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A reinvenção de Felipe Folgosi

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A reinvenção de Felipe Folgosi: de galã de novela a autor de HQ indie

Isabela Mena, no Projeto Draft

felipe folgosi

De ator da Globo nos anos 90 a autor de HQ, Felipe hackeou a própria vida para evoluir (foto: Priscila Tessarini)

No imaginário de toda uma geração, o ator Felipe Folgosi, 40, é o jovem galã global da década de 90. Em sua primeira novela, Olho no Olho, de 1993, ele tinha 19 anos e pegou logo o protagonista, Alef, um paranormal que soltava laser azul pelos olhos. Muitos anos depois (mas na mesma galáxia), Felipe está agora na plataforma de financiamento coletivo Catarse para arrecadar 36 mil reais para Aurora, um HQ sci-fi de sua autoria. O personagem da novela foi coincidência do destino: fã incondicional de Guerra nas Estrelas, Felipe é um nerd assumido desde criancinha.

Aurora conta a história de um pescador que após presenciar um fenômeno natural inédito deixa de ser apenas humano. É então perseguido por uma agência sombria do governo americano e precisa salvar sua família, descobrir o que se tornou e encontrar um propósito para o ocorrido, ou seja, responder à pergunta central da trama: o próximo salto na história da evolução humana ocorrerá por meio de um processo natural ou de uma intervenção externa?

folgosi

Aurora, história de Felipe, está sendo desenhada e colorida pelo Instituto de Quadrinhos. O projeto está no Catarse para o custeio da publicação

Concebida há dez anos como roteiro de cinema, Aurora foi adaptada por Felipe para graphic novel por sua paixão pelo estilo — entre suas leituras, desde a infância, estão Mauricio de Souza, Disney, Marvel, DC, Mad, Chiclete com Banana, Milo Manara, Moebius, Asterix e Calvin — e porque ele acredita que, no Brasil, esse é o melhor formato para que a história saia do papel. “A gente não tem tradição em cinema de ficção, os filmes daqui têm uma pegada diferente e a probabilidade de conseguir fazer seria muito pequena. Como quadrinho, já há até interesse para que Aurora vire animação”, diz o autor.

COMO TRANSFORMAR PRECONCEITO EM COMBUSTÍVEL

A parceria com o Instituto dos Quadrinhos (os desenhos e a cor são feitos pela galera de lá, que desenha para Marvel, DC etc) deu ao projeto validação no meio, que Felipe só conhecia como fã. Preconceito? Sim. A fama de ator de TV, que hoje ajuda na divulgação do projeto, já soou estranha no universo da HQ, que tem leitores bastante críticos.

“No princípio, tive que convencer a comunidade dos quadrinhos de que não era um gimmick (truque). Mas eles passaram a abraçar a causa quando viram a parceria e a qualidade dos desenhos. A receptividade e a generosidade estão me surpreendendo”

A campanha no Catarse, que começou no início de outubro, termina neste domingo. Ainda falta pouco mais de um terço para atingir a meta e Felipe têm trabalhado bastante na divulgação: participa de feiras e eventos do meio, posta nas redes sociais (não tem fanpage no Facebook mas seu Instagram tem mais de 5 mil seguidores) e vai a programas de rádio e TV. “O Catarse é uma ferramenta fantástica, que de certa forma liberta o produtor cultural da dependência de leis de incentivo e patrocínios. Além disso, envolve o público, que acaba participando ativamente do projeto. Em uma de nossas recompensas, a pessoa será desenhada e virará personagem da história “, diz ele.

Aurora é apenas um entre vários roteiros que Felipe escreveu para cinema e engavetou. Paralelamente à carreira de ator, que tem quase 25 anos – seu primeiro trabalho na TV foi aos 17 anos, na minissérie Sex Appeal, na TV Globo – ele escrevia e lia livros de roteiristas como Syd Field e Doc Comparato. Agora, decidiu que era hora de tirar os projetos da gaveta. “Pensei, ‘pô, eu tô com 40 anos, o tempo passa rápido e não adianta eu ficar produzindo e não mostrar minha produção’”, conta ele.

“Eu tinha um pouco de medo da crítica com esses meus trabalhos. Pode falar mal de mim, tudo bem, mas se falar mal dos meus projetos, que são do meu coração, vou ficar triste”

O que poucas pessoas sabem é que Felipe já foi premiado como dramaturgo. A peça Um Outro Dia, sobre um jovem viciado em drogas, ficou em primeiro lugar no Concurso Nacional de Dramaturgia de 2001 (atual Prêmio Funarte) do Ministério da Cultura. A peça não chegou a ser montada. “Foi a confirmação, pra mim mesmo, que eu poderia escrever porque às vezes eu ficava meio na dúvida”, conta. No mesmo ano, ele trancava a faculdade de cinema da Faap, na qual se formou, para se especializar em roteiro na UCLA (University of California, Los Angeles). Nos primeiros anos da faculdade, colaborou como crítico de cinema e shows para o Jornal da Tarde. Chegou a resenhar o show de Wynton Marsalis no Teatro Municipal, em 2000.

No fim deste mês ele estreia em Chiquititas, novela infantil originalmente argentina, produzida aqui pelo SBT desde o ano passado (a partir de 1987 a emissora passou a exibir a novela em sua grade, tanto em versão brasileira gravada em Buenos Aires como na versão original). Felipe já começou a gravar sua participação, de cerca de 80 capítulos e que irá até o fim da trama. “Acho ótimo fazer Chiquititas. Primeiro, porque é um case da teledramaturgia. Segundo, porque nesse tempo todo que tenho de carreira, vejo ondas de público. Essa galera nem tinha nascido na época de Olho no Olho, por exemplo, e quanto mais eu conseguir me comunicar com as pessoas, melhor.”

Olho-No-Olho

Galãzinho, com Selton Mello e Rodrigo Penna, no elenco da novela Olho do Olho

Em 1988, ao finalizar a novela Corpo Dourado, na Globo (sua terceira seguida), Felipe estreou a peça Qualquer Gato Vira-Lata tem uma Vida Sexual Mais Sadia do que a Nossa, escrita por Juca Oliveira e dirigida por Bibi Ferreira. Era uma volta às suas origens já que tinha estudado, ainda adolescente, no Teatro Escola Célia Helena, em São Paulo. No total, foram cinco anos com a peça (três antes e dois na volta dos Estados Unidos) e mais de mil apresentações. “Sempre fiz teatro entre os trabalhos da TV e essa peça foi uma escolha muito certa porque foi um sucesso, mais de um milhão de pessoas viram”, diz.

Em 2000, Felipe estreou sua primeira novela na Record mas voltou à Globo três anos depois, pela última vez (até agora), para uma novela. Desde então vêm alternando trabalhos no SBT, na Band (onde apresentou o programa Acredite Se Quiser, em 2011), e na Record – nesta última, participando de uma edição do reality show A Fazenda, em 2012 (ficou em segundo lugar) e das novelas de Tiago Santiago (Prova de Amor, Caminho do Coração e Mutantes) que mexeram com os nervos e com a audiência globais.

“Essa coisa de que há mais exposição quando você trabalha na Globo é relativa porque, mesmo lá, não é toda novela que dá certo e nem sempre seu núcleo está bombando. Você não tem muita garantia nesse sentido”

Ele prossegue, dizendo que a visibilidade da Globo gera, de fato, mais trabalhos paralelos: comerciais de TV, desfiles, presenças em eventos. “Para compensar isso as outras emissoras pagam melhor e acho que vale mais a pena ser bem remunerado no seu trabalho do que ter que complementar”, afirma.

Felipe diz que ser ator é sua atividade principal mas não vai mais deixar engavetadas suas criações de cinema, teatro, quadrinhos. Ou música. Ele escreveu a letra e acabou de produzir o clipe de Vem Brilhar, do amigo Harada.

Mas dentre todas essas áreas, em qual Felipe se realiza mais? “Não sei… Mas se você quiser saber qual é o meu sonho, é fazer um dos novos filmes do Guerra nas Estrelas”, diz rindo. “Um sonho mais realista é criar um universo meu do Guerra nas Estrelas, seja atuando, escrevendo, dirigindo… Talvez esse projeto seja Aurora“, diz.

No que depender do Catarse, faltam cinco dias para uma definição. Que a força esteja com ele.

Viúva de Cortázar e Mario Vargas Llosa relembram a amizade dos três

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Aurora Bernández e o Nobel da Literatura peruano participaram de uma mesa de discussões

Aurora Bernárdez e Mario Vargas Llosa, em homenagem a Julio Cortázar CARLOS ROSILLO / EL PÁIS

Aurora Bernárdez e Mario Vargas Llosa, em homenagem a Julio Cortázar CARLOS ROSILLO / EL PÁIS

Publicado em O Globo

MADRID – Aurora Bernárdez, com seu cabelo branco, caminhou lentamento enquanto abria um caminho de sussurros. Foi até a mesa principal, sentou-se na cadeira, arrumou o vestido branco com estampas de guarda-chuvas, sapatos e mariposas para ouvir, em silêncio, Mario Vargas Llosa falar, ao seu lado, sobre o seu marido: Julio Cortázar. Escutava tranquilamente os elogios e as lembranças. Quando o Nobel da Literatura terminou de falar, ela o olhou e, após um suspiro, disse com um sorriso:

— Gostei muito de conhecer a Aurora e o Julio do relato que fez da gente.

Os risos das 67 pessoas que estavam no salão fizeram com que ambos gargalhassem também. Assim, foi oficialmente inaugurada a partida dos dois velhos amigos que se conheceram em Paris numa noite de dezembro de 1958. Agora, 55 anos depois, evocam não apenas essa amizade, mas também a do amigo mais importante até agora – aquele homem de cabeça raspada, de grandes mãos que se moviam ao falar, e de juventude implacável, que gozava da admiração de todos os que o conheciam. Naquela noite, o veterano Vargas Llosa estava conversando com um casal, surpreso com a inteligência de ambos e a facilidade deles para expressar ideias e trocar opiniões que fascinavam a todos. Só ao se despedir percebeu que se tratavam de Cortázar e sua mulher.

Com o tempo, o escritor argentino se tornaria um dos melhores amigos e um dos mentores de Vargas Llosa. E os convites que os Cortázar lhe faziam para ir à casa deles, em verdadeiros momentos de felicidade. Revelações inéditas de uma conversa entre dois amigos que, por vezes, enquanto adolescentes, se interrompiam, impulsionados pelo entusiasmo de contar o que fizeram, o que tinham andado fazendo, que memórias seguiam intactas em suas vidas. E como dois amigos, continuam se perguntando coisas que antes não atreviam, e que aproveitam a oportunidade agora na homenagem “Cortázar y el boom latinoamericano”, um dos cursos de verão de uma universidade de Madrid, organizado pela Cátedra Vargas Llosa.

As palavras abordam, por momentos, o “Jogo da amarelinha”. Entram e saem rapidamente dele. Abordam, também, como era Cortázar (“Uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, com ideias muito originais sobre a literatura”, conta Vargas Llosa); como era a sua casa parisiense (“A entrada tinha um mural com recortes de jornais”); que autores eles tinham traduzido (Aurora traduziu Sartre).

Naquela noite de 1958, o mito e a lenda em torno de Cortázar já começavam a tomar forma. O Nobel peruano aproveitava o ensusiasmo de Aurora Bernárdez para entrar no jogo de verdade ou consequência. “É verdade que vocês foram submetidos a testes de tradutores da Unesco em Paris e conseguiram os dois primeiros lugares, e que lhes ofereceram um contrato permanente, mas que foi rejeitado, com o argumento de que preferiam ter tempo para ler a escrever?”.

— Sim. E talvez o primeiro lugar foi Julio quem conseguiu. E serviu para ele se curar do complexo de inferioridade. Embora, depois, quando fizemos o curso para obter a carteira de motorista, eu consegui primeiro.

Entre risadas, as anedotas se sucedem em Paris, Roma…

— Porque Julio, como todo argentino que se respeite, acreditava que o italiano era a sua segunda língua. Mas, não.

Sua modéstia era lendária. A viúva dele se lembra apenas de uma pitada de vaidade:

— Recém-chegado a Paris, trabalhou em uma distribuidora de livros. Um dia, chegou em casa e, muito sério, me disse: “Sou o que melhor empacota os livros”. E era verdade.

Mais risadas e anedotas que chegam à obra máxima de Cortázar, “Jogo da amarelinha”, cujo êxito varreu o mundo privado que os dois tinham construído e cuidavam com zelo. Ele se tornou uma figura pública.

— O livro caiu como uma bomba. Mas também teve adversários que estavam atentos a outro Cortázar: o dos contos, que não é mais ou menos melhor, apenas tem outra visão.

Até que chega a pergunta que todos os leitores de “Jogo da amarelinha” queriam fazer a Aurora Bernárdez: “É você que é Maga?”.

— Não — ela respondeu, com a voz suave.

Varga Llosa insiste: “Mas se há uma pessoa real, ela se parece com você?”.

— Não — disse, novamente sorrindo, mas, dessa vez, categórica. — Não acredito em nada disso. A Maga é um monte de palavras num papel. Pode haver muitas. Mas talvez possa ter sido inspirada numa amiga nossa. Mas ela se ofendeu porque achou que a palavra “maga” se referia a “bruxa”.

Cortázar, segundo Vargas Llosa, é um desses autores de grande generosidade. Dava sugestões, por exemplo, sobre os manuscritos que jovens escritores lhe enviavam. “Tinha uma integridade intelectual e literária que nunca abandonou”. Mas o mundo mudou Cortázar, concordaram Bernárdez e Vargas Llosa, alguns anos depois de “Jogo da amarelinha”, por causa de viagens que fez a Cuba e à Índia, em 1968, de acordo com a viúva:

— Na Índia, tomou consciência da dor de estar vivo. Foi quando descobriu que o homem sofria demais. Ficou cada vez mais politizado. Logo foi para a Argentina, onde havia uma história política lamentável, embora agora não seja muito melhor. Ele tinha enxaquecas. Foi a um médico que, depois de examiná-lo, lhe disse que não tinha uma doença, e sim um estado de espírito.

Finalmente, Vargas Llosa pergunta: “O que você acha que será de Cortázar, o seu legado?”.

— Não tenho ideia. Temos que esperar mais 50 anos. Acho que Julio estará no repertório de outros escritores ausentes que sempre estarão presentes.

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