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Menos trigonometria, mais pensamento crítico: Especialista do MIT sugere estratégias contra ‘passividade’ de alunos

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Jennifer Groff defende ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)

Jennifer Groff defende ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)

Jennifer Groff, pesquisadora-assistente do Laboratório de Mídias da universidade americana, defende mais flxibilidade em sala de aula para incorporar jogos, projetos e se livrar de antigas disciplinas desconectadas da realidade dos estudantes.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

Disciplinas de pouca aplicação prática e ensino de conteúdo distante do contexto real são prejudiciais aos alunos por ensiná-los a pensar de um modo linear, que não os prepara para o mundo. É o que diz a especialista americana em educação Jennifer Groff, pesquisadora-assistente do Laboratório de Mídias (Media Lab) do MIT (sigla em inglês para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Groff é autora de estudos sobre ensino personalizado, inovações em sistemas de aprendizagem e uso de jogos e tecnologias em sala de aula.

Em entrevista à BBC Brasil em São Paulo, onde atuará como diretora pedagógica da escola Lumiar, Groff faz coro ao crescente número de especialistas internacionais que defendem um ensino mais baseado em habilidades e competências do que em disciplinas tradicionais.

Ela também defende que a mudança na base curricular brasileira (documento do Ministério da Educação atualmente em fase de consulta pública) é uma oportunidade para dar flexibilidade para que professores possam adotar jogos, brincadeiras e projetos em sala de aula.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Uma das áreas que você estuda é aprendizagem por jogos. O que, na sua experiência, tem funcionado ou não em termos de jogos em sala de aula?

Jennifer Groff – Em nosso laboratório, buscamos jogos que envolvam (o aluno) em experiências e permitam a imersão em um conceito – em vez de um jogo que simplesmente o instrua a fazer uma tarefa.

Por exemplo, para ensinar a tabuada, brincadeiras com blocos permitem às crianças perceber que “dois blocos mais dois formam quatro”.

Não gostamos de jogos em que o aluno completa quatro perguntas de matemática para ganhar o direito de atirar em alienígenas e em seguida, “ok, a brincadeira acabou, é hora de resolver mais uns problemas de matemática”.

Tentamos ajudar os professores a verem o valor de um aprendizado mais voltado à brincadeira, explorando um tópico em vez de “encher” a cabeça dos alunos com ideias.

Videogames comerciais também podem ser usados de modo eficiente. Civilization e Diplomacy já foram usados por bons professores como ferramenta para engajar os alunos em temas como negociação, por exemplo. (…) E (é importante) deixar as crianças liderarem (o processo), deixar que elas sejam professores também.

BBC Brasil – Muito tem sido dito sobre o aprendizado não mais centrado no professor, e sim nos alunos. É a isso que você se refere?

Groff – Exatamente. Muitos dos jogos que desenvolvemos no nosso laboratório são criados para serem jogados socialmente, em grupos – somos seres sociais e não construímos conhecimento em isolamento.

Fazemos com que essa experiência individual e coletiva seja o centro (do aprendizado), e o professor (tem de) criar um ambiente dessas experiências para as crianças e, talvez depois, avaliar essas experiências – mais do que comandar um plano de aula.

BBC Brasil – O que tem sido mais eficiente nas transformações dos ambientes de aprendizagem nas escolas?

Groff – Sabemos por pesquisas e por escolas (bem-sucedidas) que o bom aprendizado é centrado no estudante, que constrói seu próprio conhecimento socialmente.

Em muitos currículos, temos aquela aula de 45 minutos de matemática, por exemplo, e (os estudantes) nem sequer sabem por que estão aprendendo matemática. Os estudantes não a recebem (o conteúdo) em contexto.

E contexto é algo poderoso – projetos, problemas, conceitos do mundo real. As escolas em que vejo um aprendizado mais robusto são as que trabalham nesses parâmetros (…) baseados em competências.

A questão é que (historicamente) não sabíamos como medir o desempenho dos alunos em grande escala, então os dividimos em séries com base em suas idades, todos aprendendo a mesma coisa ao mesmo tempo.

Hoje vemos que isso não ajuda muito. Entendemos hoje que o aprendizado é orgânico, individualizado, diversificado, e no entanto o jeito como gerenciamos nossas escolas não reflete isso.

Por isso que tem ganhado muita atenção o modelo de aprendizado baseado em competências – por exemplo, pensamento crítico e outras habilidades, em vez de dividir (as aulas) artificialmente em matérias.

BBC Brasil – E como conciliar isso com um modelo tradicional de provas e avaliações?

Groff – Esse é o problema. As avaliações são apontadas há muito tempo como o maior problema na educação, e com razão. Como muitos modelos são atados a elas, acaba sendo o rabo que balança o cão. (O ideal), em um futuro próximo, é a avaliação estar inserida no sistema de modo que as crianças nem sequer percebam (que estão sendo avaliadas).

Avaliações são essencialmente feedback, e todos precisamos de feedback.

Uma das razões pelas quais me interessei pelo aprendizado por jogos é que (…) um bom jogo consegue (via algoritmos) coletar o tempo todo dados dos usuários e se adaptar com base nisso (ou seja, compreender o que o aluno já aprendeu e sugerir-lhe conteúdo que complemente suas deficiências de ensino).

BBC Brasil – Nesse modelo, como saber o que cada criança precisa aprender até determinado estágio?

Groff – Não deveríamos colocar tais expectativas sobre as crianças, do tipo “até esta idade elas precisam saber isto”.

Provavelmente deve haver zonas de alerta – devemos nos preocupar se até determinada idade a criança não souber ler ou escrever, por exemplo.

Mas um dos problemas da educação é a expectativa de que todos os alunos (aprendam uniformemente), e não é assim que funciona.

Queremos que eles sigam seus interesses, que é de onde virá sua motivação, e temos de coletar dados para saber em que ponto eles estão em termos de competências.

Há um mapa de competências ainda em desenvolvimento (pelo MIT Media Lab). (…) São grandes áreas de domínio, como pensamento crítico, pensamento sistemático (levar em conta múltiplas opções, prever consequências e efeitos), pensamento ético, ou outras habilidades. Até mesmo matemática, línguas.

É possível medir esse desenvolvimento em crianças, assim como é possível acompanhar um bebê aprender a se mexer até ser capaz de correr.

Com essas medições, professores não precisariam (aplicar) provas, e sim permitir que os alunos tenham uma experiência de aprendizado poderosa e depois simplesmente monitorá-la.

BBC Brasil – Como avaliar matemática nesse contexto?

Groff – Passei meu ensino médio aprendendo álgebra, geometria, trigonometria, pré-cálculo e cálculo. E e não uso a maioria dessas coisas hoje. É algo totalmente inútil para a maioria dos estudantes, que acabam deixando de aprender coisas como finanças, estatística, análise de dados – e vemos dados diariamente, mas não sabemos tirar sentido deles.

A matemática é um grande exemplo de disciplina que precisamos olhar sob uma perspectiva de competência. Não precisamos de uma sociedade repleta de matemáticos, mas sim de pessoas com competência de equilibrar seu orçamento pessoal, calcular seus impostos.

BBC Brasil – Você mencionou pensamento ético. Como habilidades sociais como essa podem ser ensinadas?

Groff – De forma geral, é (levar em conta) múltiplas perspectivas sociais. Quanto mais você conseguir olhar (algo) da perspectiva de muitas pessoas e tomar decisões com base nisso, mais éticas serão suas decisões.

O MIT tem um jogo chamado Quandary (dilema, em tradução livre), que coloca as crianças em um mundo fictício com vários cenários em que não há uma resposta certa ou errada, mas sim decisões a tomar e consequências. É um exemplo desse aprendizado mais divertido e contextual.

Se entrarmos em uma escola tradicional e pedirmos ao professor que ensine pensamento ético, ele provavelmente não vai ter nem ideia de como fazer. E um jogo é perfeito para isso – brincando em cenários fictícios em vez de tendo uma aula. (…) A maioria das inovações ocorre justamente em escolas onde há liberdade para brincar.

BBC Brasil – É possível implementar esse ensino por competências em um país tão grande quanto o Brasil?

Groff – Com certeza. (…) A Finlândia, por exemplo, jogou fora seu currículo inteiro, porque quer que suas escolas sigam essa direção e viu que uma das maiores barreiras são essas estruturas rígidas do currículo.

BBC Brasil – O Brasil também está mudando sua base curricular. Quais os principais desafios e oportunidades disso?

Groff – O maior desafio é ter mais do mesmo, com uma roupagem diferente. Mas para qualquer país que reforme seu currículo há uma grande oportunidade: o documento pode moldar o dia a dia do aprendizado nas escolas. (…) Eu daria (esse documento) a professores de escolas públicas e perguntaria a eles se o modelo os convida a ensinar de um modo diferente.

As pessoas subestimam o impacto dessas estruturas, que são uma grande oportunidade de mudança. Por exemplo, em uma visita ao Reino Unido, vi que escolas da Escócia estavam adotando o ensino baseado em projetos (em que alunos realizam projetos multidisciplinares, em vez de aula tradicionais) e me disseram que isso só foi possível porque o novo currículo permitiu.

BBC Brasil – Você se aprofundou nas dificuldades do ensino brasileiro? O que vê como maiores desafios?

Groff – Não sei muito ainda, então não posso falar em termos específicos. Mas, globalmente, todos os sistemas educacionais estão tentando fazer que suas escolas sejam transformadoras – e uso essa palavra intencionalmente porque (a busca) é por um formato totalmente diferente.

No Centro para a Redefinição de Currículos (organização internacional cofundada por Groff), um dos trabalhos é ajudar os países a fazerem grandes mudanças nos documentos oficiais: tire (do currículo) aquele ano de trigonometria, você não precisa dele.

A maioria dos países tem medo de se livrar dessas antigas disciplinas e não percebe o impacto negativo que isso tem em seus alunos. Precisam pensar com mais coragem sobre a questão de habilidades e competências.

Tantas crianças nas escolas são tão passivas, absolutamente desengajadas, desmotivadas, e isso faz mal a elas. Estamos treinando-as a pensar de um modo linear e achatado, que não as prepara para o mundo. É mais crucial do que nunca pensar em como romper esse ciclo.

BBC Brasil – Vivemos em uma época em que ideias podem ser reforçadas por “fake news” e por algoritmos que conseguem expor usuários de redes sociais a conteúdos selecionados. Como ensinar pensamento crítico nesse ambiente?

Groff – É um ótimo exemplo de como, se colocamos as crianças em ambientes de aprendizado em que elas não são desafiadas a controlar suas próprias decisões, elas nunca vão refletir sobre essas questões.

Você quer que as crianças vão à escola para simplesmente obedecer e entrar na fila, ou quer um ambiente fértil em que elas floresçam como agentes no mundo?

Você não pode esperar que, em um ambiente em que as crianças têm de apenas obedecer, aprendam a ser cidadãos engajados e conscientes.

Projeto em presídio do ES vai reduzir pena de interno através da leitura

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Detentos vão frequentar aulas durante o projeto (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Detentos vão frequentar aulas durante o projeto (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Publicado no G1

Um projeto no Espírito Santo está ajudando presos do regime semiaberto a conquistarem a redução de pena por meio da leitura. O “Virando a Página” já funciona em uma penitenciária em São Mateus, no Norte do estado, e foi apresentado nesta segunda-feira (4) a 40 detentos selecionados da Penitenciária Semiaberta de Vila Velha (PSVV), na Grande Vitória.

A ideia é que os presos leiam até 12 livros por ano, o que vai implicar em uma redução de pena de até 48 dias dentro desse período. O objetivo é estender o projeto a outros presídios do estado.

“Há um ano esse projeto começou em São Mateus, vem dando certo, e a gente trouxe essa ideia agora para a Grande Vitória. O projeto piloto começa agora nessa unidade de semiaberto e a intenção é que dando certo, e vai dar, ele comece a funcionar em todas as unidades prisionais do estado”, explicou a defensora pública Roberta Ferraz.

O interno Magno Gabriel Coser vai ler O Pequeno Príncipe (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

O interno Magno Gabriel Coser vai ler O Pequeno Príncipe (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

O curso será coordenado por professores e alunos de uma faculdade particular de Vitória. No final da leitura de cada livro, haverá uma avaliação.

“Eles vão fazer a leitura dessas obras e nós vamos dar todo o apoio logístico, estaremos a todo momento junto a eles, apoiando o trabalho para que eles entendam. Depois, os detentos que têm até o ensino fundamental farão um resumo e os que têm até o ensino médio farão uma resenha, que é algo mais denso”, explicou o pedagogo Antônio Alves de Almeida.

As aulas da primeira turma de Vila Velha começam na próxima semana, mas o primeiro livro já foi escolhido: O Pequeno Príncipe.

“É importante frisar que O Pequeno Príncipe é aquela leitura que quem não leu, tem que ler. A cada idade que você faz essa leitura, da infância até a terceira idade, você descobre coisas novas, por isso ele é um clássico. E ele mexe com a nossa sensibilidade. Quando, por exemplo, o autor diz que você se torna eternamente responsável por aquilo que cativas, isso mexe com qualquer ser humano, é lindo”, disse o pedagogo.

O interno Magno Gabriel Coser foi um dos selecionados para o projeto. Ele disse que está ansioso para começar a leitura.

“Nunca li O Pequeno Príncipe, mas já li outros livros, sou um amante da leitura. Essa vai ser uma nova história, que a gente vai aprendendo dia após dia, como vou aprender com O Pequeno Príncipe agora”, disse.

E opinou sobre o projeto Virando a Página. “Isso ajuda qualquer um que quer conquistar seu objetivo de ir embora, não praticar nenhum delito mais. É uma oportunidade muito grande para nós, que estamos sem o direito de ir e vir.”

A expectativa é de que a leitura traga mais conhecimento e oportunidades para os internos. “Vai ressocializar, vai trazer mais capacitação para os nossos presos na oralidade, na comunicação, autoconhecimento até. isso vai ser estendido para outras unidades semiabertas, unidades fechadas e até a de presos provisórios”, falou a juíza da Vara de Execuções Penais, Patrícia Faroni.

Livros e avaliações

Ao longo do projeto, alguns livros utilizados serão:

O Pequeno Príncipe, de Antonie de Saint-Exupery
O Guardião, de Nicholas Sparks
O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafon
O Fio das Miçangas, de Mia Couto
O Menino do Pijama Listrado, de Jhon Boyne

Os resumos e resenhas serão avaliados por uma equipe voluntária com conhecimentos técnicos na área de educação, sendo necessário que o interno obtenha o mínimo de 60% na avaliação profissional. Serão considerados os grau de instrução e as possibilidades de cada indivíduo.

O projeto Virando a Página é realizado pela Defensoria Pública do Estado em parceria com uma faculdade particular de Vitória e apoio do Tribunal de Justiça do Estado e Secretaria de Estado da Justiça.

Novas avaliações vão medir criatividade de alunos, diz educador

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educad

Publicado em Folha de S.Paulo

Um dos maiores especialistas em tecnologia aplicada à educação do mundo, Paulo Blikstein, é brasileiro e dá aula na Universidade Stanford, nos EUA, escola que figura no topo de rankings internacionais.

Lá, ele participa de um grupo que desenvolve pesquisas educacionais seguindo metodologias científicas à risca.

Para verificar se uma determinada tecnologia melhora o desempenho de alunos, por exemplo, Blikstein e colegas desenham uma amostra, montam grupos de controle e replicam o modelo em diferentes escolas.

Entre seus estudos recentes, descobriu que deixar alunos fazerem experiências antes de ensinar teorias aumenta em até 25% o aprendizado.

Ele também tem participado da reformulação de sistemas tradicionais de avaliação de educação, como o Pisa, da OCDE. Para ele, o aluno do século 21 será avaliado pelo seu conhecimento, mas também pelas suas competências, como sua criatividade.

O pesquisador falou com a Folha durante uma passagem de férias pelo Brasil. Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha – Você é engenheiro de formação e acabou se enveredando pelos estudos de educação. Como foi essa trajetória?

Paulo Blikstein – Estudei na escola da Madalena Freire, filha do Paulo Freire, que não existe mais. Lá não havia notas nem provas, o currículo era decidido pelos alunos e pelos professores em conjunto. Depois disso, fui para lugares muito tradicionais como a Poli-USP. Entendi o potencial da educação quando ela dá para os alunos lentes diferentes para enxergar o mundo. Por muitos anos, nem sabia que existia essa coisa de nota na escola. A gente simplesmente fazia o melhor porque esse era o contrato tácito.

Você estudava porque gostava?

Estudava porque achava interessante. Claro que nem sempre você pode fazer o seu melhor em todas as áreas, mas você tenta. Na educação tradicional, a gente adestra as crianças a fazer o mínimo possível. Na experiência que tive era o contrário, a gente tentava fazer o máximo necessário para contribuir para o grupo e para o próprio desenvolvimento.

É a proposta de Paulo Freire.

Costumo dizer que Paulo Freire é o grande incompreendido da educação brasileira. Ele é o intelectual mais conhecido no mundo, mas aqui há uma interpretação politizada demais. A ideia dele era tornar a escola mais produtiva e transformadora.

É possível ter uma educação transformadora e produtiva no modelo de escola que predomina hoje no Brasil?

É difícil. Uma parte da minha preocupação como pesquisador é como traduzir os ideais que acredito em ações e em políticas públicas que possam ser implementadas. O problema é que as metodologias mais modernas de educação estão nas escolas de elite, mas as escolas públicas continuam presas no século 19. A questão é como será possível reproduzir tecnologias em baixo custo para atender a escola pública.

Isso será possível?

Sim. As tecnologias que permitem um aprendizado mais moderno, como kits de robótica, caíram de custo uma ou duas vezes nos últimos anos. Além disso, nos últimos tempos a gente acumulou muito conhecimento técnico e de pesquisa na área. Hoje existe uma aceitação muito maior de tecnologia aplicada à educação.

Os professores estão preparados para usar tecnologia na escola?

Eles foram pegos de surpresa e, para ter resultado, é preciso treinamento. Uma coisa é dar uma aula expositiva de ciências, outra coisa é estar em um laboratório de ciências ou de projetos. É preciso outro tipo de formação. Um bom professor tradicional não necessariamente será um bom professor de projetos.

O investimento em tecnologia, por si só, melhora a educação?

Não adianta sair comprando tablets para a escola. Para cada R$ 1 investido no hardware, é preciso R$ 9 no currículo e na formação de professores. A tecnologia nunca é um elemento isolado, mas funciona quando faz parte de um pacote que envolve currículo redesenhado, formação do professor e novas formas de avaliação.

Como avaliar os resultados de uma tecnologia aplicada à educação?

Muitas iniciativas de ensino acabam sofrendo muito pela falta de métodos apropriados de avaliação. Tem um monte de projeto educacional de tecnologia implementado em escolas de elite que dá certo, mas qualquer projeto em uma escola de elite vai funcionar. Muitas vezes a gente treina alunos em natação e mede se eles conseguem correr. O que se aprende fazendo experimentos de robótica ou programação não é só matemática, mas também é resolução de problemas, por exemplo.

As avaliações tradicionais, como o Pisa [exame internacional de educação que avalia 65 países em ciências, matemática e línguas] estão sendo redesenhadas para isso. A partir deste ano, o Pisa vai ter uma forma para medir habilidades não cognitivas.

A OCDE também quer ter, a cada dois anos, uma prova para medir habilidades do século 21. Acabei de participar de uma reunião com líderes de educação de vários países para decidir o que deve ser avaliado além de ciências, matemática e línguas. Os próximos rankings do Pisa vão mostrar quão criativos são os alunos, quanto eles conseguem resolver problemas etc.

Se a gente não fizer nada na educação pública brasileira, vai ficar claro que somos ruins em matemática, em ciências e que também somos pouco criativos. Não dá mais tempo de parar 20 anos para consertar os problemas de matemática e depois olhar o resto. Precisamos cuidar das coisas básicas, mas também precisamos avançar. Não fazer isso é mesma coisa que fechar aeroportos para consertar só estradas.

O Brasil ainda pode ser o líder mundial de uma revolução educacional como você sugere em um dos seus livros recentes?

Sim, o que conseguirmos fazer funcionar no Brasil vai ter uma aplicabilidade muito maior do que dá certo na Finlândia, que é um país de 5 milhões de pessoas. Um modelo que trabalha com custos baixos, com professores com salários defasados, com dificuldades estruturais e com alunos de baixa renda.

Crise econômica é uma desculpa para termos educação de má qualidade?

Crise não é desculpa porque o dinheiro da educação é mal gasto por causa de má gestão e de corrupção. É claro que precisa de mais dinheiro, mas tem coisas de baixo custo que poderiam ser implementadas.

Na Tailândia, por exemplo, estão instalando laboratórios de criatividade nas escolas públicas. São “fablabs”. Imagine se tivéssemos “fablabs” nas escolas públicas brasileiras? Quando o aluno se interessa pelo laboratório, ele passa a se interessar por outras coisas também.

Se a gente não fizer esse tipo de movimentação na escola brasileira vai ser muito difícil despertar o interesse dos alunos. O problema é que sempre quando estamos diante de um problema complexo, a gente busca a pílula mágica. Não tem bala de prata.

Para além dos testes

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Avaliações de aprendizado são limitadas, mas pensar o papel da escola de forma ampla não justifica esquecer que é função dela ensinar o básico

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Antônio Gois, em O Globo

“Sempre estudei em escola pública e tive professores incríveis. Hoje, as coisas que mais valorizo em mim — minha imaginação, minha paixão por atuar e escrever, minha curiosidade e prazer em aprender — são resultado da maneira como fui criado e ensinado. Nenhuma dessas qualidades que me fizeram ser tão bem-sucedido poderiam ser avaliadas por testes.” A declaração é do ator Matt Damon, e foi feita num encontro de professores nos Estados Unidos, em 2011. Não foi a primeira vez em que ele usou seu prestígio para criticar os testes padronizados nos EUA. A militância de Damon no tema é explicada por ser filho de uma especialista em educação infantil, Nancy Carlsson-Paige, bastante crítica do uso desses exames para avaliar professores e escolas.

O debate segue acalorado lá. Há duas semanas, o apresentador da CNN e colunista do “Washington Post” Fareed Zakaria escreveu no jornal americano um artigo em que criticava a prioridade dada ao ensino de ciências, tecnologia, engenharia e matemática naquele país, em detrimento da área de humanidades. Zakaria argumentou que os EUA sempre se saíram mal em testes internacionais de aprendizado, mas que nem por isso deixaram de ser a economia mais dinâmica, inovadora e empreendedora do mundo.

Para ele, isso acontece exatamente por causa do tipo de educação que agora estariam tentando defenestrar: “Essa abordagem mais ampla ajuda a desenvolver o pensamento crítico e a criatividade. Ciência e tecnologia são componentes cruciais desse tipo de ensino, mas também o são filosofia e inglês. Americanos devem ser cautelosos antes de imitar sistemas asiáticos bem-sucedidos na memorização de conteúdos avaliados em testes”.

Por outro flanco, os testes padronizados já eram alvo no mundo acadêmico desde que o prêmio Nobel de economia James Heckman, da Universidade de Chicago, passou a criticá-los com o argumento de que eles deixam de medir, segundo seus estudos, características da personalidade. São habilidades como persistência, motivação, capacidade de superar obstáculos e frustrações, de trabalhar em grupo, tão ou mais essenciais para o sucesso na vida adulta quanto o aprendizado de disciplinas tradicionais.

Em certa medida, o debate também acontece no Brasil. O novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, tratou do assunto em algumas entrevistas. Sem entrar em detalhes de como colocaria em prática a ideia, ele afirmou que uma de suas prioridades será estimular a criatividade em sala de aula, “para tornar a educação mais prazerosa”. Disse que avaliações nacionais são importantes, mas que não medem a contribuição das escolas para a formação ética e psicológica do aluno.

A pressão por bons resultados em exames cresceu no Brasil depois que a imprensa passou a fazer rankings de escolas a partir das notas divulgadas pelo MEC. Muitos diretores relatam histórias de famílias que, já desde a educação infantil, cobram do colégio bons resultados no Enem.

Reduzir a avaliação de um colégio a uma nota ou posição em ranking é mesmo um erro. Além de testes medirem apenas uma dimensão do aprendizado, seus resultados são influenciados por variáveis — especialmente o nível de pobreza e escolaridade das famílias — que nada têm a ver com o trabalho em sala de aula. A reflexão crítica sobre essas avaliações é necessária para melhorarmos a maneira como interpretamos seus resultados.

Há, no entanto, um cuidado a tomar: pensar o papel da escola de forma mais ampla não justifica esquecer que é função dela também ensinar o básico. E, no Brasil, nem isso estamos fazendo a contento em disciplinas de matemática, português, ou outras tradicionalmente avaliadas que, sim, são fundamentais na garantia do direito de aprendizado de todas as crianças.

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