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Morre aos 79 anos o escritor israelense Amos Oz

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O escritor Amos Oz, em sua casa em Tel Aviv (Israel), outubro de 2015. Edward Kaprov

O romancista e jornalista, eterno candidato ao Nobel de Literatura, recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura em 2007

Publicado no El País

Os conflitos do Israel contemporâneo perderam nesta sexta-feira um de seus principais narradores. Amos Oz, nascido em 1939 em Jerusalém, quando a cidade ainda estava sob o mandato britânico da Palestina, morreu de câncer, segundo anunciou sua filha em sua conta no Twitter.

Amos Oz mudou seu sobrenome paterno, Klausner, depois de deixar sua família de imigrantes judeus lituanos e ucranianos para entrar em um kibutz aos 15 anos. Como pacifista, enfrentou a corrente dominante da opinião pública em seu país, favorável à ocupação da Palestina.

O escritor iniciou a carreira com o romance Talvez em Outro Lugar (1966). O mais recente, Judas, foi lançado em 2014. Ele também cultivou o ensaio, com títulos como Sob esta Luz Violenta (1978), As Vozes de Israel (1986) e Contra o Fanatismo, publicado em 2006 em Israel. Como jornalista, abordou os conflitos da sociedade israelense.

Habitual nas apostas para o Prêmio Nobel da Literatura, que nunca recebeu, o escritor foi premiado com o Príncipe das Astúrias de Literatura em 2007. Ele também ganhou, dois anos antes, o Prêmio Goethe, dado principalmente para escritores em língua alemã.

Em novo livro, Amós Oz questiona interpretação clássica de Judas

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Karla Monteiro, na Folha de S.Paulo

O escritor Amós Oz está feliz. “Plenamente satisfeito”, como ele próprio define o seu estado de espírito. Aos 75 anos, considerado a mais importante voz da literatura de Israel hoje, sempre cotado para o Prêmio Nobel de Literatura, ele quer mais é ver o circo pegar fogo.

“Muitas pessoas estão furiosas. É maravilhoso vê-las discutindo, indignadas. Estão sendo obrigadas a repensar a história”, comenta o autor à Folha, por telefone, de sua casa em Jerusalém.

O assunto em questão é o seu novo livro, “Judas” (Companhia das Letras), lançado simultaneamente em Israel e no Brasil. Na perspectiva filosófica da obra, o traidor não traiu. Judas seria o mais fiel e devotado, o primeiro e único verdadeiro cristão.

  Christian Charisius - 14.nov.2014/EFE  O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na alemanha O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na Alemanha

Christian Charisius – 14.nov.2014/EFE
O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na alemanha

“O protagonista é obcecado por Judas. Ele questiona: A história de Judas é crível? Por que um homem rico venderia o seu mestre por 30 pratas? Se ele vendeu, por que se enforcaria na mesma noite? Por que alguém pagaria Judas para identificar Jesus, se Jesus nunca se escondeu?'”, enumera Oz.

A conclusão é, segundo o autor: “Os traidores são os que mais amam, são aqueles que estão à frente do seu tempo. Abraham Lincoln foi considerado traidor pelos americanos quando libertou os escravos. Churchill, quando desmembrou o Império Britânico. Charles De Gaulle, quando retirou os franceses da África do Sul. O time de traidores da história é glorioso.”

O cenário de “Judas”, o livro, é Jerusalém. O ano, 1959. Sob a chuva insistente de um rigoroso inverno, acontece o encontro de um velho inválido, Gershom Wald, uma mulher misteriosa, Atalia Abravanel, e o estudante Shmuel Asch –obrigado a abandonar a universidade e sua pesquisa, um tratado sobre a figura de Jesus sob a ótica dos judeus.

Vivendo sob o mesmo teto, refugiados do mundo por diferentes razões, num clima de mistério e silêncio, os três personagens protagonizam uma saga de amor ao próximo, conquistado aos poucos, no ritmo da prosa primorosa e cadenciada do escritor.

“Três pessoas reclusas, numa casa de pedra, durante um inverno maldito, com passados e ideologias distintos, começam a amar umas às outras. Este é o milagre deste livro”, explica o escritor.

A premissa de Judas, a traição, é um tema caro ao autor. O livro transita entre o romance e o ensaio, oferecendo um novo olhar para aquilo que espanta. Resgatando Judas, Oz resgata a si mesmo e desafia o conceito de traidor.

Desde a mais tenra idade, ele está no papel de Judas. Aos 14 anos, renegou o pai e foi viver num kibutz, as comunas de Israel, propriedades coletivas, regidas pelo lema da igualdade social e baseadas na produção agrícola.

“Eu me rebelei contra tudo que o meu pai representava. Ele era intelectual, decidi virar motorista de trator. Ele era acadêmico, decidi trabalhar na terra. Ele era de direita, eu me tornei de esquerda”, conta Oz. “Vivi num kibutz por mais de 30 anos. Foi onde tive meus filhos e publiquei meus primeiros oito livros.”

A vida coletiva foi, para o autor, a bênção da sua literatura: “O kibutz é uma universidade do comportamento humano. São umas 400 pessoas vivendo muito próximas. Você conhece os segredos, os medos, as fantasias de todos. Se eu tivesse dado a volta ao mundo cem vezes, saberia menos sobre a alma humana”.

Quando o assunto é o conflito entre Israel e Palestina, lá está ele de novo, Amós Oz, o traidor. Por defender a divisão do território em dois Estados distintos, é apedrejado por muitos de seus conterrâneos.

“Nunca acreditei que fosse uma guerra entre mocinhos e bandidos. É entre o certo e o certo”, diz.

“Os palestinos não têm outro lugar. Os israelenses também não. Os dois querem a mesma terra, e a terra é pequena. A paz só vai acontecer com compromisso.” Questionado sobre quando isto acontecerá, responde: “Não me peça para ser profeta numa terra de profetas”.

Livro apresenta 101 escritores contemporâneos

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Amos Oz, Coetzee, Haruki Murakami e Milton Hatoum estão entre os autores que tiveram a obra analisada por especialistas

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Um livro lançado agora pode ajudar o leitor a encontrar as boas novidades literárias nas livrarias – que só no ano passado receberam mais de 20 mil novos títulos e onde os espaços principais de exposição costumam ser comercializados. Por Que Ler Os Contemporâneos? – Autores Que Escreveram o Século 21 traz uma seleção de 101 nomes do mundo todo com pelo menos um livro publicado a partir de 2000 – e, claro, editados no Brasil. A organização é de Léa Masina, Daniela Langer, Rafael Bán Jacobsen e Rodrigo Rosp.

Cada autor ganhou duas páginas do volume e o resenhista escalado teve de escrever uma breve biografia, indicar as principais obras e fazer uma – também breve – análise de sua obra. Trata-se de um livro interessante para estudantes, mas, sobretudo, para quem quer ler e não sabe o que ou então para quem já ouviu falar de um autor, mas não conhece sua obra e seus temas. Entre os 101 estão nomes já consagrados, como J. M. Coetzee, Cormac McCarthy, Amos Oz, Philip Roth e Roberto Bolaño, e outros que começaram seu caminho mais recentemente, como Jonathan Safran Foer, Ondjaki e Chimamanda Ngozi Adichie, os mais jovens da lista que conta com 14 mulheres, 10 prêmios Nobel e sete autores já mortos. Os brasileiros escolhidos foram Bernardo Carvalho, Chico Buarque, Cristovão Tezza, João Gilberto Noll, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Milton Hatoum e Sérgio Sant’Anna.

Mia Couto. Moçambicano está entre os autores analisados

Mia Couto. Moçambicano está entre os autores analisados

A ideia do livro surgiu com outra publicação, Guia de Leitura – 100 Autores Que Você Precisa Ler, também organizada por Léa Masina e publicada pela L&PM em 2007. Mas tratava-se de uma obra mais voltada aos clássicos. Foi feita, então, uma nova lista e os organizadores perceberam que ficavam nos mesmos autores. A partir daí, foram perguntar a escritores, jornalistas e professores o que eles estavam lendo, pesquisaram em jornais, descobriram muitos outros autores e foram checar a relevância deles. E surgiram as discórdias. “Por que não entraram J. K. Rowling, Stieg Larsson ou Paulo Coelho? Teve uma polêmica incrível. Tivemos que pensar qual era o tipo de literatura que estávamos querendo dar o nosso aval”, conta Rodrigo Rosp, um dos organizadores. Depois surgiu o desafio de encontrar os resenhistas – escritores, pesquisares, professores e jornalistas. O processo levou mais de dois anos.

A resposta à pergunta estampada na capa do livro só surgiu a Rosp com a obra quase pronta e depois de uma série de palestras sobre humor na literatura que ele fez para alunos de 14 e 15 anos. Ele levava textos de autores contemporâneos e os jovens adoravam. “Fui construindo essa resposta: porque os contemporâneos estão falando a nossa língua, falando do nosso tempo, dos nossos anseios, estão mais próximos seja pela linguagem ou pela temática.”
Talvez o leitor sinta falta de alguns escritores – para além de Rowling, Larsson e Coelho. Gabriel García Márquez, José Saramago e Julian Barnes, por exemplo, não estão no livro. Um dos motivos para não lermos sobre o russo Gary Shteyngart foi logístico. “É difícil encontrar alguém que parta do zero da obra de um autor e tenha tempo de ler quatro, cinco, às vezes 10 livros para fazer o texto”, explica o organizador. No caso de Saramago e García Márquez, a exclusão foi porque eles não escreviam o século 21, como o subtítulo indicava, e eram mais identificados com o século anterior.

Sobre os autores contemporâneos que podem virar clássicos, Rodrigo Rosp arrisca um palpite. “É difícil imaginar que Mia Couto não vai continuar sendo referência daqui 50, 100 anos. E também o Michel Houellebecq e o Ian McEwan. Muitos têm potencial, mas talvez seja mais fácil apostar nos que não têm, como James Ellroy e Don DeLillo – não sei se ele é forte agora só porque conversa com os temas de hoje.” Ele vai além: “Há a ilusão da permanência. Mesmo os clássicos de hoje podem não ser os clássicos no futuro. Tratamos os clássicos como uma rocha solidificada, mas eles são completamente volúveis e às vezes o que coloca um autor entre os que estão sendo lembrados pode ser a crítica, o quanto as pessoas e os veículos de informação estão falando sobre ele e, às vezes, a reedição de uma obra que ficou esgotada e que faz ressurgir o grande autor.”

POR QUE LER OS CONTEMPORÂNEOS? – AUTORES QUE ESCREVEM O SÉCULO 21
Org.: Léa Masina, Daniela Langer, Rafael Bán Jacobsen e Rodrigo Rosp
Editora: Dublinense (224 págs.,R$ 37,90)

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