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O resgate épico de 377.491 livros que estavam nas mãos de jihadistas

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 Uma pessoa lê alguns dos 377.000 manuscritos que estão sendo restaurados e digitalizados, em Bamako (Mali). José Naranjo

Uma pessoa lê alguns dos 377.000 manuscritos que estão sendo restaurados e digitalizados, em Bamako (Mali). José Naranjo

Uma ONG está catalogando, restaurando e digitalizando manuscritos em árabe e línguas africanas que foram resgatados das garras jihadistas no norte de Mali

José Naranjo, no El País

A leitura e digitalização, pela primeira vez na história, das centenas de milhares de manuscritos antigos resgatados da cidade de Timbuktu durante a ocupação jihadista do norte de Mali em 2012 já estão dando seus primeiros frutos. Os historiadores e especialistas já sabiam da existência de manuscritos aljamiados, ou seja, escritos em línguas africanas, mas com caracteres árabes. Os papéis de Timbuktu, entretanto, revelam que a importância desses nas sociedades pré-coloniais da África Ocidental é superior ao que se supunha no início, já que estão aparecendo milhares de livros escritos em tamashek, wolof, soninke, bambara e songhay. A difundida e errônea ideia de que as línguas africanas eram somente orais continua indo pelos ares.

Em uma discreta casa de dois andares situada em uma afastada e tranquila rua de terra cheia de pedras e buracos do bairro de Baco Djikoroni, em Bamako, 80 funcionários da ONG Savama realizam uma titânica tarefa: a catalogação, restauração, leitura e digitalização dos 377.491 livros manuscritos procedentes, em sua imensa maioria, de Timbuktu e que datam dos séculos XIII ao XX. Tudo começou em 2012, com a ocupação jihadista do norte do país e a gigantesca operação de resgate e salvamento de todos esses papéis, que saíram camuflados em canoas, veículos particulares e ônibus durante meses.

O principal responsável por aquela operação é a mesma pessoa que hoje custodia os manuscritos e coordena os trabalhos de restauração, leitura e digitalização que começaram em 2013, o proprietário de uma das bibliotecas particulares da cidade, Abdelkader Haïdara. Sentado em seu escritório do segundo andar da sede da Savama, afirma com um sorriso: “Já catalogamos mais de 60% e digitalizamos um quarto do total. Isso nos deu a oportunidade de lê-los e ter muitas surpresas. A cada dia descobrimos coisas que não sabíamos que existiam, vemos autores e textos novos”.

Praticamente todos os manuscritos estão escritos em árabe, a língua culta dominante no norte da África desde o começo de sua islamização no século VIII, mas uma das surpresas foi que pelo menos 5%, o que pode representar por volta de 15.000 livros, está escrito com caracteres árabes, mas em diferentes línguas africanas. “Já sabíamos de sua existência, mas está chamando a nossa atenção o volume, a presença de uma grande quantidade de manuscritos em idiomas como o pulaar, bambara, songhay, tamashek, soninke, bobo, hassania, bozo, hausa e wolof. Vimos também alguns em línguas que não pudemos decifrar e que talvez já estejam mortas. É uma nova escola para todos”.

Entre esses livros, que vão de poucas folhas até mais de mil, existem poemas, cartas, tratados de teologia, crônicas históricas, registros de doenças e até relatórios de guerra. “Encontramos manuscritos redigidos por comandantes militares aos seus generais escritos em línguas africanas. Pensamos que dessa forma pretendiam ocultar a informação do inimigo se o documento caísse em suas mãos”, diz Haïdara. Surgem mais exemplos na poesia. “Em árabe existem palavras muito complicadas para alguém que tenha um conhecimento superficial do idioma, por isso muitos poetas as traduziam a sua língua local e as colocavam em sua obra”, explica.

Mas como aconteceu com as línguas românicas, entre elas o espanhol, foi no âmbito religioso que os idiomas africanos surgiram com força. “Existe uma obra teológica que explica o Alcorão escrita em pulaar com caracteres árabes. Dessa forma era possível aproximar o conhecimento do Islã a fiéis capazes de decifrar o alfabeto, mas que não estavam necessariamente familiarizados com o vocabulário árabe, que naqueles séculos era um símbolo de distinção próprio e exclusivo dos intelectuais e de certas elites”, explica Haïdara.

O responsável pela Biblioteca Andalusí (referência à Espanha muçulmana) de Timbuktu, conhecida como Fundo Kati, Ismael Dadié, explica que já nos anos oitenta, após a criação do centro de pesquisa Ahmed Baba na mencionada cidade, foi revelada a presença dos manuscritos aljamiados. “O problema é que para saber a dimensão dos mesmos é preciso fazer um levantamento da coleção de todas as bibliotecas”, afirma. Isso é justamente o que a ONG Savama está fazendo em Bamako graças ao apoio da Unesco, da Fundação Ford e da cooperação suíça e alemã, entre outros.

A oportunidade que a catalogação dos manuscritos representa não passou desapercebida para historiadores e pesquisadores. “Existe uma enorme demanda de consultas, estudiosos de Mali, mas também de países árabes que querem acessar os fundos”, afirma Haïdara, que em agosto organizou um seminário com proprietários de bibliotecas de vários países para definir códigos de conduta e boas práticas entre os usuários. “Queremos abrir os manuscritos ao mundo, mas é um material muito frágil e queremos fazê-lo da melhor maneira. Existem pessoas que não sabem como manejá-los e os proprietários têm medo de que se percam e estraguem. A digitalização é fundamental”, acrescenta.

Ataque amplia polêmica sobre livro que retrata França islamizada em 2022

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Um novo livro retratando uma França que, no futuro, vive totalmente sob leis islâmicas chegou nesta quarta-feira às livrarias ─ justamente no dia do ataque à revista satírica francesa Charlie Hebdo, em Paris. Testemunhas afirmam que os atiradores gritaram palavras em árabe, levantando suspeitas de que seriam extremistas islâmicos.

Romance de Michel Houellebecq chegou às livrarias nesta quarta-feira e foi tema da última edição do 'Charlie Hebdo'

Romance de Michel Houellebecq chegou às livrarias nesta quarta-feira e foi tema da última edição do ‘Charlie Hebdo’

Publicado por BBC

Apesar de não haver nenhum indício de que o atentado estaria relacionado à novela “Soumission” (Submissão), do premiado e provocativo autor francês Michel Houellebecq, o crime pode dar publicidade ao livro e incentivar ainda mais as vendas.

Em sua edição mais recente, a Charlie Hebdo traz justamente Houellebecq e seu livro em sua capa. Nas páginas internas da revista, há também outro elemento que vem sendo chamado de “premonitório”, uma charge com um jihadista ao lado da frase “A França segue sem atentados”. O cartum foi feito por Charb, um dos 12 mortos no atentado desta quarta-feira.

O romance “Soumission” tem causado polêmica ao retratar o país como uma sociedade islâmica onde universidades são forçadas a ensinar o Corão, o livro sagrado do islamismo, mulheres usam o véu e a poligamia é permitida.

Segundo a obra de ficção, no ano de 2022, a França segue em seu lento colapso e o líder de um partido muçulmano assume como novo presidente do país.

Mulheres são incentivadas a deixar seus trabalhos e o desemprego cai. O crime evapora. Véus se transformam na nova regra e a poligamia é autorizada. As universidades são forçadas a ensinar o Corão.

Críticos de Houellebecq dizem que seu livro inflama a islamofobia e dá credibilidade intelectual a autores considerados "neo-reacionários"

Críticos de Houellebecq dizem que seu livro inflama a islamofobia e dá credibilidade intelectual a autores considerados “neo-reacionários”

Inativa e decadente, a população volta a seus instintos colaborativos. E aceita a nova França islâmica.
Mesmo antes de seu lançamento, o livro já vinha provocando debates e levantando questões como se o livro seria uma peça favorável ao temor anti-Islã disfarçado de literatura ou se o livro ajuda a extrema-direita.

Ou, pelo contrário, estaria Houellebecq simplesmente fazendo o trabalho de um artista: segurando um espelho para o mundo, talvez exagerando, mas honestamente dizendo as verdades mais profundas?
O tema é ainda mais intenso porque o Islã e identidade já estão no centro de um debate nacional feroz na França.

Grande sucesso

No ano passado, a Frente Nacional ─ anti-imigração ─ conquistou um avanço extraordinário ao vencer uma eleição nacional ─ para o Parlamento Europeu ─ pela primeira vez.

A líder do partido Marine Le Pen é uma das apostas para as eleições presidenciais de 2017. E em Soumission, é para evitar que ela seja reeleita que outros partidos apoiam o carismático Mohammed Ben Abbes.

Críticos de Houellebecq dizem que seus livros emprestam uma credibilidade intelectual para autores considerados “neo-reacionários”.

Para Laurent Joffrin, do jornal de esquerda Libération, Houellebecq acaba favorecendo Marine Le Pen.

“Intencionalmente ou não, o livro tem uma clara ressonância política”, disse. “Uma vez que o furor da mídia arrefecer, o livro será visto como um momento-chave na história das ideias ─ quando a tese da extrema direita entrou, ou reentrou, na literatura.”

Outros críticos foram além. “Esse livro me deixa enojado… me sinto insultado. O ano começa com a islamofobia disseminada na obra de um grande novelista francês”, disse o apresentador de TV Ali Baddou.

Por outro lado, defensores de Houellebecq dizem que ele trata de assuntos que as elites ligadas à esquerda fingem que “não existe”.

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