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10 livros que vão te dar vontade de fazer as malas e desbravar o mundo – Parte 2

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Publicado por Nômades Digitais

“O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página”. A frase é de Agostinho de Hipona e é um bom ponto de partida para o que aqui queremos mostrar. Ainda que ela nos lembre que não basta ler – é preciso ir -, porque não existem duas viagens iguais (como não existem dois seres humanos ou dois lugares desse imenso livro exatamente iguais), ela faz uma analogia que nos lembra que ler é uma forma de viajar. Pelo menos na nossa mente. E essa já é uma viagem imperdível.

Há uns meses, reunimos 10 livros que dão vontade de desbravar o mundo, mas qualquer leitor e/ou viajante atento deve saber que não existem apenas 10. Aliás, se tentássemos reunir todas as obras que tocam aquela parte da mente onde guardamos planos de viagens, a sensação da descoberta, acompanhada da brisa do mar, do calor de uma tarde de verão ou das pessoas que nunca tínhamos visto antes, mas que nos abrem um sorriso fácil no primeiro contato, precisaríamos criar um novo site só para isso.

Confira as nossas novas sugestões para você viajar sem necessariamente sair de casa:

1. “A arte da viagem”, de Paul Theroux
Vem em primeiro porque é mais do que um livro de viagens: é a própria literatura de viagens condensada em uma só obra. Paul Theroux é, possivelmente, o mais consensual escritor vivo deste gênero literário e oferece desta vez uma viagem dentro da viagem, um roteiro de histórias, autores, citações e situações singulares sobre a arte de botar o pé na estrada. Aqui o medo e a adrenalina dão lugar ao espírito curioso do leitor, que ao invés de entrar nos cenários de um determinado lugar, transita entre o que há de mais importante em sair do lugar a que chamamos casa. Um conjunto de histórias, lançados para celebrar os 50 anos de viajante do autor, e em que ele nos dá a lição dos 10 mandamentos da viagem: “1. Sair de casa; 2. Ir sozinho; 3. Viajar leve; 4. Levar um mapa; 5. Ir por terra; 6. Atravessar a pé uma fronteira nacional; 7. Fazer um diário; 8. Ler um romance que não esteja relacionado com o local onde se está; 9. Se tiver de levar um celular, evitar usá-lo; 10. Fazer um amigo”.

Foto 1 © DR/William Furniss; Foto 2 © Quetzal

Foto 1 © DR/William Furniss; Foto 2 © Quetzal

2. “Na Natureza Selvagem”, de John Krakauer
Quando fizemos a primeira lista e não incluímos uma das obras maiores de Krakauer, o mundo (ou a caixa de comentários) ficou indignada com a gente. A explicação: havíamos feito dias antes uma lista de filmes onde a adaptação ao cinema deste livro, feita por Sean Penn, era atração principal. Mas admitimos – não dá pra fazer uma lista de livros de viagens sem incluir um dos que mais inspirou os novos viajantes, muitos dispostos a seguir a filosofia de Christopher McCandless, deixando pra trás empregos, bens e ideias pré-concebidas sobre sociedade, sem destino e com a natureza como fim.

McCandless tinha 22 anos quando se entregou ao único desafio que realmente o interessava, mas hoje, passados precisamente 22 anos sobre esse abril de coragem mil, são muitos e de todas as idades os que não resistem ao apelo de uma viagem sozinho.

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3. “As Mulheres do Meu Pai”, de José Eduardo Agualusa
Escritor angolano, Agualusa tem a capacidade de fugir aos lugares comuns quando falamos de África, da selva à pobreza. Elas estão lá, existem, mas a África de Agualusa é mais do que isso. O poder das mulheres e a musicalidade do povo e das ruas, mesmo em meio ao caos, são destaque numa obra guiada por uma filha em busca dos lugares (e das mulheres!) pisados pelo pai. Faustino Manso é um famoso compositor angolano falecido e um homem com uma relação peculiar com o sexo oposto. Pai de 18 filhos, deixou sete mulheres viúvas. A mais nova das filhas, Laurentina, é quem nos leva da capital angolana, Luanda, até ao outro extremo, em Maputo, Moçambique, atravessando a África Austral com paragens na Namíbia e África do Sul. Pelo meio, um enredo de personagens complexo e cenários que prometem dançar na sua mente durante muito tempo.

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4. “Noturno Indiano”, de Antonio Tabucchi
Não é fácil visitar a Índia e sair ileso. Por isso, caro leitor, se prepare para um choque de realidade com a narrativa do italiano Tabucchi. Ele, narrador e personagem, em busca de um amigo perdido, que não vê há anos, pode facilmente passar de um hotel de luxo para um quarto na beira da estrada (ou para a própria beira da estrada) e ainda assim não estar preparado para a “moldura” de miséria humana que vai encontrar. Em Bombaim ou em qualquer outra parte desse país de excessos, o narrador descreve 12 noites, 12 pontos diferentes da Índia, cada um com seus infinitos recantos, e nos oferece uma carga de suspense que achavamos só ser possível em policiais.

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5. “De vagões e vagabundos – Memórias do submundo”, de Jack London
O autor norte-americano Jack London é outro clássico da literatura que parece levar a adrenalina colada a cada página. Nesta obra, que foi entretanto reeditada no Brasil com o título de “A Paixão pelo Socialismo”, em que se juntam outros textos, London vagueia pela própria juventude, marcada pela pobreza e pela ideia de sobrevivência. O texto tem muito de autobiográfico e percorre o submundo americano, os pobres e sem-teto que usavam a rede ferroviária em expansão no país como abrigo itinerante.

London era um dos que subia em trens de carga, em imagens que percorrem a mente de vários viajantes de hoje, ainda que em muito melhores condições do que aquelas que o autor nos descreve. “Deixando de lado os possíveis imprevistos, um bom vagabundo, jovem e ágil, pode resistir até o fim num trem, apesar de todos os esforços da tripulação a bordo para “despejá-lo” – tendo é claro, a noite como condição essencial”.

Nota: se o tema te interessa, a reedição “A Paixão do Socialismo” junta outras histórias à experiência nos trens. O livro reúne reflexões sobre o capitalismo, a injustiça social e a pobreza de que London foi testemunha ao longo de seus 40 anos de vida.

Retrato do autor via

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6. “Nápoles 1944”, de Norman Lewis
Uma das melhores sugestões para quem quer entender o maior conflito do século XX, a Segunda Guerra Mundial, além de viajar por entre as descrições de quem a viveu. Norman Lewis serviu no Corpo de Inteligência Britânico na Itália entre o final do ano de 1943 e 1945 e, 30 anos mais tarde, lança uma obra onde relata suas experiências no sul de Itália. Em Nápoles, Lewis toma contato com a devastação da guerra, a vulnerabilidade da condição humana, mas também a solidariedade que pode unir os homens, independente dos conflitos ou da cor dos uniformes. Para juntar aos problemas da pobreza, a erupção do vulcão Vesúvio, em março de 1944, cobriu de lava uma aldeia próxima e exigiu ainda mais esforços da população.

Mas, por ser nestas situações que a essência de uma cidade e das suas pessoas mais se revela, é inevitável citar uma das mais famosas frases do autor britânico: “eu admirei tanto a cultura e a humanidade dos italianos no ano que lá passei, que me dei conta de que se me dessem a oportunidade de nascer de novo e escolher um país onde o fazer, escolheria Itália”.

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7. “Viajante Solitário”, de Jack Kerouac
Sim, era possível fazer uma lista só com Kerouac (na primeira, incluímos o grande clássico “On the Road”). Autobiográfico, intenso e de tirar o fôlego, como são quase todos os livros do autor, “Viajante Solitário” está dividido em oito textos por diferentes destinos, da França ao México, de Marrocos aos Estados Unidos, com um personagem que atravessa mares, estradas e caminhos de ferro com a mesma inventividade na escrita, que o levou a ser considerado um dos principais autores do Movimento, ou Geração, Beat.

Se ainda precisar de um pretexto pra ler o livro, aqui vai um trecho em forma de conselho: “Poupei cada centavo e então torrei tudo subitamente em uma grande e gloriosa viagem à Europa ou a outro lugar qualquer e me senti leve e feliz também”.

Foto 1 via; Foto 2 via

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8. “Na Patagônia”, de Bruce Chatwin
Bruce Chatwin faz parte do grupo de inquietos que não cede ao receio de deixar uma carreira e uma vida tranquilas em busca de um desconhecido. A descendência de marinheiros pode explicar o espírito aventureiro do autor, mas o que Chatwin nos conta de seus seis meses de viagem por lugares remotos é mais do que isso – são histórias intensas, umas verdadeiras, outras talvez não, que traçam um perfil intrigante e poético das pessoas com que o autor cruzou na Patagônia.

Motivado pela busca das origens de uma relíquia de família há muito guardada na sala da casa da avó, um “pedaço de brontossauro”, Chatwin acabou criando um clássico da literatura de viagens e elevando o seu nome à categoria de imprescindíveis da biblioteca de qualquer viajante.

Retrato do autor via

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9. “Recalculando a Rota”, de Alana Trauczynski
Uma odisseia pelas peripécias da vida, em que a autora (e nossa colunista aqui no Nômades Dititais) se coloca perante infinitos dilemas, com um único objetivo: encontrar um propósito na vida. Por entre cinco países, Trauczynski experimentou diversas profissões, em uma busca interior que muitas vezes a obrigou, qual GPS da mente humana, a “recalcular a rota”. A história tem emoção, aventura, tragédia e o combate por um dos valores que melhor define a espécie humana: liberdade.

10. “Nosso homem em Havana”, de Graham Greene
O cenário da Cuba pré-revolução castrista junto com o humor satírico de Greene tornam a leitura deste livro um duplo prazer. Greene foi agente do Serviço Secreto Britânico e, por isso, é capaz de nos dar uma ideia precisa do que é ser espião em uma terra estrangeira. O personagem principal do livro, desesperado por dinheiro que garanta sua sobrevivência, aproveita o clima de desconfiança exagerada para enviar para a Europa informações inventadas por ele (e ganhar mais com isso). De forma quase surreal, algumas dessas mentiras vão se tornando reais, colocando o homem em situações, no mínimo, delicadas.

O clima de Guerra Fria é descrito na perfeição, mas não é de estranhar que os viajantes de plantão foquem os sentidos na paisagem e na vida cubanas, com Havana no papel de destaque. Para isso, depois do livro, vale a pena ver a adaptação ao cinema, onde as imagens que preencherão sua mente podem, também elas, se tornar mais reais.

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Nota final: “Diários de Motocicleta”, de Che Guevara, é mais um exemplo de clássicos livros de viagem que incluímos na lista de filmes, pela excelente adaptação ao cinema e pela interpretação de Gabriel García Bernal na pele de Che, mas que poderia, como mais do que um leitor sugeriu, figurar nesta lista.

Clique aqui para ver a Parte 1 dos livros que dão vontade de arrumar as malas e, simplesmente, ir.

E aí, que outras sugestões, que não estejam nem nesta nem na primeira lista, você daria pra gente? E desta lista, quais livros ainda não leu? Qual o surpreendeu mais? Queremos ler sua opinião nos comentários!

Professor reúne apelidos racistas e cria projeto contra preconceito

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Assustado com mais de 360 nomes ofensivos encontrados entre alunos de escola na Zona Norte do Rio, professor monta jardim que mistura História e cultivo de plantas

O professor de biologia Luiz Henrique Rosa em frente ao muro decorado por alunos da Escola Municipal Herbert Moses com cerca de 200 nomes de escravos Paula Giolito

O professor de biologia Luiz Henrique Rosa em frente ao muro decorado por alunos da Escola Municipal Herbert Moses com cerca de 200 nomes de escravos Paula Giolito

Leonardo Vieira em O Globo

RIO – Mais de 125 anos depois da Lei Áurea, o racismo entre alunos do ensino fundamental chamou a atenção de Luiz Henrique Rosa, professor de biologia da Escola Municipal Herbert Moses, no Jardim América, Zona Norte do Rio. Assustado com a agressividade das crianças, Rosa pediu que todos colassem no papel os apelidos já ouvidos na escola. O resultado? Das mais de 400 terminologias catalogadas, cerca de 360 continham conteúdo racista, como “macaco”, “galinha de macumba” e “asfalto”.

No mesmo período dessa pesquisa, Rosa, entusiasta da história dos negros no Brasil, ficou impressionado com a falta de curiosidade pelo aniversário da Revolta de Vassouras, rebelião escrava ocorrida em 1838. Pressionado pelo racismo em sala de aula, de um lado, e o desconhecimento da cultura negra, de outro, o professor resolveu agir. Assim nasceu, no fim de 2009, o projeto “Qual é a Graça?”.

No quintal então abandonado da escola, Rosa pediu para que seus alunos escrevessem e colassem no muro os quase 200 nomes de escravos que participaram da revolta. O objetivo era que cada um “apadrinhasse” um cativo, estimulando o sentido de responsabilidade. Cada estudante contribuiu com R$ 6 pelo pedaço de mármore. É possível encontrar nomes cristãos como “Concórdia”, “José” e “Cesário”, dados aos cativos assim que chegavam ao Brasil. Já as pedras com os dizeres “Deus Sabe seu Nome” representam os escravos não identificados, fazendo uma analogia com o “Soldado Desconhecido”, no monumento em homenagem aos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Da canela ao café, uma aula de história

Depois, no mesmo espaço, Rosa fez os alunos cultivarem plantas e espécies ligadas à História do Brasil. O cultivo das plantas começa por especiarias como canela e noz-moscada. Em uma viagem no tempo, passa-se pelo pau-brasil, cana-de-açúcar e café. Para incutir nos estudantes o tempo de viagem entre Moçambique e o Brasil a bordo de um navio negreiro, o professor Luiz Henrique Rosa pediu para que eles plantassem e acompanhassem o ciclo da couve e da alface por 90 dias — o período em que um escravo sofria nos porões da embarcação. Para a viagem entre Brasil e Angola, pepinos e mostardas, que têm ciclos de 60 dias.

— Meus alunos olham para a planta e perguntam: “Ele ainda tá amarrado, professor?”, referindo-se ao escravo. Desse jeito consigo trabalhar com eles a dureza da escravidão e o desenvolvimento dos vegetais — explicou Rosa.

Nascido para combater o racismo, o projeto “Qual é a Graça?” ganhou contornos pedagógicos e agora é transdisciplinar, afirmou. Para ele, é impossível separar os conteúdos no jardim:

— Por que eu planto essa berinjela? Na biologia, para mostrar como as plantas nascem e se reproduzem. Já o professor de português pode botar uma plaquinha com o nome dela e lembrar que “berinjela” se escreve com “j”, não com “g”. O aluno nunca mais vai errar.

Sem apoio financeiro

Os trabalhos no jardim de Rosa não contam para a nota final do aluno, mas todos são incentivados a participar. E dá resultados. Aos 12 anos, a estudante Aretha Barra Mansa Nascimento era chamada na escola de “petróleo”. Hoje, com 14, ela diz que a iniciativa do professor ajudou a amenizar o clima entre as crianças, e agora atender apenas por Aretha no colégio.

— No começo os alunos mais velhos vinham aqui no jardim e destruíam as plantas, mas agora todos participam. Fora que é muito melhor aprender as matérias da aula na prática do que em um livro, dentro de sala — contou ela.

Em seus dois anos e meio de existência, o projeto nunca recebeu incentivos financeiros da Secretaria municipal de Educação. Segundo o diretor da escola, Renato Borges Giagio, um grupo de professores chegou a levar uma coleção de fotos e um relatório ao órgão para convencer os gestores, sem sucesso. Rosa calcula que o “Qual é a Graça?” já consumiu mais de R$ 6 mil da comunidade, entre professores, pais e alunos.
— Estamos fazendo a nossa parte, mas cadê a deles? A educação vai além da sala de aula, e quando se coloca amor, o resultado é isso aí — disse Giagio.

Situada próxima às comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas, em 2011 a Herbert Moses teve nota 4.1 no Ideb, contra 4.7 da média nacional.

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