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Conheça o escritor que venceu o Alma, o maior prêmio da literatura infantil mundial

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Bart Moeyaert vence o Alma / Crédito: Suzanne Kronholm/Divulgação/Alma

O Prêmio Memorial Astrid Lindgren entrega anualmente o equivalente a R$ 2,08 milhões ao vencedor, que pode ser escritor, ilustrador, contador de história e promotor de leitura

Bia Reis, no Estadão

Escrevo para a criança que eu fui e para a criança que mora em mim, dizia a escritora sueca Astrid Lindgren (1907-2002). Astrid é conhecida por seu personagem Pippi Longstocking, ou Píppi Meialonga em português, que desafia e testa adultos sobre os direitos das meninas – e se tornou um ícone feminista. Reconhecida pela capacidade singular de lembrar como as crianças pensam e sentem e por transmitir essa percepção para leitores de todas as idades, a escritora dá nome ao Prêmio Memorial Astrid Lindgren (Alma), uma das mais prestigiosas premiações da literatura infantil mundial e que paga ao vencedor o maior valor: 5 milhões de coroas suecas, ou R$ 2,08 milhões.

Astrid foi citada como referência e inspiração pelo escritor premiado este ano pelo Alma, o belga Bart Moeyaert, de 54 anos, que tem mais de 50 obras publicadas e traduzidas para 21 idiomas, entre ficção, livros ilustrados, poesia, peças de teatro, roteiros de televisão e ensaios. No Brasil, é difícil encontrar livros de Bart – Me Dá Um Beijo (Ediouro, 1996) e A Criação (CosacNaify, 2006) estão fora de catálogo (mas quem quiser conhecer pode procurar em sebos, como a Estante Virtual).

“Li os livros de Astrid Lindgren quando tinha 9 anos. O mundo de Astrid era como a minha própria família, e o mundo real era como o dela. Depois eu entendi que o mundo dela era sobre inclusão. Isso foi reconfortante porque eu era solitário na minha grande família, porque era o mais novo. E isso influenciou o meu trabalho”, afirmou Bart, depois de ser anunciado vencedor do Alma, na semana passada, durante a Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália.

Na justificativa da escolha, o júri escreveu: “A linguagem condensada e musical de Bart Moeyaert vibra com emoções reprimidas e desejos não verbalizados. Ele retrata relacionamentos em momentos de crise com um imediatismo cinematográfico, mesmo que suas narrativas complexas surgiram novos caminhos. O trabalho luminoso de Bart Moeyaert ressalta o fato de livros para crianças e jovens tem um lugar de destaque na literatura mundial”.

Os jurados apontaram, entre os livros de destaque, seu mais recente romance, de 2018: Everybody’s Sorry Today (Todo Mundo Está Desculpado). Nele, Bart faz o retrato de Bianca, uma menina de 12 anos. It’s Love We Don’t Understand (É o Amor que Não Conseguimos Entender), em que conta a história de uma família que desmorona, pelo olhar de uma garota de 15 anos, foi apontado como sua obra-prima. Foram ainda citados Bare Hands (Com as Próprias Mãos), que descreve os sentimentos conflitantes de um menino em uma movimentada noite de ano-novo, e Brothers (Irmãos), seu livro autobiográfico, em que escreve com carinho e humor sobre como foi crescer sendo o caçula de sete irmãos.

Direção do Alma anuncia vencedor. Crédito: Stefan Tell/Divulgação/Alma

A vida de Bart

Nascido em 1964, em Bruxelas, na Bélgica, Bart foi pela primeira vez para a escola em 1970. Ansioso para aprender a ler e a escrever, ele sublinhava as palavras que já entendia e deixava passar as de três sílabas, ainda difíceis. Ao longo da década de 70, foi se aproximando cada vez mais da escrita. Em 74, publicou um jornal interno, digitado em sete cópias. Na sequência, escreveu sua primeira história mais longa e a chama de livro.

Bart viria a publicar seu primeiro livro em 1983, aos 19 anos. Dueto com Notas Falsas teve uma trajetória impressionante. A segunda edição da obra foi feita apenas quatro meses depois do lançamento. Em 1984, o livro recebeu o Prêmio do Júri Infantil e Juvenil Flamengo e foi traduzido para japonês, húngaro, alemão e catalão. E ainda virou musical, adquirindo status de clássico moderno. Após terminar os estudos de holandês, alemão e história em Bruxelas, Bart se mudou para Antuérpia.

Trabalhou como freelancer para a revista Flair, analisando livros infantis e traduzindo artigos. Para a revista, escreveu um ensaio sobre a vida de Astrid Lindgren. Em 1992, tornou-se editor da revista Top e após três anos decidiu dedicar-se integralmente à carreira de escritor. Se conectou aos palcos, atuando como ator e também escrevendo sua primeira peça.

Em 2001, foi convidado pelo compositor Filip Bral a adaptar o conto de fadas eslovaco Berona, e deste trabalho nasceu o livro ilustrado Luna Van de Boom, que vem com um CD. Neste período, foi premiado com o Woutertje Pieterse Prijs por seu livro Brothers. Nos anos seguintes, passou a trabalhar como professor de redação no Conservatório Real de Antuérpia e estreou como poeta.
O Alma

O Alma foi criado em 2002 pelo governo da Suécia para homenagear a escritora Astrid Lindgren e promover o interesse pela literatura infantil e juvenil em todo o mundo. A premiação é concedida a escritores, ilustradores, contadores de histórias e promotores de leitura.

Até hoje, apenas uma brasileira foi laureada com o Alma: a escritora Lygia Bojunga, em 2004. Entre os premiados também estão Maurice Sendak (2003), Shaun Tan (2011) e Isol (2013).

Projeto com presos catarinenses estimula a reeducação através da leitura

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Publicado por AMC

“A gente vive apenas dentro deste mundo e ler me ajuda bastante”, revela, timidamente, M.Z., que está cumprindo pena no Presídio Regional de Joaçaba (SC) por tráfico de drogas. Agora, aos 40 anos, ela começa a descobrir o prazer da leitura e desbravar outra realidade a partir de grandes clássicos. Márcia e outros 60 detentos fazem parte do Projeto Reeducação do Imaginário, implementado há oito meses na Vara Criminal do município, pelo juiz de Direito Márcio Umberto Bragaglia.

Usando o uniforme verde, ela fala um pouco desconfiada. “Já tive a minha cara em muitos jornais por aí”, justificou. M., que trabalha diariamente na cozinha do presídio, já está no terceiro livro. Por enquanto, o seu preferido foi o romance Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, publicado em 1866, que conta a história de um jovem estudante que comete um assassinato e se vê perseguido por sua incapacidade de continuar sua vida após o delito. “É como a história da gente”, compara.

A iniciativa prevê reeducar o imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido de vida, a redenção pelo arrependimento e a melhora progressiva da personalidade.

Isso funciona quando os detentos, voluntariamente, dedicam parte do seu descanso à leitura. Durante o dia, eles exercem uma série de funções, como trabalhos de cozinha, limpeza, artesanato e fabricação de sapatos. “Um dos objetivos indiretos é exatamente ocupar o tempo livre com cultura”, explicou o magistrado, que conduz a entrevista com os presos para avaliar a leitura.

Bragaglia faz questão de registrar que os livros usados não custam “um centavo ao contribuinte”. “Quem paga são as pessoas que cometem pequenos delitos, desde que sem antecedentes criminais. Adquirem as obras em edições de bolso e entregam no prazo estipulado, acompanhadas de nota fiscal”, completa.

Outro ponto que o magistrado pontua é que a inspiração do projeto é conseqüência das lições do filósofo Olavo de Carvalho. “Ensinou o professor que para o exercício de qualquer atividade intelectual séria é imprescindível um prévio trabalho de fortalecimento do caráter. A grande literatura é um instrumento poderoso neste sentido, pois permite que a experiência humana do real, seja absorvida e refletida ao máximo”, considerou.

O juiz, acompanhado dos assessores, vai até o presídio para entrevistar os presos, após a leitura de cada livro. “Sentimos que os detentos realmente se interessaram por Crime e Castigo e o leram, alguns duas vezes, porque respondiam às perguntas da equipe com conhecimento de causa, ainda que com dificuldade, em especial pelos nomes russos”, afirmou.

No começo a agente penitenciária Mari de Melo pensou que os detentos não teriam o aproveitamento esperado, já que o nível de escolaridade é baixo na unidade. “Me surpreendeu o interesse deles”, disse. Mari percebe que o ambiente está até mais calmo, já que o trabalho e a leitura tem gerado uma “ocupação positiva do tempo”. Ela sente vontade, também, de ler os clássicos, mas não encontra tempo, já que está estudando novamente.

“Debatemos bastante o livro”, lembrou R.D., que também está presa por tráfico de drogas. Além disso, durante as conversas, elas tentam ajudar quem tem dificuldade de entender a leitura. Junto com o livro, cada um recebe um dicionário da Língua Portuguesa e tem a oportunidade de anotar as dúvidas, para tirá-las durante a entrevista com o juiz.

Para essas mulheres, que trabalham na cozinha, outra obra também fez a diferença. Durante a leitura de Otelo, peça escrita por Shakespeare, elas organizaram um grupo de leitura, onde cada uma assumia um personagem da trama. O texto trata, entre outras coisas, da violência contra a mulher, de ciúme. “Eles tinham o roteiro da peça na cabeça”, constatou o juiz.

Alguns, ainda, demonstram entusiasmo. Como um senhor já idoso, que chegou a se levantar da cadeira para contar os motivos que levaram o personagem a cometer o crime e o coração bom no final das contas. “Isso se repetiu em relação à vários detentos, merecendo destaque o grau de identificação pessoal de alguns deles”, garantiu Bragaglia.

Mais do que a remição da pena, já que cada 12 horas de leitura correspondem a menos um dia de cumprimento da pena, o magistrado testemunha que detentos em que não se depositava muitas esperanças deram entrevistas contundentes, demonstrando que leram a obra atentamente e, mais do que isso, se interessaram pela leitura, pedindo mais. “Já se pode perceber que há um ar de reflexão por trás da leitura que os apenados fazem, de modo que é possível acreditar que estes livros poderão ajudá-los a ter novas impressões e perspectivas de si e da realidade”, avalia.

Além de Dostoiévski e Shakespeare , os outros autores que estão na estante da biblioteca são: Joseph Conrad (Coração das Trevas), Herman Melville (Moby Dick), Stendhal (Vermelho e o Negro), Thomas Mann (Montanha Mágica) e, o mais recente, John Milton (Paraíso Perdido). Eles são escolhidos com base na obra de Otto Maria Carpeaux, sobre a História da Literatura Ocidental. Em geral, tratam de remição da culpa e noções de bem e mal.“Não precisamos viver todas as experiências para saber como é, já que a poesia é uma forma memorável de dizer a realidade”, reflete Bragaglia.

Para ele, a educação é um projeto sem garantia de resultados, é uma aposta. “Mas, os resultados já são incríveis. No final, esses presos vão ter lidos melhor do que a média da população brasileira”, concluiu.

dica do Jarbas Aragão

Leitura terapêutica

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Biblioterapia clínica recomenda livros para aliviar sintomas decorrentes de tratamentos de saúde, como angústia, solidão e insônia

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Marcelo Andrade / Gazeta do Povo

Rodolfo Stancki, na Gazeta do Povo

A leitura engrandece a alma, escreveu uma vez Voltaire. A frase do pensador iluminista mostra o potencial do livro para agregar conhecimento, abrir portas para a imaginação e servir de refúgio para os problemas diários. Entusiastas de biblioteca defendem que ler tem poderes mágicos e pode ajudar a curar. A realidade não está muito longe disso. Médicos e psicólogos indicam a leitura para aliviar sintomas de diversas patologias. A prática recebe o nome de biblioterapia clínica, definida como a recomendação de livros para aliviar angústias pessoais, estimular emoções, promover o diálogo e ajudar pessoas com insônia.

“A biblioterapia mostra um cuidado com o ser humano, que se manifesta ao ler, narrar ou dramatizar histórias”, diz a professora Clarice Caldin, do departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista no tema, ela explica que as narrativas literárias buscam proporcionar a catarse, considerada por alguns autores como uma purificação do corpo e da mente.

Por meio da leitura, as pessoas podem se identificar com personagens ficcionais, refletindo suas próprias atitudes. “O objetivo da biblioterapia é favorecer a expressão dos pensamentos aflitivos, como uma descarga emocional, uma purgação”, observa.

Histórias

A administradora Roseli Bassi percebeu esse potencial terapêutico da leitura e criou a ONG História Viva, que conta com um time de 200 voluntários especializados em ler e contar histórias para pacientes de hospitais. “Nosso trabalho é apaziguar os sentimentos de pessoas que estão lidando com realidades difíceis. Tiramos crianças e adultos de suas doenças ao abrir um mundo de imaginações”, afirma.

Julia Dutra, 10 anos, luta contra o câncer desde 2008. Durante alguns dias da semana, em seu quarto no Hospital das Clínicas, em Curitiba, ela recebe a visita de um contador de histórias, que lê para a menina por cerca de uma hora. No período, suas preocupações se tornam disputas entre monstros, desafios de leões e castelos de princesas. A narrativa vira uma distração, que a anima. “É uma parte do dia que adoro”, diz a menina.

Antes de sair, o voluntário deixa um recado para os pais de Julia. “É recomendado que vocês leiam para ela também, isso ajuda a fortalecer o interesse dela.” Além de distrair e relaxar, a biblioterapia por meio de contadores de histórias incentiva a aproximação com o livro.

Benefícios

Na realidade hospitalar, a leitura tira o paciente de sua rotina, de sua espera. Existem pessoas que usam livros, revistas e jornais para enfrentar a cadeira antes de serem atendidos em um consultório. “É importante que cada um saiba o tipo de leitura que o ajuda. Geralmente são as que mais agradam”, aponta Ítala Duarte, psicóloga clínica do Hospital Erasto Gaertner. O efeito terapêutico depende da disposição do paciente diante da leitura.

Um livro antes de dormir, por exemplo, pode ajudar pessoas com insônia. O médico Attilio Melluso Filho, do Centro de Distúrbios do Sono de Curitiba, diz que quanto menos alarmante e repetitiva for a narrativa, melhor a condução para a latência do sono, período que antecede o adormecer. A leitura engrandece a alma e também faz bem para a saúde.

Companhia para a solidão

Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Na sala de diálise da Santa Casa de Curitiba, Florisbal Costa passa algumas tardes lendo livros e jornais. Em tratamento por conta de um problema de rim há três anos, ele usa a leitura para combater a solidão. “Ler direciona o cérebro das pessoas sozinhas. Faz a gente pensar no que é bom”, diz.

Com 101 anos, o vendedor aposentado vive na companhia de uma enfermeira, que o ajuda. Há vários anos, pratica a rotina diária de ler jornais e revistas. “Assim me conecto com o mundo.” Como passa mais da metade da semana no hospital, a companhia dos livros também o mantém distraído.

A leitura é estimulada para pacientes em diálise. O médico Georgio Sfredo Bertuzzo, da Santa Casa, diz que as narrativas literárias ajudam a conter a ansiedade. Afinal, são várias horas em que os pacientes não fazem nada a não ser esperar. Costa faz a sua parte, além de ler muito, ele troca livros com outros pacientes.

Recuperação por meio de livros

Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Para Victor D’Ambrós, 12 anos, os livros são mais importantes do que os filmes. Prefere histórias de ação, que tenham alguma coisa a ver com os videogames que joga. A prática da leitura é bastante útil no período em que fica no hospital ou em casa, se recuperando de quimioterapias.

Victor descobriu que tem sarcoma de Ewing, um tipo de câncer que atinge os ossos, em julho do ano passado. Está reagindo bem ao tratamento, mas precisou se afastar da escola e dos amigos. “A leitura o ajuda a passar o tempo e o deixa animado”, conta a mãe, a professora Kátia D’Ambrós.

“Gosto de ler à noite, antes de dormir”, diz o menino. A ficção literária o leva para outros mundos, que envolvem vilões, guerras mundiais e as aventuras de crianças em escolas. Apesar de colocar os livros na frente dos filmes, quando não está no hospital coloca os jogos de videogame no topo da lista de preferências. O que não deixa de ser uma distração terapêutica.

dica do Chicco Sal

Promoção: “Sete necessidades básicas da criança”

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Boa alimentação, educação de qualidade, plano de saúde, roupas, brinquedos, passeios, todas essas coisas têm o seu valor no desenvolvimento de uma criança, e pais e mães amorosos jamais negligenciam esses cuidados.

No entanto, para que a criança se torne um adulto feliz e responsável, você também precisa se concentrar nas necessidades de sua alma.

É isto o que o autor deste livro propõe a você: ajudar a desenvolver o caráter da criança e prepará-la para a vida adulta, tornando-a mais segura, disciplinada e, acima de tudo, temente a Deus.

Vamos sortear 3 exemplares de “Sete necessidades básicas da criança”, um superlançamento da Mundo Cristão. O sorteio será realizado no dia 14/3 às 17:30h.

Complete esta frase para concorrer: “Quero ganhar este livro para…”

O resultado será divulgado no perfil do twitter @livrosepessoas e os ganhadores terão 48 horas para enviar seus dados completos para o e-mail livrosepes[email protected].

O prazo de entrega é de 30 dias e o envio é de responsabilidade da editora.

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Parabéns aos ganhadores: Elaine Negreiros, Abnério Mello Cabral e Ieda Thomé. =)

 

51 tons de preto

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Carlos Araújo no Jornal Cruzeiro do Sul

Que a trilogia “Cinquenta tons de cinza” da inglesa E.L. James é um fenômeno do mercado editorial, não resta dúvida. Que este resultado tenha provocado polêmica e desconcerto, reeditando o eterno conflito entre mercado e literatura, não dá para entender. Dizer que isto é literatura ou não e ter posição intolerante em relação a um ou outro caso faz recordar aquela velha conversa do que é arte ou não: um dos lados corre o risco de estar equivocado.

O primeiro a levantar a questão foi o respeitado escritor Milton Hatoum, um dos maiores nomes da atual galeria de autores brasileiros, em uma crônica publicada no “Estadão”. Ele descreveu a solidão de um escritor à procura de leitores, na Feira do Livro de Guadalajara de 2012, enquanto todos estavam aglomerados em torno de um local de venda da trilogia de E.L. James. Hatoum não economizou palavras: “O tempo se encarrega de apagar todos os tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura.”

Mais recentemente, o jornalista Sérgio Augusto também se inspirou nos tons da trilogia para recordar que desde a década de 1960 o mercado editorial brasileiro teve melhores momentos. Como exemplo, lembrou que em 1966 o “Ulisses” de James Joyce, traduzido por Antonio Houaiss, chegou ao topo dos livros mais vendidos e fez companhia aos brasileiros Carlos Heitor Cony, Mário Palmério e Érico Veríssimo.

Se me permitem ser um intruso nessa questão, o livro também é um produto de mercado e é ótimo quando determinado título rouba a cena por vender muito acima da média. Assim como uma montadora de carros não produz unidades em série para ficarem acumuladas nos pátios, editoras não assumem os cursos de publicação com a expectativa de que os livros fiquem encalhados nos depósitos. Se a alma da produção de sabonetes é o lucro, por que a mesma equação não deve reger o mercado editorial? Sabonetes têm utilidades palpáveis, dirão uns. Livros também.

Esse debate é tão antigo quanto a literatura. No Brasil, escritores que vendem muito chegam ao ponto de sofrer preconceitos. Jorge Amado, Rubem Fonseca, Paulo Coelho, Érico Veríssimo, só para ficar nos exemplos mais conhecidos, passaram por esse pente fino. Enquanto os críticos os desprezavam, os leitores compravam os seus livros em grande quantidade e isto permitia que eles vivessem com os rendimentos da profissão de escritor. E nem por isso os críticos estavam certos. Exemplo: ninguém é capaz de negar que Rubem Fonseca é um dos maiores contistas que este país já teve.

A trilogia dos tons de cinza vende muito por uma combinação de fatores: caiu no gosto do leitor, foi lançada em meio a um competente esquema de marketing e a autora é de língua inglesa, o que faz grande diferença num setor cultural ainda contaminado pelo provincianismo ou seja, o que é de fora é mais aplaudido.

Os tons de cinza podem ser bons ou ruins, mas esta análise cabe a cada leitor. Eu dispenso os tons de E.L. James e prefiro a companhia de “Angústia” de Graciliano Ramos, ou “Extinção” de Thomas Bernhard, mas jamais posso querer que alguém faça a mesma escolha. É certo que o leitor vai encontrar prazer nos tons de cinza e vai ficar angustiado com a obra-prima de Graciliano Ramos. Também vai ficar desesperado com a mente destruidora do personagem-narrador criado por Thomas Bernhard. Como acontece com outras ações da vida, ler também é um problema da liberdade de ser e de existir.

(mais…)

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