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A farsa da Garota Legal

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Claudia Penteado no Mulher 7×7

 

O prazer pode apoiar-se sobre a ilusão, mas a felicidade repousa sobre a realidade. (Chamfort)

 

Dia desses me atraquei com um livro atordoante, indicado pela amiga Martha Mendonça. Envolvida de corpo e alma numa pós graduação em literatura, devo confessar que tenho me dedicado muito pouco a leituras fora do escopo do estudo – especialmente agora, na fase de redação da monografia. Parecia uma grande transgressão ler, no meio disso tudo,  Garota Exemplar, da jornalista americana Gilliam Flynn – o livro que desbancou em vendas, quem diria, os 50 Tons de Cinza. Martha me garantiu que valia à pena. Depois de um breve pit stop numa pequena livraria – pensando, claro, “eles não devem ter” – rumei para casa na sexta-feira à noite com a obra malocada na bolsa, como se tivesse cometido um crime. Iniciei a leitura discretamente, ainda questionando minha decisão, e olhando de soslaio para meus livros acumulados na cabeceira, traídos, aguardando sua vez.

Resumindo: me afastando momentaneamente de Humerto Eco, Pierre Levy, Roger Chartier e tantos outros, passei o fim de semana mergulhada numa história de suspense que grudou em mim feito chiclete. O livro é bem escrito, dinâmico, competentemente estruturado, tem tudo para ser um romance de sucesso dos nossos tempos. Gilliam é ótima, escreve como homem e como mulher com perfeição e, tirando alguns momentos de ironia  tipicamente americana ou de distraída previsibilidade, criou um belo produto, do início ao fim.

Gostei de vários aspectos do livro, mas o que mais me interessou foi seu recado insistente e escancarado: a inexistência da Garota Legal. Esta seria uma abstração dos homens, uma fantasia tosca que nós, mulheres, numa cumplicidade disfarçada, ajudamos a construir. O livro é quase um ato de protesto contra esse estereótipo que, de alguma forma, se perpetua – em uma espécie de conspiração perversa forjada tanto por eles quanto por…nós mesmas. Ao longo da narrativa, a personagem se dirige frequentemente às mulheres leitoras, chamando a atenção para essa invenção, insustentável e frágil, construída através de um acordo tácito, mundano e superficial de “sobrevivência” entre homens e mulheres.

Mas, afinal, quem é essa Garota Legal? É a mulher disposta a quase tudo, com um largo sorriso no rosto – ou no corpo inteiro. Malha, trabalha, tem uma vida repleta de novidades, gosta de sair à noite, conta piadas, ama sexo casual a qualquer hora, sempre carrega um livro ótimo na bolsa (e consegue terminá-lo), está sempre cheirosa e de bom humor. Como descrita no livro: brilhante, criativa, gentil, atenciosa, esperta e feliz. Eternamente jovem, leve, relaxada. Divertida. Não tem ciúmes de seu parceiro – ele pode sair a hora que quer, voltar do jeito que bem entender e, ainda assim, ela estará vestindo algo sexy e achando graça naquele comportamento permanentemente adolescente e tipicamente masculino. De fato, isso a atrai. A Garota Legal tem um humor inabalável: não faz cara amarrada, ainda que tenha ficado horas sendo transferida de atendente em atendente no teleatendimento do cartão de crédito, não consiga um táxi para uma reunião muito importante ou perca um avião. Ainda que esteja exausta, a Garota Legal tem sempre a energia necessária para fazer uma boa massagem nos pés do parceiro quando ele chega igualmente cansado – e tudo sempre pode evoluir para algo mais…

Homens fantasiam com Garotas Legais e acreditam que elas existem porque elas fingem que – de fato – existem. Usam a persona até onde for possível – até que um dia a máscara começa a cansar. Porque é verdadeiramente exaustivo ser a Garota Legal. Ao estranharem o humor alterado de sua Garota Legal, os homens pensam que a relação caiu na rotina – ou que a Garota começou a envelhecer. Ela que, na verdade, nunca passou de uma ficção. Ela tentou manter a farsa o quanto pode, para manter seu relacionamento – afinal, ficar sozinha é um horror. No mundo de hoje, as solteiras são aberrações da natureza, malucas que não conseguiram “se arranjar”. Só as sorridentes e amestradas Garotas Legais se casam, arrumam namorado, fazem maridos entediados traírem suas esposas – essas, por sua vez, ex-Garotas Legais.

(mais…)

Blogs que conectam poesias

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Jovens de Caruaru e cidades circunvizinhas adotam a internet como ferramenta de produção literária

Foto: Bruno Brandão

Foto: Bruno Brandão

Jénerson Alves de Oliveira, para o Livros e Pessoas

Eles podem ser chamados de “literautas” (ou seja, literatos e internautas). Trocando a pena pelas teclas, jovens autores pernambucanos encontram na internet formas de divulgação de suas obras literárias. Segundo eles, os blogs são ferramentas poderosas de interação artística, e transformam-se em um parnaso virtual. Jovens de Caruaru e cidades circunvizinhas, como Bonito, Belo Jardim e Garanhuns adotam essas ferramentas. E, podem crer: têm dado certo.

Um exemplo é a estudante caruaruense Natali Gomes. Autora do blog ‘Pensando Em Tudo Antes de Dormir’, a jovem percorre vários estilos literários, como crônicas, poemas e contos. “Escrevo aquilo que eu gostaria de ler. Baseio-me em minha vida, mas escrevo como uma forma de tornar a realidade mais interessante”, confidencia. Natali aprendeu a ler aos 4 anos de idade, e desde cedo desenvolveu um gosto acurado pela leitura. Joaquim Manuel de Macêdo, Machado de Assis, William Shakespeare e Emily Bronte estão entre os autores que ela mais aprecia.

Apesar da adoção do blog, ela também tem o idílio de publicar obras impressas. Inclusive, a jovem escritora já tem 10 livros concluídos, manuscritos. Um deles, inclusive, está pronto para ir à gráfica. Mesmo sem querer muitos detalhes, ela adianta que a obra é um romance adolescente com aspectos realistas, permeando um clima de suspense em certos momentos.

A estudante Agnes Caroline lançou o blog ‘Bailarina Azul’ em julho do ano passado, mediante o incentivo de um professor. Ela explica que o nome do blog é carregado de significados. “A bailarina é meiga, doce e determinada, pois tem de romper limites físicos e psíquicos. A cor azul representa o infinito. Então, o blog representa essa poesia, que é meiga, doce, mas também determinada a ponto de alcançar o infinito inatingível”, explana. A predominância temática da poesia de Agnes é o cotidiano. Ela se inspira no simples, no que parece ser banal, e passa despercebido pelo olhar da maioria – mas é o instante-já captado pela sensibilidade da artista que se converte em palavras.

Até a poesia popular encontra espaço na web. O repentista Nogueira Netto, considerado um dos expoentes entre a nova geração no estado, também vale-se do seu blog para divulgar motes, sextilhas e sonetos, além de divulgar agenda de cantorias. Em uma postagem, ele conta que fez uma espécie de ‘desafio’ através do MSN com o poeta modernista Joabe Tavares, abordando a efemeridade da existência. Uma das estrofes improvisadas por Nogueira foi a seguinte quadra: “Sentindo que a razão / Tá findando pouco a pouco / A minha maior loucura / É pensar que não sou louco”.

Em Garanhuns, a universitária Gabriella Weiss, que cursa Psicologia, e se intitula “escritora amadora” é uma das mais profícuas artífices das letras naquela cidade. Ela possui um ‘mix’ de talentos: escreve poemas, contos, crônicas, compõe músicas e canta. Boa parte do seu material escrito está no blog ‘Alameda da Esperança’. No perfil, Gabriella destaca que tudo começou despretensiosamente. “Eu costumo escrever pra mim. Costumo vir ao meu blog e falar um pouco das minhas experiências, ou apenas falar sobre alguns princípios que aprendi na palavra de Deus. Percebi, então, que pessoas se identificaram, que algumas palavras as tocaram e as fizeram repensar sobre os planos do Senhor para elas. Isso é inspirador para mim”, exclama.

Além deles, nomes como Fernanda Thafnes, Glenny Lorrayne, Anderson Kleyton, Rafael Neto, Marcelo Kislitsyn, Núbia Maher, Andreza Ferreira, Taís Santos e Shirley Ferreira fulguram entre os novos nomes que transformam sentimentos em vernáculos, e buscam transformar a rede mundial de computadores na rede mundial da literatura.

Blogs

Natali Gomes: pensandoemtudoantesdedormir.blogspot.com.br/

Agnes Caroline: bailarinazul.blogspot.com.br/

Nogueira Netto: nogueiranetto.blogspot.com.br/

Gabriella Weiss: http://alameda7.wordpress.com/

Fernanda Thafnes: http://saidasopostas.tumblr.com/

Glenny Lorrayne: http://lunae.blogspot.com

Anderson Kleyton: http://flordelibra.blogspot.com.br/

Rafael Neto: nosbordoesdaviola.blogspot.com.br/

Marcelo Kislitsyn: http://www.marcelokislitsyn.blogspot.com.br/

Nubia Maher: devaneioseretalhos.blogspot.com.br/

Andreza Ferreira: http://adeafrer.blogspot.com/

Taís Santos: http://taislaianysantos.blogspot.com.br/

Shirley Ferreira: http://shirleyisa.blogspot.com/

Candidato escreve receita de miojo na redação do Enem e tira nota 560

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Trecho da redação do Enem em que um candidato ensina como preparar miojo

Trecho da redação do Enem em que um candidato ensina como preparar miojo (Editoria de Artes/Agência O Globo)

Publicado por UOL

Um candidato resolveu descrever como preparar um miojo no meio da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2012, que tinha como tema o movimento imigratório para o Brasil no século 21, e recebeu 560 pontos – a nota máxima é 1.000. A informação é do jornal “O Globo”. Ontem (18), o jornal carioca também informou que redações com nota máxima apresentaram erros como “trousse”, “enchergar” e “rasoavel”.

O candidato escreveu dois parágrafos sobre o tema proposto e depois dedicou um parágrafo inteiro ao preparo do macarrão instantâneo “Para não ficar muito cansativo, vou agora ensinar a fazer um belo miojo, ferva trezentos ml’s de água em uma panela, quando estiver fervendo, coloque o miojo, espere cozinhar por três minutos, retire o miojo do fogão, misture bem e sirva”.

Após passar a receita, o estudante voltou a escrever sobre a imigração. Segundo o jornal, o candidato recebeu 120 pontos (de um total de 200) na competência 2 da correção, que avalia a compreensão da proposta da redação e a aplicação de conhecimentos para o desenvolvimento do tema. Já na competência 3, que avalia a coerência dos argumentos, o candidato recebeu metade dos pontos possíveis — 100 de 200.

Em nota enviada ao jornal “O Globo”, o MEC afirmou que “a presença de uma receita no texto do participante foi detectada pelos corretores e considerada inoportuna e inadequada, provocando forte penalização especialmente nas competências 3 e 4”. O órgão disse entender que o aluno não fugiu do tema nem teve a intenção de anular a redação, pois não feriu os direitos humanos e não usou palavras ofensivas.

Candidato não podia recorrer da nota
Os candidatos que fizeram o Enem 2012 puderam acessar a correção de suas redações no início de fevereiro. O aluno devia informar o CPF ou o número de inscrição e a senha no site do Enem. As correções têm apenas finalidade pedagógica, ou seja, não são passíveis de recurso.

O boletim de correção traz as notas por competência e dá direito à vista da redação.

Ao todo, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), foram corrigidas 4.113.558 redações, das quais 1,82% estavam em branco e 1,76% obtiveram nota zero.

No início do ano, estudantes de todas as regiões do país recorreram à Justiça para conseguir acesso à correção antes do período de inscrição do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), pelo qual instituições públicas de educação superior oferecem vagas a candidatos participantes do Enem.

No entanto, os tribunais regionais federais das diferentes regiões suspenderam as liminares que determinavam a vista antecipada dos espelhos de correção, entendendo que o edital do Enem prevê apenas a vista pedagógica e que leva em conta rigorosamente o previsto no termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado pelo Ministério da Educação com o Ministério Público Federal.

Muitos estudantes sentiram-se injustiçados. Thais Bastos obteve a nota 400 na redação do Enem. “No ano passado, tirei 700. Neste ano, estudei muito mais, não posso ter ficado com essa nota”, disse. Além disso, ela comparou o que escreveu com redações disponíveis em revistas e manuais, “As redações que receberiam a nota que eu tirei continham erros de português e um vocabulário infantil”. Ela também levou o caso à Justiça e chegou a ganhar o direito da vista antecipada, até que o ministério recorreu e venceu.

A arca da memória

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Ana Ferraz, na Carta Capital

Na imensa caixa de vidro tenuamente iluminada por lâmpadas de LED reina uma suave penumbra. O -sistema de ar condicionado e um filtro purificador mantêm afastados dois inimigos: poeira e umidade. O convidativo silêncio cria o clima propício à contemplação. Nas prateleiras acomodadas em três andares superprotegidos encontra-se um tesouro da cultura brasileira, a coleção de 60 mil volumes e perto de 32 mil títulos garimpados ao longo de 82 anos pelo empresário José Mindlin, doada por ele e sua mulher, Guita, à Universidade de São Paulo em 2006.

Caixa dos sonhos. Do térreo do edifício, o diretor Pedro Puntoni contempla os três andares recheados de obras raras. Fotos: Veronica Manevy e Brasiliana USP

Caixa dos sonhos. Do térreo do edifício, o diretor Pedro Puntoni contempla os três andares recheados de obras raras. Fotos: Veronica Manevy e Brasiliana USP

O homem que nutria um ciúme amoroso por seus livros morreu sem ver finalizado o templo erguido no campus para acomodar seu fabuloso acervo, cujas portas serão abertas ao público dia 23 de março. O complexo que abriga a Brasiliana USP, livraria, café, auditório e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) consumiu 130 milhões de reais (obtidos por meio de parcerias da USP com a Fapesp e o BNDES) e seis anos de construção.

“Foi um grande investimento para abrigar a coleção com dignidade. O prédio seguiu os moldes da mais alta qualidade de construção, automação e mobiliário e ajuda a mostrar um caminho de excelência para o País”, diz o diretor da Brasiliana USP, Pedro Puntoni. Ao longo da trajetória, não foram poucas as críticas acerca do alto custo do projeto. “Bilhões são gastos em obras na cidade, por que não podemos ter uma biblioteca que faça jus à coleção que abriga?”

O belo edifício de linhas elegantes foi pensado como um abrigo para os livros, um centro de pesquisa e de atividades culturais e também uma plataforma tecnológica, com um laboratório de digitalização e acesso livre das imagens dessas obras raras por meio da internet, explica o historiador, envolvido com o projeto desde o início. Quando José Mindlin e Guita optaram por doar a coleção, que no íntimo ele sempre soube não poder ser propriedade de poucos, dada a sua dimensão e importância, o professor István Jancsó, diretor do Instituto de Estudos Brasileiros, ficou à frente do projeto e convocou Puntoni para ajudar na tarefa de digitalização. Com a morte de Mindlin, aos 95 anos, em fevereiro de 2010, e de Jancsó, aos 71 anos, um mês depois, Puntoni assumiu a direção. “Foi o ponto mais difícil da jornada. Não esperávamos que eles não vissem a obra concluída. Foi duro viver o luto e continuar.

Entre os modelos a inspirar a Brasiliana USP estão a belíssima Beinecke Rare Books and Manuscript Library, da Universidade de Yale, em Connecticut, e também a biblioteca da Brown University, em Rhode Island, ambas nos Estados Unidos. “São bibliotecas especiais, cujo foco é, sobretudo, preservar o acervo, formado por livros únicos, maravilhosos, e garantir o acesso a esses conteúdos raros”, diz Puntoni. Do ponto de vista arquitetônico, a Brasiliana que saiu das pranchetas de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, neto do empresário, remete bastante a Beinecke. “A arquitetura foi pensada para que se tivesse uma visão de tudo. Lá os livros ficam numa caixa de vidro fechada, a nossa é uma caixa aberta.”

Oportunidade única. Entre os títulos que estarão expostos ao público até o dia 28 de junho, no térreo do edifício, está a Nova Lusitania, História de Guerra Brasilica (1675, Lisboa), de Francisco de Brito Freire

Oportunidade única. Entre os títulos que estarão expostos ao público até o dia 28 de junho, no térreo do edifício, está a Nova Lusitania, História de Guerra Brasilica (1675, Lisboa), de Francisco de Brito Freire

Para os que, como o argentino Jorge Luis Borges, acreditam que o paraíso seja uma biblioteca, esta é uma filial do Éden. Também aqui o impulso de tocar é irresistível, embora impraticável. A raridade das obras e sua fragilidade fazem com que a Brasiliana USP necessite impor regras especiais. Nenhum exemplar da coleção poderá ser emprestado. “As pessoas vão poder manusear alguns livros aqui, mas de acordo com normas que os curadores determinarão, como o uso de luvas.” Uma das primeiras tarefas do conselho da biblioteca será formular os procedimentos. “Tentamos conciliar essa dimensão mais restritiva, natural e comum no mundo todo, com a ideia de universalização do acesso. Isso nos é permitido com a tecnologia da digitalização e da informação.” Nesse quesito, o laboratório foi o primeiro na América Latina a contar com o robô Kirtas, capaz de ler 2,4 mil páginas por hora. O escâner, que no início do projeto custava 220 mil dólares, hoje custa 80 mil.

Os livros de domínio público encontram-se disponíveis na internet (www.brasiliana.usp.br), entre eles obras completas de Joaquim Manoel de Macedo, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves, Casimiro de Abreu e outros. Puntoni avalia que um terço dos 32 mil títulos que compõem a coleção estará na web. No caso dos livros em que o direito de propriedade intelectual esteja em vigência, a biblioteca oferecerá uma imagem digital. Um exemplo citado como icônico é o datiloscrito da primeira versão de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. “É um documento extraordinário da cultura brasileira e universal. É único, todo anotado e rabiscado pelo autor. Temos de oferecer esse exemplar para leitura, mas o curador decidirá quantos leitores poderão manusear este livro por ano.”

Os livros de Guimarães Rosa e de outros autores que morreram há menos de 70 anos não são passíveis de digitalização. “A Lei de Direito Autoral proíbe a reprodução de qualquer obra nessas condições, mesmo que seja apenas para preservação. Nenhum dispositivo limita o direito do autor em benefício da preservação e isso é trágico”, avalia Puntoni. Como contraponto, menciona a legislação estabelecida na Inglaterra em 1956. “Se a British Library quiser microfilmar ou digitalizar as partituras originais dos Beatles para acesso aos pesquisadores, pode fazer isso. Não poderá publicar na internet, o que também não é nosso objetivo. Nossa ideia seria oferecer acesso digital a um documento raro e evitar o manuseio.”

O precioso acervo que José Mindlin começou a construir aos 13 anos tem valor inestimável, sob todos os aspectos. Houve um momento, nos anos 1980, em que se noticiou a oferta de 25 milhões de dólares por parte de uma universidade americana. “Ele sempre recusou. Foi uma existência de garimpagem, de esperar o momento certo.” A generosidade do colecionador tornou-se conhecida. “Gerações de editores devem ser agradecidas, pois ele permitiu reproduzir imagens e emprestou títulos para exposições sem jamais cobrar. Queria que os livros fossem de todos e foi identificado por seus pares como o homem que tinha uma arca, que preservaria os objetos para o futuro”, conta o diretor. O gosto alucinado pelos raros exemplares manifestava-se revestido de cautela somente em alguns casos. Um dos xodós era a primeira edição de Viagem ao Brasil, de Hans Staden (1557), disponível online, os livros da imprensa régia e dos primeiros poetas brasileiros, como Cláudio Manoel da Costa. Esse título e outros como Marilia de Dirceo (1792), de Tomás Antônio Gonzaga, estarão em exposição até 28 de junho. “Esses, Mindlin exibia nas mãos dele.”

Pais brasileiros lutam pelo direito de educar os filhos longe da escola

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Publicado por G1

Para pedagoga Maria Stela Graciani, crianças deixam de interagir quando não há convívio escolar. Cerca de mil famílias ensinam filhos em casa.

Na companhia da mãe e na companhia virtual, Calebe, de 13 anos, passa os dias aprendendo em casa. Ele saiu da escola há três anos por decisão dos pais, que moram em Belo Horizonte.

“Se você quer formar cidadão e pessoas, a física e a química não vão formar”, explica o pai e empresário Gilmar de Carvalho.

A irmã de Calebe tem 15 anos e também não frequenta a escola desde os 12. Os pais dizem que os filhos, hoje, rendem muito mais.

“Eu lembro quando eles faziam a interpretação de texto, eu mais interpretava para eles do que eles mesmos”, conta a mãe e dona de casa Vânia Lúcia de Carvalho.

Em casa, Calebe tem um cantinho de estudo, o escritório da casa. Ele não tem um rotina muito rígida, uma quantidade específica de horas para estudar, mas uma coisa é obrigatória todos os dias: a leitura.

Será que Calebe gosta mesmo de estudar em casa? “Prefiro, porque aqui eu consigo estudar tranquilo”, diz o adolescente.

A Justiça determinou no mês passado que Calebe e a irmã voltem para a escola até o começo de março, porque a legislação brasileira não prevê a educação domiciliar.

O mesmo aconteceu com um casal que vive na zona rural de Caratinga, interior de  Minas Gerais. Eles também tiraram os filhos do colégio. O Fantástico contou em 2008 a história da família.

“Eles se tornaram autodidatas, sem aquela dependência para serem ensinados para aprender”, diz o designer Cleber Andrade Nunes.

Os filhos, hoje, com 18 e 19 anos, estão há sete longe da escola.

“Em casa a gente aprendeu a gostar daquilo que a gente tava aprendendo”, conta o webdesigner Jonatas Nunes.

“A gente que fazia os horários, a gente que fazia todo o esquema de estudo”, lembra o programador Davi Nunes.

Quando tinham 12 e 13 anos passaram no vestibular de Direito, só pra provar que podiam. Agora, eles pretendem fazer o Exame Nacional do Ensino Médio, para tentar conseguir um certificado de conclusão do curso, o que é permitido pelo Ministério da Educação.

A irmã mais nova de Jonatas e Davi segue o mesmo caminho.

A Ana tem cinco anos, nunca foi a uma creche ou escola e os pais querem que continue assim, que a educação seja só em casa. Ela já está sendo alfabetizada.

“Ela já está alfabetizada com cinco. Desde quatro aninhos ela já estava lendo e alfabetizada em inglês também”, conta a mãe Bernadeth Amorim.

“Nossos filhos não precisam da escola. A escola deve ser a última alternativa”, afirma Cleber Andrade Nunes.

Essa decisão custou caro para o casal, que até hoje tem problemas com a justiça. Eles devem mais de R$ 10 mil e respondem por abandono intelectual. “Nós corremos esse risco e estariamos disposto a ir até as últimas consequências”, diz Cleber.

Eles não estão sozinhos. A Associação Nacional de Educação Domiciliar afirma que, no Brasil, cerca de mil famílias dão lições aos filhos menores em casa.

Nos Estados Unidos, a educação domiciliar é aceita em vários estados. Em 2007, 1,5 milhão de crianças estudava assim.

No Brasil, um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional pretende liberar esse tipo de aprendizado, mas as crianças teriam que passar por exames periódicos.

Para a pedagoga da PUC de São Paulo Maria Stela Graciani, quem não tem convívio escolar deixa de interagir. “Ela perde a essência da convivência comunitária”, explica.

Os pais rebatem. Ana brinca com amiguinhas do bairro todos os diase Calebe faz aulas de violão e também tem amigos.

Para o promotor da infância e juventude de Belo Horizonte Celso Penna Fernandes Júnior, esses pais desrespeitam o Estatuto da Criança e do Adolescente, que diz que eles devem matricular os filhos na rede regular de ensino.

Já os pais se apoiam num artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz que eles têm prioridade na escolha do aprendizado.

“A Declaração Universal dos Direitos do Homem não é incompatível com a lei brasileira e nem poderia ser. O que eu acho que ela não quer que aconteça é que o estado resolva estabelecer um único tipo de educação para toda a sociedade”, diz o promotor.

Ele multou os pais de Calebe em três salários mínimos cada um por desrespeito ao estatuto. Eles também podem perder a guarda dos filhos se os adolescentes não voltarem à escola.

“Vamos lutar pra que a lei no nosso país admita essa instrução domiciliar”, diz o pai de Calebe.

Assista ao vídeo aqui.

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