foi obrigado a se refugiar no México, forçado pela ditadura de seu país.

Um salão não totalmente lotado recebeu um dos best-sellers da Bienal, o britânico David Nicholls, autor de Um Dia. Bem-humorado, confessou que o único autor brasileiro que tomou conhecimento foi Clarice Lispector, mas não prosseguiu com a leitura, pois a considerou “muito difícil”. A plateia predominante jovem o deixou empolgado “Normalmente, a idade média do público que vai aos meus encontros é de mais de 30 anos. Vendo essa moçada, fico mais animado.”

A bienal consolida-se assim como o caminho mais estreito entre autor e leitor. “Ainda vou conversar em escolas”, anuncia Laurentino Gomes, autor de três best-sellers, livros que narraram o período de fortalecimento do País como nação (1808, 1822 e 1889). Ele agora inicia seu próximo projeto: uma imensa pesquisa sobre a história da escravidão negra. Será algo de fôlego, que vai consumir quatro anos de trabalho. “Quero fazer como Lira Neto, que dividiu em três volumes sua biografia de Getúlio Vargas”, conta. “Também vou publicar minha pesquisa em três tomos, a partir de 2019.” O trabalho está bem delineado – para o primeiro volume, Laurentino pretende mostrar a origem do tráfico negreiro, que teve a Inglaterra como primeira nação a organizar esse tipo de comércio. O segundo volume, que deverá sair em 2020, cobrirá o apogeu, época em que determinados países associavam seu progresso ao trabalho escravo – no Brasil, trata-se do período do auge da cana de açúcar, a partir de 1560 até o ouro no século 18.

O terceiro volume, previsto para 2021, narrará em detalhes a fase final do tráfico até a abolição da escravatura no Brasil, em 1888.Como pretende fazer diversas viagens à África, especialmente a países da costa ocidental, Laurentino vai se fixar durante pelo menos dois anos em Portugal, onde será sua base. “Não temos voos diretos saindo do Brasil para países africanos, com exceção da África do Sul”, justifica ele, que pretende também fazer pesquisas nos Estados Unidos. Segundo ele, trata-se de uma história recheada de elementos degradantes. “Há documentos que mostram que navios ingleses sabiam com muita antecedência que se aproximavam de uma embarcação trazendo escravos – é que o cheiro ruim vindo das caravelas, provocado pelas péssimas condições de higiene a que eram submetidos os escravos, se expandia por quilômetros.” Se provocou um desconforto em alguns historiadores quando lançou seu primeiro livro, em 2007, incomodados com a “intromissão” de um jornalista em sua área, Laurentino já sabe que terá de lidar agora como outro grupo ao retratar a escravidão: a de ativistas negros, que já revelaram seu descontentamento que essa fase da História seja narrada por um autor branco.

Machado de Assis aparece em foto, ao lado de princesa Isabel, numa missa que homenageou o fim da escravidão

0
Reprodução

Reprodução

Autores como Sidney Chalhoub, Alfredo Bosi, John Gledson e Roberto Schwarz mostram que o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas não era alienado

Euler de França Belém, no Jornal Opção

Durante anos, leituras apressadas e redutoras frisaram que Machado de Assis (1839-1908), o maior escritor brasileiro, autor do seminal romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” — que influenciou, entre outros, Philip Roth —, era politicamente “alienado”. Não era, claro. Mas sua sutileza verbal, sua linguagem apurada e irônica e sua ambiguidade à Henry James não são percebidas por leituras à realismo socialista. Sua prosa, cada vez mais estudada no e fora do Brasil, por expert como o brasileiro Alfredo Bosi e o britânico John Gledson, está sempre revelando coisas novas, descortinando seu tempo e, ao seu modo, dialogando com o futuro. Pode-se dizer que Machado de Assis passou a ser mais conhecido na medida que escritores começaram a “repeti-lo”, mesmo sem citá-lo diretamente, e os críticos passaram a lê-lo com mais atenção. Agora, os jornais revelam mais uma “surpresa” do criador de “Dom Casmurro”. Uma fotografia o mostra — tudo indica que se trata do escritor — numa missa campal realizada no dia 17 de maio de 1888, há 127 anos, em São Cistovão, no Rio de Janeiro.

Era uma homenagem à abolição escravidão e Machado de Assis estava presente — próximo da Princesa Isabel e do marido desta, o conde D’Eu. O portal Brasiliana Fotográfica ampliou a fotografia — 15 vezes — e, por isso, ficou mais fácil identificá-lo. A “Folha de S. Paulo” ouviu especialistas em Machado de Assis e eles concordam que a pessoa é mesmo muito parecida com o escritor.

“A foto é uma representação muito importante do contexto da época, e ainda demonstra que Machado estava próximo da questão abolicionista”, disse Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Sales, à “Folha”.

Ubiratan Machado, autor do “Dicionário de Machado de Assis”, afirma que “a presença” do autor de “O alienista” na missa era “fato até hoje desconhecido pelos biógrafos”. O que prova que o autor que morreu há 107 anos — no ano em que nasceu Guimarães Rosa, o Machado de Assis do modernismo literário — ainda é um enigma e carece de novas pesquisas. O livro “Machado de Assis Historiador”, de Sidney Chalhoub, revela que o escritor tinha uma compreensão poderosa de seu tempo — inclusive (talvez sobretudo) da escravidão. Roberto Schwarz e Raymundo Faoro, nos seus clássicos, mostraram o tanto que Machado de Assis era atento ao seu tempo e o registrou com a finura do escritor, não com o registro às vezes seco e frio do historiador.

“Não bato o martelo de que é o Machado, mas realmente parece muito com ele”, disse Valentim Facioli, mestre aposentado da USP, à “Folha”. “Se for realmente ele, é mais uma prova para desqualificar as bobagens de que Machado era indiferente à escravidão. Sempre foi um abolicionista, mas à moda dele, sem militar em grupos ou comícios”, afirma. O livro de Sidney Chalhoub comprova, em detalhes, que as preocupações sociais de Machado são expostas, ainda que não de maneira engajada, na sua prosa perspicaz e antenada.

O pesquisador britânico John Gledson, um dos maiores machadianos internacionais, concorda com seus pares: “Parece realmente o Machado daquele período. Me surpreende que ele estivesse tão perto da princesa. Ele não era exatamente membro da elite, embora já fosse famoso na época”. Se foi uma jogada de “marketing” da princesa, tê-lo tão perto, o tempo mostra que foi um acerto. A fotografia indica que tanta a aristocrata quanto o intelectual plebeu tinham sensibilidade social e estavam conectados com os tempos ventos-tempos.

Go to Top