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19 livros que não podem faltar em sua biblioteca

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publicado na Gazeta do Povo

1) Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

L&PM Pocket, 228,pp, R$ 22.

“Livro moderníssimo numa prosa que, ainda hoje, vibra e educa o ouvido da língua portuguesa”.

Leandro Sarmatz, editor Cia. das Letras.

2) Crime e Castigo

Fiódor Dostoievski

Editora 34, trad. Paulo Bezerra, 568pp, R$ 39.

”Primor de argumento, narrativa, com perfeita definição de personagens e tensão em crescendo. Raskolhnikov é um exemplo de protagonista-vilão, com quem os leitores se identificam. Um livro do qual nunca nos libertaremos”.

Ernani Buchmann, da Academia Paranaense de Letras.

3) As Aventuras do Senhor Pickwick

Charles Dickens

(Fora de Catálogo)

”Engraçadíssimo e fundamental para se compreender como funciona a justiça. Ideal para desiludir quem espera muito das instituições. Sobre justiça, poder e ressentimento, aliás, pautas tão contemporâneas é uma obra essencial, assim como o Quixote e o teatro completo de Shakespeare”.

Luís Henrique Pellanda, escritor.

4) Ensaios

Michel Montaigne

Cia. das Letras, trad. de Rosa freire D’Aguiar, 616 pp. R$ 37.

“Houve uma época em que eu lia um ensaio de Montaigne por noite. E noite após noite, a cada ensaio, minha própria natureza transparecia naquelas páginas. Montaigne é um espelho de nós, séculos depois; isso é assustador”.

Felipe Munhoz, escritor.

5) Górgias

Platão

Versão eletrônica livre

”Deveria ser de leitura obrigatória .Mostra-nos bem como o cidadão é enganado através da linguagem, julgando que está a ouvir a verdade. Um livro onde se assiste à guerra entre a retórica e o conhecimento (ou a sua busca).

Paulo José Miranda, escritor vencedor do prêmio José Saramago 1999.

6) Moby Dick

Herman Melville

Cosac Naify, trad: Alexandre barbosa de Souza, 628 pp. R$ 59

“O livro mais poderoso. Tudo nele é impressionante. Gosto inclusive dos nomes dos lugares (Nantucket) ou dos personagens (Queequeg). Não há nada que se compare a esse livro”.

Mário Bortolotto, escritor e dramaturgo.

7) Os Cantos de Canterbury

Geoffrey Chaucer

Editora 34, trad Paulo Vizoli , 784 pp. R$ 98.

“Escrito a partir de 1387 é uma coleção de 24 histórias narradas cada uma por um peregrino, nos coloca diante de figuras das diversas camadas sociais de uma Inglaterra medieval e explora, com grande humor e com uma linguagem primorosa, temas, entre cotidianos e polêmicos, que são surpreendentes por sua atualidade”.

Luci Collin, escritora e professora de literatura

8) Paranoia

Roberto Piva

(Fora de catálogo)

“Uma viagem delirante por São Paulo. Um clássico que marcou minha juventude e despertou meu interesse por poesia”.

Diego Moraes, escritor.

9) Mahabharata (poema épico indiano escrito em sânscrito entre 300 AC e 300DC )

Fora de Catálogo

“A maior obra literária de todos os tempos”.

Alberto Mussa, escritor

(Fora de catálogo)

10) Stoner

John Williams

Rádio Londres, trad. Marcos Maffei, 320 pp. Romance. R $45.

“Clássico a gente também descobre tardiamente, e este faz a síntese perfeita das qualidades de dois outros livros indispensáveis de americanos contemporâneos: A marca humana, de Philip Roth, e Foi apenas um sonho – Revolutionary Road, de Richard Yates”.

Christian Schwartz, tradutor e editor.

11)É Isto é um homem?

Primo Levi

Rocco, tra. Luigi del Re. 256pp. R$ 28.

“O relato sobre Auschwitz fica martelando pelo resto da vida, dia após dia, nos lembrando dos horrores que somos capazes de cometer”.

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná.

12) Grande Sertão: veredas

João Guimarães Rosa

Nova Fronteira, 624 pp. R$55

“O maior livro já escrito no Brasil. Rosa criou ele mesmo uma linguagem, um cenário e um sagrado a partir de suas percepções sensíveis sobre o povo sertanejo. Ler Grande Sertão é um dos poucos privilégios de ser brasileiro nativo”.

Yuri Al’Hanati, youtuber do canal “Livrada”.

13) Pornopopeia

Reinaldo Moraes

Objetiva, 480 pp. R$ 62.

“Uma viagem, já nasceu clássico. A história é divertida, o personagem principal é amoral e a linguagem exuberante, com uma saraivada de gírias que se misturam a referências cultas. Uma espécie de Grande sertão: veredas urbano, pop e picaresco”.

Luiz Rebinski Jr, editor do jornal literário Cândido.

14) Alice no País das Maravilhas

Lewis Carrol

“Narrativa riquíssima em jogos de palavras, imaginação, fantasia, sutilezas da alma humana, crítica e bom-humor; para todas as idades”.

Stela Maris Rezende, autora infantil e vencedora do premio BPP em 2014

15) Só garotos

Patti Smith

Cia. das Letras, trad de Alexandre Souza. 280 pp, R$ 44.

“Um livro nada acadêmico, autobiográfico, sugere a mulher participativa envolvida com as nuances de um novo mundo, cosmopolita”,

Toninho Vaz, autor da biografia de Paulo Leminski, O Bandido que Sabia Latim

16) Desastres do Amor

Dalton Trevisan

Record, 144pp. R$ 35.

“Fico com este Dalton em que as histórias de Joãos e Marias são contadas com humor sutil e toques de poesia (“Os plátanos enfeitam-se da conversa dos pardais.”). É uma boa introdução na obra do maior contista brasileiro”

Marleth Silva, jornalista cultural e colunista da Gazeta do Povo

17) Crônica de uma morte anunciada

Gabriel García Márquez

Record, trad Remy Gorga Filho, 176 pp. R4 25.

“Uma aula de como contar uma história que já se conhece o desfecho”

Tito Montenegro, editor da Arquipélago Editorial

18) O Livro das Vidas- Obituários do New York Times

Vários Autores

Cia. das Letras, trad: Denise Bottman, 312 pp. R$ 54.

A obra revela histórias improváveis e mostra o poder da qualidade narrativa na descrição de pessoas aparentemente comuns.

Daniela Arbex, escritora e jornalista

19)Vidas Secas

Graciliano Ramos

Record, 175 pp. R$ 25.

Entre as falsas e verdadeiras citações clariceanas

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Todos sabem o quanto citações de Clarice Lispector circulam nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Mas essas citações são, de fato, da escritora ou são apenas atribuídas a ela? E se são verdadeiras, por que os usuários levam as citações às redes sociais?

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Estela Santos, no Homo Literatus

Na maioria das vezes o que percebemos em boa parte das citações ditas “clariceanas”, que circulam as redes sócias, é que linguagem não condiz com a linguagem de Clarice e que a temática também não condiz com os temas recorrentes em sua literatura – o que leitores dela percebem rapidamente –, isto é, trata-se de citações atribuídas erroneamente a escritora. A literatura de Clarice Lispector tem um estilo único, ela desnuda a alma humana ao abordar questões voltadas para o “eu”, com sua escrita de cunho altamente intimista e sua linguagem corrosiva. E quando a citação é verdadeira, parece-nos que contribui para o que podemos chamar de “cultura nas redes sociais”, uma vez que Clarice é uma escritora e intelectual notavelmente conhecida, inclusive admirada por um dos maiores críticos literários do Brasil, Antônio Cândido; além disso, citações verdadeiras, com a fonte de referência parecem ter o poder de conquistar novos leitores.

O problema é que Clarice passou a ser vista nas redes sociais como escritora de textos de autoajuda, muitas vezes aparece, ainda, como uma conselheira amorosa, ou até como uma grande poeta – ela que apenas escreveu prosa poética. Como o poema Alta Tensão, de Bruna Lombardi, a ela atribuída recorrentemente no Facebook: “eu gosto dos venenos mais lentos / dos cafés mais amargos / das bebidas mais fortes / e tenho / apetites vorazes / uns rapazes / que vejo / passar / eu sonho / os delírios mais soltos / e os gestos mais loucos / que há / e sinto / uns desejos vulgares / navegar por uns mares / de lá / você pode me empurrar pro precipício / não me importo com isso / eu adoro voar”. O que pensaria ou diria Clarice ao ver isto? O que ela comentaria sobre essas “difamações literárias”, por assim dizer?

Mas se a grande maioria esmagadora das citações não é de Lispector, isto nos leva ao embate: a grande escritora é popular ou impopular? Por tantos trechos falsos a ela atribuídos pela grande massa das redes sociais, podemos pensar que, na verdade, a escritora é impopular, uma vez que seus verdadeiros escritos são menos divulgados que os falsos. O que não quer dizer que ela não tenha leitores (muitos que estão lendo esta matéria são leitores de Clarice) e que estes não divulguem citações reais.

Em defesa de Clarice e para legitimá-la aqui deixamos excertos de algumas de suas obras, com as devidas referências:

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher […]. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.” (LISPECTOR, Clarice. In: Amor)

“Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago.” (LISPECTOR, Clarice. In: A hora da Estrela)

“A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” (LISPECTOR, Clarice. In: Perto do coração selvagem)

“E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última.” (LISPECTOR, Clarice. In: Água viva)

“– Você tem ‘descortinado’ muito ultimamente, meu filho? – Tenho pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera ‘compreendê-lo’, deixara-o constrangido. – Como vão suas relações sexuais, meu filho? – Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde tirara.” (LISPECTOR, Clarice. In: A maçã no escuro)

“Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maçã com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a mesa para vê-la como antes. E era como se visse a fotografia de uma maçã no espaço vazio. Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida. E, oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso. Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça. Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada.” (LISPECTOR, Clarice. In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

“No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que, por vergonha, não podia ter conhecido. A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.” (LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo)

“[…] estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.” (LISPECTOR, Clarice. In: A paixão segundo G. H.)

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