Posts tagged Barco

Carioca de 20 anos cria escola e bibliotecas em Marajó

0

Estudante de Direito, Luti Guedes transforma realidade dos moradores de comunidades ribeirinhas na ilha ao Norte do Pará

William Helal Filho em O Globo

Luti Guedes. O estudante de 20 anos, sentado sobre uma pilha de livros que levaria para comunidades ribeirinhas da Ilha de Marajó, No Pará. Paula Giolito / Agência O Globo

Luti Guedes. O estudante de 20 anos, sentado sobre uma pilha de livros que levaria para comunidades ribeirinhas da Ilha de Marajó, No Pará. Paula Giolito / Agência O Globo

RIO – Esta segunda-feira é um dia importante para a pequena comunidade de São Miguel, no município de Portel, que fica na Ilha de Marajó, no Pará. Nesta manhã, começa a funcionar uma escola pública que vai atender a cerca de 150 moradores da região. São pessoas que, até o semestre passado, viajavam duas horas de barco até o colégio mais próximo. Muitos deixavam de estudar por causa disso.

O responsável por reunir os recursos para a construção da casa com quatro salas de aula é um estudante de 20 anos, que mora a cerca de 2,5 mil quilômetros de distância, na Gávea, Zona Sul do Rio. Luiz Carlos Guedes, chamado de Luti pelos amigos, não tinha relação nenhuma com os moradores de São Miguel até 2009, quando fez uma excursão escolar para conhecer algumas comunidades ribeirinhas da ilha.

— Achei que estava só indo a um lugar bonito fazer fotos. Mas, na viagem, eu chorava muito vendo as condições dos moradores. Eram pessoas felizes, mas sem acesso a educação, saúde e outros direitos básicos. Ninguém se importava com elas. Eu não queria simplesmente ir embora, como se aquilo fosse uma visita ao zoológico. Decidi fazer alguma coisa a respeito — conta o aluno de Direito da PUC-Rio.

Luti foi embora, mas voltou. Várias vezes. Produziu cartilhas sobre direitos civis, levou uma engenheira agrônoma que ensinou os moradores a cultivar hortas comunitárias, ajudou a construir cinco bibliotecas (o acervo total já passa de dois mil títulos) e, hoje, comemora a abertura do colégio, batizado de Imagine: Uma Escola. Os professores são da prefeitura de Portel, mas Luti quer incentivar o intercâmbio de docentes de outras partes do país.

— A escola tem alojamento para receber professores de fora interessados em viver essa experiência. Ninguém precisa ir à África para ver o que tem no Brasil — argumenta Luti, que está em Marajó para acompanhar a abertura do colégio e matar a saudade dos locais, que já o têm como parte da família.

A vida de Luti e dos moradores de São Miguel não foi mais a mesma depois de 2009. O carioca estudava no Colégio Santo Agostinho, que, anualmente, promove a excursão CSA Sem Fronteiras, para levar alunos a comunidades na Ilha de Marajó. O objetivo é apresentar outra realidade, para incutir neles o espírito de “solidariedade cristã”.

No apartamento do carioca, filho de um engenheiro e uma professora, tem TV de LCD com som surround, ar condicionado e mais desses aparelhos comuns em residências de classe média alta no Rio. Ao se deparar com pessoas vivendo sem sequer saneamento básico ou luz, Luti não se conformou.

— Na hora, fiquei com um sentimento ruim de impotência. O que um garoto de 16 anos poderia fazer pra ajudar aquela gente? — conta ele.

Um ano depois, o adolescente estava de volta, com um tio médico que prestou atendimento aos moradores. Naquela segunda vez, Luti foi convidado para ser padrinho do recém-nascido Luan. Foi o pretexto ideal para “ter que ir a São Miguel sempre que pudesse”.

‘Os moradores são agradecidos’

São quatro horas de voo até Belém, mais 19 de barco até Portel e outras seis horas rio acima. Luti já refez o trajeto mais de dez vezes. Sempre com uma mala estufada de livros e uma mochila com algumas mudas de roupa.

A horta local é administrada por mulheres de São Miguel, que, com isso, sentem-se valorizadas. A cartilha de direitos informou sobre a importância de documentos de identidade, o valor do voto e a utilidade de órgãos como o Ministério Público. As bibliotecas do projeto “Sonho de papel” atendem a cerca de 400 pessoas de três comunidades.

As séries “Harry Potter” e “Jogos Vorazes” fazem o maior sucesso entre os ribeirinhos, assim como livros de Fernando Pessoa e Monteiro Lobato.

— Tem gente que não confia na capacidade dele, por causa da idade, mas o Luti já fez muito. Eu nem gostava de ler, e hoje leio bastante. As crianças adoram. Os moradores são agradecidos — elogia Andrei Pinheiro, de 20 anos, um líder comunitário de São Miguel que virou fã da série “As Crônicas de Artur”, do britânico Bernard Cornwell.

Em 2011, o universitário fundou sua ONG, a Lute Sem Fronteiras. Para realizar seus projetos, Luti faz vaquinhas entre amigos. Quando ele e os moradores de São Miguel resolveram fazer a escola, a prefeitura de Portel concordou em ceder professores, mas informou que não tinha dinheiro para a obra, orçada em R$ 10 mil. Metade desse valor foi doado por Marcos Flávio Azzi, fundador do Instituto Azzi, que busca investidores para trabalhos sociais. Para conseguir os outros R$ 5 mil, o carioca fez uma lista de cem amigos para arrecadar R$ 50 de cada. Acabou reunindo um total de R$ 16 mil. Tudo investido no projeto. A escola vai receber alunos desde a creche até o Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

— Quando me deparo com uma pessoa que canaliza toda a energia para ajudar o próximo sem visar a nada além do bem comum, me emociono, quero cooperar para que Luti se desenvolva cada vez mais — elogia Azzi.

Professora do Santo Agostinho, Kity Guedes, mãe de Luti, integrou o primeiro grupo de alunos e professores a ir a Marajó. Na volta, reuniu recursos para fazer poços artesianos no local.

— Depois, pensei: “Pronto. Fiz minha parte”. No ano seguinte, o Luti foi a Marajó e, na volta, não conseguia entender como não fiz mais por aquelas pessoas — conta ela.

O universitário, que este mês parte para um intercâmbio na Universidade Pontifícia Comillas, em Madrid, onde vai estudar Direito e Políticas Públicas, tem consciência de agente transformador. Ajuda os ribeirinhos, mas também os incentiva a não depender dele.

— São esses jovens que transformarão o país e servirão de inspiração para muitos outros — elogia Vera Cordeiro, fundadora da Associação Saúde da Criança, que conheceu Luti recentemente.

Agora, Luti planeja arrecadar dinheiro para construir um posto de saúde em São Miguel.

Alguém duvida?

A dura realidade marajoara

Localizada na Foz do Rio Amazonas, a cerca de 90km de Belém, Marajó mistura cenários paradisíacos e problemas sociais graves. Dos 16 municípios da ilha, nove estão entre os cem piores do Brasil, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado na semana passada. Dom José Luis Azcona Hermoso, bispo de Marajó, é uma voz que tenta chamar atenção não apenas para o pouco acesso a educação e saúde como também a ocorrência de crimes como tráfico de seres humanos e a exploração de menores de idade. Ele vem acompanhando de perto o trabalho da ONG Lute Sem Fronteiras, de Luti Guedes.

— Poucos têm coragem de enfrentar a dura realidade marajoara. Luti combate a gravidade da situação com cultura, leitura e educação. A comunidade precisa sair da mentalidade insular e conhecer o universo dos escritores — elogia o bispo. — Um grupo de alemães veio conhecer Marajó após a Jornada Mundial da Juventude, no Rio, e percebeu como São Miguel se destaca em termos de desenvolvimento social. O Luti está fazendo a diferença.

O carioca conhece o poder das ferramentas que usa:

— As pessoas se tornam vítima de tráfico de humanos por falta de opção. Elas são iludidas pelos criminosos. Quero dar opção a elas.

Adolescente cria imagens surrealistas com efeitos de edição

1

Zev Hoover, de 14 anos, criou série de fotos que lembram contos infantis
Imagens mostram contraste entre tamanho da pessoa e de outros elementos

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Zev Hoover, de 14 anos, cria imagens surreais em seu projeto de fotografia “Little folk” Reprodução de internet / Fiddle Oak

Publicado em O Globo

RIO – Esta imagem parece ter sido extraída de um livro de contos infantis, mas é, na verdade, uma montagem com fotografias. O criador dessa e de outras fantásticas montagens é o americano Zev Hoover, de 14 anos. O adolescente da cidade de Natick, em Massachusetts, criou a série “Little folk” (ou Gente pequena, em tradução livre para português), na qual trabalha desde agosto de 2011 com a colaboração de sua irmã, Nellie, de 18 anos.

Para criar suas fotos surrealistas, ele brinca em programas de edição com a proporção de tamanho. É possível perceber pela grandeza dos elementos das imagens em comparação com as – pequenas – pessoas. Basta ver como o próprio Zev aparece nas imagens: montar uma torre de baralhos sendo da altura das cartas, voar segurando duas penas enormes em cada braço, ou estar na companhia de outra pessoa em um barco, feito com palitos de sorvete e uma folha, iluminado apenas por uma vela.

Em seu blog pessoal, o adolescente mostra o making off das imagens. Por exemplo, a imagem na qual voa em um avião de papel foi feita em algumas etapas. Os aviõezinhos foram presos em fios, e estes colados em uma placa de isopor (que, segundo ele, é um difusor que cria uma luz agradável nos objetos). As fotos foram tiradas com uma lente “tilt and shift” – na qual cenários reais parecem miniaturas ou maquetes. Com a ajuda do irmão, Zev fotografou as pernas e depois a parte de cima do corpo.

 

1 2 3 4 5

O resultado do trabalho pode ser visto em sua conta no Flickr.

Canção ‘Octopus’s garden’, de Ringo Starr, vai virar livro infantil

0

O ilustrador Ben Cort será o responsável pelos desenhos

O ex-Beatles Ringo Starr vai lançar livro infantil Agência O Globo

O ex-Beatles Ringo Starr vai lançar livro infantil Agência O Globo

Publicado em O Globo

RIO – A canção “Octopus’s garden”, escrita por Ringo Starr, vai se tornar um livro infantil de figuras. O ilustrador Ben Cort, conhecido pela série “Aliens love underpants”, será o responsável pelos desenhos.

“É uma grande satisfação trabalhar com Ben Cort e a (editora) Simon & Schuster para as futuras aventuras do ‘Octopus’s garden’. Paz e amor, Ringo”, disse o ex-baterista dos Beatles em comunicado aos fãs.

O livro, que será lançado em outubro no Reino Unido, virá acompanhado por um CD com uma leitura feita por Ringo e uma versão inédita da canção, originalmente feita para o álbum “Abbey Road”, de 1969.

A ideia da música surgiu depois de uma viagem de barco que pertencia ao humorista Peter Sellers pela Sardenha, em 1968. Ringo pediu peixe e batatas de almoço, mas, no lugar, veio uma lula. O comandante do barco teria dito ao músico que polvos carregavam objetos brilhantes do fundo do mar para construir “jardins” perto de suas cavernas. “Octopus’s garden”, em português, é “Jardim do polvo”.

PA: Professores viajam 9 meses por ano para dar aula no ensino médio

0
Casa dos professores na vila do Aritapera, na região da várzea santarena. A casa é uma palafita de madeira, característica da região (foto: Acervo Pessoal)

Casa dos professores na vila do Aritapera, na região da várzea santarena. A casa é uma palafita de madeira, característica da região (foto: Acervo Pessoal)

Cristiane Capuchinho, no UOL

Passar 50 dias letivos vivendo em uma comunidade diferente durante nove meses do ano. Essa é a rotina de cerca de 1.300 professores do ensino médio no Pará. Os docentes participam de um programa modular que permite a estudantes de área rural continuarem sua formação sem sair da região em que moram.

Pela dificuldade em oferecer professores formados em doze disciplinas para alunos de pequenas comunidades rurais, foi criado o Some (Sistema de Organização Modular de Ensino) há 33 anos. Nesse modelo, em vez dos estudantes se mudarem, são os professores que viajam.

Durante o período de permanência do professor na escola, ele terá de dar conta de todo o conteúdo daquela disciplina que um aluno do sistema regular teria em 200 dias letivos. “Às vezes dou seis aulas para a mesma sala em um único dia. É um projeto de aula completamente concentrado”, explica o professor de matemática Edison Feitosa.

Na tarde de uma sexta-feira, Feitosa aguardava o horário para “tomar a voadeira” –espécie de lancha comum na região amazônica- e visitar seus três filhos e sua esposa em Santarém. O professor dava o primeiro módulo de aulas em uma comunidade considerada próxima da cidade, a quase duas horas de barco da área urbana de Santarém (699 km de Belém).

Edison aproveita para voltar várias vezes para casa para “os filhos reconhecerem o pai”, brinca. No seu planejamento do ano constam comunidades distantes até seis horas de sua casa.

O programa atende a 441 escolas e cerca de 33 mil alunos, segundo a secretaria estadual de Educação do Pará. As aulas do ensino médio seguem o mesmo conteúdo programático daquelas no ensino médio regular, com 12 disciplinas. A diferença é a concentração das aulas, divididas em quatro blocos de 50 dias letivos.

No primeiro módulo deste ano, os alunos da escola municipal Santíssima Trindade, na vila do Aritapera, tinham aulas de língua portuguesa e de inglês. Já na comunidade de Arapixuna, as aulas eram de física, matemática e educação física.

Comunidades

O sistema é uma parceria entre Estado, município e comunidade. O Estado oferece os professores, o município disponibiliza salas de aula em escolas e a comunidade rural deve se reunir para fornecer um lugar de estadia dos professores.

“As comunidades são muito diferentes. Já passei 50 dias dormindo dentro de uma sala da escola”, contou Feitosa, enquanto passava uma temporada na escola de ensino fundamental e médio Sant’Anna, na comunidade de Arapixuna.

O professor Eládio Delfino Netoro conta que as dificuldades não influenciam apenas a vida dos docentes. “Os estudantes estudam em locais improvisados, como barracões comunitários, igrejas e sedes de clubes de futebol”, explica.

‘Meu destino é viajar’

Na vida de Eládio, o Some apareceu como uma nova oportunidade de levar a vida viajando. Após deixar a Marinha Mercante, onde trabalhou por dez anos, Eládio cursou letras na UFPA (Universidade Federal do Pará). “O principal motivo que me levou a abraçar o ensino modelar foi o trabalho itinerante”, conta. “Meu destino é viajar.”

Casado e com três filhos, o professor deu aulas no primeiro módulo este ano em uma comunidade a cerca de quatro horas de viagem de Santarém. Na sua rota do ano, a comunidade mais distante é “Cametá, no município de Aveiro. São aproximadamente doze horas de viagem em embarcação da região”.

Apesar da aventura, o Estado usa o salário para atrair professores para a vida de “caixeiro viajante”. Em janeiro de 2013, os docentes recebiam uma gratificação no salário de R$ 2.862,76 por trabalharem no programa.

Das aventuras de Pi ao plágio de Scliar

2

1 g1

Norma Couri, no Observatório da Imprensa

No domingo (24/2), a premiação do Oscar pode reacender a polêmica do plágio ao escolher, para um das 11 indicações à estatueta, As Aventuras de Pi, de Ang Lee, baseado no livro do autor canadense nascido na Espanha Yann Martel, de 50 anos. No prefácio do livro, entre os agradecimentos, Martel concedeu “…já a centelha de vida devo ao Sr. Moacyr Scliar”. Morto aos 73 anos em 2011, no mesmo ano da publicação do livro de Martel, o médico gaúcho autor de 21 romances – fora os contos e os infantis – não pode se defender. Mas Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, conta no blog da editora que Scliar quis processar Martel (Folha de S.Paulo, 16/2/2013; ver “Scliar e o felino”). E no prefácio de Max e Os Felinos (L&PM) Scliar revelou sua decepção.

Ao saber dos comentários que Martel fez ao ganhar o prestigioso prêmio Booker no valor de 55 mil libras esterlinas com As Aventuras de Pi,Scliar estranhou. “Um escritor, do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim?” O canadense dizia que, depois de ter lido uma resenha desfavorável sobre o livro de Scliar por John Updike para o New York Times, concluiu: “Uma pena que uma ideia boa – um garoto num barco com um felino – tivesse sido estragada por um escritor menor”.

Publicado 20 anos antes, composto de três capítulos (“O tigre sobre o armário”, “O jaguar no escaler” e “A onça no morro”), Max e os Felinos foi traduzido para o inglês e o francês e conta a história de um jovem alemão, Max Schmidt, que, fugindo do nazismo, embarca para o Brasil num velho cargueiro, junto com animais do zoológico. Max sobrevive a um naufrágio criminoso, ele e um jaguar.

Ainda no prefácio do livro, Scliar lembra que a história do menino hindu Piscine Molitor Patel – Pi –, que se salva de um naufrágio junto com um tigre de Bengala, é diferente da sua. “Mas o leitmotiv é, sim, o mesmo. E aí surge o embaraçoso termo: plágio. Embaraçoso não para mim”, escreve o elegante Scliar, que logo diz que seu livro A Mulher Que Escreveu a Bíblia partiu de uma hipótese levantada pelo crítico norte-americano Harold Bloom, segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrito por uma mulher. Com uma diferença: Scliar colocou o trecho de Bloom na epígrafe do livro, e o enviou ao crítico.

Leituras e histórias

Em Fazenda Modelo (1975), Chico Buarque teria plagiado Animal Farm, do inglês George Orwell, escrito 30 anos antes? O Nobel peruano Mario Vargas Llosa teria plagiado em A Festa do Bode (2000) o correspondente Bernard Diederich em They Killed the Goad (Mataron al Chivo), escrito 12 anos antes sobre a era do ditador dominicano Rafael Trujillo? E, afinal, foi ou não plágio dos três autores do livro The Holy Blood and the Holy Grail, escrito em 1982, o livro de Dan Brown O Código da Vinci, lido por meio mundo em 2003 e que virou filme três anos depois?

Num ótimo artigo publicado no The New York Review of Books (edição de 21/2/2013), o biólogo e neurologista Oliver Sacks escreveu sobre as armadilhas da memória, “Speak, Memory” (Fala, Memória). E conta como ele próprio escreveu sobre fatos vividos na infância que foram mais tarde desmentidos pelo irmão. Oliver, o irmão garantiu, não estava presente quando aquilo aconteceu. Foi assimilado, imaginado, deduzido e impresso na sua memória ou teria sido uma traição da memória do próprio irmão?

Sacks fala na diferença entre plágio e criptomnésia, que poderia ser entendida como “plágio inconsciente”. Como exemplo cita a música do beatle George Harrison, “My Sweet Lord” (1970), que tinha enorme semelhança com “He’s So Fine”, gravada oito anos antes por Ronald Mack. Embora o juiz tenha considerado um plágio, refrescou o beatle acusando seu subconsciente: “Não acredito que ele tenha copiado deliberadamente”.

Helen Keller, cega e surda, tinha 12 anos quando publicou The Frost King numa revista e foi acusada de plagiar Margaret Canby na história infantil The Frost Fairies. A própria Helen assumiria que as apropriações aconteciam quando os livros eram “lidos” pela técnica de fingerspelling, diretamente nos dedos. Nesse caso ela não era capaz de dizer se a fonte tinha vindo de fora ou criada por ela mesma. Isso não acontecia quando os livros em Braille eram “folheados” pelas suas mãos. O humorista norte-americano Mark Twain, nascido Samuel Clemens, não se conteve e escreveu para Helen:

“Deus meu, como é incrivelmente engraçada, idiota e grotesca essa farsa de plágio! Como se existisse outra coisa na expressão humana que não fosse plágio! Porque basicamente todas as ideias são de segunda mão, conscientes ou inconscientes, sugadas de um milhão de fontes existentes no mundo.”

Oliver Wendel Holmes, médico como Scliar e considerado um dos melhores escritores do século 19, recebeu na festa dos seus 70 anos a confirmação do plágio de Twain, pelo próprio Twain:

“Holmes foi o primeiro grande escritor de quem eu copiei alguma coisa…”, Twain o saudou no discurso. “Quando publiquei meu primeiro livro, The Innocents Abroad, um amigo me disse que havia gostado muito da dedicatória, mesmo depois de ter lido a mesma em Songs in Many Keys,de Holmes. Surpreso, escrevi a Holmes, não pretendia roubar a dedicatória. E ele me respondeu dizendo que inconscientemente nós todos trabalhamos ideias acumuladas em leituras e histórias orais mas, ao criá-las, acreditamos que elas sejam absolutamente originais.”

Novos tempos

Mesmo que não esteja presente para fomentar a polêmica do plágio durante a premiação do Oscar, Scliar deixou registrada sua opinião no prefácio de Max e os Felinos. Disse que leu o livro de Martel “sem rancor… ali estava a minha ideia”. Mas, como Twain, ressalvou: “Uma ideia é uma propriedade intelectual. Isto não significa que não possa ser partilhada”.

Na sua coluna da “Ilustrada”, da Folha de S.Paulo, Scliar escreveu, em 2002:

“É plágio? Depende, o que dá margem a uma discussão não apenas literária: nesta época de copyrights, propriedade intelectual é uma coisa séria, e uma ação judicial me foi sugerida. Recusei. Não sou litigante.”

Go to Top