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Por O Globo

Retrato histórico do subdesenvolvimento brasileiro, o analfabetismo resiste a promessas e boas intenções.

Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que era preciso vontade política para resolver o problema. Ele lançou naquele ano o programa Brasil Alfabetizado, que previa zerar o número de iletrados até 2006.

Quatro anos depois, na campanha eleitoral de 2010, a então candidata Dilma Rousseff repetiu a promessa.

A estimativa mais recente do IBGE, contudo, mostra que 14,1 milhões de jovens e adultos não sabiam ler nem escrever em 2012 – nada menos do que 8,7% da população de 15 anos ou mais.

É o caso do gari Francisco Cândido de Souza, de 53 anos. Ele usa o polegar direito para “assinar” a folha de ponto todos os dias:

— As letras, eu sei. Só não sei juntar. Se soubesse, era melhor, facilitava muita coisa — diz ele, envergonhado.

Cândido trabalha numa empresa contratada pelo governo do Distrito Federal para fazer a limpeza pública de Ceilândia, região administrativa que tem cerca de 500 mil habitantes e fica a 30 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. Ele é o único de sua equipe a sujar o dedo de tinta diariamente para marcar presença.

Um dos 12 filhos de uma família de lavradores no Rio Grande do Norte, Cândido nunca frequentou a escola. Conta que só os irmãos mais novos puderam estudar. Na década de 1980, mudou-se para Brasília.

Hoje é pai de dois filhos e se orgulha de ter alfabetizado os dois.
No dia a dia, Cândido recorre à mulher ou a parentes na hora de ler documentos. Foi assim ao ser contratado pela empresa de limpeza.

Recentemente, Cândido viajou a Natal para visitar a família. Num dos trechos, foi de avião, acompanhado por uma sobrinha.

– De avião, foram três horas. De ônibus, três dias e três noites.

O gari diz que só frequentaria um curso de alfabetização de adultos se as aulas fossem dadas à noite e perto de casa. Colegas contam que cursos desse tipo já foram oferecidos na empresa, mas fora de Ceilândia. Cândido não se inscreveu.

Se depender do recém-aprovado Plano Nacional de Educação (PNE), o Brasil conseguirá erradicar o analfabetismo até 2024.

A meta consta também nos planos de governo dos principais adversários de Dilma nas eleições deste ano: Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

A experiência recente deixa claro, porém, que algo não está funcionando nas ações governamentais. De acordo com o IBGE, o percentual de jovens e adultos analfabetos em 2011 era de 8,6%, índice que oscilou para 8,7% no ano seguinte.

A secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação, Macaé Maria Evaristo dos Santos, aponta obstáculos como a dimensão continental do Brasil e a tardia universalização do ensino fundamental.

– Há uma concentração do analfabetismo na população mais velha, acima de 50 anos, e nas áreas rurais. A gente precisa sensibilizar mais a população brasileira para que não se admita que um adulto não saiba ler e escrever. As pessoas dizem: “Ah, é uma pessoa mais velha.” Não, isso não pode ficar naturalizado – diz Macaé.