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‘Não gosto de moralizar’, diz autor de ‘Diário de um Banana’

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Ilustração do livro "Diário de um Banana" / Reprodução

Ilustração do livro “Diário de um Banana” / Reprodução

Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Numa história de “Diário de um Banana”, o garoto Greg Heffley se compadece de um colega que maltrata os mais fracos na escola. Em tempos de discurso antibullying, o valentão se sente acuado.

Essa é só uma das abordagens irônicas do americano Jeff Kinney, que credita o sucesso da série à ausência de um tom moralizante. “As crianças sabem ser sofisticadas se dermos crédito a elas.” Leia trechos da entrevista do autor.

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Folha – Você criou “Diário de um Banana” pensando em leitores adultos. O que mudou ao descobrir que o público era prioritariamente infantil?
Jeff Kinney – Eu me sinto mais responsável. Mudei um pouco o tom, sabendo que posso influenciar crianças.

Por exemplo, quando tinha 12 ou 13 anos, eu assistia a filmes adultos sem meus pais saberem. Queria reproduzir isso com o Greg, mas achei melhor não arriscar.

Mas a série continua fora do padrão de livros infantis, não?
Meus livros são meio niilistas. Não gosto de moralizar. Quero que os leitores tirem suas próprias conclusões. Crianças sabem ser sofisticadas se dermos crédito a elas.

Elas percebem quando tentam forçar a moral. Por isso dão um salto grande quando param de ver programas como “Barney e Seus Amigos”. O “Diário” funciona porque as crianças não notam o adulto por trás do personagem.

Personagens perdedores têm estado em alta nos últimos anos, com filmes como “Superbad” e séries como “The Big Bang Theory”. O “Diário” se encaixa nesse cenário?
Acho que sim. Não que eu tenha sentado para escrever sobre bullying, mas escrevo sobre um perdedor. As crianças podem tirar uma mensagem de aceitação, de que não é preciso ser bravo ou forte para estrelar a história.

Mas trato o bullying com um toque delicado. Na verdade, até tiro sarro dessa forte mensagem antibullying.

Se não forem supervisionadas, crianças podem ser cruéis. Muita gente criticou Charles Schulz [criador do Snoopy] porque as crianças das tiras dele eram más. Ele dizia: ‘Mas crianças são más’. Vejo isso o tempo todo. Elas magoam umas às outras de um modo como adultos em geral não fazem.

Como se lembra com tanta riqueza de detalhes as impressões de um pré-adolescente?
Sempre me surpreendo com gente que não consegue se lembrar de sua infância, e descobri que muita gente de fato não guarda detalhes desse tempo. Foi divertido mergulhar em lembranças. Passei quatro anos só escrevendo tudo o que podia recordar da minha infância.

Não foi meio deprimente?
Sim [risos]. Greg vive uma fase estranha. Treinei a pensar como criança de novo, aquela idade narcisística em que elas não pensam nas consequências de suas atitudes e nas pessoas ao redor. Uma coisa boa de crescer é não precisa mais lidar com isso.

O escritor Jeff Kinney, autor do fenômeno infantojuvenil "Diário de um Banana", no hotel da zona sul de São Paulo (Rodrigo Capote/Folhapress)

O escritor Jeff Kinney, autor do fenômeno infantojuvenil “Diário de um Banana”, no hotel da zona sul de São Paulo (Rodrigo Capote/Folhapress)

Professores de hoje são heróis, diz premiada autora infantojuvenil

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Eva Furnari fala sobre educação, tecnologia e comportamento do brasileiro

Publicado no Divirta-se

 (CFAG/Divulgação)

Eva Furnari não costuma conceder entrevistas. “Fico tão concentrada no trabalho”, justifica a autora e ilustradora de livros infantojuvenis publicados e premiados no Brasil e mundo afora – Itália, México, Equador, Guatemala, Bolívia. A italiana de 64 anos, que mora em São Paulo desde os 2, abriu exceção para o Pensar, na ocasião de relançamento de Anjinho, obra de 1998 premiada com o Jabuti de melhor ilustração. E falou, com o mesmo destemor com a qual escreve, sobre bullying, comportamento, novas tecnologias, educação, da falta dela. “A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo”, analisa. Eva assina o texto e as imagens de mais de 60 livros, alguns retirados por ela mesma do mercado. “Porque não estava satisfeita com eles. Tenho uns 60 e poucos livros, então, acontece”. No fim das contas, a escritora, que confessou não ler quando criança por ter hipermetropia, não resiste a uma boa história.

Alguns títulos infantojuvenis estão tão focados na moral da história que são chatos. Que qualidade é imprescindível em um livro para jovens e crianças?
Na literatura cabe de tudo, desde que seja benfeito. Os professores usam muito a literatura na escola e viramos (autor e professor) uma dupla, mas acho que alguns focam mais no valor ético e acabam fazendo um material que é mais racional. Mas, se a literatura infantil não tiver um aspecto emocional, a criança não se liga, não atinge. Sobre o que é imprescindível, acho que, em primeiro lugar, a qualidade do texto. Precisa ser escrito em linguagem adequada pois são leitores ainda em desenvolvimento, mas acho que uma boa história é uma história bem contada. Normalmente, o que interessa e envolve o adulto vai envolver e interessar à criança também.

Você se considera uma escritora realizada?
Realizada, com certeza. Tenho mais de 30 anos de carreira. E o carinho enorme que recebo de professores. Às vezes, não tenho tempo de atender as pessoas… Mas, por outro lado, me sinto começando junto com desafios novos. Não consigo repetir projetos. Quando me pedem “faz um livro parecido com aquele e tal”, não consigo. Se repetir, acho que fica vazio, irracional, a gente precisa criar com alma. Nesse sentido, cada livro é uma experiência nova.

Você tem uma relação com personagens que, nos padrões da sociedade, parecem perdedores. Felpo Filva; Mel, que sofre bullying em Nós; os personagens de Listas fabulosas. Todos eles, no entanto, são anti-heróis encantadores. Tem algo de autobiográfico nisso?
Acho que aconteceu com todo mundo. Todo mundo tem um desajuste. O ser humano quer ser reconhecido, protegido, olhado com consideração, amor. Uns são mais intensos, sofridos, outros mais leves, mas acho que hoje existe uma tentativa de maior cuidado com o outro. A competição é natural, a disputa por liderança está em cachorros, mas somos racionais e podemos tentar ver de um ponto de vista diferente. É natural uma criança querer ser mais do que outra e fazer isso diminuindo o outro, mas é dever do adulto oferecer outras alternativas, ver que o problema existe naquele que quer humilhar. Acho que essa consciência é do adulto.

Sua infância foi feliz?
Foi sim, muito feliz. Tinha todas aquelas mais brincadeiras

Que qualidades você admira nas crianças de agora? Quais não admira?
A criança é o resultado de como está sendo educada. Ela ocupa o espaço que o adulto deixar. Admiro o interesse delas por tudo, suas ideias, suas observações. Mas muitas vivem com a falta de respeito. E isso não admiro. Não respeitar professores, colegas, mais velhos. Não admiro criança folgada, mimada.

E o que você pensa da educação hoje?
Estamos em um momento de confusão, com novos padrões. A educação saiu de autoritária e centralizada, da época da ditadura militar, para, com a guerra, a emancipação da mulher, um modelo democrático. E em todas as instâncias: governo, família. A tentativa é conciliar a necessidade de ordem coletiva com liberdade pessoal. Na educação estamos em fase experimental sobre como equacionar este conflito. A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo. Hoje, o desafio maior é comportamental, de relacionamento, da figura de autoridade. Os professores são verdadeiros heróis e me alegro de fazer parte desse time que batalha. O governo parece ser do contra e, em vez de ajudar, atrapalha. Mas acho que estamos indo bem: existe uma democracia em construção.

(mais…)

Aos dois meses, já é possível aproximar o bebê dos livros

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Isabela Barros, no UOL

Veja sugestões de livros para criar o hábito da leitura desde bebê

A pedagoga Tatiana R.C. Villar lê para o filho Giovanni, de dois anos, desde quando ele estava na barriga dela. Por volta dos quatro meses, ele já tinha livros próprios para bebês, de tecido e de material plástico. Quando começou a engatinhar, ganhou uma caixa de títulos infantis, para manusear quando quisesse. De lá para cá, o acervo não sai das mãos do menino, que desde que tinha um ano chama a mãe para sentar no chão e ouvir suas histórias, por ele decoradas.

Grávida do segundo herdeiro, Felipe, Tatiana pretende repetir a experiência bem-sucedida de incentivo à leitura. “Estimular o gosto pelos livros é uma das coisas mais importantes que eu posso fazer pelos meus filhos.”

Todo pai sabe que formar leitores é uma tarefa que soma pontos à educação dos filhos. Mas, que dá para começar bem cedo, como na casa dos Villar, a maioria das famílias nem imagina. De acordo com Célia Regina Serrão, professora de pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo, é possível levar livros de plástico para a banheira, por exemplo, a partir dos dois meses. “Esses objetos devem fazer parte da relação de afeto entre o adulto e a criança. É importante estimular essa interação desde sempre”, fala.

Nesses primeiros meses, diz Célia, entram em cena os chamados livros “de nomear”, sem uma trama específica, de modo que, para as crianças, cada página com figuras conte uma história. “O importante é que a criança comece a ter conteúdo para depois quando começar a falar”, afirma.

Mais adiante, quando as crianças começam a andar, é o caso de apresentar os títulos de capa dura. “Aí já temos histórias curtas, mas sem a preocupação de ensinar as letras”, diz Célia. “Literatura é para entreter, nada deve ser forçado.”

Giovanni Villar, de dois anos, já ouvia histórias na barriga da mãe

Giovanni Villar, de dois anos, já ouvia histórias na barriga da mãe

A professora também tem um exemplo bem-sucedido de estímulo à leitura em casa. Sua filha, Larissa, hoje com 22 anos, sempre foi acostumada a dormir depois de ouvir a mãe ler alguma história. “Tínhamos esse cuidado a partir dos oito meses”, diz. “Além de ela sempre ter uma estante para os próprios livros no quarto, Larissa se orgulhava muito disso.”

Segundo Jacqueline Barbosa, professora do Departamento de Linguística da PUC de São Paulo, outra dica é interagir com os leitores iniciantes que já falam fazendo perguntas sobre as tramas e as ilustrações. “Deixar que a criança conte a história é outra prática boa para a formação do hábito de leitura.”

Doutora em letras e mestre em literatura infantil, Maria Heloísa Melo de Moraes, professora aposentada da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), diz que, para crianças menores de dois anos, a relação com a leitura e os livros começa com a aproximação com esse objeto.

“Para a criança, o livro sempre irá competir com o universo lúdico dos brinquedos, por isso deve ser apresentado, inicialmente, como um deles”, diz Maria Heloísa.

De acordo com a especialista, também pode ser interessante deixar que os leitores iniciantes folheiem revistas. “Como seu desenvolvimento motor não permite que as crianças virem as páginas sem rasgar, elas tendem a se encantar com a brincadeira”, diz.

Além da prosa, seu bebê pode se divertir com a poesia. “O som da palavra rimada atrai a criança, daí os poemas serem tão usados nos primeiros anos de escolaridade, facilitando a aprendizagem e prendendo a atenção dos pequenos”, declara Maria Heloísa.

Dicas e orientações à parte, vale lembrar que, com a leitura e com todo o resto, nada vale mais do que o exemplo. Ou seja, quem quer formar filhos leitores precisa começar a ler mais também. “A criança aprende mais com a observação de comportamentos e atitudes do que com sugestões, ordens e indicações do que é certo ou errado”, fala a doutora em letras.

Dez dicas para formar pequenos leitores
1 – Compre livros de tecido e de plástico para que as crianças se acostumem com esses objetos desde os primeiros meses;

2 – Leia para o seu bebê desde sempre;

3 – Monte um espaço exclusivo para os livros dele, como uma caixa ou uma estante pequena no quarto;

4 – Deixe que ele folheie revistas à vontade, mesmo que seja para rasgar algumas páginas;

5 – Estimule conversas sobre as histórias e as ilustrações;

6 – Leia para ele dormir;

7 – Leve-o para livrarias e sessões de contação de histórias a partir do momento em que ele tiver concentração para ouvir essas narrações, geralmente depois de um ano;

8 – Leia poesias para ele;

9 – Apresente-o aos livros de capa dura quando ele começar a andar;

10 – Dê o exemplo e leia mais você também.

Sugestões de bons livros para crianças

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A arte literária dos indígenas

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Daniel Munduruku, autor de 43 títulos: "Sou escritor por vingança"

Daniel Munduruku, autor de 43 títulos: “Sou escritor por vingança”

Rachel Bertol, no Valor Econômico

Escritor indígena? Literatura indígena? É comum ler reportagens sobre índios no Dia do Índio e, embora os brasileiros já comecem aos poucos a se acostumar com a atuação dos novos intelectuais indígenas – militantes das próprias causas -, pouco ainda se ouve falar dos “escritores indígenas”. E muita gente também estranha: literatura indígena? “Sou escritor por vingança. Como fui obrigado a ir para o colégio, aprendi a escrever e me tornei escritor”, diz Daniel Munduruku, autor de 43 títulos (a maior parte para crianças), que terá este como um ano de comemorações.

O Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, do qual foi um dos criadores com o apoio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), está celebrando uma década. A edição comemorativa será realizada em junho, no Salão do Livro para Crianças e Jovens, no Rio. Dessa edição vão participar 25 indígenas e será lançada uma antologia com textos inéditos de 14 escritores para o público adulto (Munduruku vai escrever uma crônica sobre o espanto das pessoas quando veem o índio usando paletó e cocar). Além dele, participam, entre outros, Cristino Wapichana, Olívio Jekupé, Graça Graúna, Manuel Moura Tucano, Rony Wasiry, Yaguarê Yamã – este último teve títulos selecionados para o catálogo internacional da FNLIJ de 2013, apresentado no mês passado na Feira do Livro para Crianças de Bolonha (a maior parte dos autores indígenas atua no segmento de livros infantis). No encontro, também se planeja uma exposição e serão realizadas oficinas artísticas com educadores, além das atividades com crianças.

Mas nessa edição haverá outra importante comemoração para Munduruku: os dez anos do lançamento de seu livro “Meu Vô Apolinário” (Studio Nobel), que conta a dificuldade de uma criança indígena de aceitar sua condição. O livro ganhou o Prêmio de Tolerância da ONU e foi decisivo para estimular outros indígenas a escrever.

Lançamento no fim do ano de “La Poésie du Brésil” na França começa com capítulo só com narrativas míticas e cantos de vários povos indígenas

No entanto, se o movimento dos autores indígenas é novo no Brasil – um movimento do século XXI -, Munduruku diz que não são autores novos: as histórias de que tratam remetem a mitos de um tempo em que gente e bicho viviam como homem e mulher, conversavam de igual para igual. Para aceitar esse movimento como plenamente literário, torna-se necessário, portanto, aceitar que essas histórias de outros tempos – transmitidas em cantos e narrativas orais, muitas colhidas por antropólogos e viajantes ou ouvidas pelos indígenas diretamente em suas aldeias – também sejam reconhecidas, e conhecidas, como expressões literárias.

Sérgio Cohn, editor da Azougue, acaba de dar um importante passo nesse sentido, com o lançamento de “Poesia.br”, caixa com dez livros no qual faz uma coletânea de poetas brasileiros da contemporaneidade até os tempos da colônia e mais além, com uma seleta que intitulou “Cantos Ameríndios”. São cantos de diferentes povos indígenas – bororo, caxinauá, marubo, embiá-guarani, maxacali – publicados apenas em português sem notas de rodapé ou explicações acadêmicas. Para realizar o trabalho, contou com a colaboração de pesquisadores acadêmicos.

Na semana passada, no lançamento do “Poesia.br” em São Paulo, a leitura dos cantos ameríndios por uma atriz foi o momento que mais emocionou o público. “Acho que tem um interesse e eu tenho a impressão de que as pessoas estranhavam muito mais antigamente”, conta o editor, que, mesmo assim, ainda sente certa resistência. “Eu quero que esses cantos tenham validade por si, assim como um poema de Gonçalves Dias, João Cabral ou Drummond”, afirma. Por isso, a opção de não colocar explicações, que considera desnecessárias quando o objetivo é despertar o encantamento do leitor.

Outro lançamento que reforça essa tendência é “La Poésie du Brésil” (Éditions Chandeigne), publicado no fim do ano na França. Organizada pelo franco-brasileiro Max de Carvalho, a antologia é das mais completas já lançadas no exterior com a poesia brasileira e começa com o capítulo “Les Immémoriaux” (Os imemoriais), reunindo narrativas míticas, cantos de amor e cantos xamânicos de diferentes povos indígenas.

“Quem ainda recusa à poesia indígena o status de literatura deveria se perguntar o que entende por uma e outra. A poesia dos ameríndios da América do Norte, oral, dançada, xamânica, influenciou diretamente os maiores poetas americanos da segunda metade do século XX, de Bob Creeley a Charles Olson, passando por Zukowski e sobretudo Jerome Rothenberg. Introduzir os cantos imemoriais na poesia nacional é uma subversão necessária em relação a uma visão esclerosada”, defende Carvalho.

Cohn lembra na introdução de “Cantos Ameríndios” que os escritos indígenas tocam em questões importantes para a poesia contemporânea, como “o esboroamento da autoria e das fronteiras das expressões artísticas” e “a presença da performance”.

Os textos indígenas, porém, ainda provocam bastante perplexidade, haja vista a reação ao livro “Meu Destino É Ser Onça” (Record), em que o escritor Alberto Mussa reconstitui mitos tupinambás para “incorporar a epopeia tupinambá à nossa cultura literária”. O livro não é considerado antropológico, por sua liberdade criativa, mas causa desconfiança nos estudos literários. Em tese defendida neste ano sobre sua obra, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a obra provocou controvérsia.

“O orientador disse que era um estudo da área de antropologia. Mas ele está certo, desde que tenha considerado o critério de ficção. Como não é ficção do autor, ele preferiu excluir o livro de uma dissertação sobre a obra ficcional. Eu só não concordaria se ele tivesse dito que narrativa mítica não é literatura”, diz Mussa, para quem a narrativa tupinambá, no entanto, como defende no livro, deveria “figurar em todos os cânones da literatura brasileira, fosse qual fosse a definição desse conceito”.

“Livro adulto” de J.K. Rowling acerta ao se dedicar a tema social, mas erra em estilo

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Alcir Pécora, na Folha de S.Paulo

Em termos estilísticos, “Morte Súbita”, primeiro “romance adulto” (seja lá o que isso queira dizer) de J.K. Rowling, autora de “Harry Potter”, é um livro sem interesse. Em particular, é ruim o emprego das comparações e metáforas, as quais quase sempre trazem referências juvenis banais.

Pode-se alegar que o objetivo da autora é manter-se no horizonte das personagens do romance, vários deles adolescentes, mas o recurso não ajuda o conjunto do romance a ver além delas.

Também o procedimento de imitar o modo de falar de drogados e de pessoas sem instrução funciona mal, pois trai um artificialismo rudimentar que dificulta em vez de franquear o efeito “realista” desejado.

O narrador onisciente, que sabe tudo o que as personagens fazem, falam e pensam, é o mais quadrado possível. Os seus comentários colocados entre parênteses, assim como os diálogos das personagens pontuados com os sentimentos verdadeiros em itálico, são procedimentos tão primários como balões de pensamento em gibi.

Carlo Allegri/Reuters
J.K. Rowling, autora da série "Harry Potter", lança "Morte Súbita"
J.K. Rowling, autora da série “Harry Potter”, lança “Morte Súbita”

Isto dito, no âmbito do seu próprio gênero retrô de romance social -os romances de George Sand (1804-1876), por exemplo, foram bem lembrados pela crítica europeia-, é um bom livro, no sentido de que se dedica ao “estudo” de uma questão social importante.

E a questão é a seguinte: uma determinação de ajustes financeiros e fiscais emanada do governo central inglês repercute no conselho de um distrito de West Country (a mesma região de origem da autora) basicamente em termos de corte dos benefícios sociais para uma comunidade carente que se formara nos limites do lugarejo.

A face pior dos cortes é que eles fornecem o mote político que acolhe todo tipo de mediocridade e preconceito provincianos.

PERSONAGENS

Para mostrá-lo, a autora apresenta oito núcleos familiares, com a formação básica de um casal, a maioria em torno de 40 anos, e seus filhos, quase todos com 16 anos.

Metade das famílias é de gente local e bem estabelecida, e a outra metade é formada por egressos de outras cidades, sendo uma delas estrangeira, de origem sikh, além de um núcleo totalmente desajustado, no qual à falta de condições materiais se junta a dependência de heroína, o assédio do traficante e as dificuldades de manter a guarda do filho pequeno.

Esse conjunto, uma aglomeração organizada de 19 adultos e 11 filhos, admite escalonamentos. Por exemplo, de cada núcleo o narrador tende a enfocar com destaque apenas um adulto e um adolescente.

E dentro desse grupo menor, são protagonistas, no sentido de que têm direito à revelação direta de seus pensamentos mais íntimos, oito adultos e cinco adolescentes.

RAIVA

A raiva é o traço comum entre todas as personagens. Ela penetra as relações sociais, nas quais os mais ricos odeiam os mais pobres e são odiados por eles, mas também as geracionais, pois pais e filhos estão em constante guerra entre si, e ainda as relações locais, nas quais os moradores antigos e os mais recentes se detestam, e todos odeiam o mundo real.

E isto vai até o ponto de abjeção em que estupidez, ressentimento e racismo se alimentam e finalmente explodem, previsivelmente, contra o que está mais perto e é mais indefeso.

Ou seja, a falta de fantasia, a recusa da “mágica”, de que se lamentam os fãs de “Harry Potter”, é o que há de melhor nesse livro.

A dureza de suas constatações nada originais tem a dureza das coisas, tais como caminham na Inglaterra e no mundo.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária da Unicamp e autor de “Máquina de Gêneros” (Edusp).

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