Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged avaliação

‘É hora de uma revolta coletiva pela educação no Brasil’, diz educador António Nóvoa

0
António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa Foto: Divulgação

António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa Foto: Divulgação

 

Cristine Gerk, no Extra

“Quem não sai do lugar não se educa”. Inspirado nesse lema, António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, viajou o mundo ensinando e aprendendo sobre a missão das escolas. Em visita ao Brasil para o lançamento do Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa, que é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e em História pela Sorbonne (França), criticou a proposta de escolas sem partido, defendeu a discussão sobre gênero e sexualidade nas aulas e convidou a população a se engajar em uma revolta coletiva pela educação pública no Brasil. Na entrevista a seguir, o professor convidado em Colúmbia (EUA), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 defende ainda a maior interação entre professores de diferentes escolas e uma reforma na relação com os alunos, com ajuda da tecnologia. A convite do reitor da UFRJ, ele está ajudando a montar um complexo de formação de professores no Fundão que vai agrupar todas as licenciaturas em parceria com escolas da rede pública.

Como fortalecer o papel social da educação em um contexto violento, como o do Rio?

A escola depende mais do ambiente em que está inserida do que é capaz de transformá-lo. Quando uma nação é boa, sua escola é boa. Quando a nação é má, a escola não vai transformá-la em boa. Não ponham expectativa exagerada. Achar que a escola vai transformar o mundo é meio caminho andado para que ela não faça nada. Agora, ela tem um poder extraordinário, que é a capacidade de educar as crianças. Se conseguirmos espaços onde haja cultura do diálogo, da tolerância, da capacidade de conviver, podemos ganhar ali uma geração que depois pode transformar grande parte da sociedade. Já dizia o pedagogo francês Philippe Meirieu: “A escola ou a guerra civil”.

A escola integral tem mais potência neste sentido?

Sou por princípio contra a ideia filosófica da escola integral. Integral é a vida. A ideia de manter essas crianças na escola, quanto mais horas melhor, não me é simpática. Quero que a educação esteja na sociedade, nas famílias. Defendo a ideia do espaço público da educação, que a cidade seja educadora e a criança tenha outros espaços culturais, sociais. Mas tenho que reconhecer que há realidades sociais tão violentas, como a do Rio, onde é preciso ter escola integral. Quero proteger as crianças, mantê-las o máximo de tempo possível ali. É como as cotas: horríveis, mas necessárias.

Como manter as crianças concentradas e interessadas no mundo de dispersão e informação abundante da internet?

Não faz sentido imaginar uma escola fora da sociedade. É tão absurdo quanto no século 16, quando se tentou impedir a entrada de livros porque os alunos tinham que memorizar. No século 20, baniram os filmes, porque iam acabar com a moral. Hoje a forma de pensar, de se relacionar, é diferente. Se não percebermos isso, não há educação. É claro que não quero celular em sala para a criança fazer outras atividades, mas tenho que ser capaz de integrá-lo no trabalho pedagógico. A escola não é onde se vai assistir a aulas, mas onde todos vão, em conjunto, descobrir como trabalhar. O professor deve recorrer ao apoio dos alunos para se organizar nas dimensões digitais. Para isso precisamos de uma formação que não seja só interessada em ver o “negócio”, em decidir sobre quantas disciplinas, aulas, teoria curricular. Um bom modelo é o da Escola de Medicina da Universidade de Harvard. Acabaram com as aulas expositivas, não precisa, está tudo na internet. Organizam-se em torno de grandes problemas, relacionam-se com os hospitais, com médicos mais antigos, e aprendem nessa lógica de teoria, prática, reflexão, trabalho em conjunto. Há menos acúmulo de conhecimentos enciclopédicos e mais capacidade de pensar em determinada disciplina.

No Brasil, há uma discussão sobre a escola sem partido. O que acha da iniciativa?

Em certos meios sociais, tipicamente classes médias ou altas, e com fortes componentes religiosos, há essa ideia de proteger as crianças das misérias do mundo, da violência, da sexualidade, das drogas. Essas ideias de fechamento em determinada cultura são o contrário do que eu quero na educação. Quem não sai do seu lugar cultural, territorial, religioso não se educa. Prefiro que as minhas crianças, que têm acesso a todas as informações, discutam isso com seus educadores, a serem deixadas soltas, sem capacidade de refletir. A educação é discutir sobre essas matérias. Não é ser doutrinário. Educar é tomar partido, sempre, e respeitar a diferença e a opinião do outro. É uma grande hipocrisia não se preocupar com as crianças que convivem com violência. A maneira de proteger as crianças é conversar com elas. Os professores têm direto às suas ideias, como os alunos, pais, isso é democracia. Escola é diversidade, liberdade, diálogo.

Como você vê os métodos atuais de avaliação das escolas?

Esses indicadores são pobres, mas são úteis, precisam ser usados para melhorias, não para fazer ranking e punir. Mas não posso deixar de me indignar ao ver os alunos brasileiros na situação em que estão. Tem que haver uma revolta coletiva, de todos os partidos, de uma geração que diga “não aceitamos mais que a escola pública brasileira continue assim”. A pessoa acha a escola pública ruim e leva o filho para a particular. Isto não basta. Os pais não se interessam, as crianças são pobres, há fome, tudo é verdade, mas são elementos para compreendermos e agirmos melhor, não para justificarmos. Precisamos das coisas básicas: que as escolas abram todo dia, que os prédios estejam bem cuidados, que os professores tenham salários dignos. Não vale a pena muita teoria sem o básico, que inclui leitura, escrita, interpretação do mundo, diálogo.

Qual o papel do professor na vida dos estudantes e como a formação deve direcioná-lo?

Estou construindo um complexo de formação de professores na UFRJ, a convite do reitor. A ideia é fazer o que se faz num hospital universitário. Naquele complexo se integrarão todas as licenciaturas, ligadas às escolas públicas, para que haja diálogo constante entre elas. Vamos falar com o município. Isso existe em poucos lugares do mundo, a UFRJ será referência. Há um espaço sendo construído no Fundão. Os professores precisam trabalhar em conjunto, conhecer o que se faz em outras escolas.

Unicamp é melhor universidade do Brasil, segundo MEC

0

Em ranking de avaliação das instituições de ensino superior, Unicamp ocupa primeiro lugar da lista

unicamp-melhor-universidade-mec-noticias

Publicado em Universia Brasil

Segundo o Índice Geral de Cursos (IGC), que é calculado pelo Ministério da Educação (MEC) para avaliar a qualidade das instituições de ensino superior brasileiras, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é a melhor universidade do País.

O último resultado do IGC divulgado pelo MEC é referente aos anos de 2012, 2013 e 2014. O índice é baseado no cálculo de outros marcadores, como a nota do Conceito Preliminar de Curso (CPC), responsável por avaliar a qualidade dos cursos superiores. Também é levada em conta a avaliação feita pela CAPES dos programas de pós-graduação oferecidos pela instituição.

Ao todo, foram avaliados 9.963 cursos de 43 áreas de conhecimento, oferecidos por 2.042 instituições de ensino superior. Suas notas vão de 1 a 5, sendo que as universidades, faculdades e centros universitários que não atingirem a nota mínima de 3 passam a ser considerados “insatisfatórios” pelo MEC.

Com nota máxima em 43 cursos avaliados, a Unicamp ocupa a primeira posição de ranking de melhores universidades brasileiras. Em seguida estão, também com pontuação na faixa da nota máxima, aparece a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Universidade Federal de Lavras (UFLA).

No Brasil, uma de cada cinco crianças de oito anos não sabe ler

0

O Ministério da Educação (MEC) divulgou nesta quinta-feira (17), os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização, que mede aprendizado de leitura, escrita e matemática

educacao-escola-sala-de-aula-20140528-001-original

Publicado em Veja

Quando chegam ao fim do terceiro ano do Ensino Fundamental, uma em cada cinco crianças de oito anos (22,2%) não consegue ler uma frase inteira. Nesse período, em que deveriam estar completamente alfabetizadas, elas decifram apenas algumas palavras isoladas, de acordo com os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), nesta quinta-feira (17).

Além disso, mais da metade dos alunos (56,17%) só é capaz de encontrar uma informação em textos se ela estiver na primeira linha, o que revela o baixo fôlego de leitura dos alunos. Se precisa escrever um texto, um em cada três estudantes (34,4%) produz frases ilegíveis, com troca ou omissão de letras nas palavras. Em matemática, a maioria dos estudantes (57%) não consegue solucionar questões com números maiores que 20 ou ler as horas em um relógio de ponteiros.

A avaliação do MEC mede as habilidades de leitura, escrita e matemática de todos os alunos do país até o terceiro ano do Ensino Fundamental. No ano passado, os cerca de 2,3 milhões de estudantes de 49 000 escolas públicas dessa etapa foram avaliados de acordo com o nível em que se encontram nas três áreas. Na escala de leitura, por exemplo, o nível 1, onde estão 22,2% das crianças, é considerado inadequado. Na de escrita, os níveis 1 a 3, em que estão 34,4% dos alunos, são inadequados.

Em evento em São Paulo, nesta terça-feira (15), o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, adiantou que os níveis 1 e 2 da avaliação “inquietam”. “Em países desenvolvidos e em boas escolas, as crianças estão alfabetizadas muito antes dos oito anos e isso precisa ser uma meta no Brasil”, afirmou.

Diferenças por Estado – No país, as regiões Norte e Nordeste têm os piores resultados. Na escrita, apenas 3,72% dos estudantes do Nordeste e 4,12% do Norte alcançaram o melhor nível da avaliação. No Sul e Sudeste, o registro de alunos nesse patamar foi, respectivamente, de 32,55% e 36,13%. Para a escrita alcançar o melhor nível de avaliação, os estudantes precisam ter capacidade de escrever palavras com diferentes estruturas silábicas e um texto corretamente e com coerência.

Na leitura, apenas sete Estados (Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram resultados positivos, ou seja, mais de 50% dos alunos ficaram nos níveis mais altos.

Em matemática, alunos de cinco Estados (Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram as notas mais altas. Nos outros 22 Estados, as notas ficaram nos níveis mais baixos de aprendizado.

Matemática – De acordo com os resultados da ANA, 17,7% dos estudantes brasileiros estão no nível 3 em matemática, ou seja, são capazes de solucionar problemas com números maiores de 20 e fazer divisões exatas com o apoio de imagens. No nível 4, o mais alto da escala, estão um quarto dos estudantes (25,15%). Eles conseguem ler as horas em relógios analógicos, alguns elementos em gráficos de barras e são capazes de fazer subtrações com centenas e divisões em partes iguais sem o auxílio de imagens.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do MEC responsável pela ANA, os resultados do exame de matemática estão ligados às notas da avaliação de leitura, pois, para interpretar os problemas e transformá-los em cálculos é necessária a habilidade de leitura e compreensão dos enunciados.

Exame cancelado – A ANA foi criada com o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2012. Os indicadores de 2014 são semelhantes aos números de 2013, primeiro ano em que a avaliação foi feita. Na época, o MEC não divulgou oficialmente os dados da edição por considerá-los apenas um diagnóstico inicial.

Em relação à edição anterior da ANA, houve estagnação nos indicadores. Naquele ano, 57% dos alunos ficaram nos dois primeiros níveis de leitura. Em Matemática o porcentual foi de 58%. Já em escrita, 41,5% haviam ficado nos dois patamares inferiores – à época, a escala usada era de quatro níveis (este ano são cinco).

No início de julho, o MEC cancelou a realização da ANA de 2015. De acordo com o professor Francisco Soares, presidente do Inep, a decisão refletiu a necessidade de cortes financeiros, mas também questões pedagógicas. “Todos tinham de contribuir (com o ajuste fiscal). Mas tem um caráter pedagógico importante”, disse. Há a possibilidade de que a prova seja aplicada a cada dois anos.

Oito coisas que aprendi com a educação na Finlândia

0

Quatro professores de um grupo de 35 brasileiros capacitados no país nórdico contam o que trouxeram da experiência e que impacto ela pode ter no ensino público do Brasil.

finf

Publicado no G1

Dona de um dos sistemas de ensino mais elogiados do mundo, a Finlândia recebeu, de fevereiro a julho deste ano, 35 professores de institutos federais brasileiros para treinamento e capacitação.

Embora em 2012 o país nórdico tenha caído do topo para a 12ª posição do Pisa, o principal exame internacional de educação (o Brasil ficou na 58ª posição do ranking, entre 65 países), ele ainda é apontado pela OCDE – a entidade que aplica o Pisa – como “um dos líderes mundiais em performance acadêmica” e se destaca pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por constantemente repensar seu currículo escolar.

Os docentes brasileiros foram selecionados pelo programa Professores para o Futuro, do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Ministério da Educação), para passar cinco meses estudando a educação finlandesa.

A BBC Brasil conversou com quatro desses professores, para conhecer o que viram na Finlândia e saber se lições trazidas de lá podem facilitar seu trabalho em sala de aula e melhorar o aprendizado nas instituições públicas de ensino onde atuam.

Apesar das diferenças com o sistema brasileiro, os professores disseram ver como “pequenas revoluções” o que podem agregar do ensino finlandês em suas rotinas.

“Vou começar com um trabalho de formiguinha, mostrando aos meus colegas o que aprendi, gravando minhas aulas e adaptando (as metodologias) à nossa realidade e aos nossos estudantes”, diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

Os 25 institutos federais que enviaram professores ao país nórdico reúnem cursos de ensino médio, profissional e superior com ênfase em ciência e tecnologia.

Veja o que os professores aprenderam na Finlândia:

1. Usar mais projetos nas aulas

Os professores entrevistados pela BBC Brasil dizem que projetos elaborados por alunos e a resolução de problemas estão ganhando protagonismo no ensino finlandês, em detrimento da aula tradicional.

São as metodologias chamadas de “problem-based learning” e “project-based learning” (ensino baseado em problemas ou projetos). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos aprendem na prática e buscam eles mesmos as soluções.

“Os projetos são desenvolvidos sem o envolvimento tão direto do professor, em que os alunos aprendem não só o conteúdo, mas a gerir um plano e lidar com erros”, diz Bruno Garcês, professor de Química do Instituto Federal do Mato Grosso, que pretende aplicar o método em aulas de experimentos práticos.

Os professores brasileiros visitaram, na Finlândia, cursos superiores baseados inteiramente nessa metodologia.

“Um curso de Administração tem disciplinas tradicionais no primeiro ano. Mas, nos dois anos e meio seguintes, os alunos deixam de ter professores, passam a ter tutores, formam empresas reais e aprendem enquanto desenvolvem o negócio”, diz Francisco Fechine, coordenador do Instituto Federal de Tecnologia da Paraíba.

Não é uma estrutura que sirva para qualquer tipo de curso, mas funciona nos voltados, por exemplo, a empreendedorismo, explica Joelma Kremer, do Instituto Federal de Santa Catarina.

“E os alunos têm uma carga de leitura, para buscar (nos livros) as ferramentas que precisam para resolver os problemas.”

2. Foco na produção de conteúdo pelos alunos

A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do próprio aluno. Ao professor cabe mediar a interação na sala de aula e saber quais metas têm de ser alcançadas em cada projeto.

“Nós (no Brasil) somos mais centrados em o professor preparar a aula, dar e corrigir exercícios. O aluno faz pouco. Podemos dar mais espaço para o aluno avaliar o que ele vai desenvolvendo”, diz a professora Giani Barwald Bohm, do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

“No modelo tradicional de ensino, quem mais aprende é o professor. Lá (na Finlândia) é o aluno quem tem de buscar conteúdo, e o professor tem que saber qual o objetivo da aula. Para isso você não precisa de muita tecnologia, mas sim de capacitação (dos docentes)”, agrega Joelma Kremer.

fin2

3. Repensar o papel da avaliação

Nesse contexto, a avaliação tem utilidade diferente, diz Kremer: “A avaliação está presente, mas os alunos se autoavaliam, avaliam uns aos outros, e o professor avalia os resultados dos projetos”.

“Ao reduzir o número de testes (formais) e avaliar mais trabalhos em grupo e atividades diferentes, os professores têm um filme do desempenho do aluno, e não apenas a foto (do momento da prova)”, diz Fechine.

“Conhecemos um professor de física finlandês que avaliava seus alunos pelos vídeos que eles gravavam dos experimentos feitos em casa e mandavam por e-mail ou Dropbox.”

4. Usar tecnologia e até a mobília para ajudar o professor

A tecnologia não é parte central desse processo, mas auxilia o trabalho do professor em estimular a participação dos alunos finlandeses.

“Em vez de proibir o celular, os professores os usam em sala de aula para estimular a participação dos alunos – por exemplo, respondendo (via aplicativos especiais) enquetes que tivessem a ver com as aulas”, conta Kremer.

fin3

“Isso torna a aula mais interessante para eles. E é complicado para a gente ficar dizendo, ‘desliga o celular’, algo que já começa estabelecendo uma relação de antipatia com o aluno.”

Os professores brasileiros também conheceram algumas salas de aula com mobília especialmente projetada, diferente do modelo tradicional de cadeiras individuais voltadas à lousa.

“Muitas salas têm sofás, poltronas, mesas ajustáveis para trabalhos individuais ou em grupo e vários projetores”, agrega Kremer. “É um mobiliário pensado para essa metodologia diferente de ensino.”

Fechine vai reproduzir parcialmente a ideia no Instituto Federal da Paraíba, trocando as carteiras de braço por mesas que possam ser agrupadas para trabalhos.

5. Desenvolvimento de habilidades do século 21

A professora Giani Barwald Bohm conta que o ensino fundamental finlandês continua dividido em disciplinas tradicionais, mas focado cada vez mais no desenvolvimento de habilidades dos alunos, e não apenas na assimilação de conteúdo tradicional.

“(São desenvolvidas) competências do século 21, como comunicação, pensamento crítico e empreendedorismo”, diz ela.

Para Fechine, estimular a independência do estudante é uma forma de romper o ciclo de “alunos passivos, que só fazem a tarefa se o professor cobrar, interagem muito pouco”.

6. Intervalos mais frequentes entre as aulas

A Finlândia adota aulas de 45 minutos seguidas de 15 minutos de intervalo na educação básica – prática que Bruno Garcês acha que poderia ser disseminada por aqui. “Tira a tensão de ficar tantas horas sentado”, diz.

Fechine também considera a ideia interessante, mas aponta que a grande carga horária no ensino médio brasileiro dificulta sua aplicação e lembra que na Finlândia ela é acompanhada de uma forte cultura de pontualidade. “As aulas começam no horário e aluno rapidamente entra na (rotina de) resolução de problemas.”

7. Cultivar elos com a vida real e empresas

Muitos dos projetos dos estudantes finlandeses são tocados em parcerias com empresas, para aumentar sua conexão com a vida real e o mercado de trabalho, algo que Garcês acha que poderia ser mais frequente no Brasil.

“Aqui na área rural do Mato Grosso podemos ter uma interação maior com as fazendas locais, ministrando aulas a partir do que os produtores rurais precisam.”

A vantagem disso é que o aluno vê sentido prático e profissional no que está aprendendo, explica Giani Barwald Bohm. “Ele desenvolve algo diretamente para o mercado de trabalho, que vai ter relevância para o próprio estudante e é contextualizado com as empresas locais.”

Ela destaca também as competições de habilidades práticas desenvolvidas por escolas locais (um preparativo para a competição internacional WorldSkills, que neste ano será realizada em São Paulo, pelo Senai, entre quarta e sábado desta semana).

“As empresas são envolvidas na organização e acompanham os alunos no dia a dia e até ficam de olho para contratá-los depois.”

8. Formação mais prática e valorização do professor

A formação dos professores é apontada como a principal chave do sucesso do ensino finlandês. Os brasileiros observaram lá uma capacitação mais prática, voltada ao dia a dia da sala de aula, e mais interação entre o corpo docente.

“Algumas salas têm dois professores – um como ouvinte do outro caso seja menos experiente”, relata Fechine.

“Há uma relação mais direta (entre os professores), com muita conversa entre quem dirige o ensino e quem dá aula”, agrega Barwald Bohm.

“Além disso, há uma valorização cultural do professor lá, semelhante à de outras profissões. O salário é equivalente e as condições de trabalho dão bastante tempo para o planejamento das aulas”, diz Bruno Garcês.

Aluno tem nota por ‘curtidas’, e autora do ‘Diário de Classe’ critica método

0

 

Isadora Faber discorda de avaliação adotada por professor em SC.
Quem não alcançar meta em rede social, não recebe 3 pontos no semestre.

Publicado no G1

Isadora postou trabalho também no 'Diário de Classe' para ajudar o grupo (Foto: Facebook/Reprodução)

Isadora postou trabalho também no
‘Diário de Classe’ para ajudar o grupo
(Foto: Facebook/Reprodução)

Isadora Faber, criadora da página “Diário de Classe”, questionou em uma rede social a metodologia utilizada por um de seus professores do segundo ano do ensino médio de uma escola particular de Florianópolis, para dar nota a um trabalho em grupo. Ele deu uma semana para que os alunos postassem um vídeo em uma rede social abordando a prevenção de doenças. Os estudantes irão receber três pontos no trimestre se conseguirem 250 curtidas.

“Avaliar os alunos pelo número de curtidas é um absurdo. Acho injusto com quem não utiliza redes sociais ou não tem muitos amigos. É difícil conseguir 250 curtidas em uma semana”, avalia a adolescente de 16 anos.

De acordo com o professor de biologia, Marcelo Soccio, a ideia surgiu para estimular os estudantes a abordarem assuntos conhecidos de forma que seja atraente. Ele dividiu a turma em grupos de três a oito alunos e cada um abordou a forma de prevenção de doenças como HPV, aids, sífilis, gonorreia, tuberculose, toxoplasmose, meningite, gripe aviária, leptospirose e peste bubônica.

Três pontos do trimestre são pelas curtidas, quatro pela produção do trabalho, três pelas demais atividades e um pelo comportamento e educação em sala de aula.

“É o que eles mais gostam de fazer: curtir. Se eu pedir para fazer um cartaz com papel pardo e colar na parede vão rir da minha cara. O quadro negro e o giz já foram uma tecnologia. Hoje é a internet. É uma forma de incentivá-los a fazer um bom trabalho e a trabalhar em equipe. As pessoas vão curtir se gostarem. O título era uma propaganda preventiva, tinham que abordar temas conhecidos de forma criativa, atraente, que agradassem os amigos”, detalha o professor.

Outra aluna da turma, de 16 anos, também não gostou da avaliação, mas acredita que seja uma maneira de compartilhar o conhecimento com os amigos.
Avaliar os alunos pelo número de curtidas é um absurdo. Acho injusto com quem não utiliza redes sociais ou não tem muitos amigos”

Isadora lançou um site para denunciar problemas em escolas do país (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Isadora lançou um site para denunciar problemas
em escolas do país
(Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

“Meu grupo conseguiu até agora 160 curtidas. Estou mandado mensagens para os amigos e pedindo para curtirem, pois vale nota. A gente achou estranho ganhar nota em cima das curtidas, mas o fato de compartilhar o que aprendeu é legal”, afirma a garota, que está fazendo trabalho sobre leptospirose.

Até a publicação desta reportagem, Isadora Faber tinha alcançado mais de 900 curtidas no trabalho sobre a prevenção de HPV compartilhado por ela na página do “Diário de Classe” nesta terça (7).

Propaganda preventiva
A metodologia de avaliação foi aplicada em quatro turmas de duas escolas particulares da Grande Florianópolis, em junho. A última turma, onde estuda Isadora Faber, foi autorizada pelo professor a postar o material na rede na última sexta-feira (3) e tem até a próxima sexta (10) para que cada trabalho alcance 250 curtidas.

“Na hora em que propus, não teve um aluno que não reclamou. Mas, depois, quando viram que as pessoas estavam curtindo, gostaram da ideia. Eles tinham medo de que as pessoas não gostassem”, detalha o professor.

Marcelo Soccio conta que teve apoio da direção de ambas escolas para aplicar a metodologia. O resultado deve ser utilizado na especialização que está fazendo em Ensino da Ciências. Ele disse que um dos critérios é que, ao menos um participante do grupo, tenha cadastro na rede social.

Em seu perfil, a jovem criticou a avaliação do professor (Foto: Facebook/Reprodução)

Em seu perfil, a jovem criticou a avaliação do
professor (Foto: Facebook/Reprodução)

No entanto, conforme a criadora do “Diário de Classe”, o professor não explicou a ideia em sala. “Ele só disse que a nota era pelas curtidas e quem não alcançasse teria uma nota menor. Não teve justificativa. Muitos colegas estão correndo para conseguir essas curtidas”, diz a jovem.
Vi as críticas, mas tem que ter respeito. […] Quem trabalha com educação elogiou. Fiz [a avaliação] com base em leituras e no que estou estudando”

Marcelo Soccio contesta as críticas. “Vi as críticas, mas tem que ter respeito. Alguns me chamaram de burro. Li e pensei. Quem é essa pessoa para me criticar? Ela estudou para isso? Quem trabalha com educação elogiou. Fiz com base em leituras e no que estou estudando”, comenta.

O professor diz ainda que, independente dos comentários negativos, pretende fazer outras avaliações semelhantes. “Vou fazer outros trabalhos que eles terão que postar na rede, mas as regras vão mudar: será por visualizações, compartilhamentos. Tem que mudar a regra, adolescente não gosta de mesmice”, afirma.

O G1 não conseguiu contato com a direção da escola e com o Conselho Estadual de Educação. Questionado sobre a questão, o Ministério da Educação não havia se posicionado sobre o assunto até a publicação desta reportagem.

‘Diário de Classe’
Isadora Faber ficou conhecida após criar a página no Facebook “Diário de Classe”, em 2012. Ele ganhou repercussão nacional rapidamente ao denunciar problemas em uma escola pública onde a adolescente estudava.

Atualmente, 590 mil pessoas “curtem” a página na rede social. O exemplo de Isadora passou a ser referência para outros perfis semelhantes e, em fevereiro de 2013, a adolescente entrou para a lista do jornal inglês “Financial Times” entre os 25 brasileiros de destaque.

Em agosto de 2013, ela lançou uma organização não governamental (ONG) batizada com seu nome. Agora, Isadora está lançando um site para denúncias de problemas em escolas de todo país.

“Agora estudo em escola particular, mas meu objetivo com o ‘Diário de Classe’ continua sendo melhorar o ensino público. Este site agora é para todas as escolas, públicas e privadas”, explica.

dica do Rogério Moreira

Go to Top