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13 curiosidades sobre a literatura brasileira que você talvez não saiba

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Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Estátua de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro (Foto: Okitron/Wikimedia Commons)

Giuliana Viggiano, na Galileu

literatura brasileira é muito apreciada ao redor do mundo, mas o que pouca gente sabe é que existe uma porção de fatos bizarros que permeiam as histórias dos livros e de seus escritores.

A GALILEU listou, com ajuda do autor de História Bizarra da Literatura Brasileira (Editora Planeta, R$ 30), Marcel Verrumo, os fatos mais curiosos — e engraçados — que todo fã de livros vai gostar de saber.

Pero Vaz de Caminha queria trocar sua carta por um favor do rei
A grande carta do “descobrimento” do Brasil não era para ter sido escrita por Pero Vaz de Caminha. Na realidade, o escrivão oficial da frota era Gonçalo Gil Barbosa — que acabou não chegando ao Brasil. Com isso, Caminha escreveu detalhadamente a carta, que foi selecionada por Pedro Álvares Cabral e enviada ao então rei de Portugal, Dom Manuel.

Ao final do documento, havia um pedido para que o genro do escrivão, Jorge de Osório, fosse libertado do exílio por ter roubado uma igreja e ferido um sacerdote. A priori, D. Manoel negou, mas após a morte de Caminha, o governante acabou libertando Osório.
Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)Fac-símile da carta original de Pero Vaz de Caminha (Foto: Wikimedia Commons)

Ninguém sabe direito se Gregório de Matos realmente existiu
A data de nascimento do poeta, também conhecido como Boca do Inferno, permanece desconhecida: especialistas a situam entre 1623 e 1636 — data nada precisa. Outro fato é que a biografia do autor tem muitas lacunas, o que gera questionamentos sobre a real existência de Gregório de Matos.

Como se não bastasse, não se sabe o que realmente foi escrito pelo poeta (se é que ele existiu). Isso porque publicações ainda não eram permitidas na Colônia naquela época, logo, seus textos eram transmitidos oralmente. Ninguém sabe se o que restou e foi registrado foi de fato do Boca de Inferno ou de outros autores satíricos e infames da época.

O termo “brochar” veio dos livros de brochura
Os livros eróticos eram impressos em formato brochura, aquele mais mole. Quando lia um desses livros, um sujeito olhou para a encadernação — e talvez para o próprio órgão — e associou o livro mole ao pênis flácido. “Da associação, surgiram a expressão ‘pênis brochado’, ‘homem brocha’ e o verbo ‘brochar’”, conta Marcel Verrumo.

Gonçalves Dias foi a única vítima do naufrágio da embarcação que o trazia de volta ao Brasil
O poeta romântico se via muito doente quando resolveu viajar para a Europa em uma tentativa de se recuperar. Ao chegar na costa da França, foi dada a notícia de que havia um homem morto a bordo e que essa pessoa seria Gonçalves Dias. Foi declarado luto oficial no Brasil e os fãs do autor ficaram muito tristes — até que a verdade foi revelada: ele não estava morto!

Após passar cerca de dois anos em solo europeu, mas não conseguir se curar, o poeta resolveu retornar. Gonçalves Dias passou a maior parte do tempo isolado na viagem, pois estava muito fraco para perambular pela embarcação. O problema é que, quando o navio já estava próximo à costa do Maranhão, um banco de areia surgiu e o barco colidiu. Desesperada para se salvar, a tripulação fugiu afobada e esqueceu Gonçalves Dias, que morreu afogado.

A primeira publicação de uma mulher no Brasil foi só no século 19
Nísia Floresta foi a primeira mulher a ingressar na imprensa brasileira e a ter o nome assinando um livro no Brasil. A autora nasceu no Rio Grande do Norte e já aos 14 anos mostrou a que veio: fugiu da casa do marido e pediu abrigo para os pais, que tiveram que se mudar para Pernambuco.

As obras de Floresta falavam sobre o machismo na sociedade, mas não só isso. Ela também escreveu livros sobre índios e negros de forma empática e humanista, mostrando-os não como heróis, mas como vítimas da exploração colonial. Hoje Nísia Floresta está esquecida, mas teve papel crucial na história como uma das primeiras feministas do país.


Para José de Alencar, a escravidão contribuía para o progresso humano

O consagrado autor brasileiro defendeu a escravidão em uma série de cartas enviadas para o Imperador Dom Pedro 2º. Para ele, o sistema escravocrata ajudava no progresso humano e seu fim culminaria em uma grande crise econômica.

Os documentos históricos, entretanto, foram deixados de lado e acabaram caindo no ostracismo. Outra curiosidade é que as cartas tinham um tom um pouco arrogante, pois José de Alencar acreditava saber mais sobre política economia que o próprio rei.

Olavo Bilac se envolveu no primeiro acidente de carro do Brasil
O poeta parnasiano Olavo Bilac deu um “rolê” no carro de José Patrocínio, jornalista da época que havia comprado um automóvel assim que eles começaram a chegar no país. O problema é que Patrocínio convidou o poeta para dirigir o carro — coisa que obviamente ele não sabia fazer, já que não haviam carros no Brasil.

No meio do passeio, Bilac fez uma curva em “alta” velocidade, 4 km/h, e bateu em uma árvore. Os dois homens saíram ilesos, mas o carro teve perda total.

O assassino de Euclides da Cunha matou também o filho do autor
Ao descobrir que estava sendo traído, Euclides da Cunha saiu de casa determinado a “matar ou morrer”. Encontrou o amante da esposa, Anna, em casa e ambos trocaram tiros: Euclides foi o primeiro a acertar, mas foi Dilermando, o “outro”, que deu o tiro certeiro e matou o autor de Os Sertões.

Anos depois, Euclides da Cunha Filho atentou novamente contra Dilermando que, não querendo matar o filho da amada, tentou fugir, mas como sua vida estava em jogo atirou e matou o filho de Euclides da Cunha. Depois disso, o homem foi julgado — não só pelo júri, mas pela sociedade brasileira —, mas foi absolvido.

Graciliano Ramos foi prefeito e multou o próprio pai
Graciliano Ramos viveu na cidade alagoana de Palmeira dos Índios e foi diretor de uma das escolas da cidade. Após conquistar muita popularidade na região, foi convidado a se candidatar à prefeitura da cidade.

O engraçado é que o autor foi eleito e era muito rígido: criou um código de postura moral com 82 artigos, dentre eles a proibição de dormir ou criar animais na rua. O pai do escritor de Vidas Secas, Sebastião Ramos, na época criava gado em um terreno baldio e acabou sendo multado pela prefeitura.

Guimarães Rosa ajudou a esposa a salvar judeus do Holocausto

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa conheceu Guimarães Rosa na embaixada brasileira em Hamburgo, enquanto ambos trabalhavam lá no fim da década de 1930. Com a ajuda do marido, Aracy bolou um plano para transportar judeus que viviam na Europa nazista para o Brasil — mesmo com o então presidente Getúlio Vargas decretando a ilegalidade do ato.

Guimarães Rosa falsificava passaportes, enquanto a esposa dava um jeito de fazer o chefe assinar a papelada sem perceber que estava libertando parte da população judia. Aracy chegou a salvar quase cem pessoas e, em 1982, teve seu nome gravado no Museu do Holocausto, em Israel.

Carlos Drummond de Andrade achava que a homossexualidade era um desvio
O grande poeta brasileiro declarou mais de uma vez que acreditava que o “homossexualismo” (termo errado, já que o sufixo “ismo” denota doença) era um desvio da sociedade. Para ele, ser gay era coisa de garotos que eram atraídos pela vida noturna e boêmia.

Além disso, Drummond afirmou em entrevista que tinha certa repugnância à homossexualidade, e é até por isso que o tema aparece em apenas um de seus poemas, Rapto, do livro Claro Enigma. O que consola é que ao fim do texto o autor diz que essa é “outra forma de amar no acerbo amor”.

Paulo Coelho e Raul Seixas eram amigos e produziram um álbum juntos
Quando jovem, Paulo Coelho despertou a curiosidade de Raul Seixas que, até então, não era famoso. Se tornaram amigos após o cantor ler um artigo de Coelho sobre ufologia na revista A Pomba e ficar curioso para conhecer o autor do texto. Tempos depois, os dois fizeram um álbum juntos, que foi batizado de Krig-ha, Bandolo!. Raul cantava e Paulo havia escrito algumas canções e feito ilustrações.

O problema se deu em maio de 1974, quando ambos foram presos pela ditadura para “explicarem melhor” do que se tratava o disco. O cantor foi rapidamente liberado, mas o escritor teve de ficar mais tempo contando sobre o processo de criação do álbum, quando relatou que sua namorada, Adalgisa, havia participado da produção dos desenhos.

Após horas de interrogatório, o casal foi liberado, mas logo preso de novo e torturado. Não se sabe ao certo o que ocorreu com Adalgisa e Paulo, mas a situação foi tão conturbada e estressante que os namorados acabaram rompendo depois da prisão.

Rachel de Queiroz apoiou a Ditadura Militar
A jovem Rachel de Queiroz flertava com a esquerda e até se aproximou do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante a década de 1930. Entretanto, quando teve seu livro O quinze criticado pelo partido desiludiu-se e afastou-se da esquerda, o que a fez simpatizar mais com a direita da época.

No início da ditadura, Rachel cedeu sua casa para políticos e intelectuais planejarem o golpe militar. Ela participou pintando folhetos e até se filiando à Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)Rachel de Queiroz entre os escritores Adonias Filho e Gilberto Freyre (Foto: Wikimedia Commons)

Em 1991, quando participou do programa da TV Cultura Roda Viva, Caio Fernando de Abreu questionou o posicionamento da escritora, ao que ela replicou: “Gostaria de responder a você que nós estamos em um país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas”.

(com informações de História Bizarra da Literatura Brasileira, de Marcel Verrumo)

Minas Gerais ganhará seu primeiro hotel-biblioteca

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Mercure Belo Horizonte Lourdes planeja se transformar no primeiro hotel biblioteca de Minas Gerais | © Reprodução

Mercure Belo Horizonte Lourdes planeja se transformar no primeiro hotel biblioteca de Minas Gerais | © Reprodução

O agitador lítero-mineiro Afonso Borges e Rodrigo Mangerotti, gestor do Mercure Lourdes, planejam transformar o hotel em biblioteca

Talita Facchini, no Publisnews

O Sempre um Papo comemorou no ano passado seu 30º aniversário. O projeto que convida autores para um debate e lançamento de livros segue firme e forte em Belo Horizonte, e prepara mais uma novidade. Há 15 anos, seus autores convidados são hospedados no Mercure Belo Horizonte Lourdes (Av. do Contorno 7315, Lourdes – Belo Horizonte / MG). Agora, além de hospedar escritores, o hotel passará a promover seus livros graças ao projeto de incentivo à leitura Literatura de Hotel.

O agitador lítero-mineiro Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo, e Rodrigo Mangerotti, gestor do hotel, tiveram a ideia de criar um andar literário, com livros nos corredores e bibliotecas nos quartos. “Quando dei a ideia, tive uma resposta positiva muito rápida e muito grande. O retorno que o Facebook me deu precipitou tudo e tive que sair a campo para agilizar tudo”, contou Afonso ao PublishNews. “Os andares vão entrar em reforma e um dos quartos será um ‘quarto biblioteca’, mas todos terão livros à disposição dos hóspedes. Se ele quiser devolver, devolve, se quiser comprar, compra”. Mangerotti completa: “Nossa intenção é agregar valor a hospedagem e estimular o não hóspede a frequentar mais o hotel e consumir em nossos espaços”.

Afonso acredita ainda que o livro é um atrativo poderoso e que a ideia de colocá-los nos quartos do hotel, onde vários autores passam grande parte de seu tempo, é algo inédito e inspirador.

Para construir o acervo do hotel, segundo Afonso, será necessário um conjunto de ações. A primeira delas envolve a compra de alguns exemplares. A segunda contará com a ajuda dos próprios autores que deixarão suas obras autografadas quando visitarem o lugar. “Ainda aceitamos sugestões e mais ideias, mas até agora muitos autores já se manifestaram dizendo que irão mandar livros autografados”.

O projeto ainda está sendo elaborado com cuidado, mas a ideia já se ampliou. “O Mercure não vai se limitar ao andar literário, a recepção também vai ser reformada para ser uma biblioteca e um espaço onde os leitores podem se encontrar”. Para marcar o início do projeto, haverá a exposição Quartos de Escrita – Retratos de escritores nos hotéis, de Daniel Mordzinski, que fotografou alguns dos mais importantes escritores do mundo e do Brasil em seus quartos de hotel.

Machado de Assis é maior que Dickens, Balzac e Eça de Queiroz, diz crítico e escritor espanhol

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Antonio Maura fará conferência no Egito para falar do brasileiro. Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, ele diz que o autor ainda é ‘um grande desconhecido’.

Publicado no G1

Escritor e crítico espanhol, Antonio Maura acredita que Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o grande gênio da literatura brasileira, não foi devidamente valorizado pela crítica e mereceria ser reconhecido como um dos melhores escritores do século XIX.

“Acho que Machado é um dos grandes nomes do século XIX. Não acredito que se compare nem a [Charles] Dickens, [Honoré de] Balzac, Eça de Queiroz ou ao nosso [Benito Pérez] Galdós. São grandes escritores, mas estão abaixo nos quesitos riqueza, crítica e análise da sociedade e versatilidade. Não chegam aos pés”, diz.

Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)

Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)

Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, Maura está no Cairo para a conferência “El autor y sus máscaras: Una aproximación a Cervantes y Machado de Assis” (“O autor e suas máscaras: Uma aproximação de Cervantes e Machado de Assis)”, no Instituto Cervantes local.

Ele afirma que, fora de suas fronteiras, o escritor brasileiro “é um grande desconhecido”. Em sua opinião, até mesmo no Brasil os estudos sobre Machado de Assis “não refletiram bem” sua faceta de grande crítico do sistema de sua época e da escravidão.

Para Maura, o cronista e poeta teve que recorrer à ironia para falar “na surdina” de um tema que não podia ser encarado abertamente por ele ser neto de escravos.

Um exemplo disso é “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881). De acordo com Maura, a verdadeira intenção do autor é “colocar o dedo na ferida” da sociedade e para isso se serve de uma sutil alegoria para denunciar que o morto é o próprio Brasil.

A escolha do nome do protagonista, que coincide com o início do nome do país, “não é à toa” para alguém tão “inteligente e cuidadoso com a linguagem” quanto era Machado de Assis. Para Maura, “a crítica brasileira foge” desta interpretação porque “não é fácil aceitar que seu país é um país morto ou esteve morto”.

O crítico espanhol defende que as obras que o romancista e dramaturgo escreveu depois de “Memórias póstumas”, como “Dom Casmurro” ou “Quincas Borba”, são dos livros “mais importantes de sua geração, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo”.

Segundo ele, alguns autores de língua espanhola, como Jorge Edwards, Julián Ríos e Carlos Fuentes, destacaram a importância de Machado de Assis, mas o mestre brasileiro ainda carece do merecido reconhecimento mundial.

Suspensa em 2004, biografia de Caetano Veloso chega às livrarias

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Publicado no UAI

Foto tirada na casa do cantor em 1982. (foto: Thereza Eugênia/Divulgação)

Foto tirada na casa do cantor em 1982. (foto: Thereza Eugênia/Divulgação)

Biografias, salvo exceções, têm uma estrutura inconfundível. O prólogo, é regra, traz um fato marcante da vida do biografado. Logo depois vem o capítulo inicial, geralmente aberto com os primeiros anos do personagem.

Caetano: uma biografia. A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos (editora Seoman), de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que chega às livrarias na próxima semana, tem início na noite de 23 de março de 2003.

No Kodak Theatre, em Los Angeles, Caetano apresentou, ao lado da mexicana Lila Downs, Burn it blue durante a cerimônia do 75ª edição do Oscar. A canção havia sido indicado ao prêmio pelo filme Frida. Para os autores, o ”fato não poderia ser ignorado”, já que Caetano havia se apresentado para o maior público de sua carreira.

É uma opção, que ganha novo sentido quando se chega à página 523 do livro (são 544 no total). No posfácio, o leitor fica sabendo que Drummond e Nolasco poderiam ter enterrado um trabalho que consumiu seis anos da dupla. E que a biografia, originalmente, seria publicada entre 2004 e 2005, pouco após a apresentação no Oscar. Por outra editora (Objetiva), com um outro texto. Que Caetano não autorizou.

A dupla de autores, funcionários públicos que nunca foram tietes de Caetano – ”não tínhamos conhecimento profundo sobre ele quando começamos”, afirma Drummond, também poeta e compositor da Imperatriz Leopoldinense –, após realizados alguns encontros com o músico pediu uma declaração dele ”que desse segurança à continuidade dos trabalhos”.

Caetano escreveu, em 2001, um documento em que reconheceu a existência do projeto – ”Eles me apresentaram algum material extraído das entrevistas que fizeram, sendo que alguns documentos (textos e fotos) a que tiveram acesso me surpreenderam e emocionaram”, diz trecho da carta.

Em 2004, já de contrato assinado com a Objetiva (que lhes pagou um adiantamento de R$ 20 mil), os dois voltaram a Caetano. Precisavam de uma autorização formal para a continuidade do trabalho. O escritório do artista não autorizou, e a editora desistiu de publicar o livro. Que só foi retomado em 2015, quando decisão do Supremo Tribunal Federal retirou a obrigatoriedade de autorizações prévias para a publicação de biografias.

A história terminaria agora, com o livro pronto, não fosse uma outra questão. Caetano não teria autorizado o livro na época porque não havia gostado do texto. A Objetiva teria exigido um terceiro autor, um nome de peso (a jornalista Ana Maria Bahiana).

“Chegamos a aceitar (a exigência), mas o projeto não foi em frente. Gostar ou não de um texto é uma questão absolutamente normal. Mas o que Caetano tinha lido (no início dos anos 2000) era um outro texto, que não estava em sua versão final. E tinha valor, do contrário, por que a Objetiva nos pagaria um adiantamento?”, afirma Drummond.

Em turnê pela Europa, Caetano falou sobre a polêmica em entrevista publicada na última segunda-feira, 24, pelo jornal português Observador. ”Não reli, mas vou olhar agora quando voltar para o Brasil. Eles fizeram uma pesquisa muito cuidadosa, falaram com todos os meus parentes, irmãos, meus amigos de infância, as pessoas com quem eu trabalhei em vários períodos, e acho que eles fizeram um levantamento que deve valer a pena para quem se interessa pela minha vida. Agora, quando a li pela primeira vez, falei para eles: ‘Olha, isso precisaria ser reescrito’, porque… como texto literário, achei um pouco fraco. Agora eu não reli, mas foi preciso autorização minha para que eles pusessem as fotografias, e eu dei autorização. Sem reler.”

REESCRITA

Drummond e Nolasco entrevistaram 103 pessoas para o projeto (20% delas, na conta dos autores, já morreram). Para a publicação da biografia, não fizeram nenhuma nova entrevista. ”Depois de tudo o que aconteceu, não nos sentíamos mais à vontade para fazer entrevista”, justifica Drummond. Passaram um ano, já com a nova editora, reescrevendo o livro e checando as informações.

Um dos problemas do volume aparece aí. O texto tem início e fim com a cerimônia do Oscar. A trajetória de Caetano de 2003 até os dias atuais aparece no posfácio, num texto que parece escrito às pressas, sem qualquer profundidade (e nada diferente do que se acha numa rápida pesquisa na internet). E é uma época prolífica para Caetano, em que ele se reaproximou do público jovem (com a trilogia da banda Cê) e protagonizou duas turnês históricas (uma com Roberto Carlos e outra com Gilberto Gil).

O texto, já que a polêmica atual é esta, carece de personalidade. É por vezes ingênuo (”Em tempos de ditadura, o programa alternativo sempre seria uma boa opção para quem quisesse respirar novidades e arejar a cabeça”). Em alguns momentos, abusa dos chavões (”Em coração de pai e de mãe sempre cabe mais um”).

Mas a profundidade com que os autores tratam da história (até 2003, vale repetir), e a profusão de fontes (são pelo menos três para cada fase do artista, além de extensa bibliografia), acaba validando a biografia como um documento responsável e crível sobre a longa trajetória de Caetano.

Os autores não se prendem a fofocas ou qualquer assunto de menor importância. E ainda delineiam ricas passagens biográficas sobre aqueles que estiveram próximos ao artista (Maria Bethânia tem muito destaque). Entre os pontos fortes está a fase inicial, na infância em Santo Amaro da Purificação. Os autores contaram com a colaboração de parentes (os irmãos Mabel e Rodrigo Velloso, principalmente) e amigos de infância do compositor. Estão ali os anos escolares (há inclusive documentos impressos no livro, bem como desenhos feitos pelo próprio Caetano), relatos dos primeiros emprego e namorada.

Foi um antigo colega de colégio, Wanderlino Nogueira (hoje integrante do Comissionado do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, em Genebra) quem apresentou a Caetano a obra de Oswald de Andrade. O livro ainda relata a origem de várias canções (Itapoã foi inspirada, por exemplo, nos primeiros momentos de namoro com Dedé Gadelha, quando Caetano viajava escondido para a praia baiana).

Há também fontes pouco conhecidas, como Respício do Espírito Santo, então tenente, que ajudou Caetano durante o período em que ele ficou preso pela ditadura militar (leia trecho nesta página).

”Hoje, minha sensação é de alívio por ter terminado algo que, em determinado momento, parecia que ia se perder”, conclui Drummond, logo acrescentando: ”Não me considero um biógrafo. Sou apenas um sujeito que fez um livro sobre o Caetano”.

Trecho
”Com a censura imposta, não se podia ser claro sobre o paradeiro de Caetano. Fora isso, havia muita especulação a respeito. Quem sabia a verdade, publicava matérias cifradas ou mesmo se calava por segurança. Desde a transferência de quartéis na própria Vila Militar, Dedé o perdera de vista. Foi assim até o dia em que o tenente Respício esteve com Bethânia. Foi ele quem levou notícias sobre Caetano. Ele passava bem e estava detido em seu quartel. Ela pediu para visitar o irmão. Não havia problema. Pelo menos ali, Caetano podia receber visitas. E mais: deixou seu telefone para que Bethânia ligasse no dia em que fosse. Ele mesmo mandaria buscá-la. No dia e hora marcados lá estava o Simca Chambord azul do tenente para pegar Bethânia. A ansiedade durante o percurso só não foi maior do que a alegria pelo reencontro, apesar do choque. Caetano estava um caco, abatido, de cabelo reco, vestido de soldado… Quase sumia de tão magro.”

Paquistanesa de 13 anos cria projeto para ler um livro de cada país

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Aisha Arif Esbhani (Foto: Reprodução Facebook)

Aisha Arif Esbhani (Foto: Reprodução Facebook)

 

Giuliana Viggiano, na Galileu

Tudo começou em março de 2016. “Eu olhei para minha prateleira e notei que algo estava faltando”, conta Aisha Esbhani, paquistanesa de 13 anos, da cidade de Karachi. Depois disso, a menina decidiu ler uma obra de cada país do mundo, para conhecer autores e culturas diferentes, já que a maioria de seus livros vinham dos Estados Unidos ou do Reino Unido.

A garota se inspirou em Ann Morgan, que também fez esse desafio, mas, diferente de Morgan, Aisha não estipulou um tempo limite para o desafio: “Quero explorar cada país, não apenas ler o livro”, afirma ela à GALILEU.

Para escolher as obras, Aisha criou uma página no Facebook, onde busca dicas de leitores de todo o mundo. Além disso, seus pais dela sempre se certificam de que o livro é apropriado para sua idade. “Se eu posso escolher, opto por ficções de guerra e não ficções, já que esse é meu gênero preferido”, diz a paquistanesa.

Entretanto, não é tão fácil encontrar livros de todos os países no Paquistão. “Conheço apenas duas livrarias que têm livros de outros países (mas apenas de alguns), e, agora, depois de completar 80 nações, não consigo achar mais nada”, revela a leitora.

Além disso, não é fácil comprar pela internet, já que muitas lojas não entregam ou cobram um frete muito alto para entregar as encomendas em seu país. Por isso, Aisha desenvolveu um esquema: “Encomendo os livros e peço para entregarem na casa de algum parente ou amigo que virá para o Paquistão em breve”.

A “turnê” de Aisha já passou pelo Brasil. Daqui, ela leu O alquimista, de Paulo Coelho: “Sempre me disseram que ele é um ótimo escritor, mas eu nunca tinha tido a oportunidade de ler. (…) Confie em mim, é um dos melhores livros já escritos!”, afirma a garota.

Ela também diz que pretende ler mais livros brasileiros, mas só depois que completar seu desafio. Além disso, Aisha quer ler autores não tão populares: “Quero apreciar todos aqueles autores que merecem mais atenção do que recebem!”

A garota já leu muitos clássicos, como O sol é para todos, da americana Harper Lee, e Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez. Agora ela está lendo o grego Seven lives and one love: memoirs of a cat (Sete vidas e um amor: memórias de um gato, em tradução livre), de Lena Divani.

Sua indicação para o público brasileiro é um livro do Paquistão: The Wandering Falcon (O falcão errante, em tradução livre), de Jamil Ahmad.

Para Aisha completar o desafio ainda faltam 117 livros. “Sei que esse é um número muito alto, mas estou determinada a alcançar minha meta”, conclui a paquistanesa.

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