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Estas são as 4 prioridades para a educação funcionar no país

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Alunos de escola pública em Brasília: a relação entre professor e aluno é o núcleo da melhoria da qualidade da educação no Brasil, dizem especialistas

Alunos de escola pública em Brasília: a relação entre professor e aluno é o núcleo da melhoria da qualidade da educação no Brasil, dizem especialistas

Há milhares de coisas a fazer para que alunos brasileiros compitam em pé de igualdade com estudantes de outros países. Mas estas são as prioridades, segundo especialistas

Beatriz Souza, na Exame

São Paulo – A cada novo ranking internacional de educação – e a cada mau resultado do Brasil neles -, muito se questiona sobre o que fazer (primeiro) para elevar a qualidade da educação brasileira, hoje praticamente universalizada.

Os números não mentem. No último ranking divulgado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) 2012, da OCDE, o Brasil ficou em 38º lugar entre 44 países em uma avaliação de raciocínio rápido associado a problemas do dia a dia.

Isso significa que na prova aplicada a estudantes de 15 anos sobre problemas matemáticos da vida real, o país teve uma média de 428 pontos, enquanto Singapura, que ficou com o 1º lugar, fez 562.

Nos resultados oficiais do último Pisa, divulgados em dezembro do ano passado, entre os 65 países comparados, o Brasil ficou em 58º lugar em matemática, 55º em leitura e 59º em ciências. Perdemos posições nas três áreas, em relação à prova anterior.

Para a pedagoga Paula Louzano, da Faculdade de Educação da USP, os péssimos resultados dos estudantes brasileiros são reflexo do atraso da agenda da educação brasileira em comparação ao resto do mundo.

“Começamos tarde na agenda da inclusão, agora estamos tentando entrar na agenda da qualidade – enquanto os paises desenvolvidos estão na agenda da equidade”, disse em debate sobre a educação brasileira realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta semana.

Das centenas de soluções apontadas para melhorar a situação, veja a seguir quatro apontadas por especialistas como prioritárias para que seja possível um salto de qualidade educacional.

1. Escolas de verdade

Só 15% das escolas do Brasil podem ser consideradas escolas no melhor sentido do termo. Isto é, têm sala de professores, sala de diretor, salas de aula suficientes, biblioteca, sala de informática e quadra esportiva – e isso sem nem entrar no mérito da qualidade desses ambientes.

Segundo Louzano, quase metade das escolas não tem nem sala de professor. “Como se faz um trabalho em equipe se não tem nem espaço para reunir os professores?”, questiona a pedagoga.

2. Envolvimento dos pais na briga pela educação de qualidade

Para Gustavo Ioschpe, economista especializado em educação, enquanto os pais não encabeçarem a briga pela melhoria do ensino, a situação não vai mudar.

“A maioria das pessoas, tanto da população comum quanto das que estão dentro do sistema educacional, não se importam se as escolas educam ou não as crianças. Elas enxergam a escola como uma forma de tirar as crianças da rua e alimentá-las. O resultado educacional é uma consequência secundária”, disse o economista no debate desta semana.

Segundo Ioschpe, embora os pais saibam que uma boa educação é importante para o futuro de seus filhos, eles ainda não se deram conta de que a escola brasileira é muito ruim.

Uma pesquisa do Inep com pais de alunos da escola pública revelou que a qualidade do ensino da escola do filho merecia, na avaliação deles, nota média de 8,6, de um total de 10.

“Esses pais precisam saber que os filhos deles estão recebendo uma educação ruim e que isso não vai mudar sem a cobrança deles”, afirmou o economista.

Para ele, a questão envolve saber como chegar a esses pais porque eles estão excluídos das discussões sobre o rumo da educação no país, quando deveriam ser os personagens principais.

3. Padrão de qualidade para a formação dos professores

“Cada vez mais estamos nos despreocupando em estabelecer um padrão de qualidade nos cursos de formação de professores”, disse Paula Louzano.

Segundo ela, mais de um terço dos professores brasileiros atualmente são formados em cursos à distância, sem nenhuma prática em sala de aula. Não é esse o padrão nos países com os melhores sistemas educacionais.

“Na relação de professor e aluno, a tarefa dada pelo professor, seu monitoramento e acompanhanmento são fundamentais para que o ensino seja efetivo”, diz a pedagoga.

É essa relação que precisa ser melhorada.

O caminho, na opinião de Louzano, não poderia ser outro senão investindo no professor – da formação universitária à carreira. Para melhorar a formação é preciso haver um controle da qualidade dos cursos de Pedagogia que estão sendo oferecidos pelas universidades e priorizar os cursos presenciais.

Os baixos salários também são parte central no processo de valorização da profissão, mas Paula destaca que mais que um aumento salarial, o professor precisa de apoio para não desistir da carreira.

4. Currículo nacional desafiador

Outro grande problema que emperra o desenvolvimento da educação no país é a inexistência de um currículo nacional unificado que determine aquilo que se deve aprender e quando.

Além disso, o currículo que se tem (ou pelo menos o que é cobrado nas provas nacionais de avaliação, como a Prova Brasil e o Enem), carecem de um caráter desafiador.

Enquanto no Canadá, 9 em cada 10 alunos do 7º ano do ensino fundamental conseguem resolver uma equação básica, no Brasil apenas 16% dos alunos do 9º ano têm o mesmo desempenho.

Pesquisa mostra prejuízo ao ensino causado pela indisciplina no país

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Segundo números do Pisa, problemas como interrupções de aulas, atrasos e ausência de professor são mais frequentes no Brasil
Levantamento da Fundação Lemann mostra que “clima escolar” no país é pior que a média internacional em todos os itens

Os professores Cristiane Vera Cruz e Ivan Macedo, do Colégio estadual Operário João Vicente, em Caxias (Foto: Cléber Júnior / Agência O Globo)

Os professores Cristiane Vera Cruz e Ivan Macedo, do Colégio estadual Operário João Vicente, em Caxias (Foto: Cléber Júnior / Agência O Globo)

Lauro Neto, em O Globo

Uma pesquisa com diretores de escolas que participaram da última edição do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2012 sugere explicações para o mau desempenho do Brasil, que ficou entre as 10 últimas posições na lista de 65 países pesquisados. Dados tabulados com exclusividade pela Fundação Lemann para O GLOBO mostram até que ponto 19 fatores sobre clima escolar atrapalham o aprendizado de matemática, leitura e ciências, disciplinas avaliadas na prova, aplicada a alunos de 15 anos. Entre esses fatores estão evasão, atraso e falta a aulas por alunos e professores, uso de álcool e drogas por estudantes, bullying e falta de respeito com os docentes.

Cerca de 800 diretores de escolas brasileiras responderam a um questionário com 19 perguntas, como parte do Pisa 2012. A intensidade com que os problemas atrapalham o aprendizado nas escolas brasileiras é maior do que a média dos países da Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) em todos os itens da pesquisa. As possibilidades de resposta foram divididas em quatro opções (“nada”, “muito pouco”, “até certo ponto” e “muito”) para perguntas como: “até que ponto a interrupção de aulas por alunos impede a aprendizagem?”.

Nessa questão, aliás, o Brasil é o último do ranking de 65 países avaliados. Para 24,57% dos diretores de escolas nacionais, interrupcões de estudantes atrapalham muito o aprendizado. Já a média dos países participantes da OCDE é de apenas 2,54%. Em países como Reino Unido, Canadá, Tailândia e Polônia, menos de 1% dos dirigentes de colégios veem as interrupções como um grande empecilho ao aprendizado.

denador de projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins Faria cruzou dados das respostas com desempenhos nas três provas, e viu uma relação de causa e consequência.

– A maioria dos itens tem uma relação forte com o aprendizado. Por exemplo, nos países que relatam que há muito problema de atraso dos alunos, a proficiência é mais baixa. Naqueles que relatam que acontece pouco, a proficiência é mais alta – compara Martins Faria.

O especialista pondera que pode acontecer de um país ter uma maior frequência de um problema e ainda assim ter um resultado melhor, ou o inverso.

– Não são só esses fatores que determinam a qualidade da educação. Mas para todos os países há esta tendência: resultados baixos (em matemática, leitura e ciências) nas escolas em que os diretores relatam a maior incidência de um problema, e resultados altos onde relatam menos. Em várias perguntas isso aparece. As questões de clima escolar estão muito ligadas aos resultados do aprendizado – diz ele.

Professor ameaçado por aluno

Professor de matemática, Ivan Macedo vive essa realidade no dia a dia. Ele dá aulas no ensino médio do Colégio Estadual Operário João Vicente, em Duque de Caxias, e endossa os 14,08% das escolas brasileiras que consideram que a aprendizagem dos alunos é muito dificultada pela falta de respeito com docentes. Na média dos países da OCDE, a alta frequência desse problema é de 1,88%. Na opção “até certo ponto”, os percentuais são de 27,23% e 15,19%, respectivamente.

– Na semana passada, um aluno do 3º ano faltou com respeito a mim e a outro professor nos xingando. Já aconteceu de aluno ameaçar me bater, mas não chegou às vias de fato. Em um Ciep em que trabalhei, um professor foi ameaçado por um grupo em que um aluno estava armado. A agressividade e a falta de respeito atrapalham os alunos bons que querem participar, mas ficam cansados com essas situações. A grande maioria atrapalha os outros. O tempo já é curto, e ainda temos que ensinar para gente grande como ter educação – lamenta Ivan, de 24 anos.

Diretora adjunta do mesmo colégio, a professora de língua portuguesa Cristiane Vera Cruz acredita que a evasão escolar é um dos maiores entraves ao aprendizado. No Brasil, 15,85% dos diretores disseram que esse problema atrapalha muito, mais que o dobro nos países da OCDE (7,01%). Na opção “até certo ponto”, a diferença percentual é maior: 35,96% contra 26,15%, respectivamente.

– A evasão está acontecendo bastante, principalmente no turno da noite, porque os alunos trabalham e acabam não vindo à aula. No momento em que abandonam, há uma ruptura. Mesmo que venham a retomar os estudos depois, não é o mesmo que ter uma continuidade no ensino. O ideal é se manter na escola dentro da sua faixa etária para concluir a educação básica até os 18 anos – diz Cristiane.

Para os estudantes, a responsabilidade na dificuldade de aprendizado também está associada ao desempenho dos professores. Aluna do 3º ano de Colégio Estadual Souza Aguiar, na Lapa, Mariana Santos diz que se sente prejudicada quando não é incentivada a atingir seu pleno potencial. Para 28,15% dos diretores brasileiros isso dificulta até certo ponto, e para 8,32%, muito. Na média da OCDE, os percentuais são 18,40% e 2,2%.

– Isso dificulta o aprendizado, até porque eles facilitam muito para a gente passar de ano. Tem professor que dá três pontos na nota se o aluno estiver presente em todas aulas. Não sou avaliada como devo. Se tirar 2 na prova, quer dizer que só sei 20% da matéria. Mas consigo passar por causa desses três pontos – conta Mariana.

Ligado a esse fator está a baixa expectativa depositada pelos professores nos alunos. Esse problema afeta até certo ponto, segundo 31,74% dos diretores brasileiros, e muito, para 7,28%. Na OCDE, os números são 16,05% e 1,36%. No 3º ano do Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, em Copacabana, Lucas Alves sabe como é isso.

– Uma professora de biologia dizia que eu não conseguiria ir bem na matéria. Estudei e me esforcei para fazer ela engolir as palavras. Mas os alunos da minha sala têm mais rendimento quando o professor acredita que é possível ir além.

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