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Posts tagged analfabetos funcionais

Analfabetismo no século 21 – como é viver sem ler nem escrever direito na cidade de São Paulo

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Jovens contam como é viver sem ler nem escrever direito na cidade de São Paulo

Publicado no UOL

“Um cara que não sabe ler é um cego da vida”, resume José Webson da Silva, 22, sobre sua própria condição.

Meio sem jeito, ele fala de sua vida em busca das letras e dos números que faltam no dia a dia. Como tantos conterrâneos, esse pernambucano de Palmares tinha 17 anos quando fez a travessia para o Sudeste para tentar a vida na quinta maior cidade do mundo: São Paulo, a terra das promessas. Mesmo sendo a mais rica do país, é uma metrópole cheia de histórias de gente que não sabe ler nem escrever um bilhete.

Webson já perdeu emprego porque não conseguiu preencher a ficha do processo seletivo, só enviava áudios pelo WhatsApp e chegou a ficar perdido na estação Sé do metrô porque não entendia as placas.

Até quatro meses atrás, quando voltou a estudar, ele só lia quatro palavras: vaca, tatu, macaco e uva –herança ainda da primeira cartilha. Agora, Webson quer sair da estatística que aponta que 17% dos jovens entre 15 e 24 anos são analfabetos ou analfabetos funcionais (que não compreendem textos simples). O número alarmante, colhido pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com o Ibope e divulgado neste ano, faz parte do Índice Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf), criado para aferir o grau de alfabetização dos brasileiros.

Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que pesquisou nove regiões metropolitanas do país e reuniu os dados mais recentes de alfabetização dos brasileiros na PNAD (Pesquisa Nacional de Domicílios) divulgada em 2014, o Brasil tem 13 milhões de analfabetos absolutos com mais de 15 anos, definidos como “pessoas que não sabem ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhecem”. Eram 8,3% da população em 2013, menos do que os 8,7% dos brasileiros pesquisados em 2012 pelo IBGE.

Já os analfabetos funcionais, definidos como pessoas “com mais de 15 anos e menos de quatro anos de estudo em relação às pessoas da mesma faixa etária”, eram 17,8% em 2013, também em queda na comparação com o porcentual de 18,3% apurado em 2012. Segundo o analista Jefferson Mariano, do IBGE, não há microdados sobre analfabetos funcionais na PNAD. “Essa foi uma variável derivada, apenas para a publicação.”

Diferentemente do IBGE, a pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e Ibope aplicou questionários de alfabetização para definir quem é analfabeto absoluto e também apurar o nível real de aprendizado de quem foi à escola. Foram pesquisadas 2.002 pessoas entre 15 e 64 anos em áreas rurais e urbanas de todo o país.

A pesquisa classifica os brasileiros em cinco grupos em diferentes níveis de alfabetização: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente. Nesse conceito, analfabeto absoluto é aquele que não consegue realizar tarefas simples, como ler palavras e frases.

Quem é capaz apenas de localizar informações explícitas em textos muito simples, como calendários e cartazes com sentenças ou palavras relacionadas ao seu cotidiano, e ler e escrever números familiares –como horários, preços e cédulas de dinheiro– está no nível rudimentar de alfabetização. A partir do nível elementar, os testes exigem habilidades crescentes de leitura e escrita, com identificação de informações em textos de extensão média até elevada complexidade e realização de operações básicas com números da ordem do milhar até a interpretação de tabelas e gráficos. Essa classificação, segundo o Instituto Paulo Montenegro, permitiu “discriminar melhor o grupo dos alfabetizados funcionalmente, atendendo a uma demanda crescente”.

Quando se leva em conta somente jovens e jovens adultos entre 15 e 34 anos, o Inaf aponta que 18% estão nas categorias de analfabeto e alfabetizado rudimentar (ou funcional, que não consegue interpretar o sentido das palavras, expressar suas ideias por escrito nem realizar operações matemáticas mais elaboradas). Estamos falando de 12,5 milhões de brasileiros. Há aqueles que não conseguem ler e escrever, outros só são capazes de operações simples que envolvam letras e números e tem gente que lê, mas não consegue interpretar o conteúdo.

“É uma tragédia para esses jovens”, afirma Maristela Miranda, diretora da Alfabetização Solidária –organização ligada ao Centro Ruth Cardoso que dá aulas e treinamentos a professores em todo o país desde 1996. “Vivemos em um mundo letrado, que exige, a todo momento, que a gente se posicione de várias maneiras. E a principal qual é? Uma cultura de mundo letrado. Então, como esse jovem se vira dentro desse mundo?”

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Em Pernambuco, Webson chegou a alcançar o segundo ano da Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas a mudança para São Paulo e a busca por trabalho o afastaram dos estudos. “O principal fator que entra nessa história é renda. Quanto mais elevada a renda, mais elevado é o nível de alfabetização. Mas, quando a gente fala do jovem que não tem um bom nível, estamos falando da população de mais baixa renda”, explica Roberto Catelli Jr, coordenador da Unidade de Educação de Jovens e Adultos, da ONG Ação Educativa.

No caso do jovem com baixa escolaridade, se estabelece um círculo vicioso, segundo Ana Lima, coordenadora do Inaf. Ela afirma que uma pessoa que não tenha ensino médio só receberia oportunidades de trabalho inferiores ao pouco estudo que tem, o que resultaria em poucas chances de se desenvolver mais. Seriam oportunidades pouco qualificadas de emprego, e “a própria atividade dentro do trabalho não vai fazer com que essa pessoa se desenvolva”, diz ela. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 26% dos brasileiros com idade entre 14 e 24 anos estavam desempregados no segundo trimestre de 2016.

Problema que vem de longe

O Brasil vem reduzindo a taxa de analfabetismo nas últimas décadas. Desde o final dos anos 1940, surgiram iniciativas do governo federal, complementares aos programas municipais e estaduais. Uma das mais conhecidas foi o Mobral, criado pelo regime militar. Nos anos 1960, 40% da população brasileira com 15 anos ou mais não sabia ler nem escrever, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse número recuou ao longo dos últimos 50 anos, especialmente nas décadas recentes, até chegar a 8,3% em 2013.

A diminuição do analfabetismo não significou, no entanto, alfabetização plena: a população ainda padece de graves problemas, segundo o estudo do Instituto Paulo Montenegro. Em resumo: 1 a cada 4 pessoas está nas faixas mais baixas e consegue lidar minimamente com letras, palavras e números –ou nem isso. Gente como Webson.

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Vergonha e culpa de não saber

A paulistana Dayane Bento Silva, 20, é uma das vítimas do sistema educacional do país. Ela abandonou o ensino fundamental na quinta série, devido ao bullying que sofria dos colegas de escola. Ficou parada muito tempo.

Há dois anos, frequenta as aulas do Cieja Campo Limpo e ainda lê com bastante dificuldade. “Umas palavras com h, ch, que não vão, enroscam”, explica.

Segundo o doutor em educação e coordenador do Núcleo de Ética e Cidadania da Universidade Mackenzie, Ítalo Cúrcio, os adultos levam mais tempo que as crianças para aprender. “O adulto geralmente está trabalhando. A concentração é outra: é o marido, a conta no final do mês que tem que pagar e o dinheiro que não deu?, relata. Além disso, há também vergonha e culpa. “Eles trazem uma culpa muito grande”, diz Maristela, da Alfasol.

Parte desse sentimento é reforçada pela escola já que, segundo Catelli Jr., “não temos uma configuração adequada de educação de jovens e adultos que caiba na vida das pessoas ou que tenha o acolhimento necessário para alguém que já teve uma relação ruim com a escola”.

Dívida social que temos de pagar

Para Silvia Telles, dado o corte do governo nos investimentos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) não vai acabar, mas terá menos atenção nos próximos anos. “Não vão excluir totalmente, porque há organismos internacionais que pressionam, como ocorreu, no passado, com o Mobral, quando a ditadura militar precisava dar respostas à ONU [Organização das Nações Unidas], a outros países”, diz.

Atualmente, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) monitora 164 países, dentre eles o Brasil, que assumiram em 2000 o compromisso com o “Marco de Ação de Dakar, Educação para Todos: Cumprindo Nossos Compromissos Coletivos”, que previa seis grandes metas a serem alcançadas até o ano passado.

No balanço feito, o Brasil atingiu duas: a de universalizar o acesso à educação primária, do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, e a de incluir meninos e meninas na escola, independentemente do gênero.

Não conseguiu, no entanto, cumprir as outras quatro metas, sendo que uma delas era a de reduzir em 50% o número de analfabetos acima de 15 anos.

Na rica Alemanha, 14% são analfabetos funcionais

País mais rico da União Europeia, a Alemanha tem 7,5 milhões de analfabetos funcionais –o correspondente a 14% da população em idade de trabalho, entre 18 e 64 anos. Destes, 1,5 milhão são jovens adultos, de 18 a 29 anos.

O universo, revelado em pesquisa da Universidade de Hamburgo em 2011 (a mais recente sobre o tema), considera os que conseguem ler e escrever frases isoladas, mas não textos contínuos, bem como aqueles com grau de dificuldade ainda mais elevada, já que leem ou escrevem apenas letras ou palavras separadas.

A pesquisa causou espanto porque (mais…)

Maioria dos alunos brasileiros não sabe fazer conta nem entende o que lê

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Bruna Souza Cruz e Ana Carla Bermúdez, no UOL

Dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2015, divulgados nesta terça-feira (6), indicam que o desempenho dos estudantes brasileiros em matemática e ciências piorou em comparação aos dados de 2012. Quando o assunto é a capacidade de leitura, os resultados seguem preocupantes, já que a média não mudou desde então– quando a pontuação já era considerada ruim.

Em matemática, de acordo com o relatório, 70,3% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 2 de desempenho na avaliação –patamar mínimo estabelecido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) como necessário para que o estudante exerça plenamente sua cidadania. Na prática, os alunos não conseguem responder às questões da disciplina com clareza e não conseguem identificar ou executar procedimentos rotineiros de acordo com instruções diretas em situações claras.

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A média nacional nessa disciplina foi de 377 pontos, muito abaixo da média da OCDE (490). Para se ter uma ideia, as regiões que tiveram as maiores médias foram Cingapura (564), Hong Kong – China (548) e Macau – China (544). Em 2012, a média nacional na mesma disciplina foi de 389. Com isso, o país registrou recuo em seu desempenho.

Segundo a publicação, a habilidade em matemática é definida como a capacidade individual de formular, empregar e interpretar a matemática em uma série de contextos. Isso inclui o raciocínio matemático e o uso de conceitos, procedimentos, dados e ferramentas para descrever, explicar e prever fenômenos. Há seis níveis de proficiência na disciplina.

Metade dos alunos brasileiros continuam com dificuldades de interpretação

Os dados do Pisa 2015 também apontam que 51% dos estudantes não possuem o patamar que a OCDE estabelece como necessário para que se possa exercer plenamente sua cidadania, considerando sua capacidade de leitura. Eles não ultrapassaram o nível 2 dentro da escala de avaliação.

Com isso, é possível afirmar que os jovens brasileiros têm dificuldades em lidar com textos e documentos oficiais, como notas públicas e notícias. Além disso, têm problemas para interpretar informações e integrar contextos.

A pontuação do Brasil foi de 407, enquanto que os países da OCDE tiveram uma média de 493. A média brasileira foi a mesma de três anos atrás, na última edição do Pisa.

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Na outra ponta, os jovens brasileiros têm mais facilidade em lidar com textos pessoais, como e-mail, mensagens instantâneas, blogs, cartas pessoas e textos informativos. Eles também são bons em localizar e recuperar informação dentro de um texto quando necessário.

Com sua pontuação, o Brasil teve o desempenho inferior ao de regiões como Cingapura– que ficou em 1º lugar com 535 pontos, Canadá (527) e Hong Kong (China) (527).

O desempenho geral dos estudantes brasileiros em leitura está abaixo da média da OCDE desde o início das avaliações da disciplina, em 2000 – conforme mostra o gráfico acima.

Desempenho em ciências segue estagnado

Em ciências, quando são avaliadas a capacidade de lidar com conceitos, teorias, procedimentos e práticas associadas à investigação científica, o Brasil contabilizou média de 401 pontos, valor também inferior ao dos estudantes dos países membros da OCDE (493). Em relação ao Pisa anterior (2012), a média (402) não mostrou grande diferença. O país seguiu estagnado, já que a variação foi de apenas 1 ponto.

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Ao comparar com a série histórica, nota-se que os brasileiros apresentaram um crescimento médio de 390 para 405 pontos entre os anos de 2006 e 2009. Mesmo assim, o desempenho dos alunos também já se mostrava ruim.

Dentro da escala de avaliação do ano passado, 56,6% dos jovens brasileiros tiveram desempenho abaixo do nível 2, ou seja, eles não são capazes, por exemplo, de identificar uma explicação científica, interpretar dados e identificar a questão abordada em um projeto experimental simples de complexidade mediana.

Escolas públicas federais ficam à frente das escolas particulares

Na separação dos resultados do Pisa 2015 por rede de ensino, a rede pública federal obteve o melhor desempenho, ficando alguns pontos à frente da média obtida pelos alunos de escolas particulares.

Na área de ciências, a média alcançada pelos alunos das escolas federais foi de 517 pontos, contra uma média de 487 pontos dos alunos de colégios particulares. Em leitura, os desempenhos médios foram de 528 e 493, respectivamente, para os mesmos casos. Já em matemática, enquanto a média obtida pelos alunos da rede de ensino particular foi de 463 pontos, os alunos da rede federal alcançam, em média, 488 pontos.

O desempenho dos alunos da rede pública federal também superou a média nacional em cada uma das três áreas avaliadas– 401 pontos em ciências, 407 pontos em leitura e 377 pontos em matemática.

Escala de proficiência

O estudo de 2015 avaliou 23.141 alunos brasileiros (de 841 escolas), com idades entre 15 anos e 16 anos matriculados a partir do 7º ano. O desempenho dos estudantes foi analisado com base em sete escalas, que vão de 6, a mais alta, até 1b, a mais baixa.

O que é o Pisa

O Pisa busca medir o conhecimento e a habilidade em leitura, matemática e ciências de estudantes com 15 anos de idade tanto de países membro da OCDE quanto de países parceiros. Ele é corrigido pela TRI (Teoria de Resposta ao Item). O método é utilizado também na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio): quanto mais distante o resultado ficar da média estipulada, melhor (ou pior) será a nota.

A avaliação já foi aplicada nos anos de 2000, 2003, 2006, 2009 e 2012. A cada ano é dada uma ênfase para uma disciplina: neste ano, foi a vez de ciências.

Dentre os países membros da OCDE, estão Alemanha, Grécia, Chile, Coreia do Sul, México, Holanda e Polônia, dentre outros. Dentre os países parceiros, estão Argentina, Brasil, China, Peru, Qatar e Sérvia.

Retratos da nossa ignorância

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Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

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No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária

Luiz Ruffato, no El País

O Brasil conta com cerca de 50 milhões de analfabetos ou analfabetos funcionais. Isso significa que um em cada três brasileiros adultos não sabe ler ou, quando consegue, não é capaz de compreender o conteúdo de um texto simples. Mesmo entre aqueles considerados alfabetizados impera a ignorância. Pesquisa recente, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, apontou que, na média, lemos 4,9 livros por ano (um número pequeno e ainda assim enganoso, já que, deste total, apenas 2,4 livros são terminados; o restante é lido apenas em parte). Além disso, apenas 7% da população lê jornais diariamente, já levando em consideração o acesso à informação digital.

A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).

Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.

A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).

Onde o Estado falha, viceja a ignorância. Nenhum de nossos governantes — chamem-se eles José Sarney, Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva — empenhou-se, de verdade, na melhoria do nosso sistema educacional. No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária. O resultado é esse: cada vez mais exacerbamos nosso egoísmo (traduzido em nossa incapacidade de agirmos no interesse da comunidade), nossos preconceitos (visíveis no machismo, no racismo, na homofobia, na xenofobia), nossa intolerância (perceptível na violência urbana, na passionalidade com que defendemos opiniões).

Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país… Há algo muito estranho acontecendo por aqui…

Alfabetização: desafio permanente

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Lucila Cano, em UOL

Imagine o leitor a situação de um analfabeto adulto que não tem ao seu lado alguém que saiba ler e escrever para ajudá-lo em uma emergência, ou mesmo em coisas do dia a dia que nos parecem tão simples.

Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir ao filme “Central do Brasil” (Walter Salles/1998) devem se lembrar da personagem Dora, interpretada por Fernanda Montenegro, que na estação de trens escrevia cartas para os analfabetos enviarem aos parentes distantes.

A cena se repete em inúmeros pontos do país onde analfabetos dependem de outras pessoas para poderem se comunicar, pegar uma condução, saber se estão tomando o remédio certo da maneira certa e muito mais.

Avanço no Brasil

Em julho de 2015, o percentual estimado de analfabetos acima de 15 anos de idade era 8,7%, o que correspondia a cerca de 13 milhões de brasileiros. O número é ainda alto, mas significa um avanço no combate permanente ao analfabetismo entre adultos. O Censo 2010 informava uma taxa de 9,6% naquele ano para o mesmo universo de pessoas de 15 anos ou mais de idade. Uma década antes, em 2000, a taxa era de 13,6%.

Alfabetizar adultos não é fácil. Os jovens que abandonaram a escola resistem voltar aos estudos. Eles se sentem envergonhados quando ingressam em classes com colegas mais novos. Ficam à margem, porque do pouco que chegaram a aprender podem ser considerados analfabetos funcionais, aqueles que sabem escrever o nome e fazer apenas algumas operações aritméticas básicas.

Os analfabetos mais velhos resistem ao aprendizado, principalmente nas áreas rurais, porque acham que o seu tempo passou, que não vale a pena tentar.

Para mudar tais comportamentos, o papel de empresas que empregam trabalhadores sem qualificação é fundamental. Muitas dessas empresas que atuam no setor de serviços e na construção civil dedicam especial atenção a esses colaboradores e investem em aulas no próprio local de trabalho. O primeiro resultado é comportamental: o trabalhador sente que a empresa reconhece que ele é importante para ela.

A resistência ao estudo é logo esquecida, porque no ambiente em que todos são iguais e mais ou menos na mesma faixa etária, não há motivo para ter vergonha ou se sentir inferior aos demais. Assim, o aprendizado torna-se consequência natural e, depois que descobrem que “eles também podem”, os recém-alfabetizados querem aprender mais.

Essa atividade de resgate da dignidade das pessoas, dando-lhes acesso ao conhecimento a que todos têm direito, não depende de grandes investimentos, mas de boa vontade e perseverança. Além disso, pode ser igualmente adotada fora do campo empresarial. Em todo o país, já são muitas as igrejas e ONGs que reúnem voluntários em torno de programas de alfabetização de adultos.

O Dia da Alfabetização

Todo ano, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização, em 8 de setembro, Irina Bokova, diretora-geral da Unesco, divulga uma mensagem em defesa do direito que todo ser humano tem à alfabetização.

Do texto deste ano, destaco duas passagens. A primeira diz que: “Ao empoderar homens e mulheres, a alfabetização ajuda a promover o desenvolvimento sustentável em todas as direções – de melhor assistência médica e segurança alimentar à erradicação da pobreza e à promoção do trabalho decente”.

E, para encerrar, a segunda passagem informa que: “Hoje, 757 milhões de adultos ainda carecem de habilidades básicas de alfabetização – destes, dois terços são mulheres. O número de crianças e adolescentes fora da escola está em ascensão, chegando a 124 milhões em todo o mundo -, enquanto cerca de 250 milhões de crianças em idade de ir à escola primária não dominam habilidades básicas de alfabetização, mesmo frequentando a escola”.

O analfabetismo tolhe a independência das pessoas. Impede que elas se libertem da miséria e da exploração. Fecha as portas do desenvolvimento intelectual e profissional. É um atraso de vida para povos e países.

 

 

* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

Professor universitário debocha de negros e cotistas em sala de aula

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Professor da UFES disse que cotistas são “pretos, pobres, sem cultura, sem leitura e analfabetos funcionais” e afirmou ainda que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”

Estudantes protestam contra professor da Ufes Manoel Luiz Malaguti [esq] – Pragmatismo Político

Estudantes protestam contra professor da Ufes Manoel Luiz Malaguti [esq] – Pragmatismo Político

Marcos Sacramento, no Pragmatismo Político

Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denunciaram um professor por manifestar racismo durante uma aula da turma do 2º período do curso de Ciências Sociais.

Professor do Departamento de Economia, Manoel Luiz Malaguti cravou que “o nível da educação está tão baixo que o professor não precisa se qualificar mais para dar aula, já que a maioria dos cotistas são negros, pobres, sem cultura e sem leitura, são analfabetos funcionais”.

Ainda afirmou que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. Um dos que presenciaram a explanação racista foi João Victor Santos, de 20 anos, cotista pelos critérios de raça e renda.

“Ele foi questionado por um aluno sobre o valor do trabalho de um professor, se era justo, e aproveitou a deixa para falar de educação. Ele aproveitou para fazer uma crítica ao sistema e falar que a ingressão de cotistas na universidade diminuiu o nível da universidade”, disse João Victor.

O discurso durou aproximadamente uma hora e foi concluído com a afirmação de que ele “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. No começo da aula havia cerca de 20 pessoas, mas à medida que o professor falava os alunos foram se retirando, alguns nervosos e chorando.

Os estudantes registraram uma queixa na ouvidoria da universidade e fizeram uma manifestação exigindo punição.

Primeiro desembargador negro do Espírito Santo, Willian Silva ofereceu representação criminal ao Ministério Público Federal. “Sinto-me com a dignidade e o decoro ofendidos na condição de jurista negro, proveniente de família pobre, advogado atuante por vários anos antes do ingresso na carreira da magistratura, e hoje o primeiro desembargador negro capixaba”, falou.

Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de Picardie, na França, Malaguti é professor da Ufes desde 1995. Em entrevista ao portal Gazeta Online, ele se defendeu.

“No meio de uma discussão sobre cotas e o sistema educacional, eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre dois médicos, um branco e um negro, com o mesmo currículo, eu escolheria o branco. Por que que eu escolheria o branco? Os negros, em média, vêm de sociedades, de comunidades menos privilegiadas, para a gente não usar um termo mais forte, e nesse sentido eles não têm uma socialização primária na família que os tornem receptivos aos trâmites da universidade, à forma de atuação da universidade, aos objetivos da universidade. Eles têm muito mais dificuldades para acompanhar determinadas exposições. Eu não acho que é uma visão preconceituosa, acho que é bastante realista”, disse.

“Então eu dei o exemplo do médico, mas não nesses termos que eu detestaria, nunca falaria algo parecido. Eu diria simplesmente e reafirmo que dois médicos com o mesmo currículo, com a mesma experiência, só que um negro e um branco, em função da possibilidade estatística desse médico branco ter tido uma formação mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria um médico branco. Mas como um exemplo do que a sociedade faz.”

O discurso é ainda mais pérfido por vir do servidor de uma instituição de ensino pública. A opinião de Malaguti mostra que o ingresso na universidade é só uma das muitas barreiras que os alunos cotistas enfrentam no decorrer do curso.

João Victor participa de um grupo que pesquisa o preconceito sofrido por cotistas na Ufes. Ele disse que há relatos de professores que dividem a turma entre não cotistas e cotistas, chegando ao absurdo de dar aulas em dias diferentes para cada grupo, e lembra que há outras formas de discriminação mais difíceis de detectar. É comum, por exemplo, acontecer confraternizações entre os alunos e os cotistas não serem convidados.

A Ufes passou a adotar o sistema de cotas sociais em 2008 e desde 2013 adota também as cotas raciais.

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