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Posts tagged água

Desligue a TV e beba um livro

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Felipe Turioni, na Galileu

Graças a um grupo de cientistas e designers norte-americanos, desde maio os livros deixaram de ser apenas fonte de conhecimento para virar também fonte de água potável. A ONG Water is Life criou um livro cujas folhas servem como filtro para purificar o líquido. As páginas do Drinkable Book (“Livro de Beber”, em tradução livre) trazem textos referentes à higiene e aos perigos de consumir água não tratada. Na função de filtro (veja como funciona abaixo), as páginas eliminam bactérias responsáveis por doenças como cólera e febre tifoide. “Após a passagem da água pelo filtro, existe uma redução de 99,9% na contagem de bactérias, o que torna o produto final comparável à água da torneira nos EUA”, afirma Matt Eastwood, porta-voz do projeto. Um único exemplar pode garantir água limpa para uma família por até quatro anos, e a fabricação de cada página custa aproximadamente US$ 0,10. O livro deve chegar a países como Índia, Haiti e Quênia já em 2015.

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5 fatos e personagens históricos que podem ter inspirado Game of Thrones

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Publicado no Boa Informação

É inegável que George R.R. Martin tem um incrível talento para criar histórias, e não é nenhum segredo que o autor se baseou grandemente em fatos ocorridos na Europa medieval para desenvolver a minuciosa e rica trama de Game of Thrones. Pois o pessoal do site mental_floss resolveu vasculhar os livros para descobrir quem foram alguns dos personagens ou eventos reais que inspiraram Martin, e você pode conferir cinco deles a seguir:

1– A Batalha de Blackwater

Você se lembra da batalha de Blackwater, episódio no qual Stannis Baratheon tenta sitiar a capital — Porto Real —, mas acaba sendo derrotado pela astúcia de Tyrion, que incendeia os navios inimigos com uma substância química capaz de queimar na água? Pois a ideia pode ter surgido a partir do segundo cerco árabe de Constantinopla, durante o qual os invasores foram atacados com um composto parecido conhecido como fogo grego.

Além disso, no livro, Tyrion utilizou uma enorme corrente para destruir a frota de Baratheon, e esse episódio certamente foi inspirado por outro artifício — a Grande Corrente de Constantinopla — empregado pelos bizantinos contra os árabes no mesmo cerco.

2 – Joffrey

Já pensou se o diabólico Rei Joffrey existisse na vida real? Pois o personagem pode ter sido inspirado em Edward de Lancaster, filho Henrique VI e Margareth de Anjou. Segundo rumores, tal como o protagonista da série, “Ed” era filho ilegítimo e tinha fama de ser sádico, sem falar que gostava da ideia de se livrar das cabeças de seus inimigos.

E assim como ocorreu com o perverso Joffrey de Game of Thrones, o nobre também foi assassinado. Depois de ser esbofeteado por Edward IV de York — o equivalente histórico de Robb Stark —, o Joffrey da vida real morreu aos 17 anos de idade a golpes de espada.

3 – Theon Greyjoy

Como você sabe, Theon cresceu em Winterfell sob a custódia de Eddard Stark, e deveria ocupar o lugar de Robb no caso de que ele, por alguma razão, não fosse coroado. Na série, quando a Guerra dos Cinco Reis começou, Theon se tornou o braço direito de Robb, até que foi enviado para conhecer seu pai verdadeiro — Balon Greyjoy —, e acabou se voltando contra o amigo e invadindo o norte.

O Theon da vida real foi George Plantagenet, irmão de Edward IV de York que, assim como o personagem fictício, começou a Guerra das Rosas lutando como aliado do monarca. Contudo, no decorrer das lutas, George acabou se bandeando para o lado do inimigo — neste caso, os Lancaster —, e quando a guerra acabou com Edward vitorioso, o traíra foi afogado em um barril de vinho, fim muito menos violento do que os castigos recebidos por Theon.

4 – Jamie Lannister

Se você está acompanhando a quarta temporada, então deve ter visto que logo no primeiro episódio Jamie recebeu uma mão dourada para colocar no lugar da sua, que foi decepada. Pois o personagem da série parece ter seu equivalente histórico em Götz von Berlichingen.

Assim como Jamie, Götz pertencia a uma família nobre antes de se tornar cavaleiro imperial, e ganhou o apelido “Mão de Ferro” depois de perder uma das mãos durante uma batalha, substituindo o membro perdido por uma sofisticada prótese metálica antes de voltar à ativa.

5 – O Casamento Vermelho

Este episódio — no qual, com a ajuda de Roose Bolton e depois de se aliar a Tywin Lannister, Walder Frey mata Robb Stark, sua mãe, Catelyn, e milhares de vassalos, finalizando a rebelião do norte — é considerado como um dos momentos mais sangrentos da história da televisão. Pois aparentemente um massacre ocorrido na Escócia pode ter servido de inspiração para o evento fictício.

Trata-se do Massacre de Glencoe, que ocorreu em 1691, quando todos os clãs escoceses foram forçados a renunciar ao rei deposto James VII e se aliar a William III da Inglaterra. Contudo, o chefe do clã MacDonald já havia jurado fidelidade ao monarca escocês, e precisava da permissão deste para romper o juramento. O problema é que a carta do rei deposto chegou tarde demais, e o documento aceitando a aliança com o rei britânico foi rejeitado.

E foi então que o massacre foi planejado. O capitão de um dos clãs inimigos dos MacDonald chegou acompanhado de 120 homens às suas terras e pediu abrigo. Como de costume, os MacDonald ofereceram sua hospitalidade e, após duas semanas de estadia, os rivais esperaram que os anfitriões dormissem e mataram todos que encontraram. Os inimigos ainda queimaram as casas da aldeia e, apesar de cerca de 40 mulheres e crianças terem escapado, todas morreram depois de exposição ao frio.

Você se lembra da batalha de Blackwater, episódio no qual Stannis Baratheon tenta sitiar a capital — Porto Real —, mas acaba sendo derrotado pela astúcia de Tyrion, que incendeia os navios inimigos com uma substância química capaz de queimar na água? Pois a ideia pode ter surgido a partir do segundo cerco árabe de Constantinopla, durante o qual os invasores foram atacados com um composto parecido conhecido como fogo grego.

Além disso, no livro, Tyrion utilizou uma enorme corrente para destruir a frota de Baratheon, e esse episódio certamente foi inspirado por outro artifício — a Grande Corrente de Constantinopla — empregado pelos bizantinos contra os árabes no mesmo cerco.

2 – Joffrey

Já pensou se o diabólico Rei Joffrey existisse na vida real? Pois o personagem pode ter sido inspirado em Edward de Lancaster, filho Henrique VI e Margareth de Anjou. Segundo rumores, tal como o protagonista da série, “Ed” era filho ilegítimo e tinha fama de ser sádico, sem falar que gostava da ideia de se livrar das cabeças de seus inimigos.

E assim como ocorreu com o perverso Joffrey de Game of Thrones, o nobre também foi assassinado. Depois de ser esbofeteado por Edward IV de York — o equivalente histórico de Robb Stark —, o Joffrey da vida real morreu aos 17 anos de idade a golpes de espada.

3 – Theon Greyjoy

Como você sabe, Theon cresceu em Winterfell sob a custódia de Eddard Stark, e deveria ocupar o lugar de Robb no caso de que ele, por alguma razão, não fosse coroado. Na série, quando a Guerra dos Cinco Reis começou, Theon se tornou o braço direito de Robb, até que foi enviado para conhecer seu pai verdadeiro — Balon Greyjoy —, e acabou se voltando contra o amigo e invadindo o norte.

O Theon da vida real foi George Plantagenet, irmão de Edward IV de York que, assim como o personagem fictício, começou a Guerra das Rosas lutando como aliado do monarca. Contudo, no decorrer das lutas, George acabou se bandeando para o lado do inimigo — neste caso, os Lancaster —, e quando a guerra acabou com Edward vitorioso, o traíra foi afogado em um barril de vinho, fim muito menos violento do que os castigos recebidos por Theon.

4 – Jamie Lannister

Se você está acompanhando a quarta temporada, então deve ter visto que logo no primeiro episódio Jamie recebeu uma mão dourada para colocar no lugar da sua, que foi decepada. Pois o personagem da série parece ter seu equivalente histórico em Götz von Berlichingen.

Assim como Jamie, Götz pertencia a uma família nobre antes de se tornar cavaleiro imperial, e ganhou o apelido “Mão de Ferro” depois de perder uma das mãos durante uma batalha, substituindo o membro perdido por uma sofisticada prótese metálica antes de voltar à ativa.

5 – O Casamento Vermelho

Este episódio — no qual, com a ajuda de Roose Bolton e depois de se aliar a Tywin Lannister, Walder Frey mata Robb Stark, sua mãe, Catelyn, e milhares de vassalos, finalizando a rebelião do norte — é considerado como um dos momentos mais sangrentos da história da televisão. Pois aparentemente um massacre ocorrido na Escócia pode ter servido de inspiração para o evento fictício.

Trata-se do Massacre de Glencoe, que ocorreu em 1691, quando todos os clãs escoceses foram forçados a renunciar ao rei deposto James VII e se aliar a William III da Inglaterra. Contudo, o chefe do clã MacDonald já havia jurado fidelidade ao monarca escocês, e precisava da permissão deste para romper o juramento. O problema é que a carta do rei deposto chegou tarde demais, e o documento aceitando a aliança com o rei britânico foi rejeitado.

E foi então que o massacre foi planejado. O capitão de um dos clãs inimigos dos MacDonald chegou acompanhado de 120 homens às suas terras e pediu abrigo. Como de costume, os MacDonald ofereceram sua hospitalidade e, após duas semanas de estadia, os rivais esperaram que os anfitriões dormissem e mataram todos que encontraram. Os inimigos ainda queimaram as casas da aldeia e, apesar de cerca de 40 mulheres e crianças terem escapado, todas morreram depois de exposição ao frio.

10 citações de Lolita, Vladimir Nabokov

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Rafhael Peixoto, no Literatortura

Lolita está para a literatura como um clássico, não sendo para menos. A capacidade narrativa de Nabokov expõe de forma fatal as vertentes de um bom autor e de uma grande obra. A relação que se estabelece entre leitor e narrativa vincula-se já no primeiro momento e é preciso ter cuidado, claro! Cuidado para não cair nas garras de Humbert Humbert tão facilmente. Em matéria recente feita pelo Literatortura, onde eram levantados os narradores em que não se pode confiar, eis que surge a sua figura, e é ela que norteia toda a narrativa. Sendo avisado desta perspectiva, ainda assim confesso que, na condição de leitor, foi a primeira coisa que fiz, acreditei nas boas intenções de Humbert. Só em poucos momentos questionei o amor a sua Lolita e tudo que até então ele havia feito. Mas a vida literária é assim, lendo e aprendendo a quebrar a cara. Eis as dez citações que achei interessante na obra. Outras se perderam pelo caminho, mas, com certeza você, leitor, as regatarão nos comentários.

1 – “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta.”

Em que momento um livro lhe captura? Em alguns casos, é difícil responder a esta questão, mas não o é em Lolita. Já no primeiro parágrafo, há um laço ao leitor. Isto caracteriza também, do meu ponto de vista, o grande autor que é Vladimir Nabokov. Quem, ao ler as primeiras palavras, não se transfere da condição de leitor à personagem da narrativa, ao colocar em sua boca a separação de Lo – li – ta, como a conferir-lhe a veracidade de sua própria língua? E é este o grande trunfo utilizado, a junção de leitor e personagem já nas primeiras linhas da narrativa.

2 – “Senhoras e senhores do júri, a prova número um é aquilo que os serafins, os próprios serafins desinformados e simplórios com suas asas preciosas, invejaram. Contemplai esse emaranhado de espinhos.”.

Outra citação da primeira página do livro. Já nos primeiros instantes, o personagem revela o final da narrativa, a sua condenação. A partir deste ponto, tudo será defesa. O interessante é que, à medida que constrói a narrativa, você questiona porque efetivamente ele está sendo condenado. O final(contemplai esse emaranhado de espinhos) é arrebatador também, é como dizendo ao leitor “sente aí e me acompanhe”.

3 – “Ela se empenhou em aliviar a dor do amor primeiro friccionando com força seus lábios secos contra os meus; em seguida, minha querida se afastou jogando nervosa os cabelos para trás e logo se aproximou de novo na sombra deixando que eu me alimentasse em sua boca aberta, enquanto com uma generosidade pronta a oferecer-lhe tudo, meu coração, minha garganta, minhas entranhas, entreguei-lhe para segurar no punho desajeitado o cetro da minha paixão.”

Já no prefácio do livro, há uma revelação sobre a escrita de Nabokov, sendo ela, a falta de “termos vulgares”, por mais que a temática permeie por um campo moralmente condenável. Se deparar com uma situação como a desta citação, por exemplo, que exige do leitor muito mais do que uma leitura passiva e linear, que exige do leitor um olhar perspicaz para a cena, e que consegue fazer da própria cena uma grande construção narrativa sem que precise necessariamente falar dos aspectos óbvios de uma cena de sexo, é de um gozo sem tamanho para os amantes da boa literatura.

4 – …”Como eu esperava, ela deu o bote sobre o frasco contendo cápsulas rechonchudas, lindamente coloridas e carregadas do Sono da Bela.

“Azul!”, exclamou ela. “Azul violeta. Do que elas são feitas?”

“Céus de verão”, disse eu, “ameixas e figos, e o suco de uva dos imperadores”.”

Neste ponto, mais uma vez é ressaltada a capacidade do narrador, quando Humbert Humbert apresenta a Lolita às pílulas que havia encomendado para fazê-la adormecer. Poeticamente, ele constrói outro sentido as pílulas no intuito de capturar a atenção da garota. Esta citação prova quão ardiloso o personagem pode parecer para a relação com a menina, bem como o poder de ludibriação do leitor em outros momentos.

5 – “…e um beijo no último minuto pretendia reforçar a mensagem mais profunda da peça, a saber, que ilusão e realidade fundem-se no amor.”

A peça ensaiada por Lo ao longo da narrativa é um reflexo da própria condição amorosa por eles enveredada, principalmente da perspectiva de Humbert. Não à toa, atrelada a construção psicológica do personagem, une-se a concepção de amor como fusão da ilusão e realidade. Neste ponto, a realidade estaria dada e a construção ilusória ficaria por conta do personagem narrador, que constrói um próprio universo de significação para os dados reais.

6 – “As lonas de freio foram trocadas, as mangueiras de água desentupidas, as válvulas limadas e uma série de outros reparos e melhoramentos pagos pelo não muito mecanicamente inclinado mas prudente papa Humbert…”.

A citação não é de grande relevância para o conjunto da obra se observada pontualmente, mas é importante pontua-la pela capacidade que nela se impõe de contribuir para a construção do narrador personagem. Desta forma, ela poderia ser substituída por qualquer outra citação em que o narrador se distancia da primeira pessoa e se coloca como elemento outro da história. Falar em terceira pessoa sobre si diz muito na construção do personagem Humbert Humbert.

7 – “Tente imaginar, leitor, com toda a minha timidez, minha falta de gosto por qualquer ostentação…”

Esta também poderia ser substituída por outras citações. Não pode ser deixado de observar, por sua vez, o dialogo que se estabelece diretamente com o leitor. O narrador clama ao sujeito que o acompanha que este se coloque em seu lugar.

8 – “Um dia removi do carro, e depois destruí, todo uma cúmulo de revistas para adolescentes. Devem conhecer o tipo. Em matéria emocional, a Idade da Pedra; atualizada, ou pelo menos miceniana, em matéria de higiene. Uma bela e maduríssima atriz com cílios imensos e o lábio inferior carnudo e muito rubro, afirmando que usava uma certa marca de xampu. Anúncios e modas. As jovens estudantes adoram a profusão das saias plissadas… A menos que seja bem mais velho ou muito importante, o cavalheiro deve sempre tirar as luvas antes de tomar a mão…Facilite um novo romance usando o novo corpete para uma barriga lisa…O enigma matrimonial entre Fulano e Beltrana vem exaurindo ás línguas.”

Toda história, seja fictícia ou real, é narrada a partir de um espaço. Dada a construção deste espaço, do meio social, achei importante trazer esta citação, pois ela me chamou a atenção pela sua contemporaneidade, mesmo escrita vários anos atrás. A típica revista adolescente descrita por Humbert não varia em quase nada dos modelos que acompanhamos nas bancas nos dias de hoje. Uma critica a nossa sociedade?!

9 – “… – e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar. Ela era só um eco de aroma tênue violeta e folhas mortas da ninfeta sobre quem eu rolara no passado com tantos gritos; um eco à beira de uma ravina rubra, com um arvoredo esparso sob um céu branco, folhas castanhas entupindo o leito do riacho, e um último grilo perdido em meio à relva ressecada… mas graças a Deus não era só esse eco que eu adorava.”

Dois momentos marcam esta citação: a primeira, na mensuração do amor de Humbert por sua Lolita; a segunda, pela quebra da ilusão da imagem por ele construída. Importante destacar que mesmo sendo atingido pelo confronto realidade x idealização, ele declara um amor que atravessa essa imagem feita por ele.

10 – “Parou à procura das palavras. E eu as forneci mentalmente (“Ele” partiu meu coração. “Você” só devastou a minha vida”).

Já nos momentos finais da narrativa, quando experimenta fazer uma reflexão acerca da posição de Lolita, o narrador reconduz quais as consequências possíveis de sua ação sobre a menina. E são nestes fragmentos que o narrador consegue cativar ainda mais o olhar do leitor, quando se coloca na condição humana de captar a essência do outro, de percebê-la enquanto ser que sofre as consequências de um amor sem limites.

Os 10 melhores poemas de Mario Quintana

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Carlos Willian leite, na Revista Bula

Pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook que apontassem os poemas mais significativos de Mario Quintana. Poeta, tradutor e jornalista, Mario Quintana estreou na literatura em 1940 com o livro “A Rua dos Cataventos”. O poeta também deixou um amplo trabalho de tradução, com destaque para as obras “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, e “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf. Em 1980 recebeu o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Mario Quintana concorreu por três vezes a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou.

Apesar da idolatria no Rio Grande do Sul e de dividir o posto, ao lado de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, de autores brasileiros mais citados na internet, Mario Quintana ainda não é considerado um poeta além-fronteiras.  De acordo com o crítico Antonio Carlos Secchin, “parece que apenas poetas cariocas e paulistas não precisam de gentílico. Difícil ler ‘o poeta carioca Vinícius de Morais’ ou ‘o paulista Oswald de Andrade’. Mas lemos a toda hora ‘o pernambucano João Cabral’. Infelizmente, apenas os do Rio e de São Paulo estão dispensados de exibir a carteira de identidade”.

A melhor definição para Mario Quintana, foi feita por ele mesmo, em 1984: “Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro — o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo — que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras”.

Abaixo a lista com os dez poemas selecionados baseada no número de citações obtidas. Os poemas selecionados foram publicados nos livros “Mario Quintana — Poesia completa”, editora Nova Aguilar. Mario Quintana morreu em 5 de maio de 1994.

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Do amoroso esquecimento

Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Segunda canção de muito longe

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…
Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa…

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.

Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas…
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos…
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras…

Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!…
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!

Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Tic-tac

Esse tic-tac dos relógios
é a máquina de costura do Tempo
a fabricar mortalhas.

Fotografia: Liane Neves

Chafariz de Livro

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Vi no Ah Negão!

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