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A ostentação da aparência

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Publicado originalmente no FBDE Nexion

Gosto de livros. Sou o famoso “rato de biblioteca”.

Quem quiser me encontrar nos fins de semana é só dar uma volta nas livrarias da cidade. Passo horas lendo resenhas e orelhas de livros, hesitante entre levar um título ou outro e, quase sempre, acabo levando os dois.

Aproveito também para observar as pessoas ao meu lado, personagens reais dessa obra-prima chamada vida. Observo essas pessoas através de seus gestos, expressões e vozes.

Geralmente olho para uma pessoa e arrisco um palpite sobre qual tipo de livro ela está procurando. Na maioria das vezes acabo acertando.

Observar a natureza humana faz parte do meu trabalho. Porque consultoria nada mais é que analisar a cadeia das relações humanas dentro de uma estrutura de negócio ou de um segmento de mercado.

E dentro deste meu hábito de observar, tenho percebido que as pessoas têm comprado um novo gênero de literatura: o livro para não ser lido, ou melhor definindo, o livro cenográfico.

Eu sei que é um paradoxo. E sei também que é um fenômeno de uma sociedade cada vez mais competitiva onde o aparentar é tão importante quanto o ter competência. Talvez seja um tema que Maslow poderia responder na sua “Hierarquia das Necessidades”.

Para alguns, o livro está se tornando muito mais um objeto de decoração de mesinha de centro do que propriamente um instrumento para se adquirir conhecimento.

Já perdi a conta de reuniões sociais em casas de amigos ou conhecidos em que me deparo com um livro que já li, decorando uma mesa na sala de estar, e começo a puxar assunto sobre o texto.

Por mais de uma vez, o dono do livro não fazia a mínima idéia do que eu estava falando. Nunca tinha aberto nem tampouco folheado o índice da obra. Mas deixou ali porque alguém comentou que ter um Thomas Hobbes, por exemplo, daria um ar de erudição.

Recentemente, fiquei entusiasmado com uma biblioteca na casa de uma conhecida e comentei sobre alguns livros ali expostos. Concluí que ela tinha lido não mais do que meia dúzia deles, e quase todos com conteúdo semelhante ao do “gotas de sabedoria inspiradoras”.

Estamos falando aqui do mais novo produto de consumo da vida moderna: “a imitação da erudição”.

Parecer culto e universal está na moda. Entrar nessa onda não requer prática nem habilidade. Muito menos conhecimento. Basta encher sua casa ou sua sala no escritório de livros de autores que tenham densidade e que sejam reconhecidamente consagrados.

Dê preferência às edições de luxo, de capa dura com belas fotos. Ficam ótimas na estante ou na mesa da sala. É mais chique do que ter um quadro.

E assim, temos uma geração de pessoas que ostentam seu “conhecimento” com estantes lotadas de Voltaire, Saramago, Salinger, Nieztsche, Platão e outros autores que mereciam leitores que fossem além do texto da orelha.

Quero deixar claro que não me considero nem de longe um erudito. Sou, no máximo, um curioso esforçado.

Minha lista de livros importantes não lidos é infinitamente maior do que os que li. Minha dívida com os grandes autores nunca será paga. Sempre estarei devendo a leitura de uma obra, ou melhor, de centenas delas.

Mas se essa moda é novidade entre os círculos sociais, no ambiente corporativo já é uma prática com maior quilometragem.

Profissionais que escondem suas carências atrás de diplomas simetricamente colocados na parede. Alguns destes certificados, muitas vezes, de cursos que mal freqüentou. Na verdade, transformam seu escritório em sala cenográfica.

Em palestras e seminários, observo um fenômeno interessante: um ou outro profissional que está unicamente à caça de diplomas. Colecionadores de certificados, como nossos filhos que colecionam figurinhas.

Foi a partir daí que comecei a identificar este perfil de profissional extremamente preocupado em aparentar competência.

Um indivíduo que é afeito a fazer citações, usar termos em língua estrangeira ou falar sobre um novo vinho Malbec. Ele é craque em tentar impressionar profissionais de RH nas entrevistas de emprego. E com sua desenvoltura, consegue ser o centro das atenções em reuniões com pessoas menos experientes ou de boa fé.

Mas no fundo tem profundidade rasa.

Muitos deles conseguem fazer carreira nas empresas. E, eventualmente, alcançam altos postos. Nesta caminhada, encontram outros como ele, que também aparentam e ostentam conteúdo.

E assim, juntos, começam a estrelar uma temporada do que eu costumo chamar de “teatro da eficiência”.

O palco pode ser qualquer lugar: a sala de reunião, o corredor da empresa, a copa do café, o estacionamento, a recepção. Qualquer lugar que tenha uma platéia.

E, então, começamos um efeito em cadeia. Se esse profissional não tem profundidade, ele faz análises equivocadas e toma decisões inconseqüentes na área em que atua.

Ou seja, sua inaptidão migra para o produto, para os comandados e para a empresa. E aí, na primeira dificuldade, na primeira curva negativa de vendas, agarra-se a qualquer livro de auto ajuda, desses que vendem aos borbotões, com histórias previsíveis, frases clichês e pirotecnia emocional.

As únicas vendas que ele consegue aumentar são as do livro.

Sugiro uma reflexão: que todos nós nos dediquemos persistentemente à busca de um conhecimento verdadeiramente real, entendendo que não existem atalhos nessa busca. Leva tempo, é preciso esforço e a disciplina é fundamental.

Outro dia eu estava procurando na televisão um documentário anunciado no dia anterior na TV a cabo. Enquanto surfava, passei pela MTV. Na tela, em fundo escuro e letras garrafais, um aviso: “Desligue a TV e vá ler um livro”.

Depois de ver por alguns segundos aquele anúncio estático, tomei a decisão mais acertada: fui ler um livro!

 

Brasileiro não gosta de ler?

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Lya Luft, na Veja.com

Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil. Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e… entender. A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.

Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.

E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.

Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.

O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.

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