No anos 70, na Sardenha - Foto do livro "Audrey, minha mãe"

No anos 70, na Sardenha – Foto do livro “Audrey, minha mãe”

 

Filho caçula da atriz diz que a mãe adorava ser dona de casa

Fernanda Massarotto, em O Globo

MILÃO – Audrey Hepburn não dirigia. Adorava se deitar no sofá de casa, em Roma, de calça jeans e camiseta, e comer penne com catchup. Fumava de vez em quando. Não pulava jamais o café da manhã e não perdia um capítulo da série “Casal 20”, do amigo Robert Wagner. A atriz era uma grande fã da bossa nova e passava horas escutando Astrid Gilberto, João Gilberto e Sérgio Mendes.

— Minha mãe era tudo isso. Uma pessoa normal que vivia para a família, adorava ser uma dona de casa, cozinhar e comer junk food — revela (com o sorriso de quem sabe que está surpreendendo o interlocutor) o designer gráfico Luca Dotti, filho de Audrey Hepburn com o psiquiatra italiano Andrea Dotti. Ele acaba de lançar na Europa o livro “Audrey mia madre” (Ed. Mondadori Electa), em que conta um tanto dos anos em que a atriz viveu na Itália.

Nascida na Bélgica, com pai inglês e mãe holandesa, Audrey Hepburn virou ícone de estilo graças à elegância inata (além do guarda-roupa basicamente composto por peças do amigo Hubert de Givenchy). O seu lado doméstico, porém, jamais tinha sido explorado. Sinal de um tempo passado, sem internet e smartphones e com, talvez, paparazzi menos ávidos.

Nos últimos seis anos, Luca Dotti mergulhou em lembranças, histórias e depoimentos que revelassem um pouco mais dessa mãe famosa. Conseguiu construir um retrato pessoal ilustrado por mais de 250 fotografias e 65 receitas. Sim, ele conta que Audrey adorava cozinhar e que o fazia muito bem. Não à toa, ela se adaptou facilmente à rotina de mulher romana.

— Minha mãe fazia parte dessa cidade. Como europeia, gostava de andar pelas ruas, viver o dia a dia, fazer compras e, muitas vezes, ficava sem graça quando lhe davam privilégios no açougue — conta Luca, que encara a mãe como a mulher normal que fazia as compras de casa, mas que, durante a sua infância e adolescência, precisou responder aos pais de seus amigos como era ser filho de uma diva. Para ele, Audrey era a “mamma” que o levava e buscava na escola, passava horas ao seu lado ajudando nos estudos e lhe preparava pratos deliciosos na casa no bairro de Parioli, na capital italiana.

— O sucesso era algo do qual minha mãe tinha muito orgulho. E ela sempre se dedicou muito. Levantava cedo para estudar os seus personagens e sempre chegava pontualmente no set. Ela tinha medo de não estar a altura de seus colegas — afirma Luca, que tem 45 anos e é o filho caçula de Audrey, morta em 1993, aos 63 anos.

A vida romana da atriz aconteceu 17 anos após sua estreia no filme “A princesa e o plebeu”, que curiosamente se passava em Roma e lhe rendeu um Oscar em 1953. Após a separação do primeiro marido, o ator americano Mel Ferrer, pai de Sean, seu primogênito, Audrey estava de férias em Roma quando recebeu um convite para ir à Turquia com amigos. Em menos de dois anos, já estava casada com o psiquiatra Andrea Dotti e dava à luz Luca. Foi amor à primeira vista entre o italiano e a atriz de Hollywood. “É como se um tijolo caísse na sua cabeça,” costumava dizer a estrela de “Bonequinha de luxo” para explicar a paixão entre ela e o psiquiatra. O casamento durou 13 anos.

Amor por comida e jardins

Audrey vivia as tarefas domésticas com prazer. Quando podia (e a cozinheira Giovanna lhe dava permissão), ela se aventurava na panelas. O caderno de receitas revela seu interesse não só por comida mas pelas reuniões com os amigos e a família ao redor da mesa. O cardápio incluía espaguete com molho de tomate fresco, torta de chocolate ao creme de leite, tortilha de batata e cebola, robalo assado e molho pesto com nozes e iogurte.

No caderno, junto a cada receita, ela anotava o nome da pessoa que lhe havia ensinado e a procedência. Nos inúmeros jantares oferecidos na casa de Parioli, os Dotti recebiam amigos italianos e astros de Hollywood, como a atriz Julie Andrews, o cineasta Blake Edwards, a cantora Diana Ross e os atores Roger Moore e Yul Brynner.

— Foi justamente esse caderno de receitas que me inspirou a contar um pouco de minha mãe, principalmente para meus três filhos, que não tiveram a oportunidade de conhecê-la. Além da falta que faz sua presença, o que mais me entristece é pensar que ela não conheceu os netos — emociona-se Luca, que, pessoalmente, tem o mesmo olhar encantador da mãe, de quem herdou a paixão pela boa comida e pela jardinagem.

Da Itália para a Suíça

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