Vitor Paiva, no Hypeness

Na primeira frase do conto “A Biblioteca de Babel”, Jorge Luís Borges faz do universo inteiro uma biblioteca, em um dos mais emblemáticos inícios da literatura mundial. Para Borges – que não conseguia dormir senão rodeado por livros – o paraíso seria uma livraria.

Certas obras provocaram revoluções, guerras, mudanças nos nossos hábitos mais profundos, nas nossas ideias, nos revelando novas maneiras de ver e entender as coisas. Um livro é capaz de nos fazer querer viver, morrer, recomeçar, jogar tudo para o alto, construir um mundo novo, e até dormir.

Escultura em livro da artista holandesa Annemarieke Kloosterhof

Escultura em livro da artista holandesa Annemarieke Kloosterhof

 

Muitas páginas foram escritas para que Borges pudesse sonhar em sua infinita livraria paradisíaca, mas naturalmente que livros revolucionários são raros. Alguns, no entanto, incontestavelmente transformaram o mundo. Pois foi a essa tarefa que se propôs a Biblioteca Britânica, em parceria com o Conselho de Pesquisas em Artes e Humanidades: apontar quais seriam os textos acadêmicos mais importantes da história.

Primeiramente, uma lista foi levantada por especialistas, para depois ser submetida ao voto popular. O resultado final é um belo apanhado de textos que de fato impactaram o mundo em que vivemos – e que até hoje apresentam sua contundência e seu sentido revolucionário.

E os vencedores são:

1. A Origem das Espécies – Charles Darwin

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“Quando se lança ao ar um punhado de penas, todas cairão no chão de acordo com leis muito bem definidas: quão simples é esse problema comparado com o da ação e reação das incontáveis plantas e animais que determinaram, no decorrer dos séculos, os números proporcionais e os tipos de árvores que crescem hoje nas ruínas indígenas! (…) Quem acreditar que as espécies são mutáveis prestará um bom serviço à ciência (…) É a essa preservação das variações favoráveis e eliminação das variações nocivas que dou o nome de Seleção Natural.” – Trecho de abertura do livro A Origem das Espécies.

O naturalista inglês Charles Darwin

O naturalista inglês Charles Darwin

 

Publicado em 1859, sob o título de Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida, é nesse livro que o naturalista britânico Charles Darwin nos apresenta sua célebre Teoria da Evolução.

Através de uma abundante coleção de evidências, Darwin mostra que a diversidade biológica é fruto de modificações em descendência, através da gradual adaptação dos organismos vivos aos meios e circunstâncias, em uma luta pela sobrevivência que ficou conhecida como Seleção Natural.

Caderno de anotações de Darwin, com o primeiro diagrama de uma árvore evolutiva. No alto, à esquerda, Darwin anotou: “eu acho“

Caderno de anotações de Darwin, com o primeiro diagrama de uma árvore evolutiva. No alto, à esquerda, Darwin anotou: “eu acho“

 

A primeira edição do livro teve tiragem de 1250 exemplares, e se esgotou no mesmo dia 24 de novembro de 1859 em que foi publicado. A celeuma provocada se justifica: em uma só tacada, Darwin revolucionou tanto os parâmetros científicos sobre nossa origem como contrariou a ideia religiosa de uma criação divina por trás do surgimento da vida, dos seres vivos e, consecutivamente, da humanidade.

Primeira edição em inglês do livro

Primeira edição em inglês do livro

 

Além de oferecer um argumento científico e factível contra o mito da criação divina, Darwin ainda retirou a humanidade do alto de seu trono autoproclamado em meio ao reino animal. Não havia mais, a partir de então, nenhuma fronteira natural entre os seres humanos e os outros animais.

Darwin sofreu muitos ataques dos ignorantes de plantão, sendo frequentemente desenhado como um homem com corpo de macaco.

Charge de Darwin como um homem-macaco

Charge de Darwin como um homem-macaco

 

Apesar da absoluta imprecisão científica dos ataques (pois não somos “filhos” dos macacos, mas sim, descendentes de uma origem comum, como primos realmente distantes – de milhões de anos de distância, afinal), os ataques foram (e ainda são) frequentes.

Ainda assim, o naturalista, permaneceu de pé diante de seus detratores – assim como sua teoria, que segue como a melhor e mais contundente base para o entendimento natural de quem somos e de quem viemos.

2. O Manifesto Comunista – Karl Marx e Friedrich Engels

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“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. (…) A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado.” – Trecho de abertura do Manifesto Comunista.

Karl Marx e Friedrich Engels

Karl Marx e Friedrich Engels

 

Se o livro de Darwin colocou Deus no ostracismo, o segundo lugar da lista alavancou revoluções, derrubadas e tomadas de poder, redesenhou o mapa mundial e transformou a maneira de vermos as relações sociais e econômicas. Para além de posicionamentos políticos ou opiniões, o Manifesto Comunista, publicado por Karl Marx e Friedrich Engels (mais…)