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O crime que compensa: literatura policial se mantém viva

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Gabriel Serravalle, no Portal A Tarde

literatura policial

Apesar da estrutura repetitiva, literatura policial ainda é atraente para o público.Bruno Aziz / Editoria de Arte A TARDE

Aconteceu um crime. O caso é envolto em mistérios que só um detetive cheio de peculiaridades pode desvendar. Muitos são os suspeitos, mas, no fim da história, só um será revelado como o verdadeiro criminoso. Pronto. Está aí uma trama clássica da literatura policial.

A fórmula, que surgiu nos escritos folhetinescos do americano Edgar Allan Poe, publicados nos periódicos do início dos anos 1840, ganhou força e, ao longo dos anos, deu origem ao gênero que revelou nomes como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Georges Simenon e Raymond Chandler, além de personagens históricos como Sherlock Holmes e Jules Maigret.

Apesar da estrutura narrativa básica se repetir até hoje, a literatura policial permanece viva, nunca sai de moda e continua atraindo cada vez mais leitores. “É um tipo de romance que açula tanto a curiosidade quanto a inteligência do leitor. Então existe esse prazer especial que você não encontra necessariamente em outros gêneros. Todo aquele quebra-cabeça do romance policial nos instiga”, justifica o premiado escritor paulista Bernardo Kucinski, que lançou recentemente o romance policial “Alice”.

Para o escritor e professor de Teoria da Literatura, o baiano Mayrant Gallo, que neste ano lançou o livro de contos “As Aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives, o gênero policial” também faz sucesso porque “trabalha com o cotidiano. Muitos romances surgiram de coisas reais. E isso faz com que as pessoas se identifiquem”.

Outro fator importante é o personagem. Com um charme característico das histórias policiais, muitas vezes eles são a razão da leitura. “Um leitor, que gosta de um determinado detetive, compra o livro mais pelo prazer de reencontrar o personagem. Isso pode ser mais importante para ele do que a história que se conta”, opina o escritor (e guitarrista dos Titãs) Tony Bellotto, que traz de volta o investigador Remo Bellini no novo “Bellini e o Labirinto”.

Formato moderno

A estrutura clássica da literatura policial, com foco nos enigmas, apesar de ainda ser usada por muitos autores, não é a única opção. Gallo explica que existe o chamado “relato policial de ação”.

“Há autores modernos que não mais se interessam pelo esclarecimento do crime e sim pelo próprio fazer criminoso. O foco é o passo a passo do malfeitor e não descobrir quem é ele”, explica o escritor. Autores como o norte-americano Dashiell Hammett e o francês Léo Malet são alguns exemplos desta linha narrativa.

“A definição clássica da literatura policial, do cadáver na primeira página e o culpado na última, é um pouco redutora. O interessante é a obra que faz a diferença na forma da escrita”, acrescenta Bellotto.

Entretenimento ou arte?

A popularidade do gênero está muito ligada à facilidade que ele tem de entreter o leitor. Mas nem por isso toda a literatura policial deve ser vista como inferior em relação à chamada “alta literatura”. “Eu não acho que todos os romances policiais são puro entretenimento. Muitos são, o que também não os desmerece, até porque mesmo a leitura de alto nível tem que ser, não no sentido banal, uma coisa gostosa de ler”, diz Kucinski.

Obras de alguns escritores aumentam o conceito e o valor literário do gênero. “Autores como Georges Simenon, Dashiell Hammett, Raymond Chandler não são só entretenimento. São obras que refletem sobre a própria estrutura do romance. É uma literatura de primeiro time mesmo”, argumenta Mayrant Gallo.

Fãs do gênero

Além dos escritores, leitores ávidos por literatura policial ajudam a manter a popularidade do gênero. Fã de Agatha Christie desde os 19 anos, o trabalhador da construção civil Alexsandro Santana, que hoje está com 37, explica por que não conseguiu mais se desprender da leitura. “Aquela coisa da investigação e do mistério é o que me fascina. O livro te prende e você quer ler sempre mais”, conta o leitor, que batizou a única filha com o nome de Agatha inspirado na escritora.

Já o jornalista João Paulo Barreto, leitor de romances policiais, destaca sua atração pelas diferentes maneiras de cada autor tratar o crime. “Gosto do modo sutil como Agatha Christie lida com a violência. Já Chandler atrai de um modo inverso. Seu universo violento é mais pesado, sem aquele toque aristocrático”, comenta.

Agora, os fãs comemoram a chegada de novos títulos (além dos já citados) ao mercado, como “A Loura de Olhos Negros”, de Benjamin Black, e “Fogo-Fátuo”, de Patricia Melo.

Flip confirma John Banville

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Publicado no brpress

John Banville: Man Booker Prize por O Mar. Foto: Barry McCall/wbur.org

John Banville: Man Booker Prize por O Mar. Foto: Barry McCall/wbur.org

Vencedor do Booker Prize, e nome cotado ao Prêmio Nobel de Literatura, o romancista irlandês John Banville confirma presença na 11ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 3 e 7 de julho. Antes, em 22 de fevereiro, Banville recebe o Prêmio PEN irlandês, em uma cerimônia em Dún Laoghaire.

Seu título mais recente, Luz Antiga (Ancient Light), será lançado no Brasil pela Globo Livros (Biblioteca Azul) durante sua visita à Festa. O romance, o 16º publicado pelo autor, acompanha a história de um ator cuja carreira parece seguir para o fim – assim como sua própria vida.

Diante do processo, Alexander Cleave passa a viver de suas recordações, memórias de seu primeiro amor (um relacionamento delicado com uma mulher bem mais velha e mãe de seu melhor amigo) e de sua falecida filha.

Beckett e Joyce

Banville é autor de uma obra em que se combinam uma dicção exuberante, marcada pelo lirismo e pelos jogos de linguagem, e enredos complexos. Dizendo-se influenciado acima de tudo pelo realismo sofisticado do americano Henry James, Banville é comparado pela crítica a mestres da literatura moderna como os irlandeses Samuel Beckett e James Joyce, e o russo Vladimir Nabokov.

Colecionador de prêmios ao longo de sua trajetória, Banville foi agraciado, em 2001, com o Prêmio Franz Kafka. Seu maior sucesso, O Mar (2005), recebeu o Man Booker Prize, mais importante distinção da literatura em língua inglesa.

Escrevendo sob o pseudônimo de Benjamin Black, Banville publicou ainda sete romances policiais, entre eles O Cisne de Prata e O Pecado de Christine (Ed. Rocco). Ambientados na Irlanda dos anos 50, os romances compõem uma intrincada teia de romances e adultérios envolvendo o protagonista Garret Quirke.

O autor

Nascido em 8 de dezembro de 1945, em Wexford (Irlanda), Banville, o mais velho dos três filhos do casal Doran Née e Banville Martin, declarou, após o período escolar, que a faculdade teria pouco benefício para ele.

Dono de um espírito aventureiro, o escritor começou a trabalhar cedo, como balconista, na companhia aérea Aer Lingus, que lhe permitiu viajar a preços muito baixos. Na época, aproveitou para explorar países como Itália e Grécia e, mais tarde, se mudou para os Estados Unidos, onde viveu entre 1968 e 1969. Em seu retorno à Irlanda, trabalhou como jornalista e editor.

“Me fascina o passado parecer mais intenso que o presente”, diz John Banville

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Raquel Cozer, na A Biblioteca de Raquel

O irlandês John Banville, autor do lindíssimo “O Mar” (Nova Fronteira), vencedor do Man Booker Prize 2005, vem neste ano para Flip, o que levou a Globo a programar seu romance mais recente, “Luz Antiga”, para junho. Minha entrevista com ele para o texto da Ilustrada foi motivada por outro lançamento, de “O Cisne de Prata” (Rocco), dentro da série de policiais que assina com o pseudônimo Benjamin Black. Falo um pouco do livro no link acima.

Desde 2006, quando começou a lançar policiais como Benjamin Black, inspirado pelos romances do belga Georges Simenon (1903-1989), Banville quase não escreve como Banville. Além de “Luz Antiga”, lançou só “Os Infinitos” (Nova Fronteira), que nem faz jus ao escritor que ele é. No mesmo período, foram sete livros como Black, com mais um previsto para este ano.

Em resumo, ele sofre mais para escrever como Banville, obcecado pela frase perfeita, e não vende tanto assim. Como Black, escreve com facilidade, sem nenhuma ambição de ser artista, e lidera listas de mais vendidos. É assim que funciona e, ele diz, é absolutamente natural.

Ele fala também sobre as especificidades de seus romances policiais, a “conversão” a Benjamin Black e a Wikipedia, entre outros temas, na entrevista abaixo, concedida por e-mail.

Foto de Beowulf Sheehan

Foto de Beowulf Sheehan

Em vez de centrar a história no ponto de vista de Quirke, o protagonista, “O Cisne de Prata” alterna capítulos na voz dele com as de outras personagens, incluindo a vítima. O resultado é que os leitores acabam sabendo muito mais do que o personagem que investiga a história. Por que optou por esse formato?
Acho romances policiais fascinantes do ponto de vista técnico. Nesse livro, foi interessante alargar a perspectiva e trazer, embora obliquamente, as vozes, ou ao menos as sensibilidades, de outros personagens. E com isso fazer Quirke desconhecer detalhes que outros personagens, e os leitores, sabem. Mas, enfim, Quirke geralmente progride por meio da ignorância dos fatos. O que admiro nele como protagonista é que ele não é um superdetetive. Se você quer o oposto de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, esse é Quirke. Ele é um pouco estúpido, como o resto de nós –humanos, em outras palavras. (mais…)

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