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Editoras recorrem a leitores para escolher quais livros publicar

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Sandy Hall estava nervosa. Bibliotecária em Morristown, em Nova Jersey, Hall se preparava poucas noites atrás para conduzir sua reunião semanal do clube de leitura com um grupo de 14 adolescentes.

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Alexandra Alter, no The New York Times [via MSN]

Sandy Hall estava nervosa. Bibliotecária em Morristown, em Nova Jersey, Hall se preparava poucas noites atrás para conduzir sua reunião semanal do clube de leitura com um grupo de 14 adolescentes. O livro a ser discutido, um romance para jovens adultos intitulado “A Little Something Different” (Alguma coisa um pouco diferente, em tradução literal), sua primeira obra.

“Ainda estou na fase ‘tomara que gostem'”, ela disse uma hora antes da reunião.

Porém, Hall, de 33 anos, tem motivos para estar mais confiante do que a maioria dos escritores de primeira viagem. Seu romance é o primeiro livro a ser publicado pela Swoon Reads, novo selo voltado para jovens adultos que permite que os fãs votem nos manuscritos que devem ser publicados.

Aproximadamente nove mil leitores leram sua história na internet; foi a que atraiu o nível mais alto possível de cinco corações. A editora está tão entusiasmada com o livro que pretende uma primeira edição enorme com cem mil exemplares nos Estados Unidos e lançamentos simultâneos na Grã-Bretanha e na Austrália.

A Swoon Reads, selo para jovens que faz parte da Macmillan Publishing, está mudando o processo tradicional de descobertas recorrendo à terceirização em massa para escolher os títulos. Ao dar um quê de concurso de talentos de televisão à sua pilha de manuscritos digitais inéditos, a editora espera encontrar best-sellers potenciais que reflitam não os gostos dos editores, mas a sabedoria coletiva e os caprichos da multidão.

“Os fãs e os leitores têm mais contato com o que pode vender”, disse Jean Feiwel, vice-presidente da divisão infantil da Macmillan e editor da Swoon Reads, que criou o conceito em 2012. “Eles entendem mais dessas coisas do que qualquer um de nós é capaz de ver”.

Foto: Ben Solomon/The New York Times

Foto: Ben Solomon/The New York Times

Até agora, Feiwel adquiriu seis romances estreantes de 237 manuscritos publicados no site da Swoon Reads. Variando do realismo contemporâneo ao romance paranormal, as obras foram escolhidas tomando por base os comentários e notas (de um a cinco corações) entre os dez mil usuários registrados do site. Os leitores também votam em narradores de livros em áudio depois de ouvir amostras de áudio digital, decidem quais cidades os autores visitam nas turnês de divulgação e escolhem as capas dos livros. Escritores publicados pela Swoon Reads recebem luvas de US$ 15 mil, mais direitos autorais.

Depois que ‘A Little Something Different’ chegar às livrarias no final de agosto, Hall e sua editora vão descobrir se o apoio de leitores online se traduz em vendas impressas. Eles esperam que os milhares de leitores que defenderam o livro se tornem divulgadores para impulsionar recomendações boca a boca.

‘Trata-se de uma espécie de mistura entre edição de livros com os programas ‘X Factor’ ou ‘American Idol”, afirmou Jon Yaged, presidente e editor da divisão infantil do grupo Macmillan. ‘Nós esperamos que esses livros tenham um índice de acertos maior’.

O experimento reflete um novo impulso de escritores e editoras para criar uma base de fãs para os livros muito antes de eles serem publicados – e, às vezes, antes ainda de serem escritos. Ao inverter o processo usual de lançar um livro antes e achar o público depois, as editoras desejam se tornar mais parecidas com o resto do setor de entretenimento, onde novos filmes e programas televisivos são submetidos a testes rigorosos de mercado antes de serem exibidos.

Editoras e agentes literários estão examinando sites como o Wattpad, que oferece ficção gratuita de escritores amadores, para descobrir autores com muitos e entusiasmados admiradores. No Kickstarter, os escritores arrecadaram coletivamente US$ 22 milhões no financiamento de perto de seis mil livros sendo escritos, variando de gibis e romances adolescentes a não ficção. Várias empresas novas dedicadas a atrair as multidões para financiar a literatura foram abertas nos últimos anos, incluindo a Unbound, a qual permite aos leitores dar apoio financeiro direto a autores em troca de uma cópia do livro finalizado.

Até mesmo autores consagrados estão começando a explorar a terceirização em massa. No caso de seu futuro livro, ‘The Innovators’ (os inovadores, em tradução literal), Walter Isaacson publicou um capítulo no site Medium para ouvir comentários dos leitores e ideias sobre o argumento central, o qual defende que as revoluções tecnológicas muitas vezes nascem da colaboração e não de gênios solitários.

Há quem questione se os fãs terão maior sucesso na descoberta de tesouros escondidos do que o modo tradicional do setor editorial. Dois anos atrás, a Avon Romance, divisão da editora HarperCollins, criou um site para aspirantes a escritores de romances dividirem suas obras e ouvirem avaliações, na esperança de que novos e ótimos livros apareceriam. Alguns editores vasculham o site toda semana para avaliar os manuscritos que recebem mais ‘amor’ – o equivalente ao ‘curtir’ do Facebook. Até agora, 500 obras foram carregadas no site, mas nenhuma foi adquirida para publicação.

Erika Tsang, diretora editorial da Avon, disse que estava um tanto cética em relação ao sistema de notas. ‘Sinceramente, muitas vezes são os parentes dos escritores que ‘adoram”.

Também não está claro se envolver fãs no processo de avaliação editorial é mais eficiente do que classificar os manuscritos inéditos ou se valer das sugestões de agentes. Na Grã-Bretanha, a HarperCollins criou um site no qual os escritores podem publicar os manuscritos e um avaliar o trabalho do outro. O site, Authonomy, tem cerca de cem mil usuários registrados e mais de 15 mil manuscritos. Todo mês, uma equipe de editores da empresa lê os cinco manuscritos com maior nota, mas até agora somente 15 dos romances publicados no site foram publicados.

‘Sabemos que existem best-sellers ali’, afirmou Rachel Faulkner, editora da HarperCollins. ‘Só precisamos mexer um pouco no pote para fazer os melhores virem à tona’.

Editoras e escritores veem a terceirização em massa como forma de não apenas descobrir novos talentos como também de mensurar a reação dos fãs antes de um livro ir para o prelo.

Depois que Swoon Reads comprou ‘A Little Something Different’ em fevereiro, Hall e sua editora, Holly West, analisaram mais de 200 comentários para ver o que os leitores achavam do livro e como ele poderia ser melhorado. Ficou imediatamente claro que muitos estavam confusos com as rápidas trocas de pontos de vista. Ambientado num campus universitário, o romance acompanha o florescer de uma paixão entre dois alunos cujo afeto um pelo outro está claro para todos, menos para eles. A narrativa salta entre a perspectiva de um barista, um entregador de comida chinesa, um professor, o motorista de ônibus, um esquilo e outros observadores torcendo para o casal ficar junto. O primeiro rascunho tinha 23 perspectivas. Depois de ler uma dúzia de reclamações quanto à complexidade da obra, Hall reduziu para 14 perspectivas.

Outros leitores tinham críticas mais nuançadas. Alguns sugeriram que os capítulos individuais precisavam de tramas mais claras. Para Hall, a crítica dos fãs – que a maioria dos escritores só lê depois que um livro está à venda – a ajudou a deixar o livro mais adequado para um público de adultos jovens.

‘Após testá-lo online, dá para refiná-lo de acordo com o que as pessoas querem ler’, disse Hall. ‘Você fica um pouco mais confiante’.

Blogueiros resenhistas dizem que chegam a ler 70 livros em um só ano

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Danilo Leonardi, do vlog Cabine Literária.

Danilo Leonardi, do vlog Cabine Literária.

Fernanda Ezabella e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Não é fácil medir o impacto que resenhas da internet têm sobre a venda de livros, mas um exemplo permite entender por que editoras têm investido nesse cenário.

O juvenil “A Seleção”, de Kiera Cass, lançado há sete meses pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras, vendeu 16 mil cópias quase sem aparecer na imprensa. Mas foi resenhado por blogs como o Garota It e o Literalmente Falando, que recebem uns 100 mil acessos por mês cada um.

Enquanto críticas feitas por especialistas em jornais fazem livreiros dar destaque aos títulos nas lojas, blogueiros atraem leitores de gosto similar e alimentam o boca a boca.

“É bem pessoal. Eles deixam claro que é o canto deles”, diz a gerente de marketing da Intrínseca, Heloiza Daou.

“O discurso não é ‘esse livro é ruim’, é ‘não gostei desse livro'”, diz Diana Passy, gerente de mídias sociais da Companhia das Letras. “E não basta escrever bem, tem que ser bom blogueiro, interagir com leitores, o que dá trabalho. É isso o que traz audiência.”

Os livros avaliados tendem a diferir daqueles que frequentam cadernos de cultura. Embora blogs como o Posfácio priorizem não ficção e literatura adulta, predominam entre parceiros de editoras os juvenis, femininos e de fantasia.

“Costumamos dizer ‘esse livro funciona para blog’ e ‘esse funciona para a imprensa'”, diz Tatiany Leite, 20, analista de comunicação na LeYa e fruto desse cenário -foi trabalhar na editora após se destacar com o blog Vá Ler um Livro.

A proximidade dos blogs também serve para as editoras conhecerem seu público, com estatísticas. Segundo a Instrínseca, 82% de seus blogueiros são mulheres e 63% moram na região Sudeste.

Dos 779 que disputaram vagas em janeiro na Companhia das Letras, a maioria tem de 20 a 24 anos (30%) e diz ler de 51 a 70 livros ao ano (22%). Isso num país em que a média anual é de quatro livros incompletos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura de 2012.

INDEPENDÊNCIA

Um ponto delicado diz respeito à independência de blogueiros que fecham acordos com editoras ou daqueles que fazem resenhas pagas.

O paulista Danilo Leonardi, 26, que desde 2010 comanda no YouTube o Cabine Literária, com resenhas em vídeo, diz não ficar constrangido de avaliar negativamente obras de editoras de quem é parceiro.

“A partir do momento em que dediquei meu tempo ao livro, me sinto no direito de falar o que achei. Mas já aconteceu de eu desistir de resenhar um livro que achei ruim de uma editora menor, para evitar prejudicá-la.”

Cobrar por críticas seria antiético, considera ele, que fatura só com vídeos não opinativos –recebe até R$ 700 por entrevistas com autores independentes. A meta de Danilo, servidor da Caixa Econômica Federal, é fazer do Cabine seu ganha-pão.

A tradutora carioca Ana Grilo, 37, que mora na Inglaterra, assina com uma amiga o blog The Book Smugglers (os contrabandistas de livros), escrito em inglês, e colabora como resenhista para o Kirkus Review, que cobra até R$ 1.000 por resenha.

Diz que o pagamento não altera resultados. “Temos controle sobre o que escrevemos. Raramente damos nota acima de oito para os livros.”

Já em seu próprio blog, Ana resenha por hobby, sem cobrar. Aceita anúncios, que rendem até R$ 2.200 ao mês.

Os 110 mil acessos mensais do Book Smugglers a fazem receber, a cada mês, cem livros de autores e editoras, dos quais ela diz ler uns quatro por semana. “Lemos muita coisa ruim, mas também verdadeiros tesouros.”

AMAZON E GOODREADS

Perder tempo com má literatura é algo que o empresário Donald Mitchell, 66, diz se recusar a fazer. Integrante do “hall da fama” de resenhistas da Amazon, ranking dos usuários que mais avaliaram livros no site, já publicou mais de 4.200 avaliações positivas.

A proficuidade e a benevolência lhe rendem um assédio de 40 pedidos diários de resenhas. “Digo aos autores que não vou resenhar se não gostar”, diz ele, que lê até três livros por semana e os resenha, por gosto, desde 1999.

Por anos, Mitchell pediu doações para a ONG cristã Habitat for Humanity em troca das resenhas. Chegou a levantar R$ 70 mil. “Nunca toquei no dinheiro, mas a Amazon reclamou e eu parei.”

Ele se refere a uma mudança de regras da loja, em 2012. Ao perceber que o comércio de avaliações tirava a credibilidade desse espaço no site, deletou várias delas. Uma pesquisa da Universidade de Illinois constatara que 80% das resenhas na loja davam aos livros quatro ou cinco estrelas, as duas maiores cotações.

Outra prova de que a loja valoriza resenhas on-line foi a compra, em março, do GoodReads, rede de indicações de livros com 17 milhões de membros. Suzanne Skyvara, vice-presidente de comunicação do GoodReads, diz que a transparência é o segredo. “Mostramos quanta resenhas cada usuário faz e sua média de cotações.”

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