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Publicação de livro incentiva ex-detento a mudar de vida e abandonar o crime

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Paulo Milhan lançou o livro da Bienal do Livro, em São Paulo e pode concorrer ao prêmio Biblioteca Nacional de Literatura

Maira Fernandes no Jornal O Cruzeiro

Seria clichê iniciar um texto dizendo que um ex-detento que escreveu um livro foi liberto pelas letras. E, nesse caso, também não seria de todo verdade. Paulo Henrique Milhan, que inúmeras vezes cumpriu pena em regime fechado – tráfico e formação de quadrilha – não começou a pensar em mudar de vida quando começou a escrever. O que ele queria quando concebeu o livro de mais de 400 páginas todo na cabeça antes de digitar, não tinha nada a ver com futuro, mas sim com reinventar o passado. A liberdade (e a libertação) foi consequência da maturidade, sustentada pelo amor de contar histórias.

 

“Tarde demais para acreditar no amor” é o nome do primeiro livro de Milhan, que foi lançado na Bienal do Livro esse ano, em São Paulo e também um dos livros habilitados para concorrer ao prêmio Biblioteca Nacional de Literatura. Nele, o ex-presidiário, natural de Andirá, no Paraná, e que há cerca de 10 anos mora em Sorocaba, não conta sobre sua vida de encarcerado, mas de um sentimento por Jaqueline, um amor que mantinha desde os tempos que morava no Paraná, mas que as idas e vindas de cidade e prisões, não permitiram acontecer. “Tinha em mente a história, queria escrever o livro sobre o sentimento por Jaqueline. O que não aconteceu, no livro ia acontecer”, explica. Na obra, Paulo é o narrador que observa a paixão de um rapaz, que está preso, por um moça. “No livro eu faço os dois se relacionarem, o que não aconteceu comigo, mas ele também está preso. Era o que eu queria, na verdade, que tivesse acontecido comigo”, conta ele, hoje com 39 anos e atuando na área de funileiro.

 

Hoje ele garante que a paixão não existe mais, só ficou uma amizade. Mas reconhece que foi por amor a ela que a escrita entrou definitivamente em sua vida. Foi em idos dos anos 2000, quando esteve preso em Andradina, que resolveu escrever uma poesia para participar de um concurso dentro do presídio. A musa, claro, era Jaqueline. “Eles (colegas de cela), leram minha poesia e gostaram muito, me pediam para eu emprestá-la para enviarem para suas mulheres, namoradas. Coisa de cadeia…”, recorda Milhan.

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Com poder e verba, Biblioteca Nacional é criticada por descuidar de acervo

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Daniel Marenco/Folhapress
Coleção no setor de periódicos da Biblioteca Nacional
Coleção no setor de periódicos da Biblioteca Nacional

Matheus Magenta e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Na última terça-feira, quando uma grade de 1,25 m x 0,55 m despencou de oito metros de altura dentro da sede da Biblioteca Nacional, no Rio, o presidente da instituição, Galeno Amorim, estava em reuniões em Brasília.

Ele continuava lá no dia seguinte, quando funcionários fizeram, na frente do centenário prédio carioca, o segundo protesto do ano pelas más condições do lugar -que atingiu alto nível de degradação neste ano, com infiltrações e problemas elétricos.

Desde que assumiu a Fundação Biblioteca Nacional, em 2011, o paulista Galeno Amorim, 50, tem dividido seus dias entre atribuições na sede da instituição e uma série de viagens a trabalho, inclusive a outros países.

A rotina, que difere da que seus antecessores tiveram no cargo, decorre da transferência – iniciada em 2011 e concretizada em abril deste ano- de todas as políticas públicas de livro, leitura e literatura do país para a instituição.

A instituição acumulou funções como modernizar bibliotecas, internacionalizar a literatura brasileira e formar agentes de leitura, além do já enorme trabalho de preservar a memória do país.

Com isso, a gestão de Galeno passou a ser criticada por descuidar do básico: a biblioteca e seu acervo.

Ao mesmo tempo, projetos anunciados com alarde, como o Programa do Livro Popular, nem saíram do papel.

O apoio à cadeia produtora do livro e a internacionalização da literatura brasileira, outras marcas da atual administração, são elogiados pelo mercado e por autores, mas servem de munição adicional aos críticos do que seria descaso com a biblioteca.

ACÚMULO

Em novembro, dois meses após assumir o Ministério da Cultura, Marta Suplicy contestou, em entrevista à Folha, a ampliação das atribuições da FBN, tema que divide especialistas em políticas públicas.

Questionada se a FBN é a instância mais adequada para cuidar das políticas de livro e leitura, disse: “Não é. Não acho [que seja]. Estou estudando por que foi feito desse jeito e como seria se a política do livro voltasse para Brasília. Não decidi ainda, mas estou reavaliando”.

Galeno Amorim diz ter “posições rigorosamente parecidas” com a de Marta. “A junção dessas áreas na FBN fortaleceu as políticas de livro e leitura. Mas acredito que seja importante uma instituição para cada uma das coisas.”

Segundo ele, ainda estão sendo formadas condições para a criação do Instituto do Livro, que seria voltado especificamente a essas políticas. “A meta é mostrar resultados. Cabe à ministra avaliar se o momento é oportuno.”

Colaborou MARCO AURÉLIO CANÔNICO, do Rio

Vencedor do Prêmio Camões, Dalton Trevisan mantém tradição e não aparece

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Dalton Trevisan posa para o Jornal da Tarde em 1968, época em que dava entrevistas com prazer. (Foto: AE)

Cassiano Elek Machado, na Folha de S.Paulo

Avesso a aparições públicas desde o início de sua carreira, o escritor Dalton Trevisan, 87, honrou sua tradição. O autor curitibano não compareceu nesta quarta (12) ao evento onde receberia a maior distinção literária da língua portuguesa, o Prêmio Camões, dado pelos governos de Portugal e Brasil desde 1988.

A vice-presidente da editora Record Sonia Machado recebeu o prêmio em nome do escritor e leu um fax enviado por ele.

“Os muitos anos, ai de mim, já me impedem de receber pessoalmente o prêmio”, diz Trevisan, em um trecho da carta, que manifestou espanto por receber o que chamou de “o prêmio dos prêmios”, que lhe rendeu 100 mil euros.

Com a ausência do “Vampiro de Curitiba”, como é apelidado, o evento na Biblioteca Nacional, no Rio, foi uma festa da editora Record, que o publica.

O grupo editorial, um dos maiores da América Latina, comemorou na ocasião seus 70 anos.

Além de exibir um vídeo em que várias personalidades da cultura brasileira falavam sobre a Record, foram feitas homenagens a alguns autores da casa, como Marina Colasanti e Eduardo Spohr, que ganharam o prêmio Recordista, dado pela editora aos que vendem mais de 100 mil exemplares por ano.

A editora anunciou no evento a doação de 70 mil livros para a Biblioteca Nacional e algumas ações, como a venda com preços promocionais de 70 livros de sucesso, como “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.

A Record, que é composta hoje por 13 selos diferentes, fará ainda 70 debates em 7 capitais nacionais.

Revista ‘Granta’ une prestígio e simplicidade

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O editor da Granta, John Freeman, na Redação da revista literária, em Londres

Fabio Victor, na Folha de S. Paulo

“Você tem certeza de que Vanessa Barbara existe mesmo? Nós aqui estamos achando que ela é uma invenção do Antonio Prata.”

O chiste do editor da revista britânica “Granta”, o americano John Freeman, indica o clima que dominou nos últimos meses a Redação da publicação, em Londres.

A dificuldade em contatar alguns autores –num dado período, Vanessa de repente sumiu– foi parte de um processo que começou em julho, quando foi lançada no Brasil a “Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, e é concluído agora, com o lançamento da versão do volume em inglês.

Quando Freeman fez a brincadeira, numa visita da Folha à Redação da revista, em Londres, em setembro passado, a edição traduzida para o inglês acabara de ser finalizada.

A “Granta” incumbiu 15 tradutores de verterem para o inglês os textos dos 20 brasileiros selecionados. Prata e Vanessa, ambos colunistas da Folha, estão entre eles.

A partir do dia 12, outros noves autores participam de eventos de lançamento nos EUA e no Reino Unido.

São eles: Carola Saavedra, Chico Mattoso, Cristhiano Aguiar, Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Michel Laub, Miguel Del Castillo, Tatiana Salem Levy e Vinicius Jatobá. A programação está na página www.granta.com.

Em março, deve sair a tradução para o espanhol e para o mandarim. A “Granta” dedicada ao Brasil teve apoio do governo federal. Por meio do seu Programa de Apoio à Tradução, a Fundação Biblioteca Nacional repassou US$ 8.000 (R$ 16,2 mil) à publicação.

SIMPLES

O prestígio internacional da “Granta” não altera a simplicidade do ambiente em que a revista é produzida.

A Redação funciona no primeiro andar de um casarão branco com fachada neoclássica no bairro nobre de Holland Park, na zona oeste de Londres.

Em torno de uma pequena sala de estar com poltronas e mesa de centro estão dispostos os escritórios da equipe editorial –oito pessoas que cuidam da revista e da editora Granta Books– e uma copa aberta.

Freeman ofereceu café, que descansava numa velha cafeteira elétrica. A caneca foi colhida da pia, o repórter passou uma água e pediu açúcar, que o editor não sabia se tinha -por fim, foi achado num armário.

Fundada em 1889 por estudantes da Universidade de Cambridge, a “Granta” hoje tem, além da edição em inglês (trimestral, tiragem de 50 mil exemplares), versões em cinco países: Espanha, Itália, Bulgária, Brasil e China. Para o ano que vem, serão pelo menos mais três (Noruega, Suécia e Portugal).

Segundo Freeman, a edição brasileira, que acaba de chegar ao volume dez, é a mais bem-sucedida entre as estrangeiras.

A Objetiva/Alfaguara, que publica a revista, diz que a vendagem média é de 2.500 exemplares por volume (a dos “Melhores Jovens” vendeu até agora cerca de 4.300).

Indagado se a ideia de espalhar a marca pelo mundo não seria incompatível com a excelência literária da “Granta”, Freeman diz que não, pelo contrário.

“É algo novo, outras revistas literárias não possuem edições em outras línguas, embora os bons leitores sempre queiram ler livros de outros países. E a internacionalização do mercado editorial tornou isso possível.”

“Para uma revista focada em nova literatura, como a ‘Granta’, é muito importante descobrir novos escritores fora da língua inglesa”, completa.

Sem obras, Biblioteca Nacional corre risco

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Por causa da deterioração, um pedaço da fachada do prédio centenário chegou a despencar na calçada movimentada

Roberta Pennafort, no Estadão.com

Falta de ar-condicionado, fachada deteriorada, gambiarras, rachaduras em paredes e pisos. São alguns dos problemas da centenária sede da Biblioteca Nacional (BN), no centro do Rio. A série de projetos de restauração tocada pela direção não diminui a apreensão de quem trabalha em um dos únicos edifícios históricos da Cinelândia que ainda não passaram por reforma.

Biblioteca Nacional tem problemas

“É um prédio de cem anos sem manutenção. Trabalho desde 1982 e nunca vi obra estrutural, só estética, e no início dos anos 1990”, conta o chefe da Divisão de Obras Gerais, Rutonio Sant’Anna, que presidiu a associação de servidores por seis mandatos. “Estantes de metal dão choque. É tudo cheio de gambiarra, benjamim, muito perigoso. Acima de tudo, está a vida das pessoas e o patrimônio do País.”

Criada há 200 anos por d. João VI com parte do acervo da família real trazido de Portugal, a instituição, muito procurada por estudantes e pesquisadores, recebe cópias de todos os jornais e livros publicados no Brasil (são 100 mil volumes por ano).

“Não temos espaço para mais nada. Enquanto a hemeroteca, no Porto, não recebe os periódicos, fica tudo encaixotado. Armazéns de obras gerais e raras são insalubres, faz 50°C lá”, diz o atual presidente da associação, Otávio Alexandre de Oliveira, que se inquieta ainda com o peso sobre as fundações. “Depois que prédios da Avenida 13 de Maio desabaram (em janeiro, matando 22 pessoas), nos preocupamos mais. O prédio foi projetado para guardar só 800 mil volumes.”

Em protesto há uma semana, funcionários reiteraram pedido feito em março de “providências urgentes para problemas que vêm de décadas”, como a precariedade na segurança (catracas não funcionam e controle é feito por funcionários), a falta de acondicionamento do acervo e a ameaça de cupins e traças.

O ofício foi mandado pouco antes do vazamento que começou no 6.º andar e foi descendo, molhando milhares de periódicos – eles só não se perderam porque a secagem foi ágil. Desde então, o ar foi desligado, para desconforto de frequentadores, e as janelas, abertas para a supermovimentada Avenida Rio Branco. Após um pedaço da fachada despencar na calçada, foi colocado um tapume.

Crises. Os problemas já eram conhecidos pelo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, que assumiu há 1,5 ano e começou a levantar os pontos críticos. “Não negamos nenhum deles. Começamos a diagnosticar as condições do prédio e, no meio do caminho, crises foram aparecendo”, diz Loana Maria, sua diretora executiva.

Segundo ela, as últimas revisões elétrica e hidráulica foram há 30 anos. A falta de recursos do Ministério da Cultura é um entrave. “Temos previsão de obras para dez anos. Só o projeto para a reforma elétrica leva seis meses para ficar pronto. A gente queria uma obra como a do Teatro Municipal (em frente, centenário e todo reformado por 1,5 ano).”

A prioridade na BN foi a instalação do sistema de detecção de incêndio, ligado neste mês. Parte do ar-condicionado deverá será recuperada em 90 dias. Substituição completa, ao custo de R$ 1,5 milhão, só ano que vem: a previsão é de que o edital de contratação saia até o fim do ano. A lista de projetos tem 15 itens.

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