Domingos passou os últimos anos em arquivos pessoais e de universidades para contar a história de seus antepassados

Arte - Igor Machado

Arte – Igor Machado

Maurício Meireles em O Globo

RIO — Domingos Guimaraens tinha 7 anos e não sabia bem o que ocorria naquela viagem da família a Mariana (MG). Fazia calor, por isso o menino e os primos tiraram a camisa e correram pelas ruas pedregosas até o cemitério. Foram parados pelo avô, Alphonsus Filho, na frente de um mausoléu. Emocionado como o menino nunca vira, o velho pediu um retrato com os netos na frente do lugar. Lá dentro, estavam os restos mortais do pai do homem, o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), para quem inauguravam um museu na casa onde morou. Hoje, ao pensar em todos na foto, a imagem que vem à mente de Domingos é de uma “espiral que gira sem fim no tempo”, da qual eles fazem parte — os vivos e os mortos.

Porque uma parte é herança e a outra é mistério na história dos Guimaraens. Há pelos menos 200 anos, desde o século XIX, algo empurra os membros dessa família para a literatura, garantindo a sobrevivência de sua memória. Elo mais recente dessa cadeia, Domingos, hoje com 34 anos e poeta, passou os últimos quatro anos em arquivos pessoais e de universidades para contar a história de sua família. O resultado é a tese “Amanhã tudo isso será tinta — Alianças de sangue e escrita entre os Guimarães e Guimaraens”, defendida por ele no doutorado de Letras da PUC-Rio em abril. Nela, Domingos reúne perfis biográficos e críticos de quatro escritores de sua família. É uma história marcada, diz ele, por “laços de sangue e tinta”.

— Digo que é uma mão estranha que nos empurra para a literatura. É um laço de sangue, porque é a mesma família. Mas é um laço de tinta, porque existe um desejo de buscar o outro, reler sua obra e transformá-la. É uma reescritura constante, que tem sim algo de inexplicável e mágico, mas também é racional — afirma.

Domingos conheceu seus quatro antepassados pelas “histórias de ninar” que ouvia quando era criança. O primeiro é Bernardo Guimarães (1825-1884), tio-avô de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), que latinizou o sobrenome para assinar suas poesias. Este é o pai de João Alphonsus de Guimaraens (1901-1944) e Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008) — respectivamente o tio-avô e o avô de Domingos.

Bernardo, autor do romantismo, é conhecido por “A escrava Isaura”. O anedotário sobre sua vida é rico. Entre as melhores histórias está o dia em que, indignado com o tratamento dado aos presos na cidade de Catalão (Goiás), onde era juiz, abriu a porta da cadeia e mandou todos embora. Foi processado, mas inocentado. Domingos gosta de ver um ar libertário nesse gesto.

— Meu avô negava essa história. Para ele, proteger essa figura era negar essa história. Para mim é o contrário.

Bernardo também tinha uns versos sacanas. O poema chamado “O elixir do pajé”, impresso clandestinamente e assinado como B.G., fala de um índio com impotência sexual. Conta-se que uma pessoa da alta sociedade foi cobrar explicações ao poeta, e este teria dito: “Só podia mesmo ser coisa do Beato Gregório”. Outra vez, ele ajudou a forjar a morte de Álvares de Azevedo, seu amigo. Conseguiram arrecadar dinheiro para o velório, que foi gasto em bebida. Todos se assustaram quando o “morto” levantou no meio da cerimônia.

MORTE COMUNICADA EM TELEGRAMA

Alphonsus de Guimaraens, o simbolista, escreveu sobre seu antecessor, como é praxe na família. Mas foi a filha de Bernardo, Constança, noiva prometida a Alphonsus, que o marcou muito. Ela morreu jovem — daí a figura da noiva morta ser tão comum em seus poemas. Décadas depois, Alphonsus daria o nome dela a uma filha, que morreu ainda criança. O velho simbolista acabou se matando depois da perda da filha — um fato que a família ocultava, mas do qual Domingos fala abertamente:

— Acho que não é mais preciso esconder essa história.

O telegrama comunicando a morte a João Alphonsus, o filho mais velho, só dizia “morreu repentinamente”. Em dificuldades financeiras, a família mudou-se de Mariana para Belo Horizonte.

A partir da morte de Alphonsus de Guimaraens, o primogênito passa a cuidar da família e da obra do pai e, em 1938, organiza a poesia completa dele, em parceria com Manuel Bandeira. João circula nos meios modernistas, sendo amigo de Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, por exemplo. Mas os laços de tinta pesam negativamente e, à sombra da reputação do pai, ele prefere fazer carreira com a prosa.

Mas João morre em 1944 e Alphonsus Filho, que se sentia apenas um escudeiro para assuntos literários, assume a responsabilidade pela obra da família. Organiza a poesia e a prosa de Bernardo Guimarães, reedita a obra do pai e do irmão e publica estudos sobre cada uma delas.

É bom lembrar que Alphonsus Filho tinha 3 anos quando o velho Alphonsus morreu. E foi à obra do pai que ele mais se dedicou, inclusive publicando inéditos dele. A correspondência de 40 anos entre Alphonsus Filho e Drummond mostra como este último ajudou ao longo do processo.

“AQUI JAZ O POETA DO LUAR”

Apesar de quase não se falar nas relações entre as duas escolas literárias, as cartas mostram, ainda, como alguns modernistas admiravam o simbolista Alphonsus de Guimaraens.

Mas, entre as histórias sobre o poeta, talvez a mais marcante seja a de seus dois velórios. Quando morreu, o poeta foi enterrado em um túmulo simples, com uma cruz de madeira e as inscrições: “Aqui jaz o poeta do luar”. Mais tarde, o filho caçula, trabalhando no governo de Juscelino Kubitschek, articulou a exumação do poeta e sua transferência para um mausoléu — bem a tempo, porque pouco depois um deslizamento de terra destruiu o lugar do antigo túmulo. Assim, Alphonsus Filho fez um novo enterro para o pai, criando uma memória para si, já que era pequeno demais para se lembrar do primeiro sepultamento. A biografia que ele escreveu do simbolista (“Alphonsus de Guimaraens em seu ambiente”) é narrada como um monólogo no qual o filho conta ao pai a história do próprio pai.

— É como se meu avô criasse um diálogo que nunca existiu com o pai dele. E o segundo enterro é uma forma de criar uma memória que ele nunca teve do pai. Essa uma das minhas influências ao escrever a história da família — afirma Domingos, que ainda tem primos e parentes vivos com uma forte relação com a escrita. Como ele diz, os Guimaraens são espelhos que se miram, se refletem, se refratam, “criando túneis e abismos virtuais”.