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Pais de alunos usam correntes contra agressões perto de escolas no RJ

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Silvia Baisch, no UOL

Mãe leva corrente ao buscar filhos em escola do Rio. "Para me defender, não para machucar alguém" (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe leva corrente ao buscar filhos em escola do Rio. “Para me defender, não para machucar alguém” (Foto: Arquivo pessoal)

O começo do ano letivo está marcado por assaltos e agressões a alunos de escolas particulares do bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Amedrontados, alguns pais tentam se proteger por conta própria e circulam nas redondezas portando pedaços de paus e correntes.

As instituições estão próximas à avenida Conde de Bonfim, na altura da rua Uruguai, importante corredor de comércio e edifícios residenciais. Chama a atenção o fato de os agressores, segundo relatos, utilizarem camisetas da rede municipal de ensino.

“É um terror, um circo de horrores, especialmente para quem tem filhos adolescentes que querem ter liberdade de ir e vir. Fazem corredor polonês e batem gratuitamente”, relatou Alice, 52 anos, que preferiu não ter o sobrenome revelado por dizer que já está “marcada” pelos agressores.

Ela é mãe de dois meninos, de 14 e 17 anos, e afirma que, na última semana, próximo ao horário de saída das aulas do turno da manhã, levou uma corrente consigo e acompanhou, à distância, a volta dos filhos para casa. “Para me defender, não para machucar alguém”, afirma. Um dos filhos de Alice, que sempre voltou sozinho da escola, chegou a ser assaltado três vezes no intervalo de uma semana, no ano passado. “Mas no último mês a situação piorou muito”.

Há pouco mais de dez dias, um adolescente de 17 anos voltava da escola para casa quando apanhou de um grupo de cinco jovens, por volta do meio-dia. “Ele recebeu um tapa na cabeça e, quando olhou pra tás, começou a receber socos. Foi uma agressão gratuita, não tentaram roubar nada”, relata o pai do garoto, Luiz Cláudio, 50, que também prefere manter o sobrenome em reserva. Todos os agressores utilizavam camiseta da rede municipal, mas não é possível afirmar se eram realmente alunos.

Após levar o filho ao médico e à delegacia para registrar queixa, Cláudio conversou com o adolescente e fez questão de que ele não mudasse a rotina. “Mas pedi que passasse a andar em grupo com os amigos”, afirma. “Agressões como essas são praticadas com a certeza de que a vítima não vai revidar. Meu filho tem o perfil da vítima: baixinho, magrinho e usa óculos. Nunca se envolveu em confusão e nunca havia relatado nenhum tipo de provocação na rua”.

Providências

O coordenador do Colégio Palas, Nelson Duarte Jr. –onde estudam os filhos de Alice e Cláudio–, disse que vem conversando com diretores de escolas municipais para definir ações de orientação com os alunos em sala de aula, em ambas as redes. “O bairro precisa de uma política de união. Já nos reunimos com o 6º BPM para traçar estratégias e criarmos um grupo de superação desses problemas”.

Duarte faz questão de ressaltar, no entanto, que o problema não acontece apenas com os alunos da instituição, mas também com estudantes de outras escolas e transeuntes em geral. “O que estão fazendo está muito longe do colégio. Ameaçam pessoas, puxam cabelo, cospem. As instituições responsáveis precisam pensar em políticas sociais, em uma forma de integrar esses adolescentes”, acredita.

De acordo com o titular da 19ª Delegacia de Polícia, na Tijuca, Deoclécio de Assis, não havia nada relevante em relação a agressões sofridas especificamente por estudantes das escolas particulares da área até a última terça-feira (10/3). “De concreto, temos apenas o registro de um aluno que apanhou de um grupo de estudantes que usava camiseta de escola municipal”. Assis disse ser preciso que os pais registrem as ocorrências na delegacia.

O comando do 6° Batalhão de Polícia Militar (BPM – Tijuca) informou, por meio de nota, que “os diretores das escolas da localidade estão sendo contatados para que a unidade escute suas demandas”. O texto diz ainda que o policiamento da região foi reforçado desde a última segunda-feira (9/3), “através de motopatrulhamento em locais e horários determinados, já de acordo com os primeiros contatos realizados pelo batalhão com os diretores”. A nota não informa, no entanto, o quantitativo desses policiais, já que a assessoria de imprensa da PM alega não divulgar o efetivo por uma questão estratégica.

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

Continuei dando aula com olho sangrando, diz professor atingido por azulejo

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Bruno é professor de biologia da rede particular de Salvador (Foto: Arquivo pessoa)

Bruno é professor de biologia da rede particular de Salvador (Foto: Arquivo pessoa)

Publicado por BBC Brasil [via UOL]

Um professor de biologia de uma escola particular na Bahia reverteu a hostilidade dos alunos após discursar por uma hora com o olho sangrando depois de ter sido atingido por um azulejo atirado por um aluno.

O caso ilustra o problema da violência contra professores, um tema de pouca ressonância nos programas eleitorais, mas que foi destacado por leitores da BBC Brasil em consultas sobre os grandes desafios da educação promovidas pelo #salasocial, que usam as redes sociais em busca de uma maior integração com o público.

A pedido da BBC Brasil, internautas compartilharam diferentes relatos sobre atos de violência contra profissionais de ensino. A partir de indicações dos leitores, ouvimos professores das redes pública e particular sobre a questão. Leia alguns relatos:

Azulejo no olho

Bruno, professor de biologia da rede particular de Salvador

“Era meu primeiro dia de aula numa escola privada de Itapuã, em Salvador (BA). A escola era privada, bem popular, com preço baixo de mensalidade e quase todos os alunos eram moradores do próprio bairro.

A direção parecia tratar o estudo como um negócio local mesmo, sem proposta pedagógica nenhuma. Fui contratado para substituir uma professora de biologia que não aguentou ficar por lá.

Meu primeiro contato com os estudantes foi por meio de um azulejo azul, arremessado por um aluno do 3º ano em meu primeiro dia de aula. Fui atingido acima do olho esquerdo e lembro de ter sangrado muito.

Decidi não recorrer à direção e tentar resolver tudo ali na sala mesmo. Seriam duas aulas seguidas, um total de 100 minutos.

Fiquei esse tempo inteiro sangrando e discursando sobre o ocorrido com os alunos. Tentei mostrar o lado do professor, que está ali ralando para ganhar pouco. Falei do contexto socioeconômico do bairro deles, que era muito precário, abandonado pelo Estado, e que eles deveriam aproveitar as oportunidades que tinham para aprender, trocar experiências, tentar promover uma vida de mais qualidade para eles, para a própria família, para o bairro.

Fui dando exemplos de coisas que aconteciam na comunidade. Ao invés de a população se organizar para melhorar a própria vida, eles mesmos se entrematavam, se agrediam, depredavam o próprio bairro… Atitudes como essa não ajudariam em nada.

Mais por compaixão pela minha situação, já que fiquei mais de uma hora falando enquanto sangrava, do que pelo discurso, alguns alunos aos poucos foram trazendo exemplos de pessoas que eram cordiais no bairro, que ajudavam uns aos outros etc.

O rapaz que jogou o azulejo, que eu sabia quem era, mas acabou achando que ficou no anonimato, ficou o tempo todo calado.

Fiquei dando aula nessa escola por apenas oito meses, pois surgiu outra oportunidade melhor para mim, mas depois desse dia senti uma aproximação melhor dos alunos comigo, parece que eles entenderam, acabamos ficando muito amigos… Inclusive esse aluno que jogou o azulejo ele passou a ser bem cuidadoso e respeitoso.

Acredito que tenha sido uma forma de se autoafirmar como o ‘malandro’ da sala, o cara perigoso, para ganhar certa autoridade perante os colegas. Acho que nesses lugares mais sofridos, essa é uma forma de elevação de autoestima comum entre os jovens. É se afirmar pela violência.”

‘O PCC entrou na escola’

Felipe, professor de matemática da rede pública de São Paulo

“Em minha escola, há toque de recolher. Os professores descem o morro em comboio. A polícia entra na escola e agride alunos violentos. Ficamos numa região extremamente vulnerável em termos de segurança. A área é comandada pelo PCC.

Por um tempo, dois alunos estavam colocando bombas no banheiro. Aquela velha história, sabe? Não, você não sabe.

Após algumas bombas e carros de polícia aparecendo atrás dos responsáveis, o chefe da facção criminosa entrou no colégio. Ele passou de sala em sala, uma por uma, dizendo que as bombas estavam atrapalhando o negócio dele.

E eu, professor lá, sem poder fazer nada. O homem dizia que, se os responsáveis continuassem, haveria revide. Ele não queria polícia toda hora na região, isso é ruim para as vendas.

No dia seguinte, já não tinha mais bomba. É assim que se resolvem as coisas?”

‘Quebrou um vaso em minha cabeça’

Antônio, professor de história da rede pública de São Paulo

“Minha aula era das últimas da tarde. Quase no fim, dois meninos apareceram querendo entrar. Não deixei e mandei eles conversarem com a coordenadora. Ela pegaria seus dados e entraria em contato com a família para entender o atraso. Essa é a rotina normal.

Mas o menino estava muito alterado e partiu para a grosseria. Eu via que ele estava nervoso. Ele piorou, continuou xingando e ofendeu minha mãe, meu pai, minha família. Sexta série, 12 anos. Veja bem.

Ligamos imediatamente para a mãe dele. Ela chegou por volta de 18h10. Na sala de espera, ele sentou de um lado, a mãe do outro, ambos em frente a uma mesa de centro. Ali, ficava um vaso de flores de argila, trabalho feito por um aluno em sala de aula.

‘O que foi que aconteceu com meu filho?’, perguntou a mãe. Antes de eu responder, o vaso quebrou com força na minha cabeça. Era o menino.

Desmaiei na hora e, aos poucos, voltei. O impacto foi muito forte. Aí não teve mais conversa: fui direto para o hospital, fui medicado, e felizmente não houve nada mais grave.

Ele foi transferido para outra escola ali do lado. Continuávamos nos vendo. Aos poucos, voltamos a ter contato. Ele passou na minha casa, pediu desculpas. Desculpei.”

‘O trauma continua’

Jorge, professor de sociologia da rede pública de São Paulo

“Toda vez que eu ia para a lousa, eles começavam a bater as mesas contra o chão. Era um barulho ensurdecedor. Quando eu me virava, todo mundo ficava quieto. Voltava e eles repetiam de novo. Depois paravam. Sem fim.

Eram dois alunos que comandavam a sala, eu sabia disso. Uma hora, já tremendo, eu não aguentei e dei uma bronca neles. Quando voltei novamente à lousa, um deles falou um palavrão e ameaçou jogar uma cadeira na minha cabeça. Sempre anonimamente. Covardes.

Durante muito tempo, eu entrava em pânico antes de entrar na sala de aula. Ficou só na ameaça, mas o trauma continua. Você vive com medo.

Foram vários episódios, não só comigo como com colegas. Há muitos alunos que ameaçam, quebram carros, muitos já cometeram transgressões e voltaram para ressocialização.

Sei de um caso em que jogaram uma toalha no rosto de uma professora e a socaram. Casos de professoras que foram empurradas nas escadas. Ficou tudo tão banalizado que não sei nem se essa reportagem pode ajudar.”

Escolas, alunos e professores ‘não falam mesma língua’

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Ricardo Senra e Renata Mendonça, no UOL

Quando o assunto é a violência dentro das salas de aula, não parece haver consenso sobre suas principais causas.

Professores, diretores de escolas, alunos e especialistas em educação ouvidos pela reportagem da BBC Brasil apontam para direções diversas, sugerindo que agressões contra educadores seriam fruto do histórico familiar dos alunos, da falta de políticas públicas e policiamento e também de professores mal preparados – e até mesmo agressivos.

A violência em sala de aula contra professores foi um dos temas destacados por internautas em posts de Facebook e no Twitter como um dos que deveria receber mais atenção por parte dos candidatos presidenciais, em uma consulta promovida pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais como fonte de histórias originais.

Enquanto ninguém fala a mesma língua, o MEC (Ministério da Educação) diz não ter dados unificados sobre a violência escolar. Confrontado pela reportagem, porém, o Inep, órgão ligado ao ministério, reconheceu que o tema faz parte da Prova Brasil – avaliação nacional com respostas voluntárias de professores, alunos e diretores. Os últimos dados, de 2011, foram tabulados a pedido da BBC Brasil.

Os resultados apontam que um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos. Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças. Aproximadamente um a cada 50 apanhou de estudantes.

“É simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece”, alerta a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef.

“A escola tem culpa, porque se isola das comunidades e não se atualiza. E os professores têm péssima formação, simplesmente não conseguem, e muitas vezes nem tentam, conquistar os alunos”, diz. “No fim, todos são vítimas.”

Descompasso

Para pesquisadora, a desvalorização do ensino resumiria este descompasso. “A estrutura das escolas parou no século 19, os professores dão aulas como no século 20 e os alunos, sempre conectados, vivem no século 21”, diz. Ela afirma que as escolas vivem um “processo de abertura” há 50 anos.

“Se antes havia pouco espaço para as classes populares, hoje a escola se massificou. Todos entram – nem sempre continuam, mas entram. Mas a relação professor–aluno não mudou nada nesse meio tempo e os educadores não sabem lidar com esse novo interlocutor, que antes estava na rua, do lado de fora”, diz.

Abramovay diz que a violência não é consequência direta do entorno. “Há escolas em bairros tremendamente violentos que têm resultados satisfatórios. E colégios particulares, ricos, com problemas enormes”, observa.

A pesquisadora aponta o trabalho participativo, envolvendo pais e alunos na construção de regras e do currículo escolar, como caminho para reduzir a resistência e a agressividade. “Os muros das escolas não são simbólicos”, afirma. “Eles são reais, ninguém penetra ali. Assim, a escola não é nem protegida, nem protetora”, diz.

O educador Jorge Werthein, presidente da Unesco no Brasil entre 1996 e 2005, também diz que a escola “precisa ser acolhedora” e critica a formação dos colegas.

“Diferente do médico, que faz residência, a maioria dos professores que se forma não tem nenhuma experiência em sala. Só pisam lá no primeiro dia, encontram coisas que nunca viveram e não sabem lidar”, diz.

Para Wherthein, os educadores precisam se dar conta “da violência que eles próprios exercem sobre os alunos”. “Perseguição, homofobia e exageros nas repreensões” seriam exemplos. “Outra agressão simbólica é o abismo tecnológico que existe entre professores e alunos”, diz.

Celular

Com um olho no smartphone e outro no repórter, os alunos entrevistados parecem concordar com a avaliação. “Parece que eles vivem fora do tempo. O professor pede para a gente copiar a lição do quadro, mas eu podia tirar uma foto com o celular e prestar atenção no que ele diz”, reclamou uma estudante da 8º ano de uma escola em Diadema, ao sul de São Paulo.

A seu lado, espinhas no rosto e sorriso tímido, um adolescente do ensino médio completa. “Sei que celular pode atrapalhar. Não é para usar Facebook e Whatsapp na aula. Mas quando ajuda, por que não, né?”, questiona.

Eles reconhecem que as agressões são constantes. “Na semana passada a professora chamou a atenção de um aluno bagunceiro e ele perguntou se ela não tinha medo de morrer. Ela deu risada e continuou passando a lição”, contou uma estudante do 1º ano do ensino médio.

“Tem brigas combinadas também. Os alunos fingem estar dando porrada para o professor vir separar e apanhar também”, completou. Professores ouvidos pela reportagem disseram que a escola, hoje, seria “um espaço de conflito”.

“Os professores não são santos que caíram do céu e vêm educar com toda a candura. Sempre que passo pelo pátio me chamam de vagabunda. O educador tenta legitimar a sua autoridade, não consegue, e aí revida”, disse uma ex-professora da rede pública, que não quis se identificar.

Eleições

Para Wherthein, é uma tradição que a violência contra professores e alunos não faça parte da agenda dos principais candidatos a cargos políticos. “A agenda da educação é genérica. ‘A educação é importante’… ‘Vamos aumentar os investimentos e a carga horária’… ‘País bom é país educado’. Nunca nada é objetivo”, critica.

O pesquisador afirma que o cotidiano das escolas, ponto crucial na discussão, passa à margem do discurso político.

“Educação e segurança estão sempre no topo das preocupações do eleitorado. Mas os candidatos não entenderam que há cruzamento entre estes temas. Num país como o Brasil, com taxas de morte tão altas (somos um país sem guerra), os conflitos são resolvidos sempre de forma violenta. Dentro da escola inclusive. Então a violência na escola não é algo que vem só da vizinhança, das famílias, é algo que faz parte da nossa sociedade e aparece em todos os setores”, diz.

Wherthein diz que uma “nova cultura da solução não-violenta de conflitos” deve ser construída dentro das escolas.

“O caminho não é, portanto, aumentar os mecanismos de repressão, mas aumentar a prevenção por meio da educação e da disseminação de uma cultura pacífica. Escolas e universidades têm que discutir violência! Só assim se transforma as coisas – e essa responsabilidade está nas mãos dos candidatos”, afirma.

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