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A Poesia Marginal: 10 belos poemas da “Geração Mimeógrafo”

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Diego Santos, no Literatortura

Durante a dura repressão do regime militar brasileiro, muitos artistas tiveram que encontrar meios alternativos para manifestar sua arte ou seus protestos.

Entre tantos artistas, os poetas tiveram um grande destaque a partir do que se chamou “Geração Mimeógrafo”. Como as obras de tais artistas não eram aceitas por grandes editoras ou eram censuradas por órgãos repressivos, eles acabaram aderindo ao mimeógrafo, que era uma tecnologia mais acessível na época.

O mimeógrafo é aquela máquina que faz cópias de papel escrito em grande escala e utiliza na reprodução um tipo de papel estêncil e álcool.

Desta forma, os poetas divulgavam e vendiam seus trabalhos a preços baixíssimos em universidades, praças e ruas.

No ano de 1975, a editora Brasiliense publicou um livro intitulado “26 Poetas Hoje”, divulgando obras e nomes à margem do circuito editorial estabelecido. Esta arte foi chamada de Poesia Marginal e reuniu grandes nomes, até hoje muito estudados!

Nesta lista, você conhecerá 10 poemas e poetas que marcaram toda essa geração e esta história de resistência à ditadura.

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RÁPIDO E RASTEIRO
Chacal

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

JOGOS FLORAIS
Cacaso

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

COGITO
Torquato neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

UMA NOITE
Afonso Henriques Neto

o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.

RECEITA
Nicolas Behr

Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

TIRA-TEIMA
Bernardo Vilhena

Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira

Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca

Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande

Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo

Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha

Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?

MUITO OBRIGADO
Francisco Alvim

Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser

SONETO
Ana Cristina César

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

AMOR BASTANTE
Paulo Leminski

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro

minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

‘Dar aula é como encher uma laje por dia’, diz professora da periferia de SP

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Everly Gonçalves foi bancária e leciona há 11 anos no ABC Paulista.
‘Queria trabalhar com gente, não com número ou metas’, afirma ela.

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Vanessa Fajardo, no G1

Na aula de artes da professora Everly Hortolan Gonçalves, de 45 anos, todo mundo tem de participar das atividades – e fazer as provas. “Tem aluno que fala: nunca vi prova em artes. Eu digo: está vendo agora.” Formada em artes e em pedagogia, Everly leciona há 11 anos na escola estadual Palmira Grassiotto Ferreira da Silva, em São Bernardo do Campo (SP). Foi aprovada em dois concursos públicos e acumula dois cargos de professora, no período da manhã e da tarde, para alunos do segundo ciclo do ensino fundamental e do médio. É conhecida por promover eventos como o show de talentos na escola, em que até os estudantes mais tímidos mostram seus dotes artísticos.

A escola está no Parque São Bernardo, rodeada por uma região carente do ABC, e por inúmeras vezes foi roubada, pichada e depredada. Por volta de três anos, quando ainda não era cercada por muro de concreto, a quadra de esportes era sempre invadida impedindo que os alunos tivessem aula de educação física. Não consegue atingir as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). A história da Palmira Grassiotto também ficou marcada pela morte de um professor em 2011. Ele foi atingido por um molho de chaves na cabeça jogado por um aluno e morreu dias depois por causa de um coágulo no cérebro – não se sabe se em decorrência do ato do aluno.

Nada disso, porém, abalou Everly na escolha em ficar na Palmira. “Apesar de estar em uma comunidade carente, aluno é igual em toda a escola. Em artes eu tenho a vantagem de trabalhar com outras linguagens, como música e teatro, e consigo trazer os alunos para perto de mim.” Leia a seguir mais uma das entrevistas do especial do G1 sobre o Dia do Professor.

G1 – Por que decidiu lecionar?
Everly Hortolan Gonçalves – Sempre gostei de dar aulas, mas era bancária, não ganhava mal, tinha filhos pequenos, só depois de um tempo fui fazer o que gosto. Acho que professor nasce professor. Fui bancária por oito anos, sempre procurei fazer bem meu trabalho, mas me faltava algo. Queria trabalhar com gente, não com número ou metas.

G1 – Já foi vítima de agressão, violência ou ofensa na sala de aula?
Everly Hortolan Gonçalves – Não, nunca. A gente sempre ouve relatos, mas eu mesma nunca passei por nada disso. Acho que o professor não pode ser o dono do saber, quando o aluno percebe que estamos aqui para aprender também, além de ensinar, eles se abrem e é possível entender o problema deles. Sabendo respeitar o aluno, ele vai te respeitar. Trabalhei em escolas de outros bairros, aluno é aluno em toda escola, o que muda é o grupo de professores, o gestor.

G1 – Em algum momento pensou em desistir?
Everly Hortolan Gonçalves – Me sinto completa como professora, apesar das dificuldades. Dar aula é como encher [fazer] uma laje por dia, a gente chega em casa moída, mas desistir jamais. Esta é a profissão mais gratificante que existe porque você pode fazer a diferença na vida dos alunos. Tive de passar em dois concursos para acumular dois cargos, mas aprendemos a não trabalhar pelo salário. Saí do banco para ganhar metade do que ganhava e trabalhar mais.

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G1 – Sabemos das dificuldades como salário baixo, falta de estrutura, etc. O que a motiva na profissão?
Everly Hortolan Gonçalves – O desenvolvimento dos alunos. Eles chegam sem saber usar uma régua, com vocabulário pequeno. Hoje falam da materialidade da arte, sabem das características dos movimentos artísticos. Os alunos da comunidade que atendemos não têm família estruturada, muitas vezes a gente tem de ser mãe, psicóloga, fazer um trabalho individualizado. E a gente se afeiçoa, principalmente aos menores. Eles contam coisas para mim que não contam nem para os pais. Às vezes o aluno não conhece a mãe, o pai está preso, há problema de uso de álcool na família. Temos de saber a realidade de cada um. Se é possível? A gente tenta. Em uma escola da rede particular, por exemplo, seria mais fácil, mas gosto de desafio. Professores têm de gostar de desafio.

G1 – Vale a pena ser professor?
Everly Hortolan Gonçalves – Sim, acho que é um dom. A pessoa que nasce professor não desiste. Não me vejo fazendo outra coisa. Ter contato com criança é o que eu gosto de fazer. E me sinto muito realizada quando encontro ex-alunos que falam que resolveram estudar arquitetura, design e se lembram das minhas aulas.

Artista cria retratos realistas de pessoas e animais em pilhas de livros usados

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Publicado por Hypeness

Enquanto que muitos ilustradores colocam suas artes dentro de livros, Mike Stilkey prefere usá-los como tela. Chamadas por ele de “esculturas de livros”, as peças são formadas por diversos livros usados, que foram resgatados dos lixos de bibliotecas – por estarem velhos, duplicados ou desatualizados. Ao unir essas peças, ele tem a seu dispor uma bela tela, a qual preenche com sua arte.

Mike Stilkey cria belíssimos retratos de pessoas e animais antropomórficos, que tocam instrumentos musicais e se vestem com roupas “de gente”. As lombadas dos livros, com suas diferentes cores e inscrições, funcionam como um fundo perfeito para a pintura.

Veja o resultado logo abaixo:

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Todas as fotos © Mike Stilkey

Contos de Monteiro Lobato voltam em volume único

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Material inclui trechos de críticas de Lima Barreto, Oswald de Andrade e Câmara Cascudo

Ubiratan Brasil, no Estadão

Reprodução Contos chegaram a empolgar escritores como Lima Barreto

Reprodução
Contos chegaram a empolgar escritores como Lima Barreto

“Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são” – a frase imortalizada por Mario de Andrade em Macunaíma poderia muito bem ter sido escrita por Monteiro Lobato (1882-1948). Basta conferir o tom de seus textos curtos, reunidos agora pela primeira vez em um único volume, para se ter a dimensão de sua visão realista em um momento do Brasil (início do século passado, a chamada Primeira República) em que a pobreza era dominante porque a maior parte da população parecia imersa no atraso.

Contos Completos, que a Biblioteca Azul (selo da editora Globo) lança nesta semana, reúne os quatro livros de contos que Lobato publicou em vida: Urupês, em 1918, Cidades Mortas (1920), Negrinha (1922) e O Macaco Se Fez Homem (1923). São textos em que ele comprova não ter se influenciado pelo clima de reforma que marcava os autores do Rio de Janeiro, tampouco se entusiasmado pelas ilusões da Semana de Arte Moderna de 1922, que encantou a jovem burguesia paulistana.

“A contundência com que constrói a imagem do País, as imagens que apresenta da gente que o habita, as situações e os conflitos de seus personagens não só provocaram recepção favorável imediata como permanecem importantes no quadro da cultura brasileira, sobretudo pela forma com que Lobato, nestes textos, dá à realidade que quer mostrar, a da ficção”, observa Beatriz Rezende, professora da Faculdade de Letras da UFRJ e autora do prefácio da edição. Para ela, as narrativas do escritor paulista não eram para entreter, mas para provocar.

Personalidade de múltiplas facetas, movido por sonhos e utopias, Monteiro Lobato era um homem que tomava partido sobre todos os assuntos polêmicos de sua época, defendendo suas posições em cartas e artigos que publicava na imprensa, sobretudo no Estado. E sua paleta de opiniões variava na composição, da defesa da manutenção do petróleo brasileiro a críticas de arte, cuja contundência o credenciava como um dos mais respeitados observadores de artes plásticas da época.

No prefácio que escreveu para Contos Completos, a professora Beatriz Rezende atenta para a importância pictórica também em sua escrita. Citando uma passagem da obra Um Jeca nos Vernissages (Edusp), de Tadeu Chiarelli, ela observa que é possível identificar “os princípios da estética de Lobato, princípios estes que se estendem das artes visuais à literatura, na intenção de formalizar um programa naturalista-nacionalista para a arte brasileira”.

O ponto de partida dessa análise é considerar em Lobato uma fidelidade à verdade como base da crítica naturalista. “O naturalismo nacionalista em artes visuais queria ser uma tentativa de superação do atraso e da dependência do País, nesta área, em relação às nações europeias”, observa Chiarelli. “A arte moderna de Lobato era a arte naturalista, preocupada com a captação do ambiente, um comentário pictórico do dia a dia.”

Assim, não é de se espantar que seus contos tragam descrições que, muitas vezes, correspondem a verdadeiras pinceladas. Os Faroleiros, por exemplo, o primeiro texto de Urupês – tem-se a impressão, segundo Beatriz Rezende, de se estar diante de uma das inúmeras “marítimas” que os artistas pintavam na transição do século 19 para o 20: o mar e um farol distante com sua luz.

Escreve Lobato: “Cessam os olhos de rever as imagens que desde a meninice lhe são habituais. Para os ouvidos só há ali, dia e noite, ano e ano, o marulho das ondas às chicotadas no enroscamento da torre; e para a vista, a eterna massa que ondula, ora torva, ora azul. Variantes únicas, as velas que passam de largo, donairosas como graças, ou os transatlânticos penachados de fumo”.

A julgar pelas suas opções descritivas, é fácil concluir que Lobato tinha grande identificação (e admiração) pelas pinturas de Almeida Júnior e seus quadros do “verdadeiro” homem brasileiro – nasce aí a famosa figura do Jeca Tatu, que Lobato primeiro vai hostilizar, por sua completa falta de iniciativa, para depois valorizar como perfeito representante da cidadania nacional.

São dos pobres que Lobato mais e melhor trata em seus textos curtos. “No universo de sua ficção, como no País dos anos 1920, não há dinheiro, há poucos empregos conseguidos sempre pela estrutura do favor, não há possibilidade de ascensão social”, comenta Beatriz Rezende. “Ao escritor, também fazendeiro e editor, não interessam os personagens elegantes da sociedade emergente, que se moviam entre as metrópoles europeias e nossas capitais, assim como também não vê o País com as lentes frequentes do ufanismo. Sua estética como sua ética, se ocupa do que falta ao País e a seus habitantes e não com as ilusões da modernidade, com suas ‘baratinhas’, melindrosas e almofadinhas, viagens a Paris e outros luxos partilhados por poucos.”

Diante dessa situação precária, a estética naturalista-nacionalista se encaixa como uma luva. Irritado com as queimadas, estúpida solução adotada por cultivadores para preparar a terra para novo plantio, Lobato, também agricultor, fez pesadas críticas na imprensa, na qual ainda apresentou um retrato desolador das decadentes cidades do interior de São Paulo, quebradas pelas mudanças de rumo da produção agrícola, sobretudo o café.

E a crítica logo se estendeu para a ficção – no conto Cidades Mortas, do livro do mesmo nome, Lobato é implacável ao retratar o Vale do Paraíba: “Ali, tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. Beatriz Rezende destaca também Café! Café!, conto em que um fazendeiro contrário à República, que julga culpada de todos os problemas, aposta na monocultura do café: “A fazenda era uma desolação; a penúria extrema; os agregados andavam esfomeados, as roupas em trapo, imundos, mas a trabalhar ainda”.

“Nem mesmo a emigrante alemã do caso dos quatrocentos mil-réis narrado em Dona Expedita (de Negrinha) está livre das dificuldades em conseguir garantir a sobrevivência, no sonho de um emprego doméstico por quatrocentos mil-réis, disputado com dona Expedita, senhora da pequena burguesia empobrecida que anunciava em jornal seus préstimos de ‘tomadeira de conta’ ou dama de companhia, ‘graus levemente superiores à crua profissão normal de criada comum’”, completa a pesquisadora.

São tipos variados, mas nenhum conseguiu tanta notoriedade como Jeca Tatu, personagem surgido nos dois últimos contos de Urupês: Velha Praga e Urupês, ambos de 1914. No primeiro, o caboclo é apresentado como uma “espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças”. Refratário aos movimentos do progresso, vive “encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se”.

Já no conto Urupês, ele surpreende ao deixar momentaneamente aquela posição habitual, de cócoras diante do fogo, para votar no Governo, mesmo sem ter a noção de que são aqueles políticos os responsáveis por sua situação deplorável. “É sobretudo a denúncia da submissão do Jeca aos interesses do Governo que em recompensa o despreza, junto à convicção de que a falta de saneamento básico é a causa de sua ‘lombeira’, que irá transformar o Jeca Tatu em personagem símbolo da identidade nacional que Monteiro Lobato estava interessado em construir”, nota Beatriz.

Curiosamente, tempos depois, quando o Jeca já se transformara em símbolo nacional (uma citação do caboclo feita por Rui Barbosa, então candidato à presidência da República, fez as vendas do Urupês dispararem), Lobato mudou sua visão e, em carta ao amigo Godofredo Rangel, em 1917, declara-se: “Virei a casaca. Estou convencido de que Jeca Tatu é a única coisa que presta neste país”.

A posição de Monteiro Lobato provocava reações distintas entre outros escritores. Os modernistas, em um primeiro momento, execraram seus textos, nítida reação às interpretações negativas que o escritor, como crítico de arte, fizera à pintura de Anita Malfatti, no célebre artigo publicado no Estado em 1917, A Propósito da Exposição Malfatti (Paranoia ou Mistificação?).

Lobato era até rejeitado como modernista, ainda que sua filosofia nacionalista se adequasse perfeitamente à daqueles escritores. É Oswald de Andrade, em carta enviada 25 anos depois a Lobato, quem faz o principal ‘mea-culpa’: “Esqueçamos a estética e a Semana de Arte e estendamos as mãos à sua oportuna e sagrada xenofobia”.

Em época anterior, também Lima Barreto interessou-se pela escrita de Lobato, especialmente ao destacar as qualidades visuais da estética naturalista-nacionalista do texto. “A sua roça, as suas paisagens não são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela”, escreveu ele, em carta que consta na bem fornida Fortuna Crítica, que marca o final do volume.

CARTA DE OSWALD DE ANDRADE
O Jeca, você sabe melhor que ninguém, tem sobre o seu Cáucaso oleoso a pata gigantesca e astuta dos interesses… equívocos. Dão-lhe armas, mas negam-lhe os mananciais do sangue que movimenta as máquinas, ergue os aviões e equipa as cavalarias mecanizadas. Ele bem que é ajudado por uma ala simpática da América do Norte, à frente da qual está o cowboy Roosevelt e o camarada Wallace. Mas isso não basta. Lá mesmo, no solo dessa América medíocre e insípida que você conheceu, trava-se a luta entre os pioneiros do mundo melhor e o capitalismo de vistas curtas e unhas longas”

RESENHA DE LIMA BARRETO 
A sua roça, as suas paisagens não são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou …discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela. Ele começa com o pincel, pensando em todas as regras do desenho e da pintura, mas bem depressa deixa uma e outra coisa, pega a espátula, os dados e tudo o que ele viu e sentiu sai de um só jato, repentinamente, rapidamente. O seu livro é uma maravilha nesse sentido”

CRÍTICA DE CÂMARA CASCUDO (1921)
“Negrinha é o segundo tomo do Urupês. Ligam-se pelo mesmo vínculo de observação, crítica e ideias nossas, originais, sabendo… à terra, aos ares e às coisas do Brasil. Desviam-se da literatura que entulha as livrarias do Rio e São Paulo. Livrinhos bolorentos, imagens que a França nos impinge através de Calmann-Lévy, Lemerre, Vernier, de Carpentier ou o aristocrático Ferrand. Estamos nos debatendo numa turbamulta de nervosismos, simbolismos, cubismos, futurismos, aplicados às letras, cheirando a mofo e incenso – temas velhíssimos se batidos por três séculos de frivolidades parisienses”

‘Cine Holliúdy’ traz a língua e o sucesso do Ceará ao Sudeste

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Trajetória impressionante para uma produção de baixo orçamento

Flavia Guerra, no Estadão

Cine Holliúdy, o filme que ‘butou pra discatitar’. “Ou seja, ‘butou pra voá as banda’. Entendeu?”, pergunta o ator Edmilson Filho, protagonista do longa de Halder Gomes. “Vou esclarecer: é que botou para quebrar.”

Divulgação / Edmilson Filho vive dono de cinema

Divulgação / Edmilson Filho vive dono de cinema

De fato. O filme chega na sexta-feira aos cinemas do Sudeste e Centro-oeste com a marca de R$ 4,5 milhões arrecadados, público de 446 mil, e como o único a bater a bilheteria de Titanic no Ceará, mantendo a média de 2,3 mil espectadores por cópia. Trajetória impressionante para um filme de baixo orçamento (R$ 1 milhão), rodado totalmente no Nordeste, e que conta a história de um homem comum. Ou quase. A trama de Cine Holliúdy se passa nos anos 70 e narra a saga de Francisgleydisson, dono de um cinema no interior do Ceará, apaixonado pela sétima arte. Tanto que, ao ver a TV chegar à cidade, teme que o cinema seja abandonado e decide fazer o impossível para mantê-lo vivo.

Há algo de Cinema Paradiso e Amarcord do sertão em Cine Holliúdy, estrelado por atores cearenses que não são conhecidos do grande público de TV e falado em ‘cearensês’. Sim, o filme é exibido com legendas em português. “No começo, ia legendar só algumas partes. Mas o Bruno Wainer, da Downtown, a distribuidora, começou a fazer sessões no Sudeste e o pessoal não entendia muito. Ele me aconselhou a legendar tudo. Deu certo”, conta Gomes, que é cearense e sempre sonhou em trabalhar com cinema, mas antes se formou em administração de empresas, fez pós-graduação em marketing e foi dono de academias de artes marciais.

O que esse currículo tem a ver com a carreira no cinema? “Tudo. Cresci em uma cidadezinha onde não acontecia nada. A janela para o mundo era o cinema, os filmes que vinham de Hong Kong, kung fu, western. Sempre fui apaixonado por cinema e artes marciais”, explica. E a administração? “Eu já tinha a academia de artes marciais, participava de campeonatos internacionais, mas queria fazer cinema. Só não sabia como”, conta. “Vários amigos atuavam como dublê de luta em Hollywood. E foi aí que comecei a frequentar sets. Mas percebi que tinha tudo a ver com administração, pois cuidar de um filme é cuidar de uma empresa. Fazer tudo acontecer, funcionar, lidar com as pessoas. Eu já tinha isso. Faltava aprender a fazer cinema”, relembra.

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