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A Bíblia toda e para todos

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Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

 

A editora Quetzal vai começar a publicar em Setembro uma nova tradução da Bíblia. É feita a partir do grego por Frederico Lourenço e sairá em seis volumes, até 2019. Está a ser apresentada como a mais completa jamais feita em português.

Lucinda Canelas, no Publico

Francisco José Viegas tem uma “relação muito especial” com a Bíblia, mas desde que começou a ler os quatro evangelhos na nova tradução de Frederico Lourenço que a Quetzal faz chegar às livrarias a 23 de Setembro essa “relação muito especial” transformou-se numa “aventura maravilhosa”. A leitura não confirmou apenas que são fundamentais para a cultura ocidental – fez com que descobrisse neles a “invenção do romance moderno”. “Ler esta Bíblia é uma aventura poética, uma aventura da história”, que muito se deve à coragem de Frederico Lourenço, “alguém que transformou um sopro num relâmpago”.

Viegas, editor da Quetzal, falava esta quarta-feira de manhã na Cinemateca, em Lisboa, numa conferência de imprensa em que apresentou esta ambiciosa edição que divide a Bíblia em seis volumes – dois dedicados ao Novo Testamento, quatro ao Antigo – como a mais completa alguma vez publicada em português. Isto porque, explicaria depois o tradutor, é feita a partir da Bíblia grega, que no Antigo Testamento tem 53 livros, ao contrário da hebraica, que tem apenas 24, e da católica, com 46.

Até aqui, as traduções disponíveis em português não incluíam todos os livros do Antigo Testamento. Esta passará a fazê-lo, o que significa que terá, ao todo, 80 livros e uma organização bem diferente da das traduções tradicionais, que segue a matriz latina e que começa no Livro do Génesis e termina no do Apocalipse. Uma organização que não é, de todo, cronológica (o Génesis não foi o primeiro a ser escrito). “A forma completa do Antigo Testamento nunca tinha sido editada”, diz Lourenço. À tradução do actual cânone católico juntar-se-ão sete livros: o 3.º e o 4.º dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, o Livro de Susana, o de Bel e o Dragão e a Epístola de Jeremias.

Depois de ler o primeiro volume, o que junta os evangelhos de João, Lucas, Mateus e Marcos, Francisco José Viegas garante que esta nova edição é verdadeiramente uma “experiência múltipla”, em que a poesia, a história, a contemplação, a magia e o puro amor das palavras se encontram. E o tradutor, claro, “é o alquimista deste milagre”, um “milagre” que só não é “alquimia pura”, porque dá muito trabalho. “O Frederico Lourenço obrigou-me a ler a Bíblia de outra maneira, com novos sentidos, novas palavras.”
Texto que não se entende

Frederico Lourenço, escritor, poeta e especialista em cultura helenística que já traduziu para português obras tão fundamentais como a Odisseia e a Ilíada, comprou a sua primeira edição do Novo Testamento em grego há mais de 30 anos, quando estava prestes a entrar no primeiro ano de Estudos Clássicos, quando era ainda um católico praticante “bem dentro da Igreja”. Hoje essa ligação perdeu-se – Lourenço continua a acreditar em Deus, mas já não é um católico praticante –, embora nunca tenha chegado para questionar a importância da Bíblia. “Descobrir mais tarde o Antigo Testamento em grego foi revelador, porque a versão grega mantém toda a qualidade poética que o texto tem”, diz.

Na tradução que está a fazer dos 80 livros da Bíblia cruza a grega com a hebraica para mostrar que há complementaridades e diferenças. As dezenas e dezenas de notas que cada um dos seis volume da Quetzal trará juntam-se às introduções para ajudar o leitor a compreender o texto e o seu contexto, falam da origem de determinadas palavras e alertam para esta ou aquela interpretação que, ao longo da história, deu origem a debate e até a outros escritos.

Frederico Lourenço quis com esta abordagem pôr à disposição uma edição para todos: “Falta uma versão da Bíblia para crentes e não-crentes”, disse ao jornalistas, uma versão não-apologética daquele que é “talvez o livro mais importante de toda a tradição ocidental”. Para o tradutor, a Bíblia não devia ser um exclusivo das faculdades de Teologia, mas presença obrigatória em todos os cursos de Humanidades. “Esta edição tem uma intencionalidade linguístico-histórica, não teológica. (…) As notas tentam explicar a materialidade do texto, que muitas vezes não se entende.”

É precisamente porque o texto por vezes não se entende – e porque quer ser fiel ao que foi escrito, de acordo com a versão grega – que Lourenço optou por usar muito os parêntesis rectos ao longo do texto, assinalando as palavras que estarão subentendidas. “Às vezes o grego não nos permite atribuir um sentido exacto a determinada frase… Os parêntesis permitem-me dizer ao leitor o que foi realmente escrito e o que foi acrescentado para tornar o texto inteligível.”

O que se lê hoje nas igrejas pode ser bem diferente do que foi escrito na versão grega – para quem conhece as traduções disponíveis, vai sentir diferenças, por exemplo, no Pai Nosso e no Sermão da Montanha, de Mateus, garante Lourenço – porque houve um esforço de simplificação para que o livro chegasse mais facilmente às pessoas. “Há cartas de Paulo que parecem escritas por Marcel Proust, com frases que duram três páginas” e que depois na liturgia são resumidas a uma linha, exemplifica. “O que quis nesta edição foi dar alguns elementos para que as pessoas possam ter ideia do debate crítico que rodeia a Bíblia”, isto sem comprometer qualquer outro propósito: “O valor espiritual dos textos está lá sempre.” E é provavelmente por causa desse valor que Lourenço defende a sua intemporalidade – “tem 2000 anos, mas é um livro hoje e é um livro amanhã”.

Tal como aconteceu com a Ilíada e a Odisseia, Frederico Lourenço, 53 anos, esteve à espera do momento certo para se entregar a esta tradução. E é mesmo de entrega que se fala, já que abdicou de tudo o que estava a fazer profissionalmente – à excepção das aulas que dá na Universidade de Coimbra – para se poder dedicar ao projecto, algo que sempre quis fazer. “Senti que tinha mesmo de fazer isto”, disse ao PÚBLICO. “E agora sinto o mesmo que senti quando estava a trabalhar na Ilíada e na Odisseia – pânico de morrer antes de acabar.”

Passar dos dois poemas de Homero para a Bíblia confrontou-o com “dois gregos diferentes”, embora muitas palavras se repitam. A Bíblia, assegura, é muito mais difícil de traduzir porque nela a diversidade da linguagem é muito maior. É, no entanto, “muito bonito ver a continuidade da língua grega, perceber que às vezes se fala da vida de Jesus com as mesmas palavras com que se fala de Ulisses e de Penélope”.

Pegar na Bíblia era também um sonho antigo de Francisco José Viegas, que diz que publicá-la, numa altura em que “editar é cada vez mais difícil”, é “correr um risco” que dá muito prazer. Em grande parte devido ao tradutor em quem confiou: “Se a Bíblia é fogo, o nome de Frederico Lourenço vai ficar gravado no fogo.”

O preço de capa deste primeiro volume, cuja tiragem não foi divulgada, será de 19,90 euros. O segundo volume sairá em Março de 2017 e a Quetzal conta ter o último dos seis volumes nas livrarias no começo de 2019. No Brasil, a editora Companhia das Letras começará a publicar esta tradução da Bíblia em Maio de 2017.

Com mercado em crise, segmento religioso impulsiona número de leitores

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Primeira mesa do ciclo 'Retratos do Leitor e do Não Leitor' - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Primeira mesa do ciclo ‘Retratos do Leitor e do Não Leitor’ – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Análise foi feita na primeira mesa do ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — Entre exposições de autores renomados e debates sobre tendências, expressões artísticas e processos criativos, a Flip também reserva relevante espaço para discussões de mercado. Nesta quinta, na primeira mesa do ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”, realizada na FlipMais em parceria entre o Instituto C&A, o Instituto Pró-Livro e o jornal O Globo, foram apresentados dados de pesquisas sobre o nicho de leitura do Brasil. Entre aumento no número de leitores brasileiros, e queda de vendas de exemplares e de faturamento das editoras, a explicação, concluíram os palestrantes, está na importância do segmento religioso para a indústria.

Com o objetivo de traçar um perfil do leitor brasileiro e as dificuldades no processo de educação, que culminam na formação de analfabetos funcionais, os palestrantes Luis Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Marcos Pereira, presidente do Instituto Pró Leitura (IPL), Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do IPL, e Mariana Silveira Bueno, coordenadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), apresentaram dados das pesquisas “Produção e Vendas do Mercado Editorial”, da Fipe, e da “Retratos da Leitura no Brasil”, do IPL. A mediação da mesa foi feita pelo jornalista do GLOBO, Leonardo Cazes.

Zoara Failla lembrou que o principal motivo da pesquisa do IPL, realizada a cada quatro anos, é orientar políticas públicas e ações da sociedade civil. Em comparação com 2011, houve aumento no número total de leitores no Brasil, de 50% da população (considerado os maiores de cinco anos que leram algum livro, ou partes, nos últimos três meses), para 56%. Em 2007, porém, a quantidade era de 55%. Ao apresentar microdados específicos, como relações com escolaridade, hábitos e influências para leitura, a pesquisa foi traçando o perfil do leitor brasileiro.

— O gênero mais lido é a Bíblia; em segundo “livros religiosos”. Muitos autores religiosos também são citados como os preferidos — destacou Zoara, em relação ao segmento mais relevante do mercado — há outros dados importantes, como a falta de tempo como principal motivo para a não leitura, o crescimento de leitura em meios de transporte, devido aos smartphones e tablets, a redução de dificuldades citadas para a não leitura, o uso ainda baixo de e-books, e a visão de que a biblioteca é um espaço somente para estudantes. Apesar de melhora nos números de uma forma geral, é preciso pensar em políticas públicas para melhorar o panorama.

Na sua pesquisa, a Fipe detectou uma aparente incoerência: o aumento no número de leitores, mas a queda na quantidade de vendas de exemplares, de 8,19%, e no faturamento das editorias, de 4%. Na tentativa de entender esse quadro, Mariana Bueno explicou que a fundação cruzou dados e levantou algumas hipóteses, como o governo ser um grande comprador, abastecendo bibliotecas públicas, o que não se sustentou.

— Percebemos, então, que a Bíblia lidera ranking de leituras. Resolvemos considerar, nos dados, um novo indicador exclusivo para leitura religiosa. Nessa nova leitura dos gráficos, concluímos que esse subsetor foi o único que apresentou crescimento considerável. E faz sentido não influenciar tanto na venda de editoras ao pensarmos que a Bíblia, citada mais lida, raramente tem um exemplar novo comprado pelas pessoas.

‘MERCADO SOBREVIVENTE’

Perguntado por Leonardo Cazes sobre as explicações para os fenômenos de público nas bienais, apesar do momento de desvalorização das editoras, Marcos Pereira classificou o mercado editorial como um “mercado sobrevivente”.

— De 2004 a 2015 o mercado de produção editorial perdeu 40% de valor. A indústria pode comemorar o aumento de seis pontos percentuais de leitores, mas a verdade é que precisamos de ajuda. Aí a a gente vê uma Bienal lotadíssima e não entendemos o segredo de tanto sucesso. Às vezes quero perguntar para o visitante aonde ele vai no resto do ano. Nosso papel é tentar aumentar essa procura, criar volume maior, e mais interesse. Meu avô dizia que Brasil é país do futuro e estou cansado. Quero dizer aos meus filhos e netos que Brasil é o país do presente — disse Pereira.

Dentro dessa questão, Zoara também lembrou que cerca de quatro milhões de jovens se declaram leitores, número suficiente para abastecer um mega evento. Luis Torelli ainda citou fenômeno de audiência de blogueiros, que atraem muito público, e concluiu que as pesquisas apresentadas são “importantíssimas para atendermos melhor o desafio de democratizar o livro”:

— Precisamos trabalhar muito para que brasileiros possam comprar mais livros. Dependemos de políticas públicas de educação e inclusão, e também da retomada do crescimento econômico. O Brasil tem uma das mais plurais produções editoriais do mundo. Nas numerosas inscrições do premio Jabuti, por exemplo, vemos a quantidade de talento que existe aqui. O mercado também precisa fazer sua parte para que o Brasil seja redimido pela leitura. O livro pede passagem.

O ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”, realizada em parceria entre o Instituto C&A, o Instituto Pró-Livro e o jornal O Globo, tem prosseguimento nesta sexta, às 14h30m, na Casa de Cultura, com a mesa “O X da questão”, em que estarão presentes o colunista do GLOBO Antonio Gois, Marcilio França Castro e Neca Setubal.

Brasil: um país de leitores… de Bíblia

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Bastante já foi dito sobre os resultados da 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-livro e realizada pelo Ibope. Já mostrei aqui no blog mesmo que o país anda lendo mais do que há quatro anos – exceto nossa elite econômica – e que os leitores são pessoas mais ativas do que os não leitores. No entanto, ainda é preciso jogar luz sobre um dos dados que o estudo revela: quando lê, o brasileiro lê principalmente a Bíblia.

Ao perguntar quais tipos de livros os leitores tinham lido no último ano, a pesquisa constatou que 42% deles leram a Bíblia, seguida por livros religiosos, de contos e romances – cada um citado por 22% dos entrevistados, que podiam indicar mais de uma opção. Curioso aqui notar que a Bíblia sequer entrou no gênero de religiosos. Claro que o livro pode ser lido de maneiras diversas – com viés histórico, sociológico, filosófico.. -, mas é evidente que a esmagadora maioria dos leitores que leem a Bíblia o fazem por questões ligadas à religião.

A Bíblia também encabeça os gêneros preferidos de pessoas de todas as faixas etárias (5 a 10, 11 a 13, 14 a 17, 18 a 24, 25 a 29, 30 a 39, 40 a 49, 50 a 69 e 70 e mais) e níveis de escolaridade (Fundamentai I, Fundamental II, Ensino Médio e Superior) abarcados pelo estudo. Foi ainda o título mais citado como última leitura dos entrevistados – 225 menções, seguido por “Diário de um Banana” e “Casamento Blindado”, ambos lembrados 11 vezes – e é a obra mais marcante da vida de 482 pessoas ouvidas – a segunda posição aqui ficou com “A Culpa é Das Estrelas”, mencionado em 56 oportunidades. Não bastasse, é diretamente responsável por uma das curiosidades da pesquisa: ao indicarem o autor do último livro que estavam lendo, alguns entrevistados (1%) citaram entidades religiosas normalmente ligas à Bíblia, como Jesus e Moisés.

Até professores preferem a Bíblia

A Retratos da Leitura no Brasil também apresenta alguns recortes específicos sobre o hábito de leitura dos professores e profissionais da educação. Nessa categoria, a Bíblia também se destaca: ela que lidera, por exemplo, a lista dos 11 títulos mais citados pelos educadores, com 22 menções – “Esperança” está na segunda posição, com 5 citações.

Sobre esses profissionais, há ainda uma contradição nos números: 84% deles garantem que são leitores, no entanto, metade dos entrevistados não citou nenhum título ao ser indagado a respeito de qual era o último livro que havia lido. Estranho tantos professores não recordarem o que leram recentemente, não?

Tendo em vista esse panorama, parece que a frase escolhida pelos organizadores da pesquisa para servir de epílogo à apresentação dos números está um tanto deslocada. Diz ela, que é de autoria do peruano Mario Vargas Llosa: “Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que, alguns, fazem passar por ideias”. Será mesmo que tantas pessoas adquirem essas características ao lerem a Bíblia. Ou será que, encarando a obra de maneira dogmática, tal leitura não acaba gerando um resultado exatamente oposto àquele desejado pelo Nobel de Literatura de 2010?

“Há perigo em muitos livros, até na Bíblia”, diz editor que publicará Hitler

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Emediato, da Geração Editorial: edição comentada por historiadores (Foto: Rodrigo Dionisio)

Emediato, da Geração Editorial: edição comentada por historiadores (Foto: Rodrigo Dionisio)

 

Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, comenta a polêmica sobre o relançamento da obra ‘Minha Luta’, ícone nazista

Nataly Costa, na Veja SP

Após setenta anos sob os cuidados do Estado da Baviera, na Alemanha, a autobiografia do ditador nazista Adolf Hitler, Minha Luta, caiu em domínio público no primeiro dia de 2016. Três editoras, todas de São Paulo, se interessaram em publicar a obra, o que gerou um amplo debate. Afinal, o livro tem valor histórico e deve estar disponível nas livrarias ou é um texto de pura incitação ao ódio, capaz de influenciar negativamente e disseminar ideias criminosas?

A Edipro, com sede na Bela Vista, abandonou a ideia logo após anunciá-la. “Muitos leitores ligaram afirmando que a publicação poderia ser irresponsável. Ficamos preocupados”, disse a coordenadora administrativa Maira Micales. A Centauro já tinha o texto pronto – entre 2001 e 2006, imprimiu uma edição não autorizada pelo governo alemão, que solicitou o recolhimento dos livros. Expirados os direitos autorais, a editora mandou rodar mais 5 000 cópias, mas foi proibida pela Justiça carioca de vender naquele estado. Em São Paulo, é possível encontrar sua edição na livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista.

Quem mais encampou a briga pelo direito de publicar o volume, porém, foi a Geração Editorial, na Lapa, Zona Oeste. O dono, Luiz Fernando Emediato, preparou uma edição crítica (a exemplo do que foi feito na Alemanha), com 400 páginas de comentários de historiadores, apêndices, contestações e notas de tradução.

A tiragem inicial é de 5 000 exemplares e as vendas começam em março. Confira a entrevista com o editor:

Quando a Geração Editorial começou a cogitar a publicação de Minha Luta?

Há uns quinze anos, quando li um artigo do professor da USP Nelson Jahar Garcia, morto em 2002, no qual ele afirmava que “Minha Luta (Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo”. Ele mesmo colocou uma tradução do livro para consulta pública no site da Unicamp. Está lá ainda hoje. Lembro que a obra não está proibida em Israel e que no Brasil vários líderes judeus já se manifestaram a favor da publicação de uma edição crítica e comentada.

Uma das críticas à edição é sobre a capa, que trará uma imagem de Hitler. Essa capa se mantém? Se sim, por que a editora achou importante colocar a foto do ditador na capa?

Essas críticas foram sobre um layout de capa que vazou. Essa capa não será usada (a nova versão, no entanto, também traz a figura do ditador). Mas a crítica é absurda: desde a derrota de Hitler, quase todos os filmes, livros e peças sobre a II Guerra e o nazismo usam imagens do ditador e os símbolos do movimento. A imagem de Hitler é tão icônica quanto as de Jesus Cristo, Stalin, Trotsky, Lenin, Mao Tse Tung, Che Guevara e o Carlitos, de Chaplin.

Qual sua opinião sobre o posicionamento de livrarias como Saraiva e Cultura (as lojas afirmaram que não venderão o livro)?

Creio que mudarão de ideia quando conhecerem nossa edição. Mas se não mudarem de ideia não tem problema, é um direito delas vender ou não.

Livro da Centauro na Martins Fontes, na Avenida Paulista (Foto: Alexandre Battibugli)

Livro da Centauro na Martins Fontes, na Avenida Paulista (Foto: Alexandre Battibugli)

Como será a edição crítica e comentada? Além dos textos de introdução, cada página terá notas de rodapé, os comentários serão por capítulo?

As notas, comentários, apêndices (há comentários que ocupam várias páginas) não estarão nos rodapés, mas entremeando o texto de Hitler, corrigindo erros históricos e mentiras, comentando e contestando ideias equivocadas e contextualizando e atualizando fatos, como por exemplo o Holocausto. São 278 comentários de dez historiadores norte-americanos para uma edição já fora do mercado, de 1939, além de 48 notas de um historiador brasileiro que atualizou e contextualizou essas notas antigas, mais 28 notas do tradutor, totalizando 354 notas, que ocuparam mais de 400 páginas.

Quem é contra a publicação do livro sustenta que a obra é medíocre como literatura e somente dissemina ideias de ódio contra minorias (judeus, negros, gays, deficientes). O que você acha?

O livro de Hitler não é elegante, nem pode ser considerado literatura. É um panfleto de propaganda política e racista raivosa, ressentida, violenta e equivocada, mas é um livro histórico que não pode ser ignorado, pela tragédia que causou. Hitler registrou neste livro todo o seu ódio, disse que faria o que estava ali escrito e fez, com apoio das elites alemãs que temiam o comunismo e depois de todo o povo, que se considerava humilhado e passou a ver nele quase um deus. A obra de um homem assim merece ser conhecida. Crime pela lei brasileira é fazer propaganda do racismo, da violência e do ódio. Nossa edição faz o contrário: critica as ideias de Hitler, alerta para o perigo delas e contesta uma por uma. Trata-se de uma edição antinazista, antiracista e antiviolência.

Outra crítica é que, como documento histórico, o livro não é imprescindível – temos amplo material sobre Hitler e o nazismo sem precisar recorrer ao “diário” do ditador. O que você acha?

Não há livros prescindíveis e imprescindíveis. Há livros que, pelo bem ou pelo mal que causam, precisam ser lidos. Quem defende tal ideia é autoritário como Hitler e a ele se iguala. Existem perigos em muitos livros, até na Bíblia – que autoriza sacrificar filhos e apedrejar adúlteras – e no Alcorão – que manda decapitar infiéis. Prega-se violência armada nos livros de Che Guevara. E contra a propriedade privada na literatura marxista. Nem por isso esses livros devem ser proibidos.

Também diz-se que Mein Kampf poderia figurar em prateleiras de bibliotecas, mas não de livrarias. Qual sua opinião sobre isso?

Visão elitista e autoritária de quem considera o leitor um idiota cujo acesso à leitura deve ser controlado.

A editora está enfrentando batalhas judiciais aqui em São Paulo contra a publicação do livro?

Nenhuma. Existe uma decisão preliminar da Justiça do Rio, que proíbe a venda apenas lá, mas essa decisão deve cair, porque é inconstitucional.

Você acha que a polêmica aguça a curiosidade em relação ao livro?

Nossa intenção é fazer uma edição de apenas 5 000 exemplares, mas se com uma repercussão imprevista os leitores pedirem mais, reimprimiremos.

Livros de metal encontrados em caverna na Jordânia poderão mudar a versão bíblica

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Cerca de 70 livros de metal podem mudar a história como conhecemos com uma nova visão bíblica do apocalipse.

Publicado no Blasting News

Livros de metal com inscrições bíblicas

Livros de metal com inscrições bíblicas

Uma antiga coleção contendo mais de 70 livros pequenos, cada um com em torno de 5 a 15 páginas de chumbo poderá desvendar alguns dos segredos dos primórdios referentes ao Cristianismo. Segundo Ziad Al-Saad, diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, talvez ”essa possa ser a descoberta mais importante da arqueologia”.

Embora os pesquisadores ainda estejam divididos quanto a autenticidade dos artefatos, os livros foram descoberto há cinco anos escondidos dentro de uma caverna em uma remota região da Jordânia.

Os testes iniciais confirmam que estes livros datam do primeiro século, esta estimativa está baseada na forma como ocorreu a corrosão do metal, algo que os pesquisadores acreditam que não possa ser reproduzido artificialmente. Após a conclusão dos estudos, os livros poderão entrar para a história como os primeiros registros cristãos antecedendo os escritos pelo apóstolo Paulo.

A maioria das páginas de metal são do tamanho de um cartão de crédito, os textos estão escritos em hebraico antigo, sendo que a maior parte em código. Depois de serem descobertos por um pastor na Jordânia, os artefatos foram adquiridos por um beduíno israelense acusado de contrabandeá-los para Israel, onde encontram-se hoje. O governo da Jordânia tenta reaver os seus artefatos, mas sem sucesso até o prezado momento.

Philip Davies, professor emérito dos estudos bíblicos da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, acredita que há fortes indícios de que estes livros sejam de origem cristã. Segundo ele, os artefatos mostram mapas da Jerusalém do primeiro século. Nos livros também encontram-se diversas imagens cristãs, uma cruz em primeiro plano e por trás destas imagens pode-se ver o túmulo de ”Jesus” em uma pequena construção. Atrás estão os muros da cidade a crucificação ocorreu fora dos muros.

A doutora Margaret Barker, ex-presidente da Sociedade de Estudos do Antigo Testamento, explica: “O livro do Apocalipse fala de um livro selado que seria aberto somente pelo Messias. Acredita-se que os cristãos na época fugiram da perseguição em Jerusalém rumando para o leste atravessando a Jordânia perto de Jericó e foram para a região onde esses livros foram achados.”

Segundo ela, o fato do material ser cristão e não judaico está relacionado ao fato destas escritas estarem em formato de livros e não pergaminhos. A religião cristã está associada com escritas em formatos de livros. Os antigos cristãos guardavam estes livros como parte da tradição no início do cristianismo. Caso seja confirmado em análises iniciais, os documentos poderão trazer uma nova compreensão de um período bastante significativo e pouco conhecido até o prezado momento.

A doutora refere-se ao período entre a morte de Jesus e as primeiras cartas do apóstolo Paulo. Segundo ela há referências históricas em alguns trechos destes acontecimentos, mas foram deixados poucos registros por quem realmente vivenciou o surgimento da igreja cristã. Estes registros sanaria e muito a dúvida de quem busca pela veracidade dos relatos sobre a trajetória de Cristo naquela época.

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