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Discípulo de Borges, Alberto Manguel exalta a curiosidade em novo livro

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Adolescente, Alberto Manguel lia em voz alta para o escritor cego Jorge Luis Borges. Essa convivência mudou sua vida – e o fez descobrir a vocação para a literatura

Ruan de Sousa Gabriel, na Época

Na manhã de 30 de agosto, uma terça-feira, o escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel, de 68 anos, releu o primeiro canto de A divina comédia, o poema épico de Dante Alighieri (1265-1321). Manguel mergulhou nos versos rimados que narram como um amedrontado Dante, recém-saído de uma selva tenebrosa, é repelido de volta para a escuridão por uma loba magra e cobiçosa. Um vulto, porém, o impede. Era o poeta latino Virgílio, autor da Eneida. No poema, Virgílio diz a Dante que a cobiça da loba nascia da inveja: Tem tão má natureza, é tão furente,/Que os apetites seus jamais sacia. “Nessa manhã, ocorreu-me que a cobiça é o pior dos pecados e está associada à fome da loba”, diz Manguel. “A cobiça nasce quando não nos satisfazemos com o que temos e queremos o que os outros têm.”

Manguel lê um canto de A divina comédia todas as manhãs. Doze anos atrás, uma doença que o condenou a ficar em casa despertava-o do sono logo cedo. Ele decidiu aproveitar essas horas mortas para ler, pela primeira vez, os versos de Dante. “Eu conhecia A divina comédia como todos nós a conhecemos: sabia que era um livro importante, de reputação universal, mas só então decidi lê-lo”, diz. “E o que descobri foi um mundo extraordinariamente rico.” Ao revisitar os versos de Dante a cada manhã, Manguel encontra novas formulações para as velhas perguntas que atormentam os poetas e os filósofos desde a invenção da linguagem. Essas perguntas conduzem os ensaios – meio filosóficos, meio literários – de seu novo livro, Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras, 488 páginas, R$ 79,90). Assim como Virgílio guia Dante pelos nove círculos do Inferno, o poeta florentino conduz Manguel por um purgatório de questões como “O que é verdade?”, “Como raciocinamos?” e “Quem sou eu?”.

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O objetivo de Manguel não é responder a essas questões. Ele mobiliza seu vasto repertório de leituras – que vai de David Hume a Tomás de Aquino, da Bíblia a Lewis Carroll – para fazer novas perguntas, propor reflexões e aventar hipóteses. Tudo isso movido pelo desejo fervoroso pelo conhecimento que Dante chamou de ardore. O mesmo desejo que levou Ulisses, o herói da Odisseia, a se arriscar em sua última e fatal jornada. Manguel nasceu em Buenos Aires, em 1948, mas cresceu em Israel, onde seu pai era diplomata. Não foi uma dessas crianças que vivem perguntando o porquê das coisas. Era tímido. Foi educado em inglês e alemão por uma preceptora germânica que respondia de modo lacônico às raras perguntas do menino. Quando descobriu os livros, interessou-se menos pelas respostas e mais pelas questões que a literatura formulava. A literatura são as perguntas menos as respostas, já dizia o filósofo francês Roland Barthes.

Na adolescência, Manguel voltou à Argentina, onde se tornou íntimo do espanhol e aprendeu, com um professor do Colégio Nacional de Buenos Aires, a procurar na literatura as chaves para sua identidade. Ele gastava com livros o salário que ganhava na distinta Livraria Pygmalion. O mítico escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) perambulava pela livraria à procura não de livros, mas de leitores. “Acontece que minha mãe já está beirando os 90 anos e se cansa muito”, repetia Borges, que vinha perdendo a visão e não podia mais esperar que a mãe velhinha lesse para ele. Borges encontrou um leitor naquele livreiro adolescente e poliglota. Entre 1964 e 1968, Manguel ia duas ou três vezes por semana à casa do escritor e lia, em voz alta, os clássicos em inglês que ele queria revisitar. Também acompanhava Borges ao cinema e lhe descrevia as imagens projetadas na tela. “Eu era um adolescente que, com aquela arrogância típica da juventude, acreditava estar fazendo um favor a um velho cego e não me dava conta de quanto eu aprendia lendo para Borges”, afirma Manguel – que, enquanto lia, era interrompido pelos comentários do escritor.

A convivência com Borges ensinou a Manguel que não havia nada de errado em passar a vida perdido nos livros. “Era difícil para um adolescente da minha geração se entregar a uma paixão intelectual. Nossos pais nos queriam médicos, advogados ou engenheiros, no máximo arquitetos. As letras eram para diletantes, não eram uma carreira”, diz. “Mas Borges, com grande generosidade e inteligência, dizia-me para persistir s nos livros, se era isso o que me fazia feliz. E ele estava certo.”

Seguindo à risca o conselho de Borges, Manguel dedicou sua vida aos livros. Amealhou uma biblioteca de 40 mil títulos abrigados na casa onde viveu em Mondion, um vilarejo medieval no sul da França. Deu aulas em universidades americanas e trabalhou como leitor de originais para editoras europeias. Assim como outros escritores argentinos – Ricardo Piglia, Beatriz Sarlo e o próprio Borges –, elegeu o leitor como protagonista dos livros que escreveu. “Ler literatura é meter o nariz no mais profundo da realidade”, diz Manguel, numa defesa de que se encerrar na biblioteca não implica recusa do mundo. “Sem a literatura, somos como surdos-mudos, e é isso o que querem os políticos”, diz ele. “As autoridades querem que não façamos perguntas e que não sejamos curiosos. Elas nos querem longe da literatura para que passemos a vida nos ocupando com jogos idiotas.”

Em junho deste ano, os destinos de Manguel e Borges voltaram a se cruzar. O presidente Mauricio Macri convidou Manguel para dirigir a Biblioteca Nacional da Argentina, comandada por Borges entre 1955 e 1973. Manguel, que descreve o trabalho como “aterrador e maravilhoso”, assumiu o cargo em meio a protestos. Macri prometeu “desideologizar” as instituições culturais argentinas e ordenou a demissão de centenas de intelectuais simpáticos à ex-presidente Cristina Kirchner. Mais de 200 funcionários da biblioteca foram demitidos, mas parte deles acabou reincorporada. “Toda biblioteca – seja em Buenos Aires, seja em Alexandria – é uma instituição social e política, mas nosso desafio é fazer com que a biblioteca funcione independentemente do caos político argentino”, diz.

Páginas e páginas de teologia já foram escritas alertando contra os perigos da curiosidade que levou Eva a comer do fruto proibido e condenar toda a humanidade a viver sob o jugo do pecado. Os ensaios de Manguel, porém, sugerem que a curiosidade também pode nos conduzir a alguma forma de redenção. Afinal, Dante foi capaz de atravessar o Inferno porque tinha um poeta como guia.

Argentina exibe manuscrito de Jorge Luis Borges encontrado no Brasil

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Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

 

Originais do conto ‘A biblioteca de Babel’, do escritor argentino, podem ser vistos na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires

Publicado no UAI

O manuscrito do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) usado para o famoso conto A biblioteca de Babel, encontrado no Brasil, começou a ser exibido em Buenos Aires, revelou o escritor Alberto Manguel, diretor da Biblioteca Nacional argentina.

“O documento estava em um ambiente lotado de papéis, quadros, fotos, mapas, cartas de rainhas e próceres como San Martín e Rivadavia. Me surpreendeu que, em uma pasta suja, tenha aparecido algo de tanto valor. Fiquei com a voz trêmula, foi uma emoção muito grande”, disse Manguel.

O original está escrito em letra minúscula. A obra pode ser observada na Biblioteca Nacional, que é dirigida há alguns meses por Manguel, um escritor que desenvolveu grande parte de sua carreira fora do país.

Borges foi autor de obras lidas e estudadas em todo o mundo como O Aleph. É considerado o maior escritor argentino da história e um dos grandes da literatura do século 20, mas não recebeu o Nobel.

Manguel trabalhava em uma livraria quando conheceu Borges e iniciaram uma amizade. O autor de História universal da infâmia, afetado pela cegueira, pediu a Manguel que lesse para ele em seu apartamento e isto aconteceu por quatro anos na década de 1960. Borges também foi diretor da Biblioteca Nacional.

Manguel levou o manuscrito para Buenos Aires como um empréstimo. Ele o encontrou quase ao acaso com um colecionador particular em São Paulo.

A biblioteca de Babel foi um dos contos incluídos no livro Ficções (1944), um dos pilares da obra borgeana. A ideia apresentada por Borges é a de um universo com uma biblioteca que contém todos os livros. É considerado uma metáfora sobre o infinito e foi objeto de estudos, inclusive do ponto de vista científico.

“É um autêntico tesouro. Estes papéis têm um valor material indiscutível e, por outro ladom um valor simbólico. Há poucos elementos que formam a simbologia universal e devemos a Borges um destes elementos: o conceito da biblioteca de Babel, que hoje podemos associar a Internet”, disse Manguel.

O valor material do manuscrito é avaliado em US$ 500mil.

E-book reduz capacidade de concentração, diz Alberto Manguel

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O escritor argentino Alberto Manguel posa em sua casa na França, em imagem de 2007 (Foto: Alain Jocard - 11.set.2007/AFP)

O escritor argentino Alberto Manguel posa em sua casa na França, em imagem de 2007 (Foto: Alain Jocard – 11.set.2007/AFP)

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Quantos livros carregamos na memória? Uma quantidade maior ou menor do que os humanos que viveram em outros tempos da história? Estamos lendo mais, porém esquecendo tudo rapidamente?

Sobre esses temas o escritor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel, 66, fala nesta quarta (5), na última conferência do ano do ciclo Fronteiras do Pensamento, que ocorre no auditório do complexo Ohtake Cultural, em São Paulo.

“Uso exemplos como os do argentino Jorge Luis Borges [1899-1986], que ficou cego por volta dos 50 anos e conviveu o resto da vida com a lembrança do que lera até então, e o do italiano Primo Levi [1919-1987], cujas leituras que realizou antes de ser preso o ajudaram a sobreviver ao Holocausto”, diz à Folha.

Manguel conheceu Borges na adolescência, quando trabalhava na livraria Pygmalion, na avenida Corrientes, em Buenos Aires, dedicada a títulos em alemão e inglês.

O autor de “O Aleph” frequentava o local, mas como praticamente já não podia mais ler, pedia que o jovem Manguel o fizesse, em voz alta. “Me impressionava como ele se concentrava, e assim mantinha viva em sua cabeça essa biblioteca portátil que carregava consigo, e que servia de companhia e consolo.”

Apesar de considerar positivo que e-books e leituras virtuais em geral ofereçam acesso a uma quantidade maior de obras e autores, o autor faz ressalvas à expansão dos suportes virtuais.

“Ler textos eletrônicos não é o mesmo, para o cérebro, do que ler um texto impresso. Perdemos muito da nossa capacidade de interpretar o conteúdo de uma leitura virtual, realizar conexões e refletir sobre o o conteúdo porque ela não permite a concentração necessária.”

Além disso, critica o modo pelo qual sites como Amazon estão estrangulando editoras e livreiros pequenos. “São aqueles que melhor conhecem os livros, e estão perdendo esta batalha, que é desleal.”

FANTASMAS

Filho de diplomatas, Manguel passou a infância em Israel, voltou por pouco tempo a Buenos Aires, onde estudou no tradicional Colegio Nacional, depois radicou-se novamente no exterior, pouco antes de iniciada a ditadura argentina (1976-1983). Viveu na Europa, no Canadá e, hoje, vive no vilarejo de Mondion, nos arredores de Poitiers (França), numa casa cuja biblioteca possui 40 mil títulos.

“Minha relação com a Argentina é confusa e contraditória, pois muitos amigos meus da época da adolescência desapareceram durante os anos de chumbo, quando eu já não estava mais lá. Hoje, quando volto a Buenos Aires, não vejo mais as pessoas e não reconheço mais os lugares, transformados pela arquitetura moderna. É como ir a um país de fantasmas.”

Autor de livros que têm a leitura como protagonista (“A Biblioteca à Noite”, “Uma História da Leitura”), e coautor do “Dicionário de Lugares Imaginários” (todos lançados aqui pela Companhia das Letras), Manguel é também fã do brasileiro Machado de Assis (1839-1908). “O modo como narra e como integra o leitor à obra fazem dele um dos mais importantes de sua época.”

Manguel recrimina o mercado editorial anglo-saxônico por ainda ser tímido na tradução do português e do espanhol. “O que explica a projeção internacional de um escritor tão mediano como o norte-americano Jonathan Franzen (As Correções’)? Qualquer pessoa inteligente que conhecesse sua obra e a do argentino Ricardo Piglia, só para ficar num exemplo, consideraria Piglia muito melhor. E assim ocorre com autores holandeses, italianos, portugueses e brasileiros.”

O próximo livro de Manguel, que sairá aqui pela Companhia das Letras, é “Uma História Natural da Curiosidade”, em setembro de do ano que vem.

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO
QUANDO qua. (5), às 20h30
ONDE Complexo Ohtake Cultural, r. Coropés, 88; tel. (11) 4007-1200 (fronteirasdopensamento.com.br)
QUANTO ingressos esgotados

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