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As escritoras brasileiras da virada dos séculos XIX e XX que foram esquecidas

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A escritora Júlia Lopes de Almeida, que participou da criação da ABL mas não pode assumir uma cadeira por ser mulher - Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

A escritora Júlia Lopes de Almeida, que participou da criação da ABL mas não pode assumir uma cadeira por ser mulher – Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

Júlia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e Narcisa Amália são resgatadas em livros

Leonardo Cazes , em O Globo

RIO – Júlia Lopes de Almeida publicou, entre 1909 e 1912, a coluna semanal “Dois dedos de prosa” no influente jornal carioca “O Paiz”. Na época, ela já tinha lançado os romances “Memórias de Martha”, de 1888, e sua obra mais importante, “A falência”, em 1901. No final do século XIX, fez parte do grupo de intelectuais que fundou a Academia Brasileira de Letras (ABL), em julho de 1897. Apesar de seu nome constar na lista publicada pelo futuro acadêmico Lúcio Mendonça em “O Estado de S. Paulo”, seis meses antes da fundação da casa, ela foi preterida por ser mulher, e sua vaga ficou com seu marido, o poeta Filinto de Almeida. Seu nome foi, assim, apagado da história da literatura brasileira, junto aos de outras importantes escritoras do final do século XIX e o início do XX.

Aos poucos, mulheres como Júlia (1862-1934), Albertina Bertha (1880-1953) e Narcisa Amália (1852-1924) vão sendo resgatadas do esquecimento a que foram relegadas. Júlia será tema da conferência do escritor Luiz Ruffato, “Todos contra Júlia!”, na próxima terça-feira, às 17h30m, na ABL, na abertura do ciclo “Cadeira 41”, sobre grandes autores ausentes da Casa de Machado de Assis (leia abaixo). No fim deste mês, a Fundação Biblioteca Nacional (FBN) lança “Dois dedos de prosa: o cotidiano carioca por Júlia Lopes de Almeida”, na série Cadernos da Biblioteca Nacional, uma reunião de crônicas publicadas em “O Paiz” organizada por Angela di Stasio, Anna Faedrich e Marcus Venicio Ribeiro. Também neste mês será lançado “Nebulosas”, de Narcisa Amália, uma coedição da Editora Gradiva com a FBN. Os livros vêm se somar à reedição, em 2015, do romance “Exaltação” (Gradiva/FBN), de Albertina Bertha. Os dois últimos são organizados por Anna Faedrich.

Ruffato ressalta que não se trata de valorizar Júlia pelo fato de ela ser mulher, mas sim pela sua qualidade literária. O escritor conta que descobriu a obra da autora na década de 1980, quando estudava em Juiz de Fora (MG). Encantado pelo romance “A falência”, que trata do surgimento da burguesia comercial brasileira no início da República, Ruffato iniciou uma busca por outros livros de Júlia e, na década de 1990, colaborou em reedições feitas pela Editora Mulheres, que fechou após a morte de sua fundadora, Zahidé Muzart.

— Júlia é uma autora magnífica. Não é nenhum favor resgatá-la. Ela é um caso absurdo de escritora que não está no cânone literário por puro machismo. Ela é muito superior à grande maioria dos autores de sua época. Os únicos que se equipararam naquele momento são Aluísio Azevedo e Lima Barreto — afirma Ruffato.

A escritora Albertina Bertha, autora do romance "Exaltação" e elogiada por Lima Barreto - Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

A escritora Albertina Bertha, autora do romance “Exaltação” e elogiada por Lima Barreto – Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

Anna Faedrich foi pesquisadora residente na Biblioteca Nacional, onde coordenou uma pesquisa sobre Júlia, Albertina e Narcisa. Para Anna, ao serem excluídas das obras de história da literatura brasileira, essas mulheres foram esquecidas. Ela lembra que o cânone do Romantismo brasileiro só tem homens, como Gonçalves Dias e José de Alencar, apesar da importância de autoras como Narcisa Amália, uma poeta que dialogou com as três gerações do movimento.

— Os professores não sabem da existência dessas escritoras. Mesmo na universidade, reproduz-se o cânone do Romantismo, onde se acredita que as mulheres não eram educadas, eram todas analfabetas. Mas a culpa não é do professor. Um grande passo é reescrever essa história da literatura e inserir essas autoras em diálogo com outros escritores — explica Anna. — Essas mulheres escreviam, publicavam, faziam conferências e dialogavam com os homens, e mesmo assim não temos notícias delas. Toda história da literatura é escrita a partir da anterior, reproduzindo um discurso excludente.

A ideia de reunir as crônicas de Júlia veio de Angela di Stasio, funcionária do setor de manuscritos da FBN e uma das organizadoras de “Dois dedos de prosa”. Angela destaca o olhar perspicaz da escritora para a cidade, a maneira como ela descreveu um período de grandes transformações no Rio de Janeiro, como a inauguração do Teatro Municipal e da própria Biblioteca Nacional. Ela aponta o reconhecimento que Júlia teve na época em que viveu:

— Ao começar a ler as crônicas de “O Paiz”, um jornal de grande circulação no Rio, me impressionei com as crônicas da Júlia. São de uma atualidade incrível. Ela trata da violência policial, dos problemas do governo, das greves. As crônicas estavam, em geral, na primeira página. Ela não teria esse espaço se não fosse brilhante.

As trajetórias de Júlia, Albertina e Narcisa se aproximam num ponto: as três tiveram educação bastante avançada para os padrões da época e foram apoiadas em casa. Albertina nasceu em uma família de boa situação econômica, já que era filha do Conselheiro Lafayette, jurista e político importante no Império. Além de romancista, teve formação erudita e estudou filosofia. Anna Faedrich conta que ela participou de ciclos de conferência no salão do “Jornal do Commercio”, nos quais era a única mulher e abordava a obra do alemão Friedrich Nietzsche. A autora também se correspondeu com Lima Barreto, que em um artigo na “Gazeta de Notícias” a definiu como “um dos mais perturbadores temperamentos literários que, de uns tempos a esta parte, têm aparecido entre nós”. A pesquisadora destaca ainda a ousadia temática de Albertina em “Exaltação”, ao tratar de um triângulo amoroso com final trágico.

A poeta Narcisa Amália, que se casou e se divorciou duas vezes; seus poemas foram elogiados por Machado de Assis, apesar de um comentário machista - Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

A poeta Narcisa Amália, que se casou e se divorciou duas vezes; seus poemas foram elogiados por Machado de Assis, apesar de um comentário machista – Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

— Esse romance mostra certa ousadia, principalmente temática, pois trabalha com um tabu, que é o adultério feminino. Albertina mostra já uma consciência dessa sociedade machista em que a personagem está inserida. Essa mulher do romance não é nada ingênua, mas muito consciente das pressões e opressões. Ela vai contra um casamento arranjado pela família, se posiciona contra a maternidade. A protagonista não quer ser mãe. Na escrita, a gente observa ainda alguns traços românticos, mas Albertina trabalha também com fluxo de consciência, com uma narrativa de introspecção — explica Anna, que estudou a obra da autora na sua dissertação de mestrado.

ELOGIO DE MACHADO DE ASSIS

Já Narcisa Amália é a mais velha do trio. Nascida em São João da Barra (RJ), ela viveu por muito tempo em Resende e só veio para o Rio no fim da vida. Sua biografia revela uma mulher de vanguarda, pois se casou e se divorciou duas vezes, trabalhou como tradutora de francês e como jornalista. Anna aponta que ela também veio de um espaço privilegiado, pois seus pais eram professores. Ao comentar sobre os poemas reunidos em “Nebulosas”, na revista “Semana Ilustrada”, Machado de Assis demonstra certo preconceito: “Não sem receio abro um livro assinado por uma senhora”, começa Machado, para depois afirmar que “a leitura das Nebulosas causou-me excelente impressão”.

— Narcisa dialoga com a poesia social de Castro Alves, aborda a tortura e sofrimento do escravo. Ela também dialoga com o nacionalismo, trata de temas históricos típicos da primeira geração do romantismo. E ainda tem poemas de tom melancólico, bem “mal do século”, de que a morte é a única salvação — afirma Anna.

A esperança dos organizadores e pesquisadores é que, de volta às prateleiras das livrarias, Júlia, Albertina e Narcisa sejam mais lidas, estudadas e recolocadas na história da literatura brasileira da qual foram excluídas.

Em exposição, o acervo raro e singular da Biblioteca Nacional

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Centenas de obras guardadas na instituição são apresentadas pela primeira vez em mostra

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – O acervo de 9 milhões de itens da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) reúne tempos, assuntos e lugares diversos. A exposição “Gabinete de obras máximas e singulares”, em cartaz até o dia 31 de outubro, faz uma viagem a esse tesouro. Nas 18 vitrines espalhadas pelos corredores da biblioteca estão 507 itens que nunca tinham sido expostos ao público, conta a curadora Cláudia Fares, como um exemplar de 1529 de uma obra do viajante veneziano Marco Polo, em que relata as maravilhas vistas em suas peripécias no Oriente.

Uma das vitrines da exposição 'Gabinete de obras máximas e singulares' - Jaime Acioli / Divulgação

Uma das vitrines da exposição ‘Gabinete de obras máximas e singulares’ – Jaime Acioli / Divulgação

 

A mostra foi inspirada nos gabinetes de curiosidades que surgiram no século XVI. As grandes navegações expandiram o mundo conhecido pelos europeus até então. Toda a cultura dos povos recém-descobertos era registrada pelos viajantes e, depois, guardada nos gabinetes. A exposição foi dividida em múltiplos temas, como “Torre de Babel”, “A invenção do Novo Mundo”, “Utopia e distopia”, entre outros.

— Cada vitrine abre uma conversa com o visitante. Na hora que você se detém em cada uma delas, pode criar suas próprias associações. É como um caleidoscópio. Cada vez que você olha, vê de maneira diferente — explica Cláudia. — O gabinete de curiosidades era uma maneira barroca de ver o mundo, onde o real e o fabuloso estão juntos. A lógica da exposição tinha que ser livre assim.

A curadora conta que a pesquisa no acervo para a montagem da exposição envolveu muitas conversas com os chefes responsáveis por cada setor da biblioteca, “pessoas super capacitadas, de dedicação ímpar”. Entre as pepitas descobertas estão um exemplar em alemão de “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e a Segunda Bíblia Hebraica, do século XVI. Nesta edição, pela primeira vez, foram publicadas notas críticas feitas por doutores judeus nas margens do texto bíblico, para preservar ortografia, pronúncia e acentuação exatas. A partir do que o acervo revelava para ela, Cláudia ia agrupando e montando as vitrines.

Uma das obras eróticas expostas é 'Pinto renascido, empenado e desempenado', de Thomaz Pinto Brandão, publicada em 1794. - Fotos de Divulgação

Uma das obras eróticas expostas é ‘Pinto renascido, empenado e desempenado’, de Thomaz Pinto Brandão, publicada em 1794. – Fotos de Divulgação

 

— A vitrine das “Utopias e distopias” foi a primeira que eu fiz. Eu tinha visto o manuscrito de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, no setor de manuscritos. Depois, encontrei o “Paraíso perdido”, de John Milton. Aí caiu a ficha das utopias e distopias, Canudos, o paraíso perdido. E ainda descobri que a biblioteca tinha a primeira edição do “Mein Kampf” — lembra a curadora.

Há, também, um “Gabinete Secreto”. Montado no Salão de Obras Raras, a vitrine reúne 90 obras relacionadas à pornografia e ao erotismo. O gabinete foi inspirado naquele criado por funcionários da Biblioteca Nacional de Paris, no século XIX, para salvar da destruição obras consideradas ilegais, eróticas, imorais ou de caráter ofensivo. Entre os exemplares à vista do público, maior de idade, estão uma ilustração do artista italiano Gino Boccasile para o “Decamerão”, de Biovanni Boccaccio.

SERVIÇO

Onde: Biblioteca Nacional — Av. Rio Branco 219 (2220-9484)

Quando: De terça a sexta, das 10h às 17h. Sábado, das 10h30m às 14h. Até 31/10.

Quanto: Gratuito.

Classificação: Livre.

Argentina exibe manuscrito de Jorge Luis Borges encontrado no Brasil

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Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

Jorge Luiz Borges em imagem de 1981 na Cidade do México (foto: Upi Sabetta/AFP)

 

Originais do conto ‘A biblioteca de Babel’, do escritor argentino, podem ser vistos na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires

Publicado no UAI

O manuscrito do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) usado para o famoso conto A biblioteca de Babel, encontrado no Brasil, começou a ser exibido em Buenos Aires, revelou o escritor Alberto Manguel, diretor da Biblioteca Nacional argentina.

“O documento estava em um ambiente lotado de papéis, quadros, fotos, mapas, cartas de rainhas e próceres como San Martín e Rivadavia. Me surpreendeu que, em uma pasta suja, tenha aparecido algo de tanto valor. Fiquei com a voz trêmula, foi uma emoção muito grande”, disse Manguel.

O original está escrito em letra minúscula. A obra pode ser observada na Biblioteca Nacional, que é dirigida há alguns meses por Manguel, um escritor que desenvolveu grande parte de sua carreira fora do país.

Borges foi autor de obras lidas e estudadas em todo o mundo como O Aleph. É considerado o maior escritor argentino da história e um dos grandes da literatura do século 20, mas não recebeu o Nobel.

Manguel trabalhava em uma livraria quando conheceu Borges e iniciaram uma amizade. O autor de História universal da infâmia, afetado pela cegueira, pediu a Manguel que lesse para ele em seu apartamento e isto aconteceu por quatro anos na década de 1960. Borges também foi diretor da Biblioteca Nacional.

Manguel levou o manuscrito para Buenos Aires como um empréstimo. Ele o encontrou quase ao acaso com um colecionador particular em São Paulo.

A biblioteca de Babel foi um dos contos incluídos no livro Ficções (1944), um dos pilares da obra borgeana. A ideia apresentada por Borges é a de um universo com uma biblioteca que contém todos os livros. É considerado uma metáfora sobre o infinito e foi objeto de estudos, inclusive do ponto de vista científico.

“É um autêntico tesouro. Estes papéis têm um valor material indiscutível e, por outro ladom um valor simbólico. Há poucos elementos que formam a simbologia universal e devemos a Borges um destes elementos: o conceito da biblioteca de Babel, que hoje podemos associar a Internet”, disse Manguel.

O valor material do manuscrito é avaliado em US$ 500mil.

Obras raras da Biblioteca Nacional ganham forma inédita de exibição

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A mostra Gabinete de Obras Máximas e Singulares, da Biblioteca Nacional, integra à arquitetura do prédio 18 vitrines, especialmente construídas e climatizadas para abrigar o acervo (Imagem: Jaime Acioli)

A mostra Gabinete de Obras Máximas e Singulares, da Biblioteca Nacional, integra à arquitetura do prédio 18 vitrines, especialmente construídas e climatizadas para abrigar o acervo (Imagem: Jaime Acioli)

 

Publicado no Portal Comunique-se

Com cerca de nove milhões de volumes, a Biblioteca Nacional é a oitava do mundo e a maior da América Latina. Possui valioso acervo que inclui raridades bibliográficas, entre elas as 60 mil peças que chegaram ao Brasil no início do século 19, trazidas por Dom João VI e a corte portuguesa, para constituir o núcleo original do que é hoje a biblioteca sediada no centro do Rio de Janeiro.

Uma proposta expográfica inédita permite que 507 obras originais desse acervo possam ser vistas pelo público, na mostra Gabinete de Obras Máximas e Singulares, que a Biblioteca Nacional inaugurou na semana passada. A exposição integra à arquitetura dos corredores do 3° e 4° andares 18 vitrines, especialmente construídas e climatizadas para abrigar o acervo.

São obras que exigem muito cuidado para a sua preservação, o que inviabilizava sua exibição, a não ser por meio de fac-símiles, nas tradicionais vitrines expositoras horizontais. A solução encontrada pela curadora Claudia Fares e pelo arquiteto Temer Neder foi a verticalização, ideia que buscou inspiração nos gabinetes de curiosidades, comuns nos séculos 16 e 17 na Europa.

Obras da antiguidade clássica, animais empalhados, autômatos, minerais, fósseis, fragmentos de meteoritos, esculturas, sementes, plantas conservadas em frascos, instrumentos musicais são exemplos das peças que compunham os gabinetes de curiosidades. Organizados por eruditos, naturalistas, profissionais liberais e nobres interessados pela ciência e pela arte, os gabinetes eram originalmente locais de estudos, periodicamente abertos ao público, e tiveram seu apogeu com a descoberta do Novo Mundo e a curiosidade em torno dos itens então considerados exóticos.

“Eles tinham forma de expor muito fascinante e rica. A maneira de associar as obras era sincrética, eles juntavam as coisas da natureza e as da cultura, as de Deus e as dos homens”, explica Claudia Fares. Os mesmos critérios dos eruditos e naturalistas dos séculos 16 e 17 foram utilizados pela curadoria na disposição das obras na exposição.

De acordo com a curadoria, as obras selecionadas são máximas, “por serem superlativas em significado, e singulares por serem, em si mesmas, únicas, o que as qualifica, todas, como raras”. Exibidas pela primeira vez, essas obras raras incluem até mesmo os catálogos dos gabinetes de curiosidades, que vieram de Lisboa como parte da biblioteca real.

“Não tenho dúvida de que essa forma de apresentar as obras vai tornar mais atrativas as exposições na Biblioteca Nacional”, aposta Cláudia Fares. Além dos estudantes e pesquisadores que frequentam suas salas de leitura, a instituição recebe visitantes, nacionais e estrangeiros, interessados em conhecer o acervo, a arquitetura imponente e as obras de arte do prédio.

A exposição Gabinete de Obras Máximas e Singulares fica em cartaz até 31 de outubro e pode ser vista de terça a sexta-feira, das 10h às 17h e aos sábados, das 10h30 às 14h. A entrada é grátis e a Biblioteca Nacional fica na Avenida Rio Branco, 219, na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro.

*Edição: Jorge Wamburg

‘Por que não escrever?’, diz menina que fez livro autêntico aos 6 anos

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Escritora mirim lê o próprio livro com os pais em Campinas (Foto: Clara Rios/G1)

Escritora mirim lê o próprio livro com os pais em Campinas (Foto: Clara Rios/G1)

 

Estudante teve apreciação da obra como autêntica pela Biblioteca Nacional.
Livro surgiu em projeto de férias da escola e foi exposto em vernissage.

Publicado no G1

Enquanto algumas crianças sonham com uma bola de futebol, uma boneca ou uma bicicleta de presente, Bruna Hellmeister, de Campinas (SP), brilha os olhos ao ver um livro. A garota de 8 anos tem uma biblioteca particular no quarto e já teve a oportunidade de escrever a própria obra, quando tinha apenas 6 anos.

“Eu sempre gostei de ler e escrever e aí eu pensei: Ué, por que não escrever um livro? Eu peguei meu tablet e aí meu pai estava junto. Aí eu falava e ele escrevia”, conta a menina, que tem o hábito de ler até cinco livros por semana, segundo o pai.

Assim nasceu a história de um gatinho que sofre maus tratos, foge e monta uma banda para conseguir comida. “O Gatinho Branco” foi lançado em novembro deste ano e teve a apreciação da Biblioteca Nacional como obra autêntica.

Ideia como projeto de férias
“A ideia surgiu quando a escola que eu estudo deu a ideia de, nas férias, fazer um cartão postal ou alguma coisa que lembrasse as férias”, conta Bruna.

Durante as férias escolares de 2013, a história ganhou corpo enquanto a garota observava um gato branco que ficava próximo à reforma feita na sua casa.

“A gente deu o apelido de ‘Inquilino’ pra ele, porque ele vivia na obra”, conta a menina, que entregou a primeira versão da obra em papel sulfite para a professora Mariana Milanez, na escola.

A professora, por sua vez, confirmou o interesse da aluna pelo mundo letrado, mas não imaginava que as férias pudessem ter sido tão produtivas.

“Ela sempre foi uma aluna muito envolvida com escrita e leitura. [Mas] foi muito impactante para mim uma aluna com essa idade escrever dessa maneira. (…) Eu fiquei muito admirada”, diz.

Avaliação da Biblioteca Nacional
Apesar do orgulho pelo feito da filha, a família ficou preocupada em relação à autenticidade da história, que falava de animais músicos assim como o clássico “Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm, que a menina já havia lido. Neste conto, um burro, um cão, um gato e um galo, também maltratados pelos donos, decidiram abandoná-los e partir para Bremen, cidade alemã onde vivenciam momentos de liberdade.

“Por orientação de uma colega, nós mandamos o texto e a Biblioteca Nacional reconheceu como sendo uma obra autêntica e ela [Bruna] como sendo a autora a partir de agora (…). A gente fica babando”, conta orgulhoso o pai Celso Hellmeister.

Busca por ilustrador
Após a avaliação da obra, em julho de 2014, eles começaram a busca por uma pessoa que ilustrasse a história. Os pais conheciam um adolescente que tinha habilidades para desenhar e resolveram perguntar se ele faria as ilustrações.

“Ela gostou do rascunho de cara. Ele trouxe o rascunho de início e ela falou: ‘Era exatamente isso que eu tinha na cabeça para ser o gatinho’ (…) Nós achamos interessante, considerando que eram duas cabeças muito próximas pensando juntas”, conta a mãe, Caroline Batista.

Bruna ao lado do presidente do CCLA e do ilustrador do livro, em Campinas (Foto: Marcia Prado)

Bruna ao lado do presidente do CCLA e do ilustrador do livro, em Campinas (Foto: Marcia Prado)

Sucesso
A elaboração dos desenhos durou cerca de (mais…)

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