Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Azevedo

Editora portuguesa Cotovia planeja distribuir seus livros no Brasil

0

 

book-2388213_960_720

Maurício Meireles, no Painel das Letras

A Cotovia, dona de um dos melhores catálogos literários de Portugal -com uma coleção respeitável de literatura brasileira-, planeja distribuir seus livros no Brasil.

A casa estuda uma forma de lidar com a burocracia alfandegária dos dois países -e planeja ter um representante no Brasil para consolidar a operação e conseguir preços mais baixos do que os das edições importadas hoje disponíveis aqui.

Desde a morte de André Jorge, em agosto de 2016 -figura conhecida como irredutível em relação à qualidade do que publicava-, a direção da casa foi assumida por Fernanda Mira Barros.

“Gostaria de chegar aos meios universitários, com bons preços. Essa a nossa ambição por ora”, diz ela.

Mira Barros ainda decide quais livros trazer ao país, mas aposta nos clássicos greco-latinos -uma das joias de seu catálogo- e uma coleção de clássicos lusitanos.

A ideia é continuar a investir em autores brasileiros em Portugal -em outubro, sai por lá “Tempo de Espalhar Pedras”, de Estevão Azevedo. A editora busca apoio para criar uma bolsa de criação literária para autores brasileiros.

Professor interpreta ‘Show das poderosas’ em sala de aula

0

Raul Azevedo faz coreografia do clipe de Anitta para os alunos e vira hit no YouTube
Vídeo já tem mais de 80 mil visualizações

Eduardo Vanini e Leonardo Vieira, em O Globo

RIO – Desde que estourou, a música “Show das poderosas”, da cantora Anitta, pode ser escutada em qualquer canto do Brasil. Na internet, entre tutoriais e versões que pipocam no YouTube, a performance do professor de química Raul Azevedo é um dos mais recentes desdobramentos desse sucesso. Com mais de 80 mil visualizações, o vídeo mostra ele fazendo a coreografia completa da canção em plena sala de aula, enquanto arranca gritinhos e gargalhadas dos estudantes.

— Costumo sempre levar uma novidade para os alunos. Como trabalho com adolescentes e leciono uma matéria um pouco complicada, eles já chegam em sala com aquela tensão, temendo dificuldades. Então, sempre tento fazer algo para que tenham prazer em estar ali — conta o professor.

Seguindo essa lógica, Raul usa com frequência recursos como bordões, canções e, quando possível, versões musicais em que incorpora o conteúdo da disciplina. Os alunos, segundo ele, adoram e acabam ficando mais próximos do professor.

A sua performance do “Show das poderosas” foi preparada, inicialmente, para uma gincana cultural e esportiva de um dos colégios onde ele trabalha. Na ocasião, ele apresentou a versão junto com outros professores. Para aprender a coreografia, ele contou com a ajuda da irmã, com quem ensaiou por duas semanas, durante as horas vagas.

— Desde a apresentação, a coordenadora do colégio passou a falar com os alunos para que me pedissem para mostrar a dança. Aí todo mundo começou a pedir — diverte-se.

A versão que está no YouTube foi gravada por um aluno, sem que Raul percebesse, na última quarta-feira (19), após uma aula de cinética química, numa turma de terceiro ano do ensino médio do Colégio Futuro Vip. Agora, com o sucesso, estudantes dos sete colégios onde ele trabalha não se cansam de pedir para que repita a performance. De quebra, Raul recebeu uma enxurrada de mensagens pelo Facebook, onde também ganhou mais de 500 seguidores.

Feliz com o resultado, o professor conta que todos os colégios apoiam sua postura em sala de aula. Afinal, na opinião dele, trabalhar assim também mostra como está satisfeito com sua profissão.

— Todo mundo conhece a seriedade do meu trabalho. Também tive professores que ensinavam de um jeito mais descontraído e sempre gostei muito deles. Acho que a aula não precisa ser engessada para ser boa — diz.

A imortal baiana do candomblé

0

Mãe Stella é a primeira ialorixá na Academia de Letras da Bahia

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Cynara Menezes, na Carta Capital

Não sem espanto a mãe de santo Stella de Oxóssi recebeu a notícia de sua eleição, na quinta-feira 25, para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia, lugar ocupado no passado pelo poeta Castro Alves. Ao contrário do hábito dos candidatos nesta e em outras praças, Stella não tinha feito campanha. “Levei um choque, pois é uma coisa que não é comum”, diz a ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, primeira mãe de santo acadêmica do País. “Depois vi que foi a comunidade que proporcionou isso e achei uma recompensa.” A posse será em setembro e ela confessa não saber exatamente qual seu papel na Academia.

O título não é meramente honorífico. Mãe Stella publicou seis livros, bem mais do que alguns imortais da Academia Brasileira. Nascida Maria Stella Azevedo dos Santos, formou-se em Enfermagem pela Escola Bahiana de Medicina. Foi enfermeira durante 30 anos até ser escolhida, em 1976, mãe de santo do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das casas de candomblé mais importantes e tradicionais do estado, fundada em 1910. O último de seus livros é uma antologia dos artigos publicados quinzenalmente no jornal A Tarde. Escreve à mão e suas “filhas” digitam o texto. “Sou analfabeta em computador.”

Na quinta-feira 2, a ialorixá completou 88 anos. Ela desce as escadas do sobrado onde vive com certo esforço, mas sem o apoio de ninguém. Por causa da dificuldade de locomoção, passa a maior parte do tempo no andar de cima da casa. Só desce para acompanhar a cerimônia de culto a Xangô, orixá da Justiça, às quartas-feiras, ou para receber visitas. Seu cérebro continua, porém, afiado. “Envelhecer é uma briga constante entre o que a mente pode e o corpo não deixa.”

A ialorixá tem o costume de assistir ao noticiário na televisão, ler jornal e revistas. “Gosto de saber das coisas. Se a gente não se informa, vira inocente útil.” Em suas colunas de jornal, conta histórias antigas, fala de espiritualidade, do candomblé e da atualidade. Em um dos textos mais recentes, criticou os sacerdotes que confundem religiosidade com fanatismo e aqueles que utilizam a religião como meio de enriquecimento, inclusive no próprio candomblé. “Alguns acham que o barato da religião é ficar rico baseado na crença alheia”, provoca. “Mas religião não é meio de vida.”

Bem informada, ela acompanha as polêmicas entre líderes evangélicos e homossexuais. O candomblé não é contra os gays e nele não existe a palavra pecado, explica. “Se Deus consentiu que existisse, quem pode ser contra a homossexualidade? Se é um assunto que não prejudica o outro, temos a obrigação de ser felizes.” Ela desmente, com bom humor, a crença frequente entre gays de que o orixá Logun-Edé seria homossexual, por aparecer na tradição como meio homem, meio mulher. “Logun-Edé foi morar com a avó Iemanjá e, como era o único homem no pedaço, passou a se vestir como as mulheres de lá. É mito que seja gay. Mas é um bom mito.”

Na Bahia, os seguidores do candomblé sofrem com o preconceito disseminado por pastores evangélicos, mas esse não é assunto do seu interesse. “Não tenho tempo para perder falando desse tipo de gente, para fazer guerra santa”, diz. “Porém, até Jesus, se fosse deste tempo, iria procurar a defesa dele, não ia sofrer calado.” Se a líder espiritual não fala, outros integrantes do terreiro estão atentos e participam das articulações políticas contra a intolerância religiosa. Mãe Stella lembra de quando Mãe Aninha, a fundadora do Opô Afonjá, foi ao Rio de Janeiro, em 1934, se queixar a Getúlio Vargas da proibição ao candomblé, e conseguiu. O Decreto 1.202 instituiu a liberdade de culto no País.

Tombado como Patrimônio Histórico em 1999, o Ilê Axê Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha em uma enorme fazenda, que ocupava quase todo o atual bairro. Chamava-se Roça de São Gonçalo. Mãe Aninha, com medo de o terreno ser confiscado pela polícia, prática comum na época, foi ao cartório registrar a propriedade. Quando o funcionário perguntou “Em nome de quem?”, a mãe de santo respondeu: “Xangô”. Como não era possível, Mãe Aninha criou a Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, com ata, presidente e tudo o mais, em nome da qual as terras acabaram registradas.

“Ela era uma mulher de visão. Costumava dizer que queria ver todos os filhos a serviço de Xangô com anel no dedo, ou seja, formados”, conta Mãe Stella. Em honra à matriarca, a escola Eugênia Anna dos Santos funciona desde 1986 no terreiro. Atualmente, 350 crianças cursam o ensino fundamental. Além das aulas de matemática, português e demais disciplinas, elas aprendem história e cultura afro-brasileira, com noções da língua iorubá. Com o tempo, o terreno de Mãe Aninha foi invadido e se transformou em bairro. Na parte interna do terreiro, murado para evitar novas invasões, vivem atualmente cerca de cem famílias.

Mãe Stella é a quinta sucessora de Aninha. Depois da fundadora vieram Mãe Bada, Mãe Senhora e Mãe Ondina – a tradição do Opô Afonjá é de vitaliciedade e matriarcado. Stella, cuja mãe morreu quando tinha 7 anos, foi criada por um casal de tios, uma família de bens, “abastada”, como descreve. Seu tio era tabelião e a menina negra estudou em boas escolas da capital baiana. Aos 13 anos, foi iniciada no candomblé a partir da sugestão de uma conhecida. Nas biografias postadas na internet, diz-se que Stella apresentava então um “comportamento não esperado”. Pergunto o que era exatamente. Mediunidade?

“Que nada, era traquinagem. Eu, ao contrário das meninas da minha época, gostava de jogar bola na rua, subir no bonde. Além disso, falava sozinha, tinha meus amiguinhos que ninguém via. Aí alguém comentou: ‘Ela tem de fazer orixá’.” A menina foi levada, primeiro, ao terreiro do Gantois, onde esperou muito tempo e não foi atendida. A tia, brava, acabou por levá-la para “fazer orixá” no Opô Afonjá, com Mãe Senhora. “Mãe Menininha costumava dizer: ‘Você só não fez santo aqui por causa de um recado mal dado’.”

Tanto o Gantois quanto o Opô Afonjá sempre foram frequentados por artistas e políticos. O escritor Jorge Amado, o antropólogo Pierre Verger e o artista plástico Carybé costumavam ir até lá para a cerimônia ou simplesmente para bater papo com Mãe Stella. De Carybé ela recorda o jeito brincalhão. “Era um molequinho.” Ao lado de Verger, a mãe de santo conheceu o Benin, mas se encantou mesmo foi com a Nigéria, terra de seus ancestrais.

“A Nigéria é Salvador, o clima, os costumes, as árvores. Uma vez dormiram uns nigerianos aqui em casa, depois de viajar muitas horas e um deles, ao acordar, olhou pela janela e disse: ‘Andei tanto para saltar no mesmo lugar’”, gargalha. Sobre os políticos, fala que recebeu todos, de Antonio Carlos Magalhães a Jaques Wagner, mas prefere não dizer o nome de seu predileto, para não provocar ciúmes. Filha de Oxóssi, orixá caçador, Mãe Stella diz ter incorporado deste o hábito de não falar muito. “Caçador fica atento, não fala. Quem fala muito se perde. Os antigos diziam que quem fala muito dá bom dia a cavalo.” Ela adora provérbios, tema de um de seus livros. “Sou uma menina tímida.”

Sobre a morte, Mãe Stella conta que, no candomblé, o espírito vira ancestral. “Não vou dizer que não me importo de morrer. Me importo, sim. Não gosto de morrer porque gosto de viver.” E a sabedoria conquistada com o tempo, Mãe Stella, é verdade? “É uma obrigação. Se Deus deu esse privilégio de viver tantos anos, como não aproveitar? Agora, a gente está sempre aprendendo, ninguém é completamente sabido”, ensina. “Aprendo muito com os jovens e com as crianças. Eles têm cada saque tão interessante.”

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Go to Top