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A escritora que leu um livro de cada país: 197 num ano

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Ann Morgan | DR

Ann Morgan
| DR

Percorreu o mundo sem sair de Inglaterra em 2012. Ann Morgan teve de reunir voluntários que traduzissem livros de sítios como São Tomé e Príncipe. Leu a um ritmo de 150 páginas diárias

Publicado no Diário de Notícias

Ann Morgan dormiu muito pouco durante um ano inteiro. A escritora e blogger inglesa terminava o projeto em que, durante um ano, fez um périplo de leitura por escritoras mulheres quando um leitor do seu blogue A Year Of Reading Women lhe fez um reparo: na sua lista, pouquíssimas eram as obras fora do mundo anglo-saxónico.

Estávamos às portas de 2012, ano em que Inglaterra recebeu o mundo que ali ia assistir aos Jogos Olímpicos ou jubileu da rainha Isabel II. Era, pois, a hora certa para o temerário projeto que a levou a, durante um ano, ler um livro de cada país. A “viagem” seria relatada no blogue A Year Of Reading The World, que hoje conta cerca de um milhão de visualizações. A contagem inicial era de 196 livros/países, mas Ann resolveu incluir o Curdistão, 197.º, em representação dos territórios não reconhecidos pelas Nações Unidas.

Chama-se “temerária” à tarefa pois, em primeiro lugar, apenas 4,5% dos livros que todos os anos são publicados no Reino Unido são traduções. Tal faz do ato de procurar um livro de São Tomé e Príncipe ou do Togo uma difícil façanha.

Em segundo lugar, se a tarefa devia ser realizada num ano, Ann ficava com “1,87 dias para ler cada livro”, recorda ao DN. Acresce o facto de, nesse ano, estar a trabalhar no jornal britânico The Guardian. Como tal, “tinha de ler cerca de 150 páginas por dia. Isto tomava-me três a quatro horas por dia, tinha de ler no caminho casa-emprego e muitas vezes na minha pausa de almoço e serões. Ainda tinha de pesquisar pelos livros e escrever no blogue, o que me levava o mesmo tempo da leitura. Não dormi muito nesse ano!”

Naquela viagem que fez sem sair de Inglaterra, entrou em Portugal pela porta de Eça de Queirós. Leu O Mandarim, numa edição que reúne outros contos, por sugestão de uma colega portuguesa do jornal em que trabalhava. De resto, quase se torna redundante fazer o elenco dos países por que passou Ann Morgan, pois a resposta é simples. Todos. Mas ela recorda algumas travessias, como a aventura que foi ler Olinda Beja, a autora santomense que elegeu. Não havia traduções.

“O meu marido, Steve, sugeriu que eu tentasse que as pessoas traduzissem algo para mim.” Pensou que ninguém ia usar o seu tempo para isso. Mas depois de publicar um tweet, os voluntários apareceram. E “incluíam a tradutora Margaret Jull Costa, que traduziu José Saramago e no ano passado recebeu da rainha a Ordem do Império Britânico”. Em seis semanas, tinha A Casa do Pastor nas mãos.

O blogue, feito cartografia da viagem, continua. Desde fevereiro existe também um livro, Reading the World: Confessions of a Literary Explorer (The World Between Two Covers: Reading the Globe nos EUA).

Bruna Vieira usa YouTube para apresentar ‘feminismo às mais novas’

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bruna vieira

Em Depois dos quinze, ela critica padrões de beleza: ‘Peso o quanto quiser’.
Ela lucra em média US$ 10 mil por mês com publicidade e views no canal.

Letícia Mendes, no G1

A mineira Bruna Vieira, de 21 anos, pode ser considerada veterana das youtubers. Aos 14, começou a escrever o blog Depois dos Quinze, com mais de 60 mil acessos diários. Dois anos depois, decidiu fazer vídeos também para desafiar a timidez. Assista ao vídeo acima.

Hoje, tem mais de 500 mil inscritos no seu canal e lucra em média US$ 10 mil por mês com publicidade e visualizações. “É incrível que eu possa ganhar esse dinheiro com a minha criatividade”, diz ao G1.

Há três anos, ela tem uma empresa que a ajuda a negociar contratos: “Não tem um valor fixo na verdade. No Natal, por exemplo, tem mais campanhas.”

Elas se posicionam em frente a uma câmera, mas vão na contramão das centenas de vlogs dedicados apenas à maquiagem e à moda. Além de ganhar fama, essas youtubers mobilizam na web discussões sobre o feminismo. Leia o especial.

A youtuber Bruna Vieira (Foto: Divulgação)

A youtuber Bruna Vieira (Foto: Divulgação)

Bruna mora em São Paulo desde os 17 anos e adiou a faculdade para conseguir se dedicar integralmente ao Depois dos Quinze. Também foi contratada pela editora Gutenberg: lançou quatro livros. “Agora estou aproveitando oportunidades, mas talvez ano que vem ou no próximo eu estude Cinema, Jornalismo ou Publicidade. Ainda estou escolhendo”, conta.

Ao contrário da Jout Jout, que fez sucesso quase instantâneo, Bruna viu seu canal crescendo aos poucos. Nele, ela dá conselhos para um público adolescente, “90% feminino”.

“A relação com os meus fãs é de amizade. Se encontro na rua, é como se estivesse encontrando uma amiga, que sabe tudo da minha vida”, diz. “Falo das minhas experiências naturalmente. A ideia é que a menina assista e sinta que está conversando com uma amiga.”

Trabalho de madrugada
Bruna diz que o processo de gravação é muito simples. “Normalmente eu ligo a câmera no meu quarto, gravo, e edito também. Trabalho de madrugada. Quase sempre começo a gravar umas 23h porque é mais silencioso, não tem barulho de carro. Como eu uso iluminação artificial é tranquilo.”
Ela diz que considera alguns vídeos do começo do canal bem bobinhos, mas deixa online para que as pessoas acompanhem sua evolução. “Quando mudei para SP, gravei um falando como era morar aqui e eu tinha uma visão muito fantasiosa. Achava tudo em SP muito diferente. Não sou mais assim”, afirma.

A youtuber Bruna Vieira, do canal Depois dos quinze (Foto: Divulgação)

A youtuber Bruna Vieira, do canal Depois dos quinze (Foto: Divulgação)

Dicas de fotos e apps
Seus vídeos sobre “dicas para tirar fotos boas” e “quais aplicativos de fotos usar” foram os que mais fizeram sucesso.

Fã das youtubers Flavia Calina e Taciele Alcolea, Bruna diz que seu diferencial é “falar de feminismo para as meninas mais novas”. “Elas não têm muita noção do que é. Por isso eu sempre tento inserir a pauta feminista no conteúdo que eu já faço.”

“Tipo criticar padrões de beleza, que é um assunto que eu acho importante. Há uma cobrança muito grande. Dizem: ‘Bruna, você tem que emagrecer’. ‘Eu tenho que pesar o quanto eu quiser. O importante é estar saudável’, digo para elas. Passo uma mensagem positiva e de aceitação para as meninas que querem usar biquíni, mas tem vergonha do corpo.”

Como seu público é mais jovem, falar sobre sexo também é algo especial. Um de seus vídeos mais vistos fala sobre “a primeira vez”. “É tabu porque as meninas não devem ter alguém para falar sobre isso em casa. Quando você não passou por aquilo, a coisa parece um monstro, parece que vai dar tudo errado. ‘Me apaixonei pelo meu melhor amigo e agora?’. Conto o que passei e elas sentem que sou alguém que tem um pouquinho mais de experiência que elas.”

Capitão do Fla cria blog para indicar livros e ataca preconceito a atletas

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Novo capitão do Flamengo, zagueiro Wallace criou um blog para indicar livros (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo/Divulgação)

Novo capitão do Flamengo, zagueiro Wallace criou um blog para indicar livros (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo/Divulgação)

Gustavo Franceschini, no UOL

Capitão do Flamengo após a saída de Léo Moura, Wallace combate, desde suas primeiras entrevistas, o estereótipo do jogador de futebol. Bem articulado, gosta de literatura, joga xadrez e já escreveu cartas para a torcida. Em 2015, resolveu ir além. Lançou “Wallace Leu”, blog pessoal que usará para indicar obras a amigos, torcedores e fãs, com direito a mini resenhas e comentários.

“Primeiro queria dizer que não sou crítico literário e nem tenho condições de fazer isso. É que tem muita gente que pergunta: ‘O que você está lendo?’. E senti que as pessoas tinham interesse em saber. É muito mais para compartilhar meus gostos com as pessoas do que fazer uma análise do livro”, disse Wallace, em entrevista ao UOL Esporte.

A ideia partiu de Guilherme Prado, ex-diretor de comunicação do Corinthians que trabalhou com Wallace quando ele passou pelo clube do Parque São Jorge. Com o auxílio de uma empresa de programação, a dupla colocou o blog no ar com o objetivo de apresentar três livros por semana, de todos os estilos.

Wallace vai de obras esportivas, como a biografia do técnico de basquete Phil Jackson (“Onze Anéis – A Alma do Sucesso, ed. Rocco), até clássicos como 1984, de George Orwell. “Urgência pública é o modo como descrevo 1984. Um mundo sem o livre pensar. Reprimido por um governo autoritário que introduzia na população medo e uma falsa liberdade, Winston descobre alguns dos seus desejos mais simples e se rebela desenvolvendo um olhar crítico, observado pelo Grande Irmão 24 horas até onde irá sua coragem”, escreveu o zagueiro, “resenhando” o livro que deu origem ao conceito do programa Big Brother.

Confira a íntegra da entrevista a seguir:

UOL Esporte: Que tipo de leitura você gosta? Como é o processo de criação no blog?
Wallace:
Eu leio de tudo. Biografia, esporte, romance… Quando pedem indicação de livro eu sempre pergunto que tipo de leitura as pessoas querem ter. Sobre o blog, eu faço um resumo e o Gui [Guilherme Prado] pediu para que passasse por áudio também para ser mais pessoal. Vou fazendo um resumo do que eu acho do livro. Só vou colocar livros que eu já li.

UOL Esporte: De onde vem o hábito de escrever? Em 2010, você escreveu duas cartas sobre o Vitória, seu time na época, que tiveram bastante repercussão.
Wallace:
Na Bahia eu tinha muito mais o hábito de escrever. Deixei isso um pouco de lado em São Paulo. Eu escrevi duas cartas em direção à torcida. Escrevi muito mais a questão dos sentimentos, expus meus sentimentos de forma muito visceral. Quando eu escrevi a primeira vez não esperava tanta repercussão. Especialmente aqui no centro [Rio de Janeiro e São Paulo] foi muito bem aceito pelas pessoas. Tinha escrito na semifinal da Copa do Brasil porque a gente tinha perdido para o Atlético-go no primeiro jogo e a torcida não estava acreditando muito. Tinha feito uma mensagem de quatro ou cinco linhas e aí o Corrreio [da Bahia, jornal de Salvador] me pediu para que eu escrevesse outras. Acabou que fui cuspindo sentimentos. Foi bom que quem não me conhecia me viu extracampo.

UOL Esporte: Dos livros que você leu, qual te marcou mais?
Wallace:
De esporte tem o ‘Onze Anéis’, do Phil Jackson. É bom para ver como ele lida com essa coisa do ego do atleta. Ele formou o time do Bulls, com Jordan, Pipen e Rodman. E logo depois ele conta dos três títulos com o Lakers. Ele fala de toda essa coisa de lidar com o Shaquille O’Neal e o Kobe Bryant, duas estrelas. É bom para a gente saber tirar o melhor desses caras.

UOL Esporte: Em um dos resumos do seu blog, você cita a série House of Cards, que fala sobre a política norte-americana. Que outros hobbies, além de leitura, você tem na concentração, por exemplo?
Wallace:
Eu assisto a muita série. Às vezes jogo videogame, mas hoje não tenho muita paciência. A maior parte do tempo eu passo lendo, vendo alguma série. Cada um faz uma coisa diferente. Tem quem fique só nas conversas pelo celular.

UOL Esporte: Em 2013, em uma entrevista ao Esporte Espetacular, você disse que se preocupou em jogar bem no ataque para mostrar ao torcedor que podia ser um zagueiro diferente, já que havia passado dois anos ruins no Corinthians. Acha que o blog pode te ajudar a reforçar essa imagem de jogador incomum, diferente?
Wallace:
Primeiro eu queria dizer que não joguei no Corinthians por culpa minha. Talvez não tenha feito tudo que deveria fazer. O Tite me deu algumas oportunidades e não consegui aproveitá-las, mas eu sou muito grato a ele e ao clube. Sobre a pergunta, acho que as pessoas olham diferente. Elas percebem que elas têm um estereótipo do jogador, por culpa nossa e da própria imprensa. Jogador de futebol não é aceito, é tolerado.

UOL Esporte: Nos últimos anos, especialmente, nós vimos jogadores se organizando, indo à imprensa para falar de outros assuntos que não sejam só o futebol dentro das quatro linhas. Ainda assim você acredita que o jogador sofre preconceito?
Wallace:
Acho que sim, sofre. Quando falo isso não é só preconceito da imprensa. Quem vê futebol talvez não esteja interessado nas outras coisas que você tem para passar. Em qualquer mesa de bar, em uma rodinha de amigos que você for conversar e colocar em pauta a profissão de atleta ele é rotulado como mulherengo, folgado. Isso está mudando, mas caminhando a passos curtos. E temos de nos posicionar.

UOL Esporte: Se posicionar também politicamente? No ano passado você chegou a anunciar seu voto em Aécio Neves.
Wallace:
Não defendo nem PSDB nem PT. Defendo a ideia do candidato. A gente tem muito a coisa de defender um lado. Na minha opinião, naquele momento o Aécio me trouxe opiniões mais concretas. Hoje a gente vê a maior crise política que nós vivemos. A gente tem dito que não vê ninguém sendo preso. Minha ideia é aquela. Mesmo tendo o pouco entendimento eu tenho de me posicionar.

UOL Esporte: No âmbito esportivo, o que você achou da MP do refinanciamento da dívida dos clubes? Chegou a conversar sobre isso com o Paulo André, um dos líderes do Bom Senso?
Wallace:
Converso muito com o Paulo. Ficamos felizes que a MP foi aprovada. Muito jogador ainda está muito por fora do Bom Senso, não entende que essa liga é pela causa da profissão. Acho que deu uma esfriada legal. As principais referências saíram, outros pararam. A gente espera que surjam novas lideranças.

UOL Esporte: Por último, como você se sentiu ao ter virado o capitão do Flamengo após a saída do Léo Moura?
Wallace:
Fico feliz. Pra mim é uma honra, não deixa de ser a realização de um sonho. Mas é simbólico. Com ou sem a faixa a minha liderança se mostra em campo. A capitania se daria de uma forma ou outra. Também não posso entender que isso é o ápice da carreira.

Jovem publica livro após 12 anos ‘caçando’ editoras em lista telefônica

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Fellipe de Almeida começou a escrever aos oito anos por influência da irmã.
Aos 20 anos de idade, jovem surpreende criando em máquina de escrever.

Estante com livros, computador e máquina de escrever ficam na sala de casa (Foto: Orion Pires / G1)

Estante com livros, computador e máquina de escrever ficam na sala de casa (Foto: Orion Pires / G1)

Orion Pires, no G1

Desde os oito anos de idade, um garoto de São Vicente, no litoral de São Paulo, vasculhava as listas telefônicas em busca de uma editora que ajudasse na publicação de um livro. A história poderia servir como enredo de uma obra literária, mas fará parte da vida real do estudante de publicidade e propaganda Fellipe de Almeida Silva, de 20 anos. Quase 12 anos depois de iniciar uma verdadeira saga para realizar o sonho de se tornar escritor, ele conseguiu encontrar a tão almejada editora e terá o seu livro de crônicas, poesias e contos publicado.

O jovem começou a escrever ainda pequeno por influência da irmã, que é 15 anos mais velha. Os livros infantis foram a porta de entrada para cultivar a leitura e ajudar nos estudos. “Toda vez que ela ia me dar um presente eu tinha que ler um livro primeiro para depois ganhar. Depois de um tempo, eu acabei deixando os presentes ‘bons’ e ficava só com os livros”, explica.

A compensação foi a maneira que a irmã, atualmente bancária, encontrou para contribuir com o futuro do irmão. E deu certo. “Funcionou comigo e facilitou também na escola. Quando a professora passava alguma redação para fazer, eu sempre ultrapassava o limite das linhas”, lembra.

Ele revela ainda que, por várias vezes, escutava o recado da professora: ‘Fellipe, não precisa escrever tanto’. Porém, não tinha jeito, pois as folhas de almaço pautadas da época da escola não eram suficientes para as histórias do jovem.

Depois de alguns anos escrevendo textos, o jovem decidiu mudar as leituras. De histórias infantis, ele resolveu procurar um conteúdo diferenciado. Na estante da irmã, encontrou um livro da Zíbia Gasparetto – ‘Pare de Sofrer’ e voltou seus contos para o público adulto. “Fiquei encantado com essa escrita mais adulta. Já na escola conheci Fernando Pessoa e Machado de Assis. Foi uma transição da escrita dessas histórias infantis para as mais adultas”.

Aos poucos, ele foi ‘pegando gosto’ por textos pessoais, poesias, histórias e, por consequência, mudou também o estilo de escrita. “Eu sempre dizia que escrevia muito a história dos outros e, quando eu fosse viver minhas próprias emoções, iria escrever sobre elas”, conta.

Fellipe afirma que não tem ideia de quantos textos já escreveu, mas que anda com folhas e um caderno na bolsa. Quando alguma ideia aparece ele manda tudo para o papel. Aliás, além do papel e caneta, ele detém uma máquina de escrever na sala de casa. “Claro que tem modernidade, mas o barulho da máquina de escrever é inspirador também”.

Além de escrever, Fellipe também faz a manutenção da máquina (Foto: Orion Pires/G1)

Além de escrever, Fellipe também faz a manutenção da máquina (Foto: Orion Pires/G1)

Editora
Há cerca de seis meses, o sonho de se tornar escritor começou a virar realidade na vida do jovem. Depois que criou um blog para reunir os textos escritos na internet, suas histórias ganharam voos maiores. “Um jornalista que eu tenho no Facebook compartilhou um texto meu e um rapaz da editora entrou em contato comigo. Ele mandou um e-mail perguntando se eu estava interessado em fazer uma publicação, se eu tinha alguma coisa pronta. Claro que eu respondi que queria”, explica.

Fellipe organizou os textos por cronograma de tempo e enviou tudo para a editora carioca. O projeto foi aprovado e, finalmente, sairá do papel. O contrato entre ele e a editora não tem um custo direto. A única cláusula é de que pelo menos 35 livros deverão ser vendidos no dia do lançamento. Serão contos, poesias e crônicas distribuídas em 80 páginas. “A editora segue essa política de incentivar jovens escritores e isso me deixou muito feliz”, diz.

O título da obra será ‘Canário’ e será lançada no dia 28 de novembro, no Teatro Guarany, em Santos. O nome do livro é uma alusão aos pássaros que, com a liberdade de voar, chegam ao destino que querem. “Foram dez anos da minha vida sonhando com isso e sempre pareceu muito surreal. Eu gosto de tantos escritores e eu tenho um livro deles na mão. É difícil imaginar que em breve eu terei algo produzido por mim na mão, com o meu nome assinado. Acho agora a minha vida está fazendo mais sentido”, comemora.

Fellipe escreve desde os oito anos de idade por incentivo da irmã (Foto: Orion Pires/G1)

Fellipe escreve desde os oito anos de idade por incentivo da irmã (Foto: Orion Pires/G1)

Gaúcha se torna escritora bem-sucedida ao narrar cotidiano durante a surdez, que superou há um ano

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Aos 16 anos, Paula Pfeifer, hoje com 33, foi diagnosticada com deficiência auditiva neurossensorial bilateral progressiva

Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala (Foto: Arquivo pessoal)

Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala (Foto: Arquivo pessoal)

Dandara Tinoco, em O Globo

Contrariando um clichê sobre a puberdade, Paula Pfeifer parou de falar ao telefone na adolescência. Também deixou de ouvir músicas, suspendeu as conversas em grupinhos, evitou frequentar lugares barulhentos. Aos 16 anos, ela soube o nome do zumbido que atrapalhava as atividades que tanto descrevem a juventude: deficiência auditiva neurossensorial bilateral progressiva. A surdez já a atingia num grau severo.

— Há uma frase célebre da (escritora americana deficiente auditiva e visual) Helen Keller que diz “a cegueira nos afasta das coisas, a surdez nos afasta das pessoas”. E isso dói e é cansativo. Você não consegue mais acompanhar as conversas em pé de igualdade nem conversar em lugares escuros ou barulhentos, não entende o que dizem ao telefone, não ouve a campainha, não entende as músicas, não se sente seguro para ficar sozinho em casa. — enumera a gaúcha de Santa Maria, hoje com 33 anos. — Para piorar, as pessoas acham que todo surdo usa língua de sinais, estuda em escola especial, frequenta a “comunidade surda” e precisa de intérprete. Então, além das dificuldades óbvias, você ainda precisa se tornar um disseminador de informação.

LEITURA LABIAL EM TRÊS LÍNGUAS

Por ter perdido a audição progressivamente, e já depois ter aprendido a falar, Paula integra o grupo de surdos oralizados, como são chamados os deficientes auditivos capazes de se comunicar pela fala. Ela nunca usou a linguagem de sinais e se tornou uma especialista em leitura labial — em português, inglês e espanhol.

Pensando em tratar das nuances que cercam a surdez, Paula decidiu escrever sobre o assunto. Criou um blog (sweetestpersonblog.com), depois um livro (“Crônicas da surdez”) e, no primeiro semestre do ano que vem, lança “Novas crônicas da surdez: epifanias do implante coclear”. Enquanto, na primeira obra, relatou o processo de aceitação da deficiência, na segunda contará como foi voltar a escutar. Em setembro do ano passado, a gaúcha implantou o chamado “ouvido biônico”, apetrecho que devolve a capacidade de perceber o som a pessoas com surdez total.

— Voltar a ouvir foi um cafuné na alma, e vai fazer um ano que me delicio com redescobertas sonoras todos os dias. Voltar a escutar minha própria voz e ter controle sobre ela foi emocionante, voltar a ouvir passarinhos, o mar, o vento… Coisas absolutamente banais para quem ouve, mas de uma beleza monstruosa para aqueles que foram privados disso por muitos anos — descreve.

Apesar de ter começado a perder a audição na infância, Paula relutou para reconhecer a deficiência. Num primeiro momento, recebeu o diagnóstico de que tinha um canal no ouvido que, um dia, iria abrir, permitindo-lhe ouvir bem. Aceitou o parecer, mas, com a persistência do problema, descobriu a deficiência. Só no ano seguinte procurou uma fonoaudióloga e, tempos depois, falou sobre o assunto a pessoas próximas. Decidiu tratar da surdez de forma assumida já na universidade. No trabalho de final do curso de Ciências Sociais, escreveu sobre a escolha da modalidade linguística (oral ou de sinais) pelos pais de crianças surdas. No blog, passou a falar para deficientes, famílias e amigos.

— Detestava o fato de ver somente ouvintes escrevendo sobre surdez. O que uma pessoa que ouve pode de fato entender sobre o que é não ouvir e os sentimentos, medos e angústia envolvidos nisso? — questiona.

A adaptação aos aparelhos auditivos também é tema de textos escritos por Paula. Da época em que descobriu a surdez até hoje, a tecnologia dos equipamentos melhorou consideravelmente. Seu primeiro dispositivo apenas amplificava os sons. Hoje, há os que se conectam com TV, celular, computador e tablet via Bluetooth. Aos 31 anos, a jovem resolveu fazer o implante coclear.

— Não queria passar o resto dos meus dias naquela prisão silenciosa. Se houvesse a mínima chance de voltar a ouvir, queria tentar — diz. — O implante me permite até falar ao telefone, coisa que fiquei quinze anos sem poder fazer. Passei a ouvir tudo: das cigarras berrando lá fora ao barulho da chuva, da campainha ao interfone. Mas a melhor parte é ouvir e entender a fala humana sem leitura labial.

Dois meses depois da cirurgia, no dia em que eletrodos do implante foram acionados, Paula recebeu uma mensagem que também alteraria seus rumos.

— A internet me trouxe tantas coisas boas que costumava brincar que um dia ela traria também o amor da minha vida. Dito e feito. No dia da ativação do meu implante, recebi uma mensagem de um médico otorrinolaringologista do Rio, Luciano Moreira, dizendo que me acompanhava pelo blog e pelo livro. Nos conhecemos logo depois e nunca mais nos desgrudamos. Nos casamos em dezembro, e aí me mudo para o Rio.

Perguntada se consegue identificar vantagens em não escutar, ela reage com humor:

— Eu tenho um botão off. Ou seja, só escuto coisas chatas, ruins e irritantes se quiser. E posso ter o sono dos justos todas as noites, pois durmo no mais absoluto silêncio.

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