Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged Antibullying

“Ouvir o agressor reduziu o bullying”

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Professora de Aracaju mostra que aproximar-se do aluno que ameaça os colegas é um caminho para ele mude de atitude

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Marcelo Volpato, na Nova Escola

Caso real

“Eu tinha um aluno que liderava os casos de bullying naquela turma e, com a ajuda de alguns colegas, agredia, xingava e batia nos mais fracos. “Em um dos casos, ele chegou a ferir um colega até sangrar”, relembra.

Abjan decidiu, então, iniciar ações de combate à violência com a sala. De início, por meio do diálogo, convidou os alunos a refletirem sobre suas próprias ações, com base no tema “aquilo que não quero para mim, não posso ofertar aos outros”. “Meu objetivo era fazer os alunos se colocarem no lugar dos colegas”. Além do debate, a turma também participou de encenações teatrais e produziu cartazes com mensagens que pediam mais respeito para melhorar a convivência na escola.

Mas, na visão da professora, ainda era preciso incluir a família nesse processo. “Muitas vezes, os pais incentivam os filhos a serem violentos, a agredir quando são agredidos”. Ela passou, então, a organizar reuniões quinzenais com os familiares. “Se você não trouxer a família, você não consegue atingir o aluno”, conclui.

Nas primeiras atividades com a turma, o aluno que ameaçava os colegas quase não participou. “Um dia, ele me procurou para dizer sobre as coisas que não gostava. Ouvi e dei importância a ele. Depois disso, ele começou a participar mais, com uma atitude melhor e o comportamento do grupo como um todo melhorou muito”, avalia.

Palavra de especialista
Está claro e é uníssono entre os pesquisadores da área que atos de bullying podem ter causas relacionadas a ambientes familiares agressivos. Justamente por isso, gestores e professores precisam construir na escola um ambiente sócio-moral baseado no respeito e em um relacionamento sadio. “É necessário que a escola pare de culpar as famílias por todos os problemas que enfrenta e busque uma revisão interna sobre a organização do ambiente escolar”, alerta Adriana Ramos, pedagoga e doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A própria inclusão das famílias pode ser uma estratégia de combate ao bullying, mas não a única. Toda a escola – incluindo gestores, coordenadores, professores, funcionários, alunos e pais – precisa participar ativamente de processos de manutenção das relações interpessoais na escola. “Um aluno que não tem uma família considerada estruturada ou pais ausentes é justamente aquele que mais precisa de uma escola justa e respeitosa para seu desenvolvimento”, alerta Ramos.

Para a especialista, punir não é o melhor caminho para resolver problemas de bullying entre alunos. E foi exatamente esta a postura da professora Abjan Gomes. “Ela soube se sensibilizar em relação ao agressor, um personagem muitas vezes negligenciado e até tratado como culpado. A professora não julgou o aluno, mas procurou incentivá-lo a reconhecer seus próprios sentimentos”, analisa Adriana.

Chamada de ‘burra’ nos tempos de escola, jovem lança HQ sobre bullying

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Vanessa Bencz foi diagnosticada com transtorno de déficit de atenção.
‘Quem pratica bullying também tem problema e precisa ser ouvido’, diz.

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Paulo Guilherme, do G1

Durante boa parte da infância, a catarinense Vanessa Bencz se acostumou com as notas baixas na escola, a dificuldade em se concentrar durante a aula, e o estigma de que não conseguiria aprender nada. Se via perdida em meio às brincadeiras dos colegas de classe, isolada em um canto da sala, às vezes reprovada com olhares pelos professores. “Ninguém queria andar perto de mim. Diziam que a burrice era contagiosa”, afirma.

Vanessa demorou para descobrir que sofria de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e a entender que era vítima de bullying. Hoje, jornalista formada, ela conta a sua trajetória em forma de ficção no livro de história em quadrinhos “A menina distraída”.

A jovem de Joinville (SC) diz que descobriu que algo estava errado em sua vida aos dez anos, depois de tirar várias notas zero nas provas. Era comum parar de prestar a atenção na aula para olhar pela janela ou desligar-se da aula para desenhar no caderno.

“Sempre fui muito tímida e tirava só nota baixa. Ninguém queria andar comigo”, afirma. “Eu só não repetia de ano porque estudava em colégio particular que me aprovava por causa das mensalidades.”

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Já na adolescência, um professor de matemática a repreendeu diante de toda a classe depois de flagrá-la desenhando em vez de fazer os exercícios. “Ele disse que eu jamais seria uma desenhista, no máximo iria fazer cartaz de supermercado.”

Os pais encaminharam Vanessa para uma psicóloga e aos poucos seu desempenho escolar começou a melhorar. A psicóloga diagnosticou o transtorno de déficit de atenção e passou a orientar Vanessa a como fazer seu cérebro funcionar “à sua maneira”. “Ela me explicou que se eu anotasse o que o professor falava, dormisse 20 minutos à tarde e olhasse o que anotei em seguida, conseguiria entender melhor”, explica. “Meu problema era ficar olhando para a janela.”

A psicóloga recomendou muita leitura para Vanessa, como as séries “Harry Potter” e “Senhor dos anéis”. Passou a escrever melhor, fazer ótimas redações, fez vestibular e entrou em jornalismo. Na faculdade, ganhou vários amigos.

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Também no ensino superior foi se consultar com uma psiquiatra que a receitou o uso de ritalina. Na medicina, a droga de uso controlado é usada para reduzir impulsividade e hiperatividade de pessoas com TDAH. “Meu cérebro é como uma orquestra maluca, todo mundo tocando ao mesmo tempo”, diz Vanessa.

O uso da ritalina por quem não precisa de tratamento é condenado pelos médicos. Além de não aumentar o poder de concentração, o remédio pode trazer riscos para a saúde.

Identificação

A jovem teve a ideia de escrever um livro em formato de história em quadrinhos para discutir os problemas que quem tem dificuldades na escola sofre. “Fiz algumas palestras e conheci muitos alunos que se identificaram com a minha história”, afirma Vanessa, que chamou o namorado, Pedro Ori, para ilustrar a obra. Ela vez uma campanha no site de crowfunding Catarse e arrecadou R$ 21 mil para a produção do livro.

Na história em quadrinhos, a personagem Leila não presta atenção no professor, não consegue fazer amizades e acaba excluída na escola. Então, ela cria um ‘alter ego’ e passa a interagir com ela. “Ela desenha a Mulher Raio, uma heroína capaz de resolver todos estes problemas.”

A história mostra ainda que o menino que praticava o bullying é, no fundo, alguém que também tem muitos problemas e precisa de cuidado e atenção. “A escola e os pais precisam entender que não apenas quem sofre o bullying, mas também quem pratica, precisa ser ouvidos. Em geral eles excluem todo mundo, tanto o agressor quanto o agredido”.

O livro será distribuídos em escolas da rede pública e estará à venda por R$ 25.

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Especialistas comprovam que pessoas mais educadas discriminam menos

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Alfredo Dillon

A educação nos torna mais tolerantes e diminui a discriminação. A conclusão surge de um relatório recente da Unesco, cujas conclusões mostram que na Argentina e na América Latina, as pessoas com o colegial completo têm menos probabilidade de expressar intolerância em relação a homossexuais, pessoas com HIV ou imigrantes, do que quem só terminou o primário.

Um exemplo: na América Latina, a probabilidade de que pessoas com educação de ensino médio discriminem pessoas de outra raça é 47% menor que a daquelas que só completaram o nível primário. Para o caso argentino, a Unesco concluiu que a possibilidade de que pessoas com ensino médio completo discriminem homossexuais é 21% menor do que entre aqueles que têm só o primário completo.

Paradoxalmente, na Argentina a escola é um dos espaços onde mais se discrimina, só superado pelo lugar de trabalho. Em 2013, de acordo com os dados do Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo da Argentina (INADI), 11,5% das denúncias por discriminação se originaram em âmbitos educativos. Mas isso é apenas um reflexo do que acontece fora das salas de aulas: em uma pesquisa de abrangência nacional, o INADI verificou que 85% dos argentinos acreditam que na Argentina “se discrimina muito ou bastante”. O número é ainda mais alto entre os jovens: 90% consideram que a discriminação é um problema importante na Argentina.

A intolerância nas salas de aula pode se expressar em forma de bullying (assédio entre colegas), mas também como maltrato entre professores e alunos, ou de um professor a outro. Segundo os dados do INADI, os tipos de discriminação mais comuns no ambiente educativo são os relacionados à situação socioeconômica, ao aspecto físico e à cor da pele. Na Grande Buenos Aires, a nacionalidade também é um fator de peso.

Quando devem explicar as causas da discriminação 65% dos argentinos respondem que é um problema de “falta de educação”. Diante deste panorama, a pesquisa da Unesco marca que a escola tem um grande potencial para transformar esses estigmas que circulam na sociedade e ensinar os alunos a valorizar a diferença.

Os especialistas advertem que é fundamental começar esse trabalho no jardim da infância. Ali, o olhar do docente tem uma influência crucial: “É fundamental que as professoras prestem atenção nas brincadeiras das crianças e a redirecionem em casos de discriminação, exclusão ou maltrato. Deverão prestar atenção nos papeis que as crianças assumem e oferecer oportunidades de conhecer o outro, de ser empático, de escutar histórias, modelos familiares, origens e crenças diferentes”, afirma a psicopedagoga María Zysman, diretora de Livres de Bullying.

Na escola se aprende muito mais do que Matemática e Língua: as salas de aula também ensinam valores e atitudes que podem transformar as relações sociais. “A educação para a paz, a convivência democrática e os direitos humanos, contribuem para que as pessoas percebam a ampla diversidade do mundo e que, ao invés de se sentirem ameaçados por ela, abram suas mentes e espíritos para valorizar a contribuição que significa conhecer e conviver com diversas visões de mundo”, explicou Victoria Valenzuela, da Unesco, ao Clarín.

Se a premissa da discriminação é o medo do diferente, o conhecimento é a ferramenta mais contundente para desmontar esse temor, muitas vezes baseado na ignorância. A escola parece ser o melhor lugar para contrapor os preconceitos que as crianças podem trazer de suas casas. “É fundamental incorporar esses assuntos desde a primeira infância e trabalhar com as famílias, já que muitas vezes são os adultos do ambiente familiar de cada criança que vão inculcando o ódio e a estigmatização em relação àqueles que são percebidos como diferentes”, afirmou Valenzuela.

Os especialistas concordam que essa tarefa é central e deve fazer parte de todo o trabalho escolar. “A discriminação não se previne com aulas especiais referidas ao assunto, mas com um trabalho diário coordenado entre professores, autoridades e famílias”, diz Zysman.

“Ao fomentar a tolerância, a educação gera valores, atitudes e normas que melhoram a confiança interpessoal e o compromisso cívico, que são os pilares da democracia”, diz o relatório. O estudo afirma que cada ano de escolarização aumenta a probabilidade de os alunos confiarem nas pessoas. Uma sociedade mais educada terá melhores níveis de convivência e, assim, poderá construir uma democracia mais forte.

(Texto originalmente publicado no site do Clarín em português)

Fonte: Uol

‘Não gosto de moralizar’, diz autor de ‘Diário de um Banana’

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Ilustração do livro "Diário de um Banana" / Reprodução

Ilustração do livro “Diário de um Banana” / Reprodução

Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Numa história de “Diário de um Banana”, o garoto Greg Heffley se compadece de um colega que maltrata os mais fracos na escola. Em tempos de discurso antibullying, o valentão se sente acuado.

Essa é só uma das abordagens irônicas do americano Jeff Kinney, que credita o sucesso da série à ausência de um tom moralizante. “As crianças sabem ser sofisticadas se dermos crédito a elas.” Leia trechos da entrevista do autor.

*

Folha – Você criou “Diário de um Banana” pensando em leitores adultos. O que mudou ao descobrir que o público era prioritariamente infantil?
Jeff Kinney – Eu me sinto mais responsável. Mudei um pouco o tom, sabendo que posso influenciar crianças.

Por exemplo, quando tinha 12 ou 13 anos, eu assistia a filmes adultos sem meus pais saberem. Queria reproduzir isso com o Greg, mas achei melhor não arriscar.

Mas a série continua fora do padrão de livros infantis, não?
Meus livros são meio niilistas. Não gosto de moralizar. Quero que os leitores tirem suas próprias conclusões. Crianças sabem ser sofisticadas se dermos crédito a elas.

Elas percebem quando tentam forçar a moral. Por isso dão um salto grande quando param de ver programas como “Barney e Seus Amigos”. O “Diário” funciona porque as crianças não notam o adulto por trás do personagem.

Personagens perdedores têm estado em alta nos últimos anos, com filmes como “Superbad” e séries como “The Big Bang Theory”. O “Diário” se encaixa nesse cenário?
Acho que sim. Não que eu tenha sentado para escrever sobre bullying, mas escrevo sobre um perdedor. As crianças podem tirar uma mensagem de aceitação, de que não é preciso ser bravo ou forte para estrelar a história.

Mas trato o bullying com um toque delicado. Na verdade, até tiro sarro dessa forte mensagem antibullying.

Se não forem supervisionadas, crianças podem ser cruéis. Muita gente criticou Charles Schulz [criador do Snoopy] porque as crianças das tiras dele eram más. Ele dizia: ‘Mas crianças são más’. Vejo isso o tempo todo. Elas magoam umas às outras de um modo como adultos em geral não fazem.

Como se lembra com tanta riqueza de detalhes as impressões de um pré-adolescente?
Sempre me surpreendo com gente que não consegue se lembrar de sua infância, e descobri que muita gente de fato não guarda detalhes desse tempo. Foi divertido mergulhar em lembranças. Passei quatro anos só escrevendo tudo o que podia recordar da minha infância.

Não foi meio deprimente?
Sim [risos]. Greg vive uma fase estranha. Treinei a pensar como criança de novo, aquela idade narcisística em que elas não pensam nas consequências de suas atitudes e nas pessoas ao redor. Uma coisa boa de crescer é não precisa mais lidar com isso.

O escritor Jeff Kinney, autor do fenômeno infantojuvenil "Diário de um Banana", no hotel da zona sul de São Paulo (Rodrigo Capote/Folhapress)

O escritor Jeff Kinney, autor do fenômeno infantojuvenil “Diário de um Banana”, no hotel da zona sul de São Paulo (Rodrigo Capote/Folhapress)

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