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Edgar Allan Poe: 210 anos depois, grandioso como nunca

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No Brasil, eventos e lançamentos marcam o aniversário do autor de “O Corvo”

Oscar Nestarez, na Galileu

Em 19 de janeiro de 2019, Edgar Allan Poe completaria 210 anos de vida. Mais de dois séculos após seu nascimento em Boston (EUA), ele permanece como um dos maiores autores da literatura ocidental. O que explica esta grandiosidade? O que justifica o interesse de gerações e gerações pela sua figura, pelo seu legado? Qual é a origem do fascínio que títulos como O Corvo, O Gato Preto, A Queda da Casa de Usher, O Barril de Amontillado e inúmeros outros continuam a exercer em nós, tanto tempo depois?

Hoje existem, pelo mundo, milhares de pesquisadores em busca dessas respostas. E vêm de áreas que não se restringem às letras: da filosofia, da psicologia, da história e da antropologia, entre outras. Talvez aí encontremos uma possível chave para entendermos o feitiço Poe: o fato de sua obra transcender a ficção literária, em muitas esferas.

Seus contos e poemas alcançam os recessos e os mistérios da alma humana — mas sempre com os dedos da escuridão, é verdade. Afinal, para muitos (o signatário desta coluna entre eles), trata-se do fundador, ou do “consolidador” das narrativas de horror e de mistério como as conhecemos hoje.

Retrato inquietante
Outro fator que contribui para o sucesso de Poe é a sua figura. O olhar provocador, os cabelos desalinhados, os lábios cinicamente desenhados: antes mesmo dos textos, o próprio retrato do autor já causa estranhamento. É impossível não nos inquietarmos diante de sua expressão ora enigmática, ora melancólica, mas prestes a sair da moldura para nos fustigar, assustar, desestabilizar. É o retrato de um rosto esculpido pela genialidade, mas também vincado pelo desequilíbrio, pelo álcool e por uma incontrolável tendência à autodestruição.

Pois, quanto à vida de Poe, também ela é uma duradoura fonte de interesse e comoção. Foi uma vida algo breve e trágica, que começou naquele janeiro de 1809 e se encerrou misteriosamente em outubro de 1849, em Baltimore.

Hoje, é conhecida a trajetória de Poe rumo à ruína. Alguns biógrafos atribuem-na ao contato precoce com a morte — antes de completar três anos, ele perde a mãe, Elizabeth Arnold. O pai, David Poe, desaparece sem dar notícias. Mas devemos considerar também o temperamento combativo do autor, que sempre lhe custou caro: primeiro, a ruptura com o pai adotivo (o que o impediu de herdar sua significativa fortuna); depois, o “convite para se retirar” da Universidade de Charlottesville; por fim, os confrontos com chefes, que resultaram em seguidas demissões.

Dividindo águas
Mesmo assim, em meio ao caos exterior e interior, Poe conseguiu atingir o sublime. Desde 1827, quando publica seu primeiro livro — Tamerlão e Outros Poemas — até quase que o final da vida, ele jamais deixou de escrever. Contra tudo (e muitas vezes contra todos), legou-nos uma obra que praticamente dividiu as águas da literatura — as escuras das claras.

Hoje, a sombra de Poe alcança muito além dos livros. Trata-se de uma influência cuja origem é complexa — um território em que biografia e obra se confundem para aproximar o homem do mito. Seja como for, 210 anos após seu nascimento, nós o encontramos por todos os lados: ele está entre os escritores mais adaptados da história do cinema, roteiristas vivem recorrendo à sua ficção para criar séries, seus contos e poemas são frequentemente levados aos palcos do teatro, game designers têm transformado suas histórias em jogos, e por aí vai.

Edgar Allan Poe (Foto: Wikimedia Commons)

HQs celebram o mestre
Os quadrinhos também estão sob essa sombra. Aqui mesmo, no Brasil, temos dois exemplos recentes de como Poe influencia a nona arte. O primeiro é a coletânea Delirium Tremens, publicada pela editora Draco para marcar a efeméride de janeiro de 2019. A HQ traz oito histórias livremente inspiradas no universo poeano.

Algumas narrativas acenam sutilmente para os elementos ficcionais/biográficos de Poe. É o caso de “In articulo mortis”, criada a partir do interesse do autor pelas novidades de sua época—- notadamente, a hipnose, que o encantou e o levou a escrever “Os fatos no caso do sr. Valdemar”. O mesmo acontece com “Butim”, que explora o maior medo de Poe: ser enterrado vivo; e de “Murder”, que envolve a mística de O Corvo com as brumas da ficção científica e da conspiração.

A trágica biografia do autor de O Corvo também é o objeto de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe, publicada pela editora do Sebo Clepsidra. A HQ tem roteiro de R.F. Lucchetti, o papa das narrativas pulps brasileiras, e arte de Eduardo Schloesser. Ambas serão lançadas no Festival Edgar Allan Poe, evento comemorativo com palestras, leituras dramáticas e exibição de filmes que acontecerá no dia 19 em São Paulo (este link tem mais informações).

Túmulo de Edgar Allan Poe (Foto: Wikimedia Commons)

Poe, personagem
Por tudo isso e muito mais, Edgar Allan Poe continua vivo — e lido. Continuam enfeitiçando-nos os movimentos de sua escrita e de seu atormentado espírito; os rodopios de uma alma insatisfeita.

Criando com a própria vida, ele acabou por tornar-se o grande personagem de si mesmo. Antes de Roderick Usher, de Arthur Gordon Pym ou de William e Wilson, foi Poe, e ninguém mais, a vítima de neuroses transmutadas em atrocidades, o acossado pelas sombras, o perseguido e o perseguidor, o obcecado por aquilo que oculta o espesso véu do cotidiano.

Melhor para nós que, em meio a tanto tumulto, Poe ainda encontrasse lucidez para empunhar a pena. E para imprimir, no papel, a marca perene do gênio, que mais de dois séculos não foram capazes de apagar.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: Um Ensaio Sobre o Medo na Literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e Outros Relatos Insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).

Harry Potter completa 37 anos e fãs parabenizam o famoso bruxinho nas redes sociais

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Harry Potter, personagem na série de filmes baseados nos livros de J.K.Rowling. (Foto: Divulgação)

Harry Potter, personagem na série de filmes baseados nos livros de J.K.Rowling. (Foto: Divulgação)

 

J. K. Rowling, autora da saga, também recebeu os parabéns dos internautas por seus 52 anos.

Publicado no G1

Harry Potter completa nesta segunda-feira (31) 37 anos. E os fãs o famoso bruxinho usaram as redes sociais para parabenizar a nova idade do personagem, postando mensagens em texto e GIFs.

Quem também recebeu os parabéns foi J. K. Rowling. Criadora de Harry Potter, a escritora completa 52 anos nesta segunda-feira (31).

Na última semana, quem soprou as velinhas foi Daniel Radcliffe. O ator, que viveu Harry Potter nos cinemas, completou 28 anos no dia 23 de julho.

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Aniversário de Agatha Christie: conheça a história do desaparecimento da escritora

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"Sra. Agatha Christie como ela foi vista pela última vez (centro), e (na esquerda e na direita) como ela pode ter se disfarçado alterando o penteado e os óculos. O Coronel Christie diz que a esposa delarou que desapareceria se ela tivesse vontade, e, levando-se em consideração que ela é autora de histórias de detetive, seria bastante natural que ela adotasse alguma forma de disfarce para levar adiante a ideia" (foto: Hulton Archive/Getty Images/Reprodução)

“Sra. Agatha Christie como ela foi vista pela última vez (centro), e (na esquerda e na direita) como ela pode ter se disfarçado alterando o penteado e os óculos. O Coronel Christie diz que a esposa declarou que desapareceria se ela tivesse vontade, e, levando-se em consideração que ela é autora de histórias de detetive, seria bastante natural que ela adotasse alguma forma de disfarce para levar adiante a ideia” (foto: Hulton Archive/Getty Images/Reprodução)

 

Hoje, ela completaria 126 anos. Há 80, desapareceu durante quase duas semanas

Publicado no UAI

Um relatório de 1926 da polícia inglesa reporta o desaparecimento de uma mulher: “35 anos, 1,70m, cabelo avermelhado e anelado, pele clara. Boa forma, vestida com um casaco cinza-escuro, pequeno chapéu verde, um anel de platina com uma pérola, mas sem anel de casamento”. Esse poderia ser o início de um livro de mistério escrito por Agatha Christie, mas, na verdade, foi a vida dela própria.

Hoje, a escritora inglesa completaria 126 anos, e, há 80, protagonizou um conto de suspense da vida real.

Em 1926, seu casamento com o militar aposentado Archibald Christie completava 12 anos, e incluía uma filha de sete. A essa altura, Agatha já tinha escrito seis livros e alcançado algum reconhecimento. O casal, porém, ainda lutava para conciliar as diferenças.

A gota d’água para a paciência de Agatha foi o anúncio do marido de que ele passaria um final de semana “com amigos”. A suspeita da escritora, que afinal conhecia tudo sobre intrigas, era que um desses amigos seria Nancy Neele, amante de Archimbold.

Agatha Christie e o marido, em 1919 (foto: Rex Features/Reprodução)

Agatha Christie e o marido, em 1919 (foto: Rex Features/Reprodução)

 

Foi o suficiente para a escritora arrumar as malas e desaparecer sem aviso. Não era o caso de uma fuga do marido, já que ela recusava o divórcio que ele supostamente tinha sugerido. Na verdade, não se sabe exatamente por que ela resolveu sumir. Fato é que durante 11 dias ela foi a personagem central de uma história tão boa quanto poderia ter escrito.

Dos jornais londrinos ao The New York Times, vários veículos de comunicação cobriram de perto as buscas por Agatha. Uma manchete de 9 de dezembro de 1926 do The New York Times, seis dias após a fuga, aponta que “500 policiais e aviões procuram pela Sra. Christie; o terrier [cachorro com bom faro] favorito dela também participa das buscas pela escritora inglesa desaparecida”.

Até o criador do detetive Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, se envolveu no caso, e entregou uma luva da escritora a uma médium, para que ela contatasse espíritos que ajudassem a localizar Agatha.

"Beagles foram utilizados ontem na busca renovada ao redor das Newlands Corner pela Sra.Agatha Christie, a escritora desaparecida, cuja última fotografia aparece acima. À direta, está Rosalind, a filha de sete anos da autora, fotografada nas terras da casa em Sunningdale" (foto: Hulton Archive/Getty Images/Reprodução)

“Beagles foram utilizados ontem na busca renovada ao redor das Newlands Corner pela Sra.Agatha Christie, a escritora desaparecida, cuja última fotografia aparece acima. À direta, está Rosalind, a filha de sete anos da autora, fotografada nas terras da casa em Sunningdale” (foto: Hulton Archive/Getty Images/Reprodução)

 

Fãs temiam que ela pudesse ter sido assassinada, e as suspeitas recaíam sobre o marido. A tensão aumentava quando, finalmente, um admirador, que tocava música em um spa, reconheceu a escritora entre os hóspedes. Ela se hospedeu usando o nome Tereza Neele – curiosamente, o mesmo sobrenome da amante do marido.

Ela não deu explicações públicas sobre o sumiço, e assinou o divórcio dois anos depois, em 1928. Andrew Norman, um dos biógrafos da escritora, levanta a hipótese de que o caso tenha sido um episódio de “estado de fuga”, uma breve amnésia causada por estresse.

3 livros para quem gosta de Harry Potter

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Neste 31 de julho, aniversário do bruxinho, veja algumas obras incríveis para quem é apaixonado pela série

Publicado no Universia Brasil

Em 31 de julho comemora-se o aniversário do bruxinho mais famoso do mundo. Há mais de duas décadas, quando começava a rascunhar em guardanapos de bares as primeiras histórias do fantástico mundo de Harry Potter, a escritora britânica J.K. Rowling decidiu que o 31º dia do sétimo mês do ano de 1980 seria a data de nascimento do “garoto que sobreviveu”.

No primeiro livro da série, Harry Potter e A Pedra Filosofal, lançado em 1997, o garoto descobre que é um bruxo justamente no dia do seu aniversário de 11 anos. Na trama, o grandalhão e atrapalhado Hagrid, um dos funcionários da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, faz uma visita surpresa a Harry Potter, que vive com os tios e o primo “trouxas”, ou seja, que não pertencem ao universo dos bruxos. Nesse encontro, Harry finalmente desvenda a verdade sobre seu passado e recebe a notícia de que não é apenas um menino comum.

Para os aficionados pela série, aí vem a boa notícia: o novo livro da saga, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, chega às livrarias brasileiras no dia 31 de outubro deste ano. O livro é adaptação do roteiro da peça Harry Potter and the Cursed Child, que está em cartaz em Londres, na Inglaterra.

Enquanto esperamos para ler a nova história do bruxinho, veja uma lista de 3 livros para quem gosta de Harry Potter:

1. Desventuras em Série (Lemony Snicket, 2004)

A série de 13 livros, que ganhou uma adaptação para o cinema com o ator Jim Carrey, no papel de Conde Olaf, conta a história dos órfãos Baudelaire e é repleta de elementos fantásticos e acontecimentos misteriosos. Escrita pelo autor norte-americano Lemony Snicket, (pseudônimo de Daniel Handler), a saga também deve virar uma série do Netflix.

2. Percy Jackson (Rick Riordan, 2005)

Mais uma saga repleta de aventuras e experiências mágicas, Percy Jackson conta com seis livros que narram a história de um dos filhos de Poseidon, o deus do mar. Além de prender a atenção do leitor com situações emocionantes, a obra traz os elementos da mitologia grega para o século XXI. Também já teve dois de seus livros adaptados para as telonas.


3. O Orfanato da Senhorita Peregrine para Crianças Peculiares (Ransom Riggs, 2011)

Curioso e até um pouco bizarro, o livro retrata a realidade de jovens com habilidades bastante incomuns. Assim como Harry Potter e as outras obras citadas, a história também vai chegar às telas dos cinemas. O filme, dirigido pelo excêntrico Tim Burton, tem estreia prevista no Brasil para o final de setembro.

Entrevista com Ziraldo

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Em entrevista à CRESCER, ele conta como surgiu sua paixão pela literatura infantil e uma passagem emocionante que passou com ‘O Menino Maluquinho’

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Publicado em Crescer

Em 1932, na cidade de Caratinga, no interior de Minas Gerais, nascia Ziraldo Alves Pinto. Mais velho entre sete irmãos, o menino que vivia desenhando nas paredes de casa, nas calçadas e salas de aula, tornou-se cartunista, escritor, pintor, teatrólogo e jornalista. Mais que isso, tornou-se um dos maiores nomes da literatura infantil brasileira.

Ziraldo ingressou na literatura em 1960 com a revista em quadrinhos Turma do Pererê. Em 1969, foi a vez de publicar Flicts, seu primeiro livro infantil. De lá para cá, lançou mais de 150 títulos para crianças, incluindo O Menino Maluquinho, considerado um dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil brasileira.

Prestes a comemorar seu 83º aniversário, o mineiro de Caratinga segue produzindo a todo vapor. Está lançando Nino, O menino de Saturno, que é o sétimo título da coleção Meninos dos Planetas, e relançando, em edição revista e repaginada, a coleção ABZ, que reúne 26 livros, cada um dedicado a uma letra do alfabeto. Segundo depoimento de sua filha Daniela Thomaz, registrado nos livros da coleção ABZ, Ziraldo cria “cantando, assoviando, batendo o pé no chão”. “Ele é a orquestra inteira”, afirma Daniela, que resume: “meu pai não cria, ele contagia”.

Esbanjando simpatia, disposição, entusiasmo, informalidade e senso de humor, Ziraldo conversou com a CRESCER sobre sua história na literatura e sobre o momento profissional que está vivendo…

CRESCER: Como foi sua relação com o desenho, a leitura e a escrita durante a infância?
Ziraldo:
Desde pequeno, sempre tive uma relação muito forte com o desenho. Em minhas lembranças mais antigas, eu me vejo sempre desenhando. E ainda criança imaginava que na vida adulta iria desenhar, pintar, trabalhar com algo nessa linha. Na medida em que fui crescendo, conheci as histórias em quadrinhos e me apaixonei pelo gênero. Isso fez com que meu desenho passasse a ser narrativo, revelando-se em quadrinhos, charges e cartoons. Essas linguagens sempre me encantaram.

CRESCER: Antes de ingressar na literatura infantil, você trilhou uma boa estrada como cartunista e jornalista, teve ampla atuação em jornais e revistas. Como foi o ingresso na literatura infantil?
Ziraldo:
Conforme fui trabalhando em meus cartoons e charges, comecei a gostar muito de escrever, um gosto que não aparecia com tanto destaque na minha infância. Fiz histórias em quadrinhos e criei a revista em quadrinhos Turma do Pererê, que era mensal e durou cinco anos (até ser extinta pela ditadura). Com essas experiências, percebi que poderia usar essa capacidade de escrever e de desenhar para fazer livros para crianças. Foi em 1969, então, que escrevi Flicts, meu primeiro livro para crianças. O livro teve o aval de Carlos Drummond de Andrade (na ocasião do lançamento, ele inclusive publicou uma crônica sobre a obra no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro), foi muito bem recebido por adultos e crianças e fez muito sucesso.

CRESCER: Onze anos depois de Flicts, você lançou O Menino Maluquinho. Com cerca de 100 edições já publicadas, o livro teve mais de 3,5 milhões de exemplares vendidos e foi traduzido para diversos idiomas. Na sua opinião, o que torna O Menino Maluquinho tão fascinante?
Ziraldo:
Quando lancei O Menino Maluquinho, eu não tinha a menor ideia de que o livro teria tamanha repercussão, que um dia teria toda essa história que construiu. Acredito que o Maluquinho teve tamanho alcance nesses anos todos por despertar identificação nos leitores. As crianças leem a história e se identificam com o personagem, sentindo algo como: “Opa, isso é comigo!”, “Eu sei o que ele está sentindo”, “É isso que eu sinto!”. Certa vez, visitando uma escola na cidade de Betim, perto de Belo Horizonte, tive esse cenário bem ilustrado. Havia um rapaz muito simples, que participava de um jornalzinho literário. Ele virou para mim dizendo que queria me contar sua experiência com o Menino Maluquinho. Emocionado, relatou: “Quando eu era menino, eu achava que eu era o cão, que dava muita tristeza para os meus pais e muitas vezes me sentia muito culpado por isso. Eu achava que não tinha futuro, que era um menino mau. Até que um dia, O Menino Maluquinho caiu na minha mão. Li o livro e pensei: ‘Meu Deus, esse sou eu, estou salvo! Vou virar um cara legal!’”. Esse menino me surpreendeu, nunca tinha imaginado O Menino Maluquinho ajudando crianças que se sentiam mal por ter alguns daqueles traços. Essa passagem me emocionou demais.

CRESCER: Foi por essas e outras que, ao longo da vida, você foi dedicando cada vez mais tempo para a literatura infantil?
Ziraldo:
Sem dúvida! De tudo o que fiz na vida, o que me deu a melhor resposta foram os livros infantis. Já visitei escolas do Brasil inteiro por conta dos meus livros. Não há estado para o qual eu não tenha ido. Interior de Pernambuco, de Porto Alegre, de Minas Gerais… Onde quer que eu vá, milhares de pessoas se reúnem para me ver, contar algo, pedir autógrafo… Chego nas escolas e as crianças vêm correndo me abraçar, falar comigo… Tudo isso é muito recompensador. Fico impossível! (risos)

CRESCER: É interessante notar que sua produção não encanta somente as crianças de hoje, mas também tantos adultos que, na infância, se emocionaram com seus livros. Como você enxerga o reencontro de muitos adultos com a criança que já foram por meio da sua obra?
Ziraldo:
Isso é fantástico. Já vi realmente muita gente interessante que, quando encontra o autor do livro da infância, se emociona, se comove. Percebo que quando um autor conquista uma geração, ele vive enternamente no coração dessas pessoas. É impressionante. A pessoa te abraça, fica tocada com o encontro. Neste ano, inclusive, estive diante do primeiro avô que leu O menino Maluquinho e veio falar comigo acompanhado do neto. Ele trazia o livro de sua infância para eu autografar para o neto. É maravilhoso participar dessas histórias.

CRESCER: Além de relançar a coleção ABZ, você está lançando Nino, O menino de Saturno. Nesse livro, você deixa muito clara a importância da criatividade e da fantasia na vida de uma criança…
Ziraldo:
Nino, o menino de Saturno, é o sétimo livro da coleção dos Meninos dos Planetas. A coleção terá ao todo dez livros, que tem como protagonistas meninos de Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e ainda o menino da Lua, do nosso satélite, que sonha em ser tão importante quanto um menino de planeta. Na coleção toda há muita fantasia, mas nesse volume, num momento importante, inseri uma fala de Einstein, na qual ele afirma que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Acredito muito nessa colocação.

CRESCER: Você está relançando uma coleção de 26 livros, acaba de concluir o sétimo volume de outra coleção e tem um programa de TV semanal de literatura infantil (o ABZ do Ziraldo). Fora isso, em Salvador há uma exposição sua em cartaz – Pererê do Brasil – e, no Rio de Janeiro, está em cartaz a peça Quero ser Ziraldo. Tudo isso às vésperas do seu aniversário de 83 anos de idade. De onde vem tanto fôlego?
Ziraldo: Pois é, estou fazendo 83 anos, mas o que gosto mesmo de dizer é que estou a 7 anos de fazer 90. É mais bacana e impactante estar com quase 90, você não acha? Muita gente chega aos 80, mas poucos conseguem comemorar os 90. Pode ver em qualquer cemitério: a cada 100 túmulos, deve ter um único de um sujeito que morreu com mais de 90 (risos). O fato é que estou chegando aos 90 menos 7 produzindo muito mesmo. A vida não teria graça sem produzir. Considero a aposentadoria o maior inimigo do homem. Quem não gosta da profissão deve procurar algo que o agrade. O que ninguém pode é parar, isso não dá.

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