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Críticos decretam o fim da poesia americana

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Arte: CartaCapital

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Os culpados seriam workshops de escrita criativa e uma geração mais interessada no cultivo do ego que nas questões universais

Francisco Quinteiro Pires, na Carta Capital

De tempos em tempos, alguém anuncia o declínio ou o fim da poesia nos Estados Unidos. Segundo o poeta David Lehman, uma pergunta sempre surge: “E o que estão fazendo com o cadáver?” Na atual edição da Poets & Writers, revista bimensal com mais de 60 mil assinantes, Donald Hall, de 86 anos, rememorou com nostalgia gerações anteriores e colegas como Frank O’Hara e Robert Bly. Hall costuma lamentar a incapacidade dos autores contemporâneos de produzirem obras tão relevantes quanto no passado. Não existiria mais, ele sugere, um autor com talento suficiente para influenciar a imaginação dos americanos como certa vez o fizeram Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Robert Frost, T.S. Eliot ou Allen Ginsberg.

No manifesto Poetry and Ambition, Hall atribui a suposta decadência da poesia do país à falta de “uma ambição séria”, a de “criar palavras que permanecem no tempo”. “Somos a primeira geração de poetas que não estuda latim e não lê Dante em italiano. Daí a insignificância da nossa sintaxe sofrível e do nosso vocabulário limitado”, escreve Hall, poeta laureado entre 2006 e 2007. Embora declare que a publicação de obras poéticas na América aumentou dez vezes entre 1975 e 2005, ele percebe a repetição de uma fórmula. “Muitos desses poemas são com frequência legíveis, charmosos, engraçados, comoventes, até inteligentes. Mas, breves, assemelham-se uns aos outros, não transcendem a si mesmos, não fazem grandes reivindicações, eles associam coisas pequenas a coisas pequenas.”

Professor da University of Virginia, Mark Edmundson compartilha o ponto de vista de Hall. Em artigo polêmico, “Poetry slam or the decline of american verse”, Edmundson tachou de “narcisistas”, “dissimulados”, “tímidos”, “triviais” e “alienados” poetas como Sharon Olds, Mary Oliver, Charles Simic, Frank Bidart, Robert Hass e Robert Pinsky. “Eles não matam a sede dos leitores por sentidos que ultrapassem a experiência individual do autor e iluminem o mundo que temos em comum”, sentenciou Edmundson. Apesar da recorrência de guerras, colapsos econômicos e destruição ambiental, “eles escrevem como se as grandes crises públicas houvessem desaparecido e o negócio mais urgente fosse o cultivo do ego e o afastamento do tédio”. Tudo o que importa é a criação de uma “voz singular”. Eles contrariam o que T.S. Eliot pronunciou no ensaio “Tradition and individual talent” (1920): “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separado ele será do homem que sofre e da mente que cria”.

Hall e Edmundson responsabilizam os mestrados de escrita criativa pelas características repetitivas da poesia contemporânea. Fenômeno consolidado depois da Segunda Guerra Mundial, a escrita criativa tem como o centro da sua prática os workshops, oficinas em que os aspirantes a poeta expõem às críticas dos colegas versos redigidos em um curto prazo. Autor de The Program Era: Postwar fiction and the rise of creative writing (Harvard University Press), Mark McGurl classifica esse tipo de curso de “o evento mais importante da história da literatura norte-americana do pós-Guerra”. A lista de orientadores é extensa e inclui estilos diversos: John Cheever, Raymond Carver, Kurt Vonnegut, Philip Roth, Donald Barthelme, Joyce Carol Oates, John Ashbery, William Kennedy, Jonathan Franzen, Zadie Smith. Dezessete prêmios Pulitzer foram concedidos a escritores que ensinaram ou estudaram no Iowa Writers’ Workshop, o mais antigo e consagrador dos EUA.

Por considerá-los massificados, Hall deu aos versos concebidos nas universidades o título de “McPoems”, “poemas tão instantâneos quanto um pó de café ou uma mistura de sopa de cebola”. De acordo com Seth Abramson, poeta formado pelo Iowa Writers’ Workshop, ao menos 250 programas de pós-graduação em escrita criativa formam perto de 22 mil poetas a cada década. Nos anos 1980, apesar da popularidade crescente, eram apenas 25 programas. “Um grupo reduzido de poetas e críticos na academia coordena hoje a nossa cena boêmia e vanguardista”, diz Abramson, editor do recém-lançado Best American Experimental Writing (Omnidawn). “Os mais jovens não serão nacionalmente reconhecidos sem receber primeiro o carimbo desses professores.” Boa parte da energia criativa, segundo Abramson, é gasta com os relacionamentos profissionais e não a busca de novidades. O aumento da “comunidade de poetas” não reflete o seu ecletismo. “Em vez de florescer um novo período de dinamismo, vemos obras avessas ao risco contempladas por premiações cobiçadas como o Pulitzer e o National Book Awards.”

A poeta Mary Jo Salter apresenta o investimento decrescente nas ciências humanas como a principal explicação para o estudo reduzido das obras poéticas do passado. Recentemente, a University of California, Los Angeles (Ucla), encerrou um curso dedicado aos poemas de Chaucer, Shakespeare e Milton para oferecer uma pós-graduação sobre gênero, sexualidade, raça e classe. “A filosofia, a literatura e a história têm perdido importância diante da ênfase em disciplinas mais úteis para conseguir um emprego”, diz Salter, professora de escrita criativa na Johns Hopkins University e editora da prestigiosa The Norton Anthology of Poetry.

Salter afirma que “a poesia da identidade”, de caráter confessional e autorreferencial, é extremamente comum nos EUA. “Hoje em dia, os poemas tendem mais a abordar raça, etnia e gênero do que em meados do século XX, quando os poetas confessionalistas Robert Lowell, John Berryman, W.D. Snodgrass, Anne Sexton e Sylvia Plath escreveram sobre as suas lutas pessoais com a sexualidade, o divórcio ou a loucura”, opina. “A poesia lírica sempre teve a ver com a vida interior, mas é triste perceber que os poemas se tornaram previsíveis por flertarem com a mesmice.” Contudo, onde Salter vê homogeneidade, David Lehman enxerga “diversidade”: “A demografia dos Estados Unidos mudou. Muito mais mulheres, além de pessoas de diferentes cores, com ascendências diversas (africana, hispânica, indígena, asiática), estão atualmente voltadas para a produção e publicação de poesia”.

Se a escrita criativa cortou os laços com o passado, deu voz a setores silenciados. “Temas considerados proibidos, como as experiências sexual e social desses poetas, são tratados com uma franqueza inédita e em formas experimentais antes desprezadas, como o poema em prosa”, afirma Lehman, o criador da série The Best American Poetry (Scribner) e professor de escrita criativa da The New School (Nova York). “Nada mais é um tabu.” Os autores têm agora um canal imediato de divulgação. “Um poema postado em um blog pode se tornar viral e estimular grande reação em mídias sociais como o Twitter.”

Tanto Salter quanto Abramson veem na internet a possibilidade de propagar um poema sujeito à rejeição dos editores ou universitários. Mas Abramson acredita que “as mídias sociais têm envenenado” a poética dos EUA. Ele diz que, como prescrição para o sucesso, muitos poetas se viciaram em três elementos das comunidades literárias virtuais: “A associação de capital cultural a indivíduos com personalidade carismática, apesar da qualidade da sua escrita, o isolamento de poetas cuja obra pode surpreender ou ofender demais os leitores e a celebração da conquista de prêmios, bolsas de estudo e cargos de professor”. O crítico entende que é hora de desafiar a poesia institucional com o engajamento da arte ao cotidiano. “Chegamos ao momento em que os poetas vão reivindicar a sua relevância social, histórica e cultural, ainda que essa atitude signifique um afastamento dos seus pares”, afirma. “O primeiro passo é sair das mídias sociais. Elas aniquilam a iconoclastia.”

Leituras marcantes de 2014 inspiram 2015

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Leituras marcantes de 2014 inspiram 2015

Fotos: divulgação | Edição: Bruno Carvalho/NE10

Fábio Lucas, no NE10

Qual o livro que mais lhe marcou no ano que indo embora? As respostas colhidas para a última coluna do ano também servem de sugestões de leitura para as férias assim como os títulos dos autores consultados. Confira:

Bruno Liberal – “Em 2014 li um livro que me afetou profundamente. “Sofia” (Iluminuras, 2014), do amigo Sidney Rocha. Peguei o livro fininho para matar o tempo durante uma viagem e, por diversas vezes, fechei e olhei para cima tentando controlar e processar a emoção despertada. E “Sofia” é uma ventania mesmo, um sentimento que invade como redemoinho no corpo. Um livro sensível e forte, que expõe esse universo fantástico da literatura de Sidney Rocha.” (Bruno Liberal é autor de “Olho morto amarelo”)

Beatriz Castanheira – “Este ano, a leitura de “Junco” (Iluminuras) me marcou bastante. Um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, o escritor Nuno Ramos teve este livro publicado em 2012. A inventividade de Nuno fala ao leitor, para além do texto escrito, nos 43 poemas em operação com 18 fotografias de troncos de madeira abandonados na praia e corpos de cães mortos na rua ou na beira da estrada. Na foto da capa, cachorro e árvore se apresentam em imagens sobrepostas, ao passo que, nas páginas internas, eles não se mostram tão próximos ao ponto de estarem colados um sobre o outro, mas dispostos lado a lado. O artista escreveu os poemas e fez as fotografias ao longo de quase 14 anos, sempre imaginando “as duas coisas juntas”. O último poema do livro utiliza versos de “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.” (Beatriz Castanheira é autora de “Avião de Papel”)

Pablo Capistrano – “O livro que me marcou foi “Mente Espontânea” (Novo Século, 2013), uma coletânea de entrevistas com o poeta beat Allen Ginsberg. São entrevistas selecionadas do período que vai de 1958 a 1996. Incluindo aí o relato completo do testemunho que Ginsberg deu durante os julgamentos de Chicago nos anos sessenta. É espantoso o tom profético com que Ginsberg trata de temas ambientais, sociais e políticos. A gente percebe nitidamente uma antecipação de tendências e problemas atuais. As discussões giram em torno de poesia, política, sexualidade e religião. Recomendo não só para os que são apaixonados pela literatura beat.” (Pablo Capistrano é autor de “A Grande Pancada – Crônicas do tempo do Jazz)

Samarone Lima – “Escolher um só livro, no meio das montanhas que leio, é um grande desafio, mas destaco “Entre Moscas”, o livro de contos do Everardo Norões (Editora Confraria do Vento, 2014). É um livro denso, forte, que mostra um escritor no esplendor da sua escrita. Como somos da mesma casa editorial, recebi o livro e fiquei com ele na estante alguns meses. Quando comecei a ler, não parei mais. Não por acaso, ele foi o vencedor do prêmio Portugal Telecom de 2014, na categoria contos/crônicas. Um prêmio merecidíssimo, um reconhecimento”. (Samarone Lima é autor de “O aquário desenterrado”)

Wellington de Melo – “Uma leitura que me marcou este ano foi a do livro “Olho morto amarelo” (Cepe, 2014), vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, de Bruno Liberal. É um livro de contos muito consistente, que trabalha o tema da perda e da solidão de maneira muito precisa e cruelmente humana – talvez aí resida a força da literatura do Bruno. Destaque para o último conto, “Juro por Deus que é um final feliz”, um verdadeiro soco no estômago e que pode parecer tetricamente familiar.” (Wellington de Melo é editor da Mariposa Cartonera e escritor, autor de “Estrangeiro no labirinto”)

Andreia Joana Silva – “O Papalagui!!! Voltei a lê-lo após uma questão colocada por um aluno quando falávamos de Descobrimentos. Perguntou-me inesperadamente (após a leitura da carta de descoberta do Brasil de Pero Vaz de Caminha): “E a visão do outro? A visão do índio em relação ao branco, europeu, colonizador?” Lembrei-me dessa obra, e achei que seria bom que eles lessem (e leram-na! Atenção: são alunos franceses universitários que aprendem português). No fim do semestre cada um fez uma exposição oral sobre um capítulo que mais lhe tinha tocado. Fiquei boquiaberta com o espírito crítico e de análise em relação à obra que tinham lido. De fato, “O Papalagui” mostra-nos, através de uma escrita que pode roçar o inocente, o naif, todo o mundo no qual estamos envoltos e ao qual nem prestamos atenção. Este livro obriga-nos a nos relermos a nós próprios, a colocarmo-nos novas questões e a analisarmos os nossos mundos interiores e exteriores. No meu caso foi uma releitura riquíssima. No caso dos meus alunos, uma primeira leitura que espero que vá gerar ainda muitos frutos”. (Andreia Joana Silva é editora na Cephisa Cartonera e professora de português (Leitora do Instituto Camões) na Universidade Jean Monnet em Saint-Étienne, na França. A mais recente edição de “O Papalagui” é de 2012, da Antigona, de Portugal)

 

Belinha leu 14 obras este ano Foto: Fábio Lucas

Belinha leu 14 obras este ano Foto: Fábio Lucas

O PRAZER DE LER COMEÇA CEDO – As novas gerações no Brasil estão desmentindo a previsão sombria de que os aparatos tecnológicos iriam acabar com os livros impressos. E curtem cada vez mais passar horas e horas com livros de centenas de páginas de histórias nas mãos. É o caso de Belinha, de 10 anos de idade. Isabella Gondim Coutinho Lustosa leu mais do que muita gente grande em 2014: foram 14 livros, bem mais do que a média no País, que é de quatro livros por ano.

Na lista de Belinha, só best-sellers: “O Teorema Katherine”, a saga “Percy Jackson”, a saga “Divergente”, “Maze Runner”, “Se eu ficar”, “A estrela que nunca vai se apagar” e “A menina que roubava livros”. Os pais dela, Alexandre e Stella, não escondem o orgulho, e dizem que o exemplo da filha convida-os a ler mais. “Gostei mais da saga Divergente e Maze Runner”, conta Belinha, pronta para bater o próprio recorde em 2015.

“Por que escrevo?” – 19 depoimentos que você precisa conhecer

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Mariana Gonçalves, no Homo Literatus

– Por que você escreve?

1No livro Por que escrevo?, organizado por José Domingos de Brito como parte da série “Mistérios da Criação Literária”, a pergunta parece ser feita a todos os mais variados cânones da literatura, da poesia, e do jornalismo – pessoas que, enfim, constroem e desconstroem com palavras. De A a Z, as respostas vão sendo traçadas uma a uma, em um espírito íntimo em meio ao qual o leitor tem, certas vezes, a impressão de ouvir da boca de seu grande ídolo as razões que o levaram a tal árdua profissão . Enquanto Allen Ginsberg diz que escreve porque gosta de cantar quando está só, Gabo diz que escreve para que seus amigos o amem mais. E assim o livro nos mostra, em uma coletânea despretensiosa e sem ornamentos — e com uma rica bibliografia sobre o ofício da escrita —, das respostas mais simples e definitivas às mais reflexivas, abrangentes e complexas possíveis.

Aqui vão algumas delas*:

01. Allen Ginsberg:

“(…) Eu escrevo poesia porque gosto de cantar quando estou só (…) Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém uma multidão de pensamentos, 10 mil para ser preciso (…) Eu escrevo poesia porque não há razão, não há porquê. Eu escrevo poesia porque é a melhor forma de dizer tudo que me vem à cabeça no intervalo de um quarto de hora ou de toda uma vida.”

02. Augusto dos Anjos:

“A princípio escrevia simplesmente
Para entreter o espírito… Escrevia
Mais por impulso de idiossincrasia
Do que por uma propulsão consciente.

Entendi, depois disso, que devia,
Como Vulcano, sobre a forja ardente
Da ilha de Lemnos, trabalhar contente,
Durante as 24 horas do dia!

Riam de mim, os monstros zombeteiros.
Trabalharei assim dias inteiros,
Sem ter uma alma só que me idolatre…

Tenha a sorte de Cícero proscrito
Ou morra embora, trágico e maldito,
Como Camões morrendo sobre um catre!”

03. Carlos Drummond de Andrade:

“Posso dizer sem exagero, sem fazer fita, que não sou propriamente um escritor. Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projetou no papel, fazendo uma espécie de psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mesmo porque não havia analista no meu tempo, em Minas.”

04. Clarice Lispector:

“Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.”

05. Fernando Pessoa:

“Eu escrevo para salvar a alma.”

06. Fernando Sabino:

“Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não haveria condição. Não saberia dizer, não. Está além da minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntassem: ‘Por que vive? Por que ama? Por que morre? ’. Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem. No verso de Eliot: ‘Birth, copulation and death’; eu diria ‘nascimento, amor e morte’. Não sei por que escrevo. Eu nasci, virei homem e vou morrer.”

07. Gabriel García Márquez:

“Para que meus amigos me amem mais.”

08. George Orwell:

“Meu ponto de partida é sempre um sentimento de proselitismo, uma sensação de injustiça. Quando sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: ‘Vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe uma mentira que pretendo expor, um fato para o qual pretendo chamar a atenção, e minha preocupação inicial é atingir um público. Mas não conseguiria escrever um livro, nem um longo artigo para uma revista, se não fosse também uma experiência estética. Quem se dispuser a examinar meu trabalho perceberá que, mesmo quando é uma clara propaganda, contém muito do que um político de tempo integral consideraria irrelevante. Não sou capaz de abandonar por completo a visão de mundo que adquiri na infância, nem quero. Enquanto viver e estiver com saúde, continuarei a ter um forte apego ao estilo da prosa, a amar a superfície da Terra, a sentir prazer com objetos sólidos e fragmentos de informações inúteis. De nada adianta tentar reprimir esse meu lado. O trabalho é conciliar os gostos e os desgostos arraigados com as atividades essencialmente públicas, não individuais, que esta época impõe a todos nós.”

09. Jean-Paul Sartre:

“Porque a criação só pode encontrar seu acabamento na leitura; porque o artista deve confiar a outro a tarefa de concluir o que ele começou; porque somente através da consciência é que ele pode se ter como essencial a sua obra e toda obra literária é um apelo. Escrever é apelar ao leitor para que ele faça passar à existência objetiva o descobrimento que empreendi por meio da linguagem.”

10. João Cabral de Melo Neto:

“Por que escrevo é um negócio complicado… Eu tenho a impressão de que a gente escreve por dois motivos. Ou por excesso de ser — é o tipo do escritor transbordante, como a maioria dos escritores brasileiros; é uma atitude completamente romântica — ou por falta de ser. Eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche um vazio existencial. Às vezes, eu escrevo porque quero dizer determinada coisa que eu acho que não foi dita; às vezes, porque me interessa que conheçam meu ponto de vista. Às vezes, escrevo também por prazer.”

11. José Saramago:

“Antes eu dizia: ‘Escrevo porque não quero morrer. ’ Mas agora eu mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?”

12. Julio Cortázar:

“(…) O fascínio que uma palavra produzia em mim. Eu gostava de algumas palavras, não gostava de outras, algumas tinham certo desenho, uma certa cor. Uma de minhas lembranças de quando estava doente (fui um menino muito doente, passava longas temporadas de cama com asma e pleurisia, coisas desse tipo) é a de me ver escrevendo palavras com o dedo, contra uma parede. Eu esticava o dedo e escrevia palavras, e via as palavras se formando no ar. Palavras que eram, muitas vezes, fetiches, palavras mágicas. Isso é algo que depois me perseguiu ao longo da vida. Havia certos nomes próprios — e sei lá por quê — que para mim tinham uma carga mágica. Naquela época havia uma atriz espanhola que se chamava Lola Membrives, muito famosa na Argentina. Bom, eu me vejo doente — aos sete anos provavelmente — escrevendo com o dedo no ar Lo-la-Mem-bri-ves, Lo-la-Mem-bri-ves. A palavra ficava desenhada no ar e eu me sentia profundamente identificado com ela. De Lola Membrives, a pessoa, eu não sabia muita coisa, nunca a tinha visto e nunca a vi. Na realidade, eram meus pais que iam ver as peças onde ela trabalhava. E foi nesse mesmo momento que comecei a brincar com as palavras, a desvinculá-las cada vez mais de sua utilidade pragmática e comecei a descobrir os palíndromos, que depois apareceram nos meus livros… Desde muito pequeno, minha relação com as palavras, com a escrita, não se diferencia da minha relação com o mundo em geral. Eu não acho que nasci para aceitar as coisas tal como estão, tal como me são oferecidas.”

13. Manuel Bandeira:

“Na verdade, faço versos porque não sei fazer música… Jamais senti que meu destino fosse a Poesia, sobretudo assim com esse P maiúsculo que pressinto na sua garganta. Creio que se fui poeta em alguns momentos, só o fui por incidente patológico ou passional.”

14. Moacyr Scliar:

“Quando criança, eu era adicto à literatura, não podia ficar sem ler. A minha conexão com a vida acontecia via literatura. Eu lia para aprender a viver, para saber o que fazer. É claro que isso provoca muitas desilusões, muitos choques, porque a vida não é a literatura. Assim, quando comecei a escrever, foi porque lia. Outra razão é que meus pais foram grandes contadores de história. Numa noite quente como essa, as pessoas do meu bairro se reuniam para contar histórias, o que, desde muito cedo se incorporou em mim, passou a ser uma coisa que eu também queria fazer, só que à minha maneira, escrevendo.”

15. Paulo Francis:

“Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida.”

16. Rachel de Queiroz:

“Acho que para cada escritor há uma razão diferente. No meu caso, num certo sentido, é o desejo interior de dar um testemunho do meu tempo, da minha gente e principalmente de mim mesma: eu existi, eu sou, eu pensei, eu senti, e eu queria que você soubesse. No fundo, é esse o grito do escritor, de todo artista. Creio que o impulso de todo artista é esse. É se fazer ver. Eu existo, olha pra mim, escuta o que eu quero dizer: tenho uma coisa pra te contar. Creio que é por isso que a gente escreve.”

17. Sérgio Milliet:

“Quer saber de uma coisa? Não acredito na predestinação literária. São circunstâncias acidentais que fazem o escritor e é o acaso de um primeiro êxito que o leva a perseverar. Um homem de inteligência média faz qualquer coisa; basta que a vida o exija. Qualquer camarada de algumas letras escreveu versos na mocidade; se não continuou, foi porque outra coisa lhe interessou.”

18. Truman Capote:

“Sou um escritor essencialmente horizontal. Não posso pensar mais do que quando estou encostado, com um cigarro nos lábios e uma xícara de café ao alcance da mão. A xícara de café pode ser trocada por um copo de vodka, não há por que ser maníaco. Não uso máquina de escrever, redijo à mão, com lápis. Trabalho quatro horas por dia durante quatro meses por ano. Sou um estilista: me preocupa mais onde colocar uma vírgula que ganhar o prêmio Nobel.”

19. William Faulkner:

“Para ganhar a vida.”

E você, por que escreve?

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*Todos os depoimentos a seguir transcritos pertencem à coletânea “Por que escrevo?”, organizada por José Domingos de Brito (editora Novera), com suas respectivas fontes individuais.

Junky

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Tony Bellotto, no Blog da Companhia

Junk: na gíria dos usuários, droga pesada (morfina, heroína).
Junky: dependente de drogas pesadas.

Acabo de reler Junky, de William Burroughs, na tradução de Reinaldo Moraes para a coleção Má Companhia. Reler não é a palavra certa, pois a leitura anterior foi de uma versão antiga e incompleta, ainda com cortes dos editores da primeira publicação norte-americana, de 1953, e que permaneceu como versão oficial por décadas. A publicação recente é a edição definitiva, com texto original recuperado e introdução reveladora de Allen Ginsberg. Isso explica que eu tenha experimentado só agora a sensação de ler o livro pela primeira vez. Ou então foi a tradução primorosa do Reinaldo que me deu essa impressão.

Junky é fabuloso por vários motivos. O primeiro, a narrativa amoral e distanciada do narrador, um certo Bill (?), nascido de boa família do Centro Oeste americano, que nos informa — com secura literária de deixar Hemingway com cara de mocinha — de sua condição, um junky no final dos anos 1940 e início dos 1950 nos Estados Unidos e no México (para onde Bill foge atrás de junk quando a barra pesa com a justiça americana). Contribuem para a força do texto a ironia agulheada do autor e seu conhecimento prático de drogas químicas, ervas rituais, alucinógenos, barbitúricos e afins.

É sabido que Burroughs, além de grande escritor, foi notório consumidor de drogas e matou acidentalmente (?) a esposa com um tiro na cabeça durante uma bebedeira no México, o que talvez ajude a entender a intrigante — às vezes irritante — misoginia de Junky.

Mas o fato que mais me chamou a atenção na releitura do texto, paradoxalmente, não foi o aspecto literário, ou estético. O que surpreende no livro, e que censores e moralistas nos últimos sessenta anos nunca perceberam, é seu teor, talvez involuntário, antidrogas. Difícil alguém que não seja um dependente terminar a leitura de Junky seco por um pico (ou mesmo por uma cafungada). É claro que o texto transpira revolta contra ações policiais e criminalização de drogas e desperta simpatia pela ideia de que liberdade individual deve prevalecer sobre leis impostas por moralismo e interesses políticos. Mas as descrições cirúrgicas das agruras dos viciados quando privados da droga são de virar o estômago. Junky devia ser adotado em escolas (e tribunais e hospitais) como um livro esclarecedor sobre o uso de drogas pesadas (e de drogas leves também). Ou talvez, numa visão menos otimista, o livro simplesmente revela que não há tratamento para a miséria humana. Numa passagem, Bill admite que em certo estágio do vício, o único “barato” da droga é evitar o desespero da abstinência e a vida do junky se resume a garantir a próxima picada.

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