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Obra mostra que Wilson Baptista foi mais que o rival de Noel

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Alvaro Costa e Silva, na Folha de S.Paulo

Esqueçam a polêmica com Noel Rosa (1910-1937).

Wilson Baptista (1913-1968) -que não levou uma surra, como se pensa, mas deixou o duelo como vilão- é bem mais e melhor que aquelas cinco músicas, entre as quais a deselegante “Frankenstein da Vila”, que marcaram sua disputa musical com o poeta da Vila Isabel.

É o que afirma a biografia “Wilson Baptista – O Samba Foi Sua Glória!”, escrita pelo músico Rodrigo Alzuguir, que acaba de chegar às livrarias.

Nela desvenda-se o talento nato que, batucando numa caixinha de fósforo, virou o compositor sofisticado cujo cancioneiro em nada fica a dever a Noel nem a outros gigantes da música no Brasil.

“A imagem de malandro, quase marginal, de tamanco, navalha e lenço no pescoço, atrapalhou o reconhecimento de Baptista como compositor de primeiríssimo time”, diz Alzuguir, 41.

Engenheiro de formação, ele toca piano. Em 2010, montou o espetáculo “O Samba Carioca de Wilson Baptista”, estrelando como ator e cantor.

WIlson Baptista e o gato Falla em foto d'O Cruzeiro. A foto está no livro "Wilson Baptista - O Samba foi sua Glória" de Rodrigo Alzuguir / Arquivo O Cruzeiro

WIlson Baptista e o gato Falla em foto d’O Cruzeiro. A foto está no livro “Wilson Baptista – O Samba foi sua Glória” de Rodrigo Alzuguir / Arquivo O Cruzeiro

Há dez anos, quando iniciou sua investigação, Alzuguir sentiu-se um Indiana Jones à caça de uma arca perdida do samba.

Oficialmente, a União Brasileira de Compositores dá Wilson Baptista como autor de 151 músicas. Mas o mergulho na pesquisa revelou que entre os anos 1930 e 1960 ele criou cerca de 600, o que faz dele um dos sambistas mais prolíferos da história.

“Ainda não foi possível chegar a um número exato. Isso porque ele vendeu muita letra e melodia. Mesmo assim, consegui descobrir quase cem músicas inéditas.”

Apenas a letra, em alguns casos; em outros, a partitura manuscrita. “Quando coincidia de juntar as duas, me sentia o mais feliz dos pesquisadores”, conta Alzuguir.

CENTENÁRIO

A biografia mostra que Baptista -cujo centenário de nascimento foi lembrado de maneira tímida no ano que está acabando- compôs quase que exclusivamente sobre o que viveu, cada samba caindo sob medida para pequenos dramas e aventuras.

Ganham a mesma dimensão na história tanto os sambas mais populares (“Meu Mundo É Hoje”, “Acertei no Milhar”, “Oh, Seu Oscar”) quanto os desconhecidos (“Não Sei Dar Adeus”, “Louca Alegria” e “Que Malandro Você É!”, este descoberto por Alzuguir e gravado em 2011 por Zélia Duncan).

Uma façanha do livro é fixar com reconstituição impecável territórios do Rio musical como a Lapa, a praça Tiradentes e o Café Nice (onde “de verdade nasceu o samba”, segundo Baptista).

E ainda resgatar personagens de anedotário rico como “compositores”: o italiano Kid Pepe, pugilista que quebrou duas costelas em lutas de circo nos subúrbios, e o português Germano Augusto, dicionário ambulante de gírias que fornecia as melhores para Aracy de Almeida.

Em tempos bicudos para biografias, num ano que será lembrado pelo debate em torno da autorização para livros do gênero, Alzuguir não teve problema com herdeiros.

“Mais que uma autorização assinada, recebi grande estímulo do motorista de táxi Vilson, filho do compositor, que infelizmente morreu antes da conclusão do livro.”

Quanto à polêmica, havia uma mulher no meio. Noel disputou com Wilson a mesma dançarina do cabaré Apollo, na Lapa -e perdeu.

Texto atribuído a Mário Quintana vira mantra de casamentos moderninhos

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Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

Roberto de Oliveira, na Folha de S.Paulo

“Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você…” Esse trecho do texto “Promessas Matrimoniais” vem causando burburinho e suspiros em casamentos.

É claro que nada disso acontece sob a tutela da igreja. Tratado como um poema, “Promessas” tornou-se uma espécie de mantra moderninho em oposição aos clássicos sermões dos padres.

Caiu nas graças daquela turma que não é chegada às celebrações tradicionais, geralmente casais jovens, de perfil, digamos, “descolado”.

Nesses eventos, assim como em redes sociais, sites e blogs sobre casamentos, “Promessas Matrimoniais” costuma ser atribuído ao poeta Mario Quintana (1906-1994), mas não é dele.

Foi criado em maio de 1998 pela escritora e colunista gaúcha Martha Medeiros, 52. O texto faz parte do livro de crônicas “Montanha-Russa”.

O casamento de Juliana Paes com o empresário Carlos Eduardo Baptista, no Rio, em setembro de 2008, ajudou a “bombar” “Promessas Matrimoniais” na web.

Só que a autoria estava equivocada.

Erro dos sites de celebridades, de quem realizou o casamento ou dos pombinhos?

Pastor queridinho dos famosos, Luiz Longuini, que celebrou a união da atriz, conta que sempre soube que o texto “era do Mario Quintana”.

Ele diz que Juliana Paes não sabia quem era o autor. “Depois do casamento descobri, pelo sucesso na mídia, que é da Martha Medeiros.”

Hoje, Juliana Paes jura que sempre soube que o texto era de Martha. “Gosto desse texto faz muitos anos. Muito antes de pensar em me casar.”

Para a fotógrafa carioca Fabricia Soares, 36, o poema é “lindo”.

“Há uma grande discussão na internet sobre a autoria. Uns dizem que é do Quintana, outros dizem que é da Martha Medeiros”, diz.

Durante a cerimônia de sua união com o fotógrafo Alexandre Marques, 42, a juíza bolou um texto que emocionou a todos, um “pot-pourri” de trechos que falavam dos noivos, suas manias e amores, e, de quebra, enxertava partes de “Promessas”.

O ambiente era a tradicional confeitaria Colombo, no centro do Rio, em uma área reservada para um almoço com 12 convidados, entre amigos e parentes.
Fabricia não conhecia o texto, tampouco o autor.

A juíza de paz Lilah Wildhagen, 56, não incluiu no discurso a parte que trata de sexo. “Evito porque o Conselho de Ética pode vir em cima da gente”, justifica. “Apesar de o sexo ser inerente ao casamento, não é mesmo?”

Às vésperas de celebrar 2.000 casamentos, Lilah conta que sempre usa trechos do texto nas cerimônias. “É uma forma de personalizar.”

A juíza pinça partes do texto com base em respostas de um questionário com 32 perguntas aplicado aos noivos antes da cerimônia.

A autoria? Ela ignora. “É de um autor desconhecido. Na internet, dizem que é de Mario Quintana. Não é. Nem dele, nem da Martha Medeiros, nem de Carlos Drummond de Andrade. Apesar de a Martha ser genial”, diz ela.

EFEITO COLATERAL

Segundo a professora Lucia Rebello, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em toda a obra de Quintana “não existe nada sobre casamento, promessas matrimoniais e sermões”. “Mesmo o estilo do texto não tem nada a ver com a poesia de Quintana.”

Martha, a verdadeira autora, lembra que talvez a ideia de escrever a crônica tenha surgido quando ela foi a um casamento de uma amiga.

Antes de entrar com os tópicos iniciados com a palavra “promete”, ela faz uma introdução na qual explica que “achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos”, mas que o sermão do padre lhe desagradava.

“Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe? [sic]’ Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões.”

Segundo a escritora, há uma série de textos creditados a ela incorretamente e textos seus atribuídos a outras pessoas. “É uma chatice com a qual a gente tem que aprender a conviver”, diz.

Martha considera “impressionante” o volume de créditos errados veiculados na internet. Cita nomes como Carlos Drummond de Andrade, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, que também costumam ser “vítimas” desse “troca-troca autoral”.

“Confesso que não gosto, mas não dá para fazer disso uma cruzada. É um efeito colateral da internet”, diz ela.

A escritora avisa que não gostaria de parecer “antipática”, mas que preferiria ser lida só em seus livros e nos jornais. “Além de autoria trocada, colocam enxertos, dão outros finais às histórias, criam finais melosos.”

Seja do poeta, seja da cronista, o que importa para esses casais é tentar cumprir as promessas. E ser feliz!

Se vivos, aos cem anos

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Ruy Castro, na Folha de S.Paulo

Incrível, Vinicius de Moraes faria cem anos em 2013. Logo ele, que não viveu nem para dar uma festa de 69 anos, como planejava, regada ao uísque Vat 69, popular então. Vate, em português, como sinônimo de poeta, já era uma palavra fora de moda em meados do século 20, e só se a empregava de brincadeira. Era como Vinicius a usava.

Quem também completaria cem anos neste ano era seu amigo Ciro Monteiro, um dos quatro ou cinco maiores cantores brasileiros do século, e que Vinicius dizia entender mais da vida do que Guimarães Rosa. Ciro morava na rua Silveira Martins, no Catete, e tinha conta no pipoqueiro da esquina. Os meninos da rua se serviam e, uma vez por mês, Ciro acertava com o homem. Não por isso, claro, Vinicius achava que ele era santo. De fato, a bondade de Ciro Monteiro se refletia até no jeito de cantar.

Outro centenário de 2013 seria o de Rubem Braga, igualmente amigo de Vinicius. Foi Rubem quem, num restaurante, apresentou o casado Vinicius à bela Lila, irmã de Ronaldo Bôscoli: “Vinicius, aqui Lila Bôscoli. Lila, aqui Vinicius de Moraes. E seja o que Deus quiser”. Ato contínuo, Vinicius abandonou sua mulher, Tati, e se casou com Lila. O próprio Rubem despertava paixões. Entre uma e outra, escrevia uma obra-prima em forma de crônica.

E quem, idem, faria cem anos em 2013 seria Wilson Baptista, que não tinha nada de santo. O autor de “Oh, seu Oscar!”, “Acertei no Milhar”, “Mundo de Zinco”, “Louco”, “Emília”, “Balzaquiana”, “Pedreiro Valdemar” e tantas mais, com ou sem parceiros, só pecou por ser contemporâneo de Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, Braguinha e Orestes Barbosa, tão bons de samba quanto de cartaz. Mas fique de olho, o Brasil vai redescobrir Wilson.

É impossível imaginar esses homens, se vivos, aos cem anos. Nem devemos. Não lhes cairia bem.

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