Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Albert Camus

Albert Camus, um pensador para o século XXI

0

O tempo jogou a favor do filósofo. Seu centenário ocorre numa era em que a violência e o totalitarismo são intoleráveis – e suas ideias libertárias são atuais como nunca

Fernando Luis Schüler na revista Época

Albert Camus chamou o século XX de “o século dos rancores”. Nascido em novembro de 1913, viveu uma vida relativamente curta e intensa. Morreu em 1960, três anos depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Já se vão 100 anos de seu nascimento, mas é difícil não pensar em Camus como um intelectual do nosso tempo. Defini-lo é perigoso. A melancolia, a estética noir dos cafés de Saint-German-des-Prés andam lado a lado com a imagem do homem viril, amante da dança, do sol, da Espanha e de algumas das mulheres mais encantadoras de seu tempo, como Maria Casares e Catherine Sellers.

Camus viveu o lado obscuro do século XX. Século da “peste”, do medo, da submissão do homem ao absurdo da ideologia. A grande guerra, a ocupação da França, o engajamento na resistência, a guerra de independência na Argélia, sua terra natal e de formação. Após o fim da guerra, foi um dos poucos intelectuais franceses a tomar plena consciência – e a tratar disso com coragem – do horror soviético, dos campos de concentração, do absurdo totalitário. Acossado pela intelligentsia ligada, ou simpática, ao sovietismo, condenou igualmente os ataques nucleares dos Estados Unidos ao Japão; a prerrogativa dos vetos, no Conselho de Segurança da ONU; o absurdo da Guerra Fria, cuja lógica sempre se recusou a adotar. Fez da oposição ao franquismo quase sua obsessão pessoal.

O desassossego que sempre acompanhou Camus não se restringia ao contexto histórico em que viveu. Seu tema é existencial. A solidão. Sua própria. “Se eles não querem que eu lute”, escreveu, em 1939, logo depois de ser impedido de servir na guerra, em função da tuberculose crônica, “é porque meu destino é sempre ser deixado de lado.” O desconforto, a inadequação. Camus declarou certa vez que passara a vida com uma estranha sensação de que era culpado de alguma coisa. A desconfiança crônica com a qualidade de sua literatura. O casamento desapaixonado com Francine. O fastio com a vida intelectual parisiense. A sedução da fuga para as “cidades sem passado”. E o tédio das conferências. Uma delas, em Porto Alegre, numa noite fria, agosto de 1949, durante uma turnê pelo Cone Sul. Recebido com uma fala curta e elogiosa de Erico Verissimo, anotou em seu diário: “Essas ilhotas de civilização são frequentemente horrendas”.

LUZ E ESCURIDÃO O escritor Albert Camus tinha a melancolia dos cafés parisienses associada ao gosto pela dança, pelo sol da Espanha e pelas belas mulheres (Foto: Cecil Beaton/Condè Nast Archive/Corbis)

A ética de Camus (Foto: ÉPOCA)Camus alcançou celebridade quando lançou, em maio e outubro de 1942, O estrangeiro e O mito de Sísifo. Com Calígula, sua primeira grande incursão pela dramaturgia, as três obras de juventude compõem sua “trilogia do absurdo”. O estrangeiro é seu livro mais lido, traduzido e, para muitos, sua obra-prima. Ele conta a história de Mersault, espécie de anti-herói moderno, homem comum, destituído de abstração e expectativas. Mersault comete um crime banal e é, de certo modo, condenado por sua indiferença. À espera da guilhotina, resigna-se. “Se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima da minha cabeça”, pensa, “eu teria me habituado aos poucos.” Camus o definiu como o “homem que se recusa a se autojustificar”. Perto de sua execução, rejeita, com uma quase violência, o consolo de um padre. Ele poderia ter recebido a bênção, não faria muita diferença. Tampouco seu pequeno gesto de revolta faz muita diferença. Ele guarda, porém, um elemento de dignidade pessoal. Mersault agarra o que lhe resta, a pequena verdade de sua vida sem transcendência. Por essa verdade, vale viver seus últimos dias. Observar uma vez mais a luz da lua e encontrar algum descanso. Um descanso mediterrânico, de alguém em paz com seu destino, que dispensa a filosofia. Que descobre, como uma revelação, e toma para si, como fato da vida, a “suave indiferença do mundo”.

Filósofo em formação, na casa dos 20 anos, ainda em Argel, Camus se propôs a enfrentar um antigo tema da filosofia: o sentido da vida humana. Possivelmente, o mais complicado de todos, dado a soluções precárias. Seu argumento: a condição humana é dada pelo “absurdo”. O absurdo é nossa exigência de clareza diante de um mundo opaco. O confronto desesperado “entre a interrogação humana e o silêncio do mundo”. Camus recorreu à história de Sísifo, que lhe parecia o perfeito herói absurdo. Sísifo tenta escapar de seu destino, enganar os deuses. Seu castigo será empurrar infinitamente a pedra de mármore, montanha acima, até vê-la cair, e recomeçar tudo de novo. Camus encontra aí uma metáfora da condição humana. Podemos imaginar Sísifo feliz quando sabe que aquele é seu destino. Podemos vê-lo em desespero, quando imagina que seu destino poderia ser outro. Cada um de nós é Sísifo. Cada um carrega sua própria pedra. Sísifo nos lembra que somos iguais, que fazemos todos a mesma pergunta e ouvimos todos nenhuma resposta. Há, porém, alguma margem de manobra. É possível jogar, é possível agir com “vivacidade”. Camus enumera modelos de “jogo”: o amante, o comediante, o aventureiro. Haveria outros. O “moralista”, quem sabe, personagem que Camus sempre rejeitou. Para si, escolheu o “criador”, o artista, para ele a síntese de todos os homens absurdos e, dentre eles, o mais feliz. Cada qual fará suas escolhas. A pedra nos lembra simplesmente que tudo é precário, que há limites. Mas, de alguma maneira, nos tranquiliza. “Assim como, em certos dias, a descida é feita na dor”, escreve, “também pode ser feita na alegria” e a “própria luta para chegar ao cume pode encher o coração de um homem.”
Um segundo grande tema de Camus diz respeito à política. Sua posição: a consciência do absurdo não nos deve levar à indiferença moral. O desafio é fundamentar uma ética universalista, pautada pela justiça, pela recusa da violência, num mundo dessacralizado, carente de uma ordem última de valores – seja ela dada por Deus, seja por algum movimento próprio da história. Esse tema aparece em Calígula, quando o Imperador sugere que Cherea, seu executor, creia em “alguma ideia superior”. Cherea rejeita a sugestão, mas afirma crer que “algumas ações contêm mais beleza do que outras”. Calígula responde, dizendo acreditar que “todas elas são equivalentes”.

Sua visão política se revelou com toda a clareza em O homem revoltado, publicado em outubro de 1951. Camus o considerou seu livro mais importante. À publicação do livro, seguiram-se o conhecido debate e a ruptura com Sartre. O debate dividiu uma geração inteira e, de certo modo, prossegue. De um lado, a ética universalista de Camus, seu imperativo de “não violência”, o cansaço da ideologia. De outro lado, o realismo político de Sartre, que à época se alinhava aos comunistas, no ambiente intoxicado da Guerra Fria.

Vargas Llosa bem definiu o argumento de Camus, em O homem revoltado. Disse que, para ele, “toda tragédia da política começou no dia em que se decidiu que era lícito matar um homem em nome de uma ideia”. O tema surge na cena em que Yanek, o poeta terrorista, personagem central da peça teatral Os justos, se recusa a explodir a carruagem do Grão-Duque, quando percebe que teria de explodir junto duas crianças, que o acompanhavam. A hesitação de Yanek faz dele, naquele instante, um “homem revoltado”. Camus sabia que erguia uma perspectiva ética em bases frágeis: num mundo caótico, que mal haveria de explodir uma criança? Ética é construída no deserto. Talvez um pacifismo ingênuo, que ele chamava de ética da “solidariedade humana que nasce nas prisões”, do exercício da empatia, como um longo aprendizado. Nesse aprendizado, o “homem revoltado” é o pedagogo. Aquele que anda na frente. Por vezes, é Dom Quixote. Ele tateia nessa escuridão infernal, a ausência de valores últimos. O tempo, porém, parece lhe pertencer.

Em maio de 1952, Francis Jeanson, jovem colaborador de Sartre, publicou, na revista Les Temps Modernes, um artigo acusando Camus de professar uma “moralidade cruz vermelha”. Um humanismo subjetivista e vago, que desconsidera o papel da história e da economia nas revoluções. Na polêmica que se seguiu, Sartre evitou o debate no terreno filosófico. Lançou mão do argumento ad hominem: “E se seu livro fosse feito de conhecimentos colhidos às pressas, de segunda mão?”. Numa sugestiva hierarquização de valores, disse considerar os campos de concentração soviéticos tão inadmissíveis quanto “o uso que a imprensa chamada burguesa faz deles”. Camus recusou o clichê: “Não se decide sobre a verdade de um pensamento conforme seja ele de esquerda ou de direita”.

VITÓRIA PARCIAL O filósofo Jean Paul Sartre. No ambiente politicamente carregado dos anos 1950, ele se saiu vencedor (Foto: Boris Lipnitzki/AFP)
A ética de Sartre (Foto: ÉPOCA)

No ambiente politicamente carregado dos anos 1950, é possível dizer que Sartre se saiu vencedor. Camus se viu, em boa medida, isolado. Em setembro de 1951, escreveu a Francine: “Estou pagando caro por este livro infeliz. Hoje tenho dúvidas sobre ele, e sobre mim mesmo”. A história diria o contrário. Sartre manteve-se fiel ao sovietismo. Só veio a revisar sua posição, ainda que parcialmente, quando os tanques soviéticos invadiram a Hungria, em 1956.

Num sentido amplo, Camus tornou-se, nos anos do pós-guerra, um liberal. No final de O homem revoltado, observa que “a política e a sociedade têm apenas o encargo de ordenar os negócios de todos, para que cada um tenha o tempo e a liberdade dessa busca comum”. Observa como o capitalismo soube, pela via do reformismo social, melhorar as condições de trabalho, percebe o crescimento constante das classes médias e a desconcentração do capital – no mercado de capitais e nos pequenos negócios. Estávamos em 1950. Ele manifestava suas simpatias pelo modelo escandinavo, mas não ia além disso. Sua teoria social não é sistemática. Seu argumento é estético. Numa sociedade perfeita, escreve, “as crianças continuarão a morrer, sempre injustamente”. Não há antídoto para o drama mais fundamental, o desejo humano pela clareza num mundo opaco. Mas não há dúvidas de que o espírito da revolta, cujo vértice é a dignidade humana, nos permite melhorar o mundo.

(mais…)

Os melhores finais de livros

0

Franz Kafka; Victor Hugo; Jane Austen; Mia Couto; Jack Kerouac; Aldous Huxley, George Orwell; John Fante

Car­los Wil­li­an Lei­te, no Revista Bula

Dando sequência a série de melhores finais, perguntei colaboradores, leitores e seguidores do Twitter e Facebook quais os melhores finais de livros, excetuando aqueles que apareceram no primeiro levantamento, publicado em dezembro de 2011. Os livros relacionados na primeira parte foram: “Nada de Novo no Front”, de Erich Maria Remarque; “On The Road”, de Jack Kerouc; “À Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez; “1984”, de George Orwell; “Notas do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski; “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald; e “O Estrangeiro”, de Albert Camus.

Cada participante poderia indicar até três finais, de autores brasileiros ou estrangeiros de todas as épocas. Abaixo, os trechos selecionados baseados no número de sugestões recebidas.

Carta ao Pai  (Franz Kafka)
Tradução: Marcelo Backes
Uma certa legitimidade à objeção, que além do mais contribui com algo novo para a caracterização do nosso relacionamento, eu não posso negar. Naturalmente as coisas não se encaixam tão bem na realidade como as provas contidas na minha carta, pois a vida é mais do que um jogo de paciência; mas com a correção que resulta dessa réplica, uma correção que não posso nem quero discutir nos detalhes, alcançou-se a meu ver algo tão aproximado da verdade, que isso pode nos tranquilizar um pouco e tornar a vida e a morte mais fáceis para ambos.

Visões de Cody (Jack Kerouac)
Tradução: Guilherme da Silva Braga 
Adeus Cody — os teus lábios nos momentos de pensamento lúcido e bondade responsável recém-descoberta são tão silenciosos, fazem tão pouco barulho, se confundem com as razões da natureza, como o reflexo da luz dos carros na pintura prateada de um tanque na calçada nesse exato instante, silencioso como tudo isso, como um pássaro atravessando o raiar do dia em busca da cruz na montanha e do mar além da cidade no fim do mundo. Adios, você que viu o sol se pôr, nos trilhos, ao meu lado, sorrindo — Adios, Rei.

Os Miseráveis (Victor Hugo)
Tradução: José Maria Machado
Esta pedra está completamente nua. Não pensaram ao talhá-la, senão no que era necessário para o túmulo; só tiveram em vista fazê-la bastante comprida e estreita, para que só cobrisse o corpo de um homem. Não se vê escrito nome algum. Há muitos anos, porém, houve quem escrevesse nela, a lápis, estes quatro versos, que pouco a pouco se tornaram ilegíveis, pela ação da chuva e da poeira, e que decerto estão hoje de todo apagados: Dorme. Viveu na terra em luta contra a sorte/ Mal seu anjo voou, pediu refúgio à morte/ O caso aconteceu por essa lei sombria/ Que faz que a noite chegue,  apenas foge o dia.

Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)
Tradução: Felisberto Albuquerque
A porta do farol estava entreaberta. Empurraram-na e penetraram na penumbra em que tudo estava fechado. Por um arco na outra extremidade da sala, podiam ver o começo da escada que levava para os andares superiores. Exatamente no fecho da abóboda pediam dois pés. — Sr. Selvagem! Lentamente, muito lentamente, como duas agulhas de bússola, os pés se voltaram para a direita: norte, nordeste, este, sudeste, sul, sul-sudoeste; então pararam e, após alguns segundos, viraram-se vagarosamente para a esquerda: sul, sudeste, este…

Orgulho e Preconceito (Jane Austen)
Tradução: Lúcio Cardoso
Depois de alguma resistência o ressentimento de Lady Catherine cedeu, talvez diante da afeição que tinha pelo sobrinho ou da curiosidade de ver como a sua esposa se conduzia; e ela consentiu em ir visitá-los em Pemberley, apesar da ofensa que seus ilustres antepassados tinham recebido, não somente pela presença de uma esposa de tão baixa extração, como pelas visitas dos seus tios de Londres. Com os Gardiner eles ficaram sempre em termos muito íntimos. Darcy, a exemplo de Elizabeth, tinha a maior afeição por eles. E além disso nunca se esqueceram da gratidão que deviam às pessoas por cujo intermédio eles tinham reatado suas relações, durante aquele passeio pelo Derbyshire.

A Revolução dos Bichos  (George Orwell)
Tradução: Heitor Ferreira
Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (Mia Couto)
Neste dias, deitado naquela sala sem telhado, fui contemplado por luas e por estrelas. Às vezes, me descia um frio sem remédio. Me chegavam visões de uma fundura: o abismo que  nenhuma ave nunca cruzou. E eu tombando, tombando sempre. Da rocha para a pedra, da pedra para o grão, do grão para a funda cova do nada. Mas depois eu sentia-o chegar, meu filho, e a minha cabeça dedilhava em sua mão: e você escrevia as minhas cartas. Me sustinha a simples certeza: a mim ninguém, nunca, me iria enterrar. E assim veio a suceder. Fui eu, por meu passo, que me encaminhei para a terra. E me deitei como faz a tarde no amolecido chão do rio. Mais antigo que o tempo. Mais longe que o último horizonte. Lá onde nenhuma casa alguma vez engravidou o chão.

1933 Foi um Ano Ruim (John Fante)
Tradução: Lúcia Brito
Peguei o rolo de dinheiro e caminhei de volta até o misturador. Estava surrado e rebentado, como as mãos de meu pai, uma parte da vida dele, tão estranhamente antiga, como que vinda de um país distante, de Torricella Peligna. Coloquei os braços em volta dele, beijei-o com minha boca e chorei por meu pai e por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época, por mim mesmo, porque agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem.

Amigos ausentes: Rubem Alves

1

Rubem Alves – Google

Uma das alegrias da literatura está em que ela cria a possibilidade de estabelecer conversas mansas com pessoas ausentes e mesmo mortas. Muitos dos meus melhores amigos, pessoas com quem converso longamente, estão mortos há muito tempo.

É o caso de Albert Camus. Ler Camus é um exercício de felicidade. Poderíamos até formar uma dupla… Seus pensamentos mais pessoais não se encontram em seus livros com príncípio, meio e fim. Encontram-se nos seus diários, onde registrava os pensamentos que lhe ocorriam sem imaginar que um dia seriam transformados em livros. Muitas das suas experiências batem com as minhas.

Num certo lugar ele escreve notas para um romance: “Infância pobre. Eu tinha vergonha da minha pobreza e da minha família. Só conheci essa vergonha quando me puseram no liceu. Antes, toda a gente era como eu e a pobreza parecia-me o próprio ar desse mundo. No liceu foi-me dado comparar.”

Num outro lugar ele comenta: “Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um ócio ativo”

Foi exatamente essa a minha experiência. Minha infância foi vivida na pobreza. A princípio grande pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos não tenho uma única memória infeliz. Tive dores, como toda criança tem: dor de dente, dor de tombo, dor de barriga, dor de queimadura. Mas não tive experiência de infelicidade.

Minha infelicidade começou quando a vida melhorou e nos mudamos de uma cidade do interior de Minas para o Rio de Janeiro. Meu pai me matriculou num colégio de cariocas ricos. Foi então que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza e da minha família: eu era diferente, não pertencia ao mundo elegante dos meus colegas.

Num outro lugar do seu diário, Camus registrou: “Atenção: Kierkegaarg, a origem dos nossos males está na comparação”. Kierkegaard foi um solitário filósofo dinamarquês. Os desbravadores são sempre solitários. Veem coisas que os outros não veem. Como foi o caso de Nietzsche. Kierkegaard foi meu primeiro amigo filósofo. Com ele tive longas e mansas conversas. Sua filosofia é construída em meio a uma teia de sutis percepções psicológicas.

O sofrimento da pobreza, quando não é miséria, se encontra na comparação. A miséria é diferente da pobreza. A pobreza está muito próxima da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que são essenciais. Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alças…

A pobreza simples é uma pobreza feliz. Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade da comparação na escola. Mas hoje não é preciso ir à escola para sentir a sua maldição. Basta ligar a televisão. A televisão é uma máquina de infelicidade, na medida em que ela nos obriga a comparar. Os pobres, nos lugares mais distantes, ligam as novelas e sentem a sua desgraça. A comparação é um exercício dos olhos: vejo; estou feliz.

 

Trecho do livro “Ostra feliz não faz pérola”

Go to Top