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Mais que Orwell, Huxley previu nosso tempo

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Admiravel mundo novo - a ficção

O era da “pós-verdade”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual nas redes sociais mais parece a distopia “Admirável mundo novo”

Helio Gurovitz, na Época

Publicado em 1948, o livro 1984, de George Orwell, saltou para o topo da lista dos mais vendidos depois da posse de Donald Trump. Parece que as mentiras e a propaganda de Trump – ou melhor, a “pós-verdade” e os “fatos alternativos” – foram antevistos no Grande Irmão, no Ministério da Verdade e em todo o universo orwelliano. A distopia de Orwell, mesmo situada no futuro, tinha um endereço certo em seu tempo: o stalinismo. Sua obra toda, não apenas 1984, está repleta de ataques às ditaduras totalitárias que procuravam manter o poder pela censura de vozes discordantes, pelo extermínio de opositores, pelo controle da informação e pela difusão de uma versão única e centralizada da verdade. Mas é um equívoco ver em Trump ou Vladimir Putin espectros ressuscitados do nazismo e do stalinismo, retratados em 1984. Orwell fez uma caricatura da ditadura, não da democracia. O mundo da “pós-verdade”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual nas redes sociais mais parece outra distopia, publicada em 1932: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Não se trata de uma tese nova. Ela foi levantada pela primeira vez em 1985, num livreto do teórico da comunicação americano Neil Postman: Amusing ourselves to death (Nos divertindo até morrer), relembrado por seu filho Andrew em artigo recente no The Guardian. “Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão para despojar a população de autonomia, maturidade ou história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância.”

No futuro pintado por Huxley, a sociedade está dividida em castas. Crianças projetadas geneticamente saem de fábricas de bebês e são condicionadas a exercer das funções mais nobres às mais abjetas. Não há mães, pais ou casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e de uma droga que garante o bem-estar sem efeito colateral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e uns poucos territórios selvagens, onde grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos, como família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.”

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Para chegar à estabilidade absoluta, foi necessário abrir mão da arte e da ciência. “A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo”, diz o líder. “Cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais que a verdade e a beleza, o que importava.” A verdade é considerada uma ameaça; a ciência e a arte, perigos públicos. Mas não é necessário esforço totalitário para controlá-las. Todos aceitam de bom grado, fazem “qualquer sacrifício em troca de uma vida sossegada” e de sua dose diária de soma. “Não foi muito bom para a verdade, sem dúvida. Mas foi excelente para a felicidade.”

No universo de Orwell, a população é controlada pela dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento. “Quão maravilhados ficariam todos os reis, czares, führers do passado (e comissários do presente) em saber que a censura não é uma necessidade quando todo o discurso político assume a forma de diversão.” O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. O computador só engatinhava, e Postman mal poderia prever como celulares, tablets e redes sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma contemporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável mundo novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.

5 romances distópicos essenciais, segundo o autor de ‘Laranja Mecânica’

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(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

 

Nathan Fernandes, na Galileu

O futuro é sombrio. Pelo menos, é assim que os escritores de distopias enxergam o mundo: um lugar pós-apocalíptico no qual a pressão é a ordem — o contrário da utopia. O escritor britânico Anthony Burgess, autor do clássico Laranja Mecânica (adaptado para o cinema pelo não menos genial Stanley Kubrick) sabe bem disso.

No livro 99 Novels, Burgess fez uma seleção com as principais obras distópicas que o influenciaram e comentou cada uma delas. Leia um trecho dos comentários abaixo ou o original (em inglês) aqui:

Os Nus e os Mortos, Norman Mailer

“O espírito de revolta entre os homens é incitado por um acidente: os soldados tropeçam em um ninho de abelhas e fogem, deixando as armas e os equipamentos — os nus deixam os mortos para trás. Um impulso pode conter a semente da escolha humana: ainda não nos tornamos inteiramente máquinas.

O pessimismo de Mailer ainda viria mais tarde — em Parque dos Cervos, Barbary Shore e Um Sonho Americano — mas aqui, com os homens se permitindo a optar pelo suicídio coletivo da guerra, há uma visão animadora da esperança. É um livro surpreendentemente maduro para um autor de 25 anos [foi o primeiro romance do escritor]. Continua sendo o melhor de Norman Mailer, e, certamente, o melhor romance de guerra dos Estados Unidos.”

1984, George Orwell

“É uma das distopias (ou cacotopias) que mudaram nossa forma de pensar. É possível dizer que o futuro horripilante previsto por Orwell não surgiu apenas porque ele predisse: nós fomos avisados a tempo. Por outro lado, é possível pensar neste romance menos como uma profecia do que como uma obra cômica que junta duas coisas diferentes — uma imagem de como era a Inglaterra nos pós-guerra, uma terra de tristeza e escassez, e a bizarra e impossível noção de intelectuais britânicos tomando o governo do pais.”

Justiça Facial, L.P Hartley

“A Inglaterra acaba de emergir da 3º Guerra Mundial. Há ataques nucleares e a sociedade começa a ressurgir de esconderijos em cavernas. O novo estado está aflito com um senso profundo de culpa, e cada um de seus cidadãos recebem um nome em homenagem a um assassino. Por isso, a heroina da obra foi batizada como Jael 97. Uma tentativa de formular uma nova moralidade resulta na proibição da inveja e do impulso competitivo. Não devem existir pessoas excepcionalmente bonitas (…). Por carecer dos horrores esperadas da ficção cacotopiana, é menos apreciado do que 1984.”

A Ilha, Aldous Huxley

“Ninguém é condicionado cientificamente a ser feliz: este novo mundo é realmente admirável. O lugar aprendeu uma grande lição filosófica e das religiões orientais, mas está preparado para pegar o melhor da ciência, da tecnologia e da arte ocidental. As população é composta por um tipo de raça eurasiana ideal, equipada com corpos esbeltos e cérebros “huxelianos”, e eles leram todos os livros que Huxley leu.

Parece um jogo intelectual, um sonho sem esperança em um mundo em fuga, mas Huxley é realista o suficiente para saber que há lugar para o otimismo. Na verdade, nenhum professor pode ser pessimista, e Huxley é essencialmente um professor. Em A Ilha, a vida boa é eventualmente destruída por um brutal, estúpido e materialista rajá que quer explorar os rucursos minerais do ambiente.”

Riddley Walker, Russell Hoban

“Inglaterra… Depois da guerra nuclear, o país está tentando organizar uma cultura tribal após a destruição total da civilização industrial centralizada. O passado foi esquecido, e até o dom de fazer fogo precisa ser reaprendido. O romance é essencial não só por conta da sua linguagem, mas também pela presença de rituais, mitos e poemas inventados. Hoban construiui um mundo inteiro a partir do zero.”

“Admirável Mundo Novo” irá virar série de TV

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Baseada no livro de 1932, série será exibida pelo SyFy, com produção de Steven Spielberg. Reprodução

Baseada no livro de 1932, série será exibida pelo SyFy, com produção de Steven Spielberg. Reprodução

Gabriel Garcia, na Info

O clássico livro de ficção-científica Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, será adaptado em forma de série de televisão. Segundo o site The Hollywood Reporter, a série será produzida pela Amblin, estúdio de Steven Spielberg, e exibida no canal SyFy.

Em um comunicado, o presidente da emissora, Dave Howe, chama Admirável Mundo Novo de “um dos clássicos do gênero mais influentes de todos os tempos”, dizendo que o livro “permanece poderoso e atual como nunca”.

Admirável Mundo Novo se passa em um futuro não muito distante, no qual o mundo transformou-se em um lugar sem pobreza, violência ou doença. As pessoas, que nascem em laboratórios, precisam de uma droga chamada soma para combater a tristeza de viver uma vida sem problemas. Mas Bernard Marx sente que algo está faltando e começa a questionar sua existência.

O livro é uma das primeiras distopias, histórias que mostram um futuro na qual as coisas não dão muito certo para a espécie humana. Admirável Mundo Novo é tão influente que até hoje é base para os livros e filmes mais famosos do momento: seria impossível existir as séries Jogos Vorazes ou Divergente sem a obra de Huxley.

Ainda não se sabe se a série será uma adaptação literal do livro, publicado em 1932, ou irá inserir alguns elementos do tempo real. A adoração por Steve Jobs, o amor nos tempos do Tinder e dispositivos de realidade virtual como o Rift parecem ter sido criados pela mente de Aldous Huxley, não?

Fonte: Hollywood Reporter

Os melhores finais de livros

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Franz Kafka; Victor Hugo; Jane Austen; Mia Couto; Jack Kerouac; Aldous Huxley, George Orwell; John Fante

Car­los Wil­li­an Lei­te, no Revista Bula

Dando sequência a série de melhores finais, perguntei colaboradores, leitores e seguidores do Twitter e Facebook quais os melhores finais de livros, excetuando aqueles que apareceram no primeiro levantamento, publicado em dezembro de 2011. Os livros relacionados na primeira parte foram: “Nada de Novo no Front”, de Erich Maria Remarque; “On The Road”, de Jack Kerouc; “À Espera dos Bárbaros”, de J. M. Coetzee; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez; “1984”, de George Orwell; “Notas do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski; “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald; e “O Estrangeiro”, de Albert Camus.

Cada participante poderia indicar até três finais, de autores brasileiros ou estrangeiros de todas as épocas. Abaixo, os trechos selecionados baseados no número de sugestões recebidas.

Carta ao Pai  (Franz Kafka)
Tradução: Marcelo Backes
Uma certa legitimidade à objeção, que além do mais contribui com algo novo para a caracterização do nosso relacionamento, eu não posso negar. Naturalmente as coisas não se encaixam tão bem na realidade como as provas contidas na minha carta, pois a vida é mais do que um jogo de paciência; mas com a correção que resulta dessa réplica, uma correção que não posso nem quero discutir nos detalhes, alcançou-se a meu ver algo tão aproximado da verdade, que isso pode nos tranquilizar um pouco e tornar a vida e a morte mais fáceis para ambos.

Visões de Cody (Jack Kerouac)
Tradução: Guilherme da Silva Braga 
Adeus Cody — os teus lábios nos momentos de pensamento lúcido e bondade responsável recém-descoberta são tão silenciosos, fazem tão pouco barulho, se confundem com as razões da natureza, como o reflexo da luz dos carros na pintura prateada de um tanque na calçada nesse exato instante, silencioso como tudo isso, como um pássaro atravessando o raiar do dia em busca da cruz na montanha e do mar além da cidade no fim do mundo. Adios, você que viu o sol se pôr, nos trilhos, ao meu lado, sorrindo — Adios, Rei.

Os Miseráveis (Victor Hugo)
Tradução: José Maria Machado
Esta pedra está completamente nua. Não pensaram ao talhá-la, senão no que era necessário para o túmulo; só tiveram em vista fazê-la bastante comprida e estreita, para que só cobrisse o corpo de um homem. Não se vê escrito nome algum. Há muitos anos, porém, houve quem escrevesse nela, a lápis, estes quatro versos, que pouco a pouco se tornaram ilegíveis, pela ação da chuva e da poeira, e que decerto estão hoje de todo apagados: Dorme. Viveu na terra em luta contra a sorte/ Mal seu anjo voou, pediu refúgio à morte/ O caso aconteceu por essa lei sombria/ Que faz que a noite chegue,  apenas foge o dia.

Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)
Tradução: Felisberto Albuquerque
A porta do farol estava entreaberta. Empurraram-na e penetraram na penumbra em que tudo estava fechado. Por um arco na outra extremidade da sala, podiam ver o começo da escada que levava para os andares superiores. Exatamente no fecho da abóboda pediam dois pés. — Sr. Selvagem! Lentamente, muito lentamente, como duas agulhas de bússola, os pés se voltaram para a direita: norte, nordeste, este, sudeste, sul, sul-sudoeste; então pararam e, após alguns segundos, viraram-se vagarosamente para a esquerda: sul, sudeste, este…

Orgulho e Preconceito (Jane Austen)
Tradução: Lúcio Cardoso
Depois de alguma resistência o ressentimento de Lady Catherine cedeu, talvez diante da afeição que tinha pelo sobrinho ou da curiosidade de ver como a sua esposa se conduzia; e ela consentiu em ir visitá-los em Pemberley, apesar da ofensa que seus ilustres antepassados tinham recebido, não somente pela presença de uma esposa de tão baixa extração, como pelas visitas dos seus tios de Londres. Com os Gardiner eles ficaram sempre em termos muito íntimos. Darcy, a exemplo de Elizabeth, tinha a maior afeição por eles. E além disso nunca se esqueceram da gratidão que deviam às pessoas por cujo intermédio eles tinham reatado suas relações, durante aquele passeio pelo Derbyshire.

A Revolução dos Bichos  (George Orwell)
Tradução: Heitor Ferreira
Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (Mia Couto)
Neste dias, deitado naquela sala sem telhado, fui contemplado por luas e por estrelas. Às vezes, me descia um frio sem remédio. Me chegavam visões de uma fundura: o abismo que  nenhuma ave nunca cruzou. E eu tombando, tombando sempre. Da rocha para a pedra, da pedra para o grão, do grão para a funda cova do nada. Mas depois eu sentia-o chegar, meu filho, e a minha cabeça dedilhava em sua mão: e você escrevia as minhas cartas. Me sustinha a simples certeza: a mim ninguém, nunca, me iria enterrar. E assim veio a suceder. Fui eu, por meu passo, que me encaminhei para a terra. E me deitei como faz a tarde no amolecido chão do rio. Mais antigo que o tempo. Mais longe que o último horizonte. Lá onde nenhuma casa alguma vez engravidou o chão.

1933 Foi um Ano Ruim (John Fante)
Tradução: Lúcia Brito
Peguei o rolo de dinheiro e caminhei de volta até o misturador. Estava surrado e rebentado, como as mãos de meu pai, uma parte da vida dele, tão estranhamente antiga, como que vinda de um país distante, de Torricella Peligna. Coloquei os braços em volta dele, beijei-o com minha boca e chorei por meu pai e por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época, por mim mesmo, porque agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem.

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