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Vaquinha banca ida de filho de pedreiro e empregada para estudar em Harvard

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Reprodução/Facebook O estudante Rafael José da Silva, que fará intercâmbio nos EUA

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O estudante Rafael José da Silva, que fará intercâmbio nos EUA

Aline Torres, no UOL

Filho de pedreiro e empregada doméstica, Rafael José da Silva, 19, foi selecionado para um concorrido intercâmbio com duração de um ano na Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. A universidade norte-americana ofereceu 17 vagas, para as quais mais de cem estudantes se candidataram –a seleção não é feita por prova e comporta uma análise ampla, de experiências como estudante e pessoais.

Com renda familiar de, em média, 2,5 salários mínimos por mês, o estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) poderia ter desistido da vaga. Mas encontrou outra solução.

Sem recursos para bancar passagem, seguro-saúde, alimentação e estadia, ele abriu no dia 10 de outubro uma campanha na plataforma de financiamento coletivo Catarse. A meta era arrecadar R$ 50 mil até 31 de dezembro.
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Reprodução
Trecho da carta recebida de Harvard

Em apenas dez dias, ele conseguiu financiar a empreitada –o valor reunido até quinta-feira (2) era de R$ 86 mil, entre 948 apoiadores. As doações começavam em R$ 20 e não havia limite máximo. Como recompensa, nenhum prêmio gigantesco, apenas um agradecimento pessoal e fotos. Onze pessoas doaram R$ 1.000, mas a grande maioria foram valores menores.

“Fiquei muito surpreso com tamanho apoio. Eu não esperava atingir a meta tão rápido. Outros estudantes que passaram no mesmo intercâmbio anos antes tentaram arrecadar R$ 20 mil e demoraram dois, três meses. Só tenho a agradecer”, disse o universitário.

Com o excedente, Silva pode dispensar o auxílio mensal dos pais e ainda vai ajudar a bancar sua formatura.
Sonho de ser médico veio por causa do câncer da avó

Natural de Blumenau (SC), sempre estudou na Escola Estadual Santos Dumont, onde colecionou notas altas ao longo do ensino fundamental e médio.

A escola está situada na rua Amazonas, onde Silva nasceu e morou até ir para São Paulo. Tem 1.435 alunos e uma média de 510,7 no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), um pouco acima da média nacional, de 492,4. O jovem diz que a escola ofereceu a base e que ele buscou aprofundá-la.

Um dos motivos foi o episódio triste que viveu ao lado da avó Olindina, a quem era muito apegado. Ela foi diagnosticada com câncer quando ele tinha 13 anos. O sofrido processo da doença despertou no estudante a vontade de ser médico.

“Eu sempre tive muita curiosidade pelo funcionamento do corpo humano, as doenças e as curas. Com o câncer da minha avó, a medicina se tornou um destino natural para mim”, explicou.

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Reprodução/Facebook
Com amigos, o estudante Rafael José da Silva (de óculos) comemora intercâmbio

A mãe dele, Valdirene da Silva, 47, contou que com apenas quatro anos de idade o menino já entrava em sebos da cidade e pedia livros grossos de anatomia.

“Não queria brinquedo, só livros. Era engraçado voltar dos sebos com ele segurando um livro grosso embaixo do braço. Chamava a atenção”, lembra.

Aos dez anos, comprava tubos de ensaio para brincar com os amigos de laboratório. Gostava de se imaginar cientista.

“Foi a 1ª vez de avião, não sabia comprar passagem”

Decidido a fazer medicina, Silva logo definiu a instituição onde iria estudar: a USP (Universidade de São Paulo). Sem recursos para um cursinho pré-vestibular, desenvolveu um método para encarar a prova da Fuvest, uma das mais concorridas do país.

“Organizei um cronograma e comecei a estudar todo o conteúdo do edital. Baixava e fazia provas dos anos anteriores e trocava informações com quem já tinha passado no vestibular”, disse.

“Eu e meu marido saíamos para trabalhar e ele estava estudando no quarto. Quando voltávamos, à noite, ele ainda estava lá, ralando”, contou a mãe.

Tamanho esforço sensibilizou Valdirene, que sacrificou uma parte das economias e pagou uma passagem de avião e estadia em um hotel em São Paulo para ela, o marido e o filho durante o período das provas.

“Foi a primeira vez que viajamos de avião, eu nem sabia comprar a passagem. Mas achei que um pouco de conforto ia deixá-lo mais relaxado para fazer os exames”, contou Valdirene.

A “operação família” deu certo e o jovem foi aprovado entre os primeiros lugares, com apenas 17 anos.

“Sou muito grato aos meus pais. Eles não têm ensino superior, mas sempre me apoiaram a estudar. Chegavam em casa cansados e faziam os deveres de casa comigo. Quando eu desanimava, eles me incentivavam a continuar.”

“Investir nos estudantes é investir no futuro”

Devidamente matriculado na FMUSP e instalado na Casa do Estudante de Medicina –um alojamento fornecido pela faculdade para pessoas em condições de vulnerabilidade social–, Silva não parou de sonhar alto: agora queria ser selecionado para o intercâmbio na Harvard Medical School.

A parceria entre a faculdade de medicina paulista e Harvard existe há mais de dez anos, ajudou na formação de 92 estudantes brasileiros e rendeu mais de cem publicações científicas.

John Godleski, um dos fundadores do programa, explicou que o principal benefício é a total imersão nos jovens na pesquisa.

No Catarse, Silva escreveu que, “antes mesmo de entrar na faculdade de medicina, quando eu estava no ensino médio, já conhecia o programa de intercâmbio para Harvard e as histórias de alguns estudantes que nele puderam participar”.

“Da mesma forma como as histórias deles me inspiraram a buscar seguir uma carreira de excelência e a fazer pesquisa científica, minha história pode servir de inspiração a muitos outros jovens com grande potencial em nosso país. Investir nos estudantes é investir no futuro.”

Em dois anos de curso na FMUSP, participou de extensas atividades extracurriculares, de monitoria e se tornou tutor no MedEnsina, um cursinho pré-vestibular voluntário organizado por alunos para ajudar jovens sem condições de bancar aulas privadas.

O bom desempenho e as experiências pessoais chamaram a atenção da instituição americana e, no dia 27 de setembro, Silva recebeu a confirmação no intercâmbio. Em uma carta, o chefe do Center for Interdisciplinary Cardiovascular Sciences, Masanori Aikawa, disse ter gostado do seu perfil.

Em Boston, o estudante vai trabalhar em uma pesquisa na área de cardiologia sobre aterosclerose –desenvolvimento de placas de gorduras nas artérias do corpo que pode causar doenças como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), duas das principais causas de mortalidade no Brasil.

Com o dinheiro garantido, Silva já deve viajar no final de janeiro do ano que vem.
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Arthur Japin virá à Flip para lançar romance sobre Santos Dumont

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Alberto Santos Dumont na cesta de um balão, no momento da decolagem. - Arquivo

Alberto Santos Dumont na cesta de um balão, no momento da decolagem. – Arquivo

 

Autor best-seller faz do livro uma investigação sobre coração do aviador

Guilherme Freitas, em O Globo

RIO — Depois do suicídio de Alberto Santos Dumont, em 1932, no Guarujá (SP), o legista encarregado de embalsá-lo tomou uma daquelas atitudes que fazem a realidade parecer mais fantástica do que a ficção. Por motivos nunca esclarecidos, removeu em segredo o coração do inventor do 14-Bis e o guardou, preservado em formol. Só o devolveu ao governo 12 anos depois — desde então ele está a salvo em um monumento no Museu Aeroespacial, no Rio.

O roubo do coração de Santos Dumont é o ponto de partida do romance “O homem com asas”, que o holandês Arthur Japin lançará, pela editora Planeta, na 14ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 29 de junho e 3 de julho. Com 20 anos de carreira, nove livros publicados e centenas de milhares de exemplares vendidos na Europa, o autor de 59 anos encontrou naquela cena insólita uma porta de entrada para escrever sobre um personagem que o fascina há anos: o de um homem deslocado, tímido e solitário que, no entanto, alcança a façanha do primeiro voo mecânico da História.

— Sempre me interessei por personagens que não se encaixam direito no mundo e, por isso mesmo, dão um jeito de transformá-lo para realizar seus sonhos. Santos Dumont cresceu acreditando que poderia voar. Quando diziam a ele que ninguém era capaz disso, ele pensava: “eu serei” — diz Japin ao GLOBO, por telefone.

“O homem com asas” é construído como uma investigação sobre o coração do aviador. Na trama de Japin, o legista se revolta contra a tentativa do governo Getúlio Vargas de acobertar o suicídio de Santos Dumont, que teria se matado pelo desgosto de ver aeronaves sendo usadas pelo regime para bombardear São Paulo durante a Revolução de 1932. Com a polícia em seu encalço, o médico tem a ajuda de amigos do aviador para proteger o coração.

Ao mesmo tempo, o romance narra a vida de Santos Dumont, da infância na rica fazenda de café do pai, em Ribeirão Preto (SP), em fins do século XIX, aos experimentos com dirigíveis e aviões em Paris, no início do século XX. Japin mostra como a imaginação do jovem Alberto foi influenciada pela moderna maquinaria do cafezal e pelas aeronaves mirabolantes dos livros de Jules Verne, autor de clássicos da literatura fantástica como “A volta ao mundo em 80 dias” e “Viagem ao centro da Terra”.

DESILUSÃO COM AVIÕES NA GUERRA

O escritor holandês Arthur Japin - Divulgação / Corbino

O escritor holandês Arthur Japin – Divulgação / Corbino

Lançado em setembro na Holanda, “O homem com asas” já vendeu mais de 30 mil exemplares no país. E pode fazer ainda mais sucesso, a julgar pelas vendas expressivas de romances anteriores de Japin. Inspirado em uma das amantes do poeta italiano Casanova, “Os olhos de Lúcia”, único livro seu editado no Brasil até hoje (pela Companhia das Letras), vendeu 380 mil cópias em todo o mundo. Outros de seus romances históricos, como “Vaslav”, sobre o dançarino Nijinski, tiveram números parecidos. Japin diz ter se impressionado com a reação dos leitores holandeses à história de Santos Dumont.

— As pessoas ficavam fascinadas e me diziam: por que nunca tínhamos ouvido falar dele? Infelizmente, pouca gente fora do Brasil conhece essa história. Todo mundo acha que os irmãos Wright são os pais da aviação, mas eu adoro defender Santos Dumont. Hoje, posso dizer que ele é mais conhecido na Holanda.

Para reconstruir a vida de seu personagem, o autor veio várias vezes ao Brasil, guiado por seu companheiro, o escritor americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, que também participará da Flip. Japin buscou ainda detalhes curiosos que iluminassem a personalidade de Santos Dumont. Quando se mudou para Paris, por exemplo, o aviador pendurou a mesa e as cadeiras no teto da sala, a dois metros do chão. Os convidados precisavam subir escadas para se sentar, mas faziam as refeições como se estivessem em pleno voo.

— Foi o detalhe das cadeiras que fez com que eu me encantasse por Santos Dumont. É como se ele tivesse uma necessidade profunda de se descolar do chão — diz Japin, que usou a imaginação para preencher as lacunas nas biografias do aviador, criando personagens e diálogos. — A ficção começa onde terminam as pistas dos arquivos.

Uma das lacunas nas biografias de Santos Dumont é sobre sua sexualidade, motivo de debates entre pesquisadores até hoje. No romance, Japin retrata o aviador como homossexual e sugere um relacionamento entre ele e o mecânico Albert Chapin, que trabalhou com o brasileiro em suas principais invenções. Japin diz que o tema não deveria ser tratado como tabu.

— Para mim, não há dúvidas de que Santos Dumont era gay. Por algum motivo, no Brasil, algumas pessoas não gostam de ouvir isso. Mas há muito material da época sobre seu jeito feminino e o preconceito que sofria por isso.

Além do preconceito, o aviador sofreu com o destino dado à sua criação. No início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, chegou a visitar chefes de Estado para defender que o avião fosse usado em missões de paz, não bombardeios. Japin acredita que essa desilusão fez com que o brasileiro desistisse de disputar com os irmãos Wright o crédito pela invenção e, por isso, acabasse menos lembrado que os americanos. Cenário que o holandês espera mudar com seu romance.

— Mais que o avião, o legado inspirador de Santos Dumont é sua bravura. Enquanto muitos tentavam voar e fracassavam, ele foi em frente. Vocês já o conhecem bem, mas para mim é um prazer trazê-lo de volta para o resto do mundo. Como escritor, tudo que você espera é que o leitor ame seu personagem tanto quanto você.

 

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