Posts tagged Adolf Hitler

“Minha luta”, de Hitler, é o livro mais vendido da Alemanha em 2016

0

minha-luta-hitler-800x577

A obra teve 85 mil exemplares comercializados. O número preocupa as autoridades, que temem a propagação da ideias do ditador alemão

Paulo Lannes, no Metropoles

O mercado editorial da Alemanha passou por uma situação inesperada em 2016. A publicação de “Mein Kampf” (traduzido como “Minha Luta”), o livro escrito pelo ditador alemão Adolf Hitler, se tornou o livro mais vendido no país durante o ano passado.

De acordo com a “The Hollywood Reporter“, as 4 mil cópias da obra da 1ª reedição, que possui 1.948 páginas – além de nenhum primor literário, diga-se de passagem – e custa 59 euros, esgotaram das livrarias rapidamente. Por isso, foram necessárias seis novas tiragens ao longo do ano para dar conta da demanda, resultando em 85 mil exemplares vendidos.

O estado da Bavária, região da Alemanha em que o ditador escreveu a “Mein Kampf”, proibiu sua publicação até que caísse em domínio público – o que ocorreu em janeiro de 2016. A volta do livro ao mercado editorial era dada como certa, pois havia curiosos e pesquisadores atrás da obra máxima de Hitler. No entanto, tamanha procura fez com que as autoridades receassem a propagação da ideologia de Hitler.

A preocupação se torna ainda maior diante dos casos de ataques terroristas provocados por imigrantes e extremistas religiosos no país – como o caso do Mercado de Natal em Berlim, em que um caminhão matou 12 pessoas em dezembro de 2016.

Para evitar o ressurgimento do nazismo, as autoridades permitiram somente a edição de “Mein Kampf” com comentários críticos ao longo do texto e intensificaram a fiscalização de obras que fujam a essa regra.

Obras na cadeia
Condenado por alta traição contra o governo alemão em 1925, Hitler aproveitou seu tempo na cadeia para escrever o “Mein Kampf”. Esse caminho não é tão incomum entre os escritores: Miguel de Cervantes, Graciliano Ramos, Oscar Wilde e Fiodor Dostoiévski também produziram livros enquanto estiveram presos.

Porém, a obra de Hitler escapou ao universo literário. Nos anos seguintes à prisão, Hitler e seus seguidores utilizaram o “Mein Kampf” como um verdadeiro manual para propagar ideias antissemitas e racistas na sociedade alemã. Adotado pelo governo nazista, o texto se tornou um verdadeiro símbolo na Alemanha durante a II Guerra Mundial.

Editora vai recorrer de proibição de livro de Hitler e defende liberdade de expressão

0

Grupo afirma que edição condena ideologia nazista por ser crítica e comentada

Publicado no R7

imageA editora responsável pela publicação do livro Mein Kampf (Minha Luta, na tradução do português), escrito em 1925 por Adolf Hitler, vai recorrer da determinação do juiz Alberto Salomão Junior, da 33ª Vara Criminal da Capital, que proíbe a comercialização, exposição e divulgação da obra na cidade do Rio de Janeiro.

De acordo com a Geração Editorial, a decisão é “inócua”, pois o livro pode ser baixado de graça na internet, em vários idiomas, inclusive português. O grupo afirmou que vai recorrer da decisão sob alegação de que a Constituição garante o direito à livre expressão.

Por meio de nota, a editora argumentou que a publicação crítica e comentada presta “um serviço à humanidade por desmentir, refutar e condenar as ideias de Hitler”.

A ação cautelar foi ajuizada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Quem descumprir a decisão terá que pagar multa de R$ 5.000. Mandados de busca e apreensão já foram expedidos. Diretores de livrarias em que ocorrem as buscas serão nomeados como os depositários dos livros apreendidos. O juiz deu o prazo de cinco dias para que as livrarias e seus representantes legais apresentem resposta.

Na decisão, o juiz avalia que o livro incita práticas de intolerância contra grupos sociais, étnicos e religiosos e recorda que a discriminação contraria valores humanos e jurídicos estabelecidos pela República brasileira, justificando a proibição da obra.

Livro proibido de Adolf Hitler vai voltar a ser editado na Alemanha

0

card_meinf_kampf

“Mein Kampf”, manifesto cuja redação foi iniciada numa prisão alemã pelo “pai” do nazismo será reeditado, 70 anos após a sua proibição. Agora, anotado por acadêmicos, para ajudar a compreender a obra.

Alexandre Frade Batista, no Sapo

Setenta anos após ter sido proibido, o mais vil livro alguma vez escrito, na versão de uns, ou uma espécie de “bíblia”, para outros, tem de novo autorização para ser editado. A reedição de “Mein Kampf” acontecerá pela primeira vez desde o final da 2.ª Guerra Mundial, numa versão acompanhada com anotações de acadêmicos.

Em “Mein Kampf” (“A minha guerra”), Adolf Hitler discorreu sobre a ideologia anti-semita e racista que guiou o seu regime Nazi e culminou no conflito militar mundial que terminou com a vitória dos Aliados em 1945. Escrito antes de Hitler ascender ao poder em 1933, foi um ‘best-seller’ na era Nazi. A justiça alemã proibiu-o, sendo uma das razões precisamente o incitamento ao sentimento neo-nazi.

Agora, a nova versão deste que é um dos mais controversos livros alguma vez escritos, surge como resultado da decisão de responsáveis da justiça alemã, tomada no ano passado, de relançar o livro como prevenção do aparecimento outra versão “acrítica”. Isto, porque os direitos de autor (‘copyright’), doados pelos Aliados ao governo regional da Baviera, terminam em 2016.

Disponível a partir de Janeiro, esta versão do livro do ditador será editada pelo Instituto da História Contemporânea, de Munique, cujos responsáveis insistem, de acordo com o FT, que este é um “trabalho acadêmico”, distante das publicações “irresponsáveis” e acríticas disponíveis em alfarrabistas.

“Julgo que a nossa edição chegará para desafiar essas edições”, afirmou o diretor do instituto, Andreas Wirsching. A reedição do livro, com cerca de 2.000 páginas e mais de 3.500 anotações acadêmicas, terá até 4.000 exemplares.

Citado pelo jornal britânico, o presidente do Centro da Educação Política, entidade estatal, afirmou numa conferência de imprensa que é importante quebrar “o tabu do ‘Mein Kampf’”, defendendo que os objetos de difícil acesso geram “o desejo de possuir o que é aparentemente proibido”. Isto, porque o livro, ao contrário do símbolo nazi, a suástica, nunca foi totalmente banido.

Julgamento de ‘Adolf Hitler’ mobiliza alunos de escola em Mogi das Cruzes

1

Júri tem direito a promotoria, advogados, juiz e jurados.
Professor usa julgamento para ensinar história.

Sala se divide em acusação e defesa para julgar 'Hitler'. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Sala se divide em acusação e defesa para julgar ‘Hitler’. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Jenifer Carpani, no G1

Mesmo morto há quase 70 anos, ‘Adolf Hitler’ foi absolvido nesta semana de todas as acusações em um julgamento que aconteceu em Mogi da Cruzes (SP). O júri de sete pessoas decidiu por cinco votos a dois, que o ditador era inocente. O julgamento faz parte de uma aula de história, que acontece há 10 anos na Escola Técnica Presidente Vargas, na cidade.

Anualmente, ‘Hitler’ passa por cerca de seis julgamentos iguais a esse que têm direito a promotoria, acusação, juiz, e o ‘próprio’ réu. Os alunos do 3º ano do Ensino Médio da escola se reúnem para debater sobre os erros e acertos do ditador. O julgamento termina com a decisão do júri, formado por outros sete alunos convidados, que decide após o debate qual dos grupos se saiu melhor.

O professor de história Paulo Ciaccio é o responsável pela implantação do trabalho na escola. “Faço o julgamento há 10 anos. A ideia surgiu após um professor de faculdade fazer uma vez um julgamento de um personagem histórico. Eu acabei pegando a ideia dele para colocar em prática aqui. E funcionou. Agora fazemos todos os anos, virou uma tradição”, diz.

Segundo Ciaccio, neste ano serão 240 alunos do 3º ano que farão os seis julgamentos até sexta-feira (28). Ele explica que cada sala tem o seu e os alunos são divididos: metade da sala acusará e metade da sala defenderá o ditador. “Eu faço um sorteio. Eu não permito que se escolha o que quer fazer, para que não tenha nenhum tipo de tendência. Então eu pego o nome deles antes e faço o sorteio. Nesse ano, por exemplo, tem muitos alunos que queriam defender e serão da acusação”, explica.

Acusação X Defesa

O G1 acompanhou um dos julgamentos de 2014. Poucos momentos antes de começar, os alunos vestidos com roupa social, estudavam e afinavam os últimos detalhes do debate. Visivelmente nervosos, alguns treinavam o que iriam falar – tanto na defesa quanto na acusação – e tentavam, disfarçadamente, descobrir o que o outro grupo estava preparando.

Era clara a divisão na sala. A acusação estudava livros e pilhas de papeis sobre o que os promotores falariam em seguida. A defesa, com bigode e cabelo ‘a lá’ Hitler, se reunia no outro canto da sala, tentando decorar os principais argumentos.

Alunos fizeram 'novo símbolo' para identificar membros da defesa. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Alunos fizeram ‘novo símbolo’ para identificar
membros da defesa. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Para o professor, o trabalho da defesa é mais difícil. “É muito mais difícil defender. Primeiro porque ele já foi condenado pelo tribunal de Nuremberg. Só que aí, apareceram tantas teses tentando atenuar a culpa dele. Ele foi errado, mas uma parte acha que ele não foi tão errado assim. Ele fez coisas boas para o país, isso é incontestável. Mas mergulhou a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Tudo o que ele fez de bom ele acabou estragando”, conta.

“O que eu falo para eles: ele é errado. Ele errou. Só que tem que haver uma segunda visão, que tem que ser no debate. Coisa que não houve. Porque quando ele foi julgado ele tinha se matado, né? Por isso que eu falo, fazer esse trabalho é uma coisa muito dinâmica. É um trabalho muito dinâmico e dá um debate muito acalorado, realmente”, afirma.

De blazer, camisa social, e salto, a estudante Letícia Ponciano se mostrava um pouco nervosa antes do início do julgamento. “É que eu vou falar”, justifica. “Foi bem trabalhoso me preparar, estudamos vários argumentos e tivemos um pouco de trabalho. Estamos levando a sério. Mas acho super importante, porque dá um conhecimento a mais. Se no vestibular cair algo do nazismo, eu estou feita”, diz rindo.

Já o aluno Nilton Toaiari Rodrigues Alves, de 17 anos, se disse tranquilo. “Achei o trabalho na parte pedagógica bem interessante. Conseguimos olhar a história mundial de uma maneira diferente. Tem muito assunto sobre isso e podemos ver também que são muitas as teorias”, diz.

A estudante Nathália Kimberly, de 17 anos, também gostou de ter feito a pesquisa antes do julgamento. “Fiz muita pesquisa, e achei super interessante. Consegui ver os dois pontos e a pesquisa ajuda a gente a se envolver, a saber mais”, diz.

Professor fica caracterizado de ditador para julgamento. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Professor fica caracterizado de ditador para julgamento. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Após o professor lembrar mais uma vez aos alunos que se trata de um trabalho pedagógico, o debate começou pela acusação. A promotoria começou dizendo que não negava avanços na Alemanha durante o governo de Hitler, mas acrescentou que não poderiam ser esquecidos os crimes cometidos e que os fins não devem justificar os meios. Acusaram também o réu de matar judeus e outras minorias e também citaram experiências médicas que os nazistas faziam. Falaram também sobre os campos de concentração e mostraram fotos e vídeos dos locais. A promotoria terminou o debate salientando que a intenção é sempre defender a vida e, por isso, o réu não poderia ficar impune.

Por outro lado, em suas falas, a defesa procurou explicar o Tratado de Versalhes e as perdas da Alemanha após o tratado. Além disso, o grupo questionou o número de judeus na Europa e o número de mortes divulgadas e argumentou que o tifo pode ter matado muita gente. Nas considerações finais, a defesa mostrou vítimas da bomba de Hiroshima, no Japão, e disse que essa foi a pior explosão da história da humanidade. O fim dos dois minutos de considerações finais não deixou que eles terminassem o raciocínio.

O juiz foi até os jurados e os sete alunos votaram. Em seguida, o juiz declarou que por cinco votos a dois, o réu estava inocentado de todas as acusações. Para o professor, no entanto, a maior vitória foi mesmo da sala. “O que importa é que eles se aprofundaram, a pesquisa que eles fizeram e o que eles aprenderam durante ela é muito mais do que eu poderia passar no meu período de aula. Não daria tempo. Mas com a pesquisa eles foram além”, diz sorrindo.

Dinâmica do julgamento

Primeiramente, a sala é dividida em oito grupos, quatro defendem e quatro serão promotoria. Semanas antes do julgamento, os alunos têm que pesquisar e montar suas teses para a defesa e a acusação. “Eles vão trabalhar em torno dessas teses. Depois, em determinado momento, a sala vira dois grupos e eles escolhem entre eles quem serão os advogados que vão falar. Eu não interfiro em nada nesse processo”, diz.

1

Júri assiste julgamento para decidir qual grupo se saiu melhor. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Após o trabalho de pesquisa e montagem das teses, os alunos que irão falar se preparam para o julgamento e os debates. “Eles se organizam porque cada um terá três tempos de cinco minutos intercalados. A promotoria começa e a defesa termina. No fim, há ainda dois minutos para cada grupo, para as considerações finais”, explica. “Então eles vão debatendo, vão criticando e vão mostrando suas ‘verdades’, porque cada um vai ter a sua”.

Paulo diz também que sete alunos formam o júri, que decidirá qual dos dois grupos se saiu melhor no debate. “Nós chamamos duas salas para assistir ao julgamento e pegamos alunos dessas salas para formar o júri. Explico para esses alunos que vão decidir que eles devem esquecer a parte da história analisar o desempenho dos advogados”.

Um outro professor faz o papel de juiz. “O juiz só vai administrar os conflitos. Quem vai trabalhar todinho o conteúdo do debate são os alunos”. O juiz então fica responsável por limitar os tempos de cada grupo e de negar os protestos que são feitos pelos advogados que aguardam a vez de falar. “Todos os protestos fazem parte da dinâmica do trabalho, mas são negados, porque temos que terminar o julgamento ainda hoje”, disse rindo para os alunos, pouco antes do início.

Já o professor Paulo Ciaccio tem outro papel na dinâmica: o de réu. De bigodinho, terno, gravata e suástica no braço, o professor entra no teatro. “Eu sou o personagem Hitler, o réu. Mas é bom lembrar que sou um pesquisador, não sou um nazista ou neonazista. Eu venho assim para deixar o trabalho mais caracterizado”. Durante o julgamento, o professor arranca risadas dos ‘advogados’ e dos outros alunos que assistem aos debates ao fazer sinal de negativo quando os promotores o acusam, interagindo com o que os alunos falam.

Trabalho didático-pedagógico

Em diversos momentos do julgamento, o professor procura deixar claro que este é um trabalho didático-pedagógico. “É um trabalho didático-pedagógico, eu sempre falo para eles, mas é um trabalho interno, escolar, e não para se exibir como nazista no meio da rua”, diz.

Paulo diz que além dos alunos gostarem do julgamento, o trabalho também auxilia na formação deles. “Ajuda a ensinar a pesquisa, o trabalho em equipe, o discernimento da verdade e da história. Qual é a verdade histórica? É aquela que o estudioso, que o pesquisador vai atrás. Então não existe uma verdade só e é isso que eu tento mostrar para eles”, reitera.

No entanto, segundo o professor, ainda há quem julgue de maneira errada o trabalho. “Esse tema é um tabu. Entre os alunos nunca houve quem não gostasse. Os alunos acham a ideia maravilhosa e diferente porque eles estavam acostumados com um padrão de aula tradicional”, diz. “Muitos pais, muitas pessoas religiosas acham que meu trabalho é um absurdo. Porque, como pode alguém, defender Adolf Hitler? Então eu já fui muito criticado inclusive por isso”, lamenta. “As pessoas têm que entender que é um trabalho escolar crítico, de um personagem histórico”, justifica.

“Eu sempre digo que o trabalho é um debate. Não tem vencedor. É um trabalho didático, então um grupo vai acabar se saindo melhor do que o outro. É isso que a gente quer: na hora de trabalhar, na hora de se expressar, na pesquisa é que o aluno acaba tendo um pouquinho de crescimento. Esse é o nosso objetivo, fazer o aluno crescer”, acredita.

Alunos levaram fotos e slides para o julgamento. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Alunos levaram fotos e slides para o julgamento. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

‘Fui salva pela indiferença’, diz amiga de Anne Frank que viveu o holocausto

0

Também judia, Nanette Konig dividiu o campo de concentração com Anne.
Após sair de campo de concentração, ela ficou durante três anos internada.

Nanette Konig está com 85 anos e atualmente mora em São Paulo (Foto: Orion Pires/G1)

Nanette Konig está com 85 anos e atualmente mora em São Paulo (Foto: Orion Pires/G1)

Orion Pires, no G1

Uma sobrevivente do holocausto, contemporânea e amiga de escola de Anne Frank, esteve em Praia Grande, no litoral de São Paulo, para compartilhar suas lembranças com cerca de 700 alunos da Escola Estadual Vilma Catharina Mosca Leone. Aos 85 anos, Nanette Konig, que reencontrou a amiga famosa em um campo de concentração, mora atualmente em São Paulo e, até hoje, luta para superar os traumas causados pelo regime nazista comandado por Adolf Hitler.

Alunos montaram painel com frases de Anne Frank, colega de Nanette na juventude (Foto: Orion Pires/G1)

Alunos montaram painel com frases de Anne
Frank, colega de Nanette na juventude
(Foto: Orion Pires/G1)

Segundo Nanette, sua vida na década de 1940 foi “uma constante luta pela sobrevivência”. Ela foi colega de turma da jovem Anne Frank, que utilizava seu diário ‘secreto’ para relatar o drama vivido pelos judeus naquela época. “Eu e a Anne sempre nos encontrávamos. Ela foi uma pessoa especial, com sorriso no rosto e que esbanjava vontade de viver. Embora para mim, os escritos no livro não fossem novidade, pois eu também vivia aquilo. Sua escrita era impecável e descrevia com precisão a dor e a perseguição do Estado Nazista sobre nós judeus”, explica Nanette.

A última vez que teve contato com Anne Frank foi por meio de uma tela que separava os campos de concentração em Bergen-Belsen, na Alemanha. “Ela estava debilitada demais, praticamente morta-viva”, relata.

A repercussão do diário de Anne Frank foi tão grande que serviu de inspiração para diversos filmes sobre o holocausto. A escritora morreu aos 15 anos de idade de tifo (infecção bacteriana comum na época), no mesmo lugar em que Nanette a havia encontrado da última vez. Seus relatos foram traduzidos para mais de 60 idiomas.

Já Nanette, uma das poucas testemunhas vivas dessa parte da história mundial, relatou aos estudantes momentos que viveu antes, durante e depois do genocídio comandado por Hitler. “Eu estive frente a frente com a morte muitas vezes. Numa delas, um oficial apontou uma arma para mim e minha reação foi mostrar indiferença, pois estava desnutrida, pesando cerca de 30 kg e ainda com muitas dúvidas sobre tudo o que acontecia. Hoje estou aqui e acho que minha indiferença tirou o prazer dele em me matar. Fui salva pela indiferença”, conta.

Ao lado da namorada, o estudante acompanhou atento a palestra (Foto: Orion Pires/G1)

Ao lado da namorada, o estudante acompanhou
atento a palestra (Foto: Orion Pires/G1)

As cenas do passado estão cada vez mais vivas na memória da sobrevivente. A vontade de viver e a serenidade de Nanette ao falar chamaram a atenção do estudante do terceiro ano do ensino médio Emerson Luiz Dias Araújo. “Eu fico até emocionado, porque essa mulher é uma personagem das histórias que a gente só vê nos livros e ela está aqui. É muito legal ouvir com fidelidade o relato de quem viveu tudo aquilo que não fazemos nem ideia do tamanho”, comenta o jovem.

Para o professor de história Magno da Conceição Sousa dos Santos, o encontro foi uma oportunidade dos alunos se aproximarem da história. “O conteúdo sobre a Segunda Guerra Mundial está na grade curricular dos alunos e como eu já fiz essa atividade em um outro colégio, e deu certo, resolvi repetir”, disse.

Professor de história Magno trouxe Nanette pela segunda vez à região (Foto: Orion Pires/G1)

Professor de história Magno trouxe Nanette pela
segunda vez à região (Foto: Orion Pires/G1)

Segundo ele, o contato real com o passado ajuda a evitar erros no futuro. “Tenho certeza que depois de hoje a visão deles (estudantes) vai mudar. Apesar de todo mal que passou, Nanette é uma pessoa do bem, que acredita na mudança da humanidade e nada melhor do que investir nos jovens e na educação”, destaca.

Foi justamente sobre a educação que ela deixou sua principal mensagem. Para a sobrevivente do holocausto, estudar nos dias de hoje não é mais privilégio, mas valor de vida. “Em 1943 não tinha mais escola para os judeus. Era um privilégio se formar e se desenvolver. Agora, o aluno é muito importante, porque ele precisa estar bem para espalhar coisas boas. Eu consegui retomar os estudos depois de tudo o que me aconteceu. Estudei em escola pública e aprendi quatro línguas. Nunca é tarde”, disse.

Levy é aluno do EJA e ficou emocionado com os depoimentos (Foto: Orion Pires/G1)

Levy é aluno do EJA e ficou emocionado com os
depoimentos (Foto: Orion Pires/G1)

Tanto é verdade que, aos 44 anos, Levy Martins Fortes voltou a estudar pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ele não quer perder tempo e se sentiu incentivado pelo depoimento que escutou. “Eu que vivi um pouco do período da ditadura fiquei impressionado com as palavras dela, principalmente em estar perto de alguém que, literalmente, sofreu na pele”, comenta.

Embora Nanette não tenha precisado de apoio psicológico para se livrar do trauma do holocausto, ela ficou internada por quase três anos para se recuperar da desnutrição que sofreu no campo de concentração. Depois, conheceu seu futuro marido, um húngaro cujos tios moravam no Brasil e se casou em 1953. Anos depois, ela se mudou para São Paulo.

Atualmente, a sobrevivente dá palestras sobre o holocausto e também participa de gravações de documentários sobre o assunto. “Eu não quero que ninguém se esqueça que aquilo tudo aconteceu de verdade. Realmente foi uma crueldade sem tamanho o que fizeram com a humanidade, mas eu acredito em dias melhores. Eu fiquei sozinha no mundo com praticamente 14 anos, sem família, sem ninguém e precisava encontrar forças. Acho que é por isso que estou viva, para mostrar que a vida segue mesmo depois de tantas barreiras”, alerta a experiente senhora.

Mais de 700 estudantes, além de pais e professores, acompanharam o palestra (Foto: Orion Pires/G1)

Mais de 700 estudantes, além de pais e professores, acompanharam o palestra (Foto: Orion Pires/G1)

Go to Top