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Semelhanças entre a arte de escrever e a espionagem

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A espionagem foi uma fonte de inspiração para os romances de Graham Greene (Foto: Wikimedia)

A espionagem foi uma fonte de inspiração para os romances de Graham Greene (Foto: Wikimedia)

 

Paralelos entre a arte de escrever e a espionagem estimularam muitos escritores a trabalhar em agências de inteligência

Publicado no Opinião e Notícia

Graham Greene iniciou sua carreira como jornalista e, em seguida, se dedicou à literatura. Já com livros publicados o MI6, a agência de inteligência britânica, o recrutou em 1941. Suas viagens a lugares exóticos em busca de material de pesquisa para os livros como Libéria, México, Haiti, Cuba e Vietnã, mostraram como a escolha de Greene fora valiosa como informante do serviço secreto. Além disso, a espionagem foi uma fonte de inspiração para seus romances.

Greene, que morreu há 25 anos em 3 de abril, não foi o primeiro escritor que se envolveu com a espionagem. Quando a Universidade de Cambridge hesitou em dar o diploma de graduação ao poeta e dramaturgo inglês Christopher Marlowe em razão de suas ausências frequentes, o Privy Council da rainha Elizabeth I explicou que suas ausências justificavam-se pelo fato de trabalhar “em benefício do país”. Especula-se que Marlowe tenha sido recrutado como espião por Sir Francis Walsingham, o chefe do serviço secreto da rainha. Ele morreu em circunstâncias misteriosas aos 29 anos, apunhalado durante uma briga em uma taverna onde estava na companhia de outros conhecidos de Walsingham.

As carreiras de Ian Fleming e John Le Carré no serviço secreto britânico são bem conhecidas, mas outras pessoas menos óbvias também foram recrutadas por agências de inteligência. O escritor Roald Dahl foi espião em Washington a serviço do MI6. O escritor americano Peter Matthiessen ingressou na CIA após se formar em Yale. Matthiessen foi um dos fundadores da prestigiosa revista literária The Paris Review, um dos artifícios que usava como disfarce para seu trabalho de espionagem: “Eu precisava encobrir minhas atividades desprezíveis, sendo que a pior delas era a tarefa desagradável de vigiar o que alguns americanos estavam fazendo em Paris. Oficialmente, eu era um escritor que tinha publicado o primeiro livro.”

Ernest Hemingway tinha contatos com agências de inteligência americanas, assim como com o serviço secreto NKVD da União Soviética, o antecessor da KGB. Hemingway montou uma rede de informantes com um grupo da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. E em Cuba costumava patrulhar o litoral à procura de submarinos alemães. Ele não teve sucesso em sua busca, mas se divertiu com a perseguição. Não é tão surpreendente como se poderia imaginar que tantos escritores tenham trabalhado em agências de inteligência. Os escritores criam tramas e os espiões encarregam-se de descobri-las. Em certo sentido, todos os escritores agem como espiões, observando as pessoas ao redor deles e estudando as diferentes personalidades e características furtivamente, com o objetivo de criar as histórias de seus livros.

Por que escrever?

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A arte de escrever é tão intrínseca à essência humana que é quase possível afirmarmos que ela é mais uma descoberta do que propriamente uma invenção. Com o desenvolvimento das civilizações ao longo de milênios, cada vez mais a escrita se estabeleceu como uma importante forma de expressão e de estilo, tornando seu valor incontestável. Tendo isso em mente, a pergunta que surge é: Por que escrever?

Gustavo Galli, no Obvious

É o ano de 2015. Segunda década do terceiro milênio. Vivemos nos dias atuais com a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa, e, consequentemente, que nossas vidas são cada vez menos aproveitadas. Em meio a toda essa correria cotidiana que envolve a maioria das pessoas nas sociedades do mundo, surge em minha cabeça uma tímida e silenciosa questão: Por que escrever?

Particularmente, acredito que a escrita é, depois da música, a maior invenção que a humanidade já teve o privilégio de conceber. Digo isso porque, para mim, a música na verdade foi descoberta. É impossível que mesmo os povos mais sábios de outrora tenham conseguido criar e desenvolver algo tão maravilhoso e inexplicável como a música. Nós apenas a descobrimos e a aprimoramos. Não a inventamos – mesmo que “música” signifique “a arte das musas”.

Mas afinal de contas, quais as similaridades entre a escrita e a música? Ambas têm a mesma origem: a necessidade humana de se expressar. Qualquer mente que não seja medíocre e irracional – como muitas que encontramos facilmente em qualquer lugar – tem a inerente vontade de exprimir o que se passa dentro dela. Seja através de um texto, de uma composição musical, de um ensaio filosófico, de uma pintura, de uma escultura ou qualquer outra forma de expressão. Escrever, assim como pintar ou tocar um instrumento, é uma arte.

O mais fascinante em relação a esse tipo de comunicação é a atemporalidade que ela possui. A escrita e a leitura são independentes. Sente-se no sofá e comece a ler A Divina Comédia (Dante Alighieri), publicada originalmente em 1555. Depois, feche o livro e leia Assim falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche), publicado em 1883. A seguir, pegue o jornal de ontem e dê uma lida. Não há limitações cronológicas. As obras estão lá e estarão sempre lá ao seu dispor, com suas palavras perpetuadas, à espera de serem lidas. Outro ponto interessante (e o mais forte) é a conexão que existe entre as duas mentes (escritor-leitor). Schopenhauer já dizia que ler é “pensar com a cabeça de outra pessoa”, mas, afinal, isso é tão ruim? Independentemente do que está sendo lido, o leitor tem a experiência de ouvir o que uma mente pensante quis declarar. O que o autor quis expressar? Quais sentimentos ou pensamentos ou ideias ele achou digno de transferir e propagar para outras mentes? Some isso ao fato da atemporalidade e pronto: eis a maior invenção humana.

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No entanto, questiono agora a qualidade do que se tem escrito ultimamente. A decadência da literatura é notável e assustadora. Antigamente tínhamos mentes pensantes que estruturavam todo o pensamento que queriam propagar para, só então, passar para o papel. Hoje em dia mal temos o papel. Muitas pessoas sequer têm o interesse em publicar um livro. Uma parcela do mundo não quer se expressar, e a outra parcela não sabe. É insultante que tenhamos que ler o que quer que seja que não tenha tido uma preparação prévia. Vemos esses pseudo-escritores borbulhando com a vontade de exprimir o que suas mentes vazias cozinham e permanecemos carentes com conteúdo de qualidade. São como macacos diante de canetas e teclados. Se empertigam em suas cadeiras com ares de imponência, mas por trás de seus olhos frios não há nada senão crianças desordeiras que se divertem em tentar passar algo que nem eles mesmo entendem. Desrespeito e prepotência para com seus leitores. É necessário entender que palavras difíceis e frases mal construídas indicam, para os olhos de quem sabe o que está falando, o péssimo nível cognitivo e até mesmo espiritual desses chimpanzés de óculos.

Todavia, até mesmo nessa doença que existe em algumas pessoas tentarem transmitir conhecimentos e pensamentos que na verdade não possuem (camuflados em textos complexos e desconexos) há uma beleza evidente na literatura por si só. A liberdade que se tem ao escrever é fantástica. Todos podem escrever (mesmo que uns sejam desrespeitosos e quase iletrados) e tentar tornar tangível o que se emaranha nos fios do pensamento. Enquanto torço para que a parcela que não quer escrever comece a escrever, torço para os que tentam escrever aprendam a escrever.

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