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Bolsista negra é hostilizada em atividade no campus da FGV de SP

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Prédio da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo

Prédio da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo – FGV – divulgação

 

Joana Cunha e Jairo Marques, na Folha de S.Paulo

Uma caloura do curso de administração da FGV-SP, uma das faculdades mais conceituadas do país, foi hostilizada dentro do campus da instituição durante um campeonato esportivo interno, na última sexta (3). Da torcida, uma pessoa ainda não identificada gritou para a garota, que estava na lateral da quadra: “Negrinha, aqui, não!”.

A aluna, que tem 17 anos, faz parte do programa de bolsas de estudos da faculdade, que atende pessoas de baixa renda, numa tentativa de ampliar a diversidade na escola, diminuindo a elitização. Após a agressão, o jogo foi interrompido, e parte dos alunos se mobilizou para encontrar o responsável pelo ato.

O caso gerou comoção entre estudantes de administração, que não conseguiram identificar quem era o agressor, porque estavam na arquibancada oposta à do curso de economia, de onde saiu a ofensa. Procurada, a FGV informou que abriu uma sindicância para apurar o caso.

A garota não quer ser identificada e não quis dar entrevista. Ela está recebendo apoio do coletivo 20 de Novembro, que reúne estudantes negros da escola e chegou a emitir uma nota, em redes sociais, repudiando o ato. “Não vamos admitir que atos como esse continuem acontecendo dentro dos muros da instituição. Exigimos que a coordenação do curso de economia apure o fato e responsabilize os envolvidos”, informa parte da nota.

Após a repercussão do caso entre o alunato, o diretor da escola de economia, Yoshiaki Nakano, também redigiu nota de repúdio sobre o caso –divulgada entre os alunos. “Consideramos inaceitáveis e injustificáveis quaisquer ações preconceituosas ou intolerantes e ressaltamos que estas são passíveis de sanções por má conduta, tais como advertência, suspensão ou exclusão previstas em regimento e normas da escola”, diz trecho do documento.

O casal Daniela Nogueira Mendes, 23 e Fabio Bruno Queiroga, 22 na Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde tem bolsa integral e cursa administração pública

O casal Daniela Nogueira Mendes, 23 e Fabio Bruno Queiroga, 22 na Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde tem bolsa integral e cursa administração pública

 

MOMENTO HISTÓRICO

Com mensalidades superiores a R$ 3.500, a FGV (Fundação Getulio Vargas) tem entre seus alunos os filhos de alguns dos empresários mais ricos do país e de presidentes das maiores empresas. Desde que intensificou a oferta de bolsas a estudantes de baixa renda, há cerca de três anos, a instituição criou uma coordenadoria da diversidade para promover a integração entre os alunos.

Não há cotas na FGV, todos os bolsistas do programa foram aprovados nos processos seletivos convencionais. Neste ano, a fundação matriculou dois refugiados africanos, um de Camarões e outro de Angola, que serão bancados por recursos oferecidos pelo escritório Mattos Filho.

“Isso [a agressão] é um marco. Estamos vivendo um momento de entrada do diferente na GV e ele tem esse tipo de recepção por parte dos que reinaram sempre”, afirmou Danilo Santos, aluno bolsista e negro, que defende a causa. A FGV declarou que “repudia qualquer tipo de discriminação, seja de raça, cor, sexo ou religião”. A instituição, porém, não admitiu envolvimento de um de seus alunos.

“A FGV já constituiu, de imediato, uma comissão de sindicância para apurar os fatos, sendo prematuro fazer qualquer prejulgamento acerca destes, notadamente quanto à suposta autoria, considerando que o evento esportivo era aberto ao público em geral e não restrito a alunos da instituição.”

Questionada pela reportagem, a instituição não informou se tem imagens de câmeras de segurança da quadra onde ocorreu a partida. A diretoria da instituição não quis dar entrevista.

Em nota, a assessoria de imprensa disse apenas que “com base na conclusão dessa comissão [de sindicância] serão adotadas todas as medidas cabíveis, inclusive junto às autoridades constituídas, com as quais a FGV nunca se eximiu de contribuir.”

‘A professora não gostava de pobre’: bolsistas criam página contra preconceito em universidade carioca

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Gabriel Gomes, Lucas Clementino e Michelle Egito (da esq. para a dir.), três dos oito integrantes do "Bastardos da PUC-Rio"; para eles, alunos bolsistas precisam entender que universidade também é "100% deles". - Jefferson Puff/BBC Brasil

Gabriel Gomes, Lucas Clementino e Michelle Egito (da esq. para a dir.), três dos oito integrantes do “Bastardos da PUC-Rio”; para eles, alunos bolsistas precisam entender que universidade também é “100% deles”. – Jefferson Puff/BBC Brasil

 

, na BBC Brasil

“Você é pobre? E bolsista? Não sabia que a PUC misturava o tipo de gente que estuda Relações Internacionais, até porque é um curso que exige inglês, né?”

Foi assim que um aluno da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, bolsista do ProUni e morador de um bairro do subúrbio carioca, diz ter sido recebido por um colega no primeiro semestre de aulas, durante um debate sobre cotas raciais.

“Eu não consegui dizer nada, e meus colegas também não disseram nada. Foi a primeira de muitas vezes em que pensei em largar a PUC”, conta o estudante, hoje formado pela tradicional universidade privada carioca, considerada de elite – mas onde 51% dos 12.760 alunos são bolsistas.

O relato do aluno está na página “Bastardos da PUC-Rio”, que em menos de um mês já tem 6 mil curtidas no Facebook.

Alusão ao termo “filhos da PUC”, usado pelos alunos e professores da instituição, o nome da página foi escolhido pelo grupo justamente para deixar claro que eles não se sentem acolhidos nem tratados como iguais aos estudantes pagantes.

Todos os depoimentos são anônimos.

“Tudo começou num grupo de WhatsApp que a gente criou justamente para falar sobre esse tipo de humilhação e discriminação por sermos pobres, pretos e de periferia ou favela”, conta Gabriel Gomes, de 22 anos, aluno do 7º período do curso de Publicidade e bolsista do ProUni.

Grupo "Bastardos da PUC-Rio" no Facebook, que em menos de um mês de criação já conta com quase 6 mil curtidas, recebeu 47 depoimentos e publicou 27 - Reprodução

Grupo “Bastardos da PUC-Rio” no Facebook, que em menos de um mês de criação já conta com quase 6 mil curtidas, recebeu 47 depoimentos e publicou 27 – Reprodução

 

Com o acúmulo de relatos e desabafos, Gomes juntou-se a outros sete colegas para criar a página, que vem recebendo uma média de três relatos por dia. Desde a criação, no início de setembro, o grupo já recebeu 47 depoimentos, dos quais publicou 27.

Segundo um levantamento informal com 31 dos estudantes que enviaram suas experiências pessoais, a maioria tem entre 17 e 24 anos e leva entre duas e três horas para chegar ao campus, na Gávea, bairro nobre da Zona Sul do Rio.

Nenhum tem carro, e grande parte é morador de favela ou de bairros da periferia da Zona Norte e da Baixada Fluminense – uma realidade que, de acordo com os alunos, incomoda professores e colegas.
‘Mundos diferentes’

Segundo o grupo, há professores que logo no início do semestre fazem questão de identificá-los e destacá-los.

“Quando o professor pergunta diante de toda a turma onde você estudou no Ensino Médio, em que bairro você mora, a profissão dos seus pais ou diretamente se você é bolsista, é óbvio que isso é uma forma de discriminação. Na maioria das vezes eu sou o único que estudou em escola pública, de uma sala inteira”, diz Gomes.

Um dos relatos com mais repercussão na página, com mais de 3 mil curtidas, é o de uma aluna do curso de Design, bolsista do ProUni.

“Tive a infelicidade de me matricular em uma disciplina cuja professora não gostava de pobre. Isso ficava evidente nas muitas piadinhas que ela fazia sobre empregadas domésticas”, conta.

Para Michel Silva, os colegas que vivem em outra realidade social: "Para mim, 'eles' são as pessoas inseridas numa bolha social muito difícil de furar. É como se a gente fosse uma agulha tentando furar. Eu sou essa agulha." - Arquivo pessoal

Para Michel Silva, os colegas que vivem em outra realidade social: “Para mim, ‘eles’ são as pessoas inseridas numa bolha social muito difícil de furar. É como se a gente fosse uma agulha tentando furar. Eu sou essa agulha.” – Arquivo pessoal

 

“No primeiro dia de aula, informei a ela que eu sempre chegaria atrasada, porque eu saia do trabalho e não conseguia chegar no início da aula. A partir de então virei piada. As piadas me incomodavam e eu tentava fugir do campo de visão dela durante as aulas, e quanto mais eu me escondia, mais ela me percebia e chamava a atenção pelo fato de eu estar excluída da turma”, completa.

Em outro relato que gerou muitos comentários, uma aluna de Jornalismo (mais…)

Principal programa para formação de professores deve sofrer cortes de 50% a 90%

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E-mail de coordenador a gestores informa que haverá redução drástica no Pibid, que tem 90 mil bolsistas no país

educacao

Publicado em O Globo

Em 2012, Janaína Ribeiro, estudante de Química na Universidade de Brasília (UnB), resolveu entrar no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) porque queria aumentar a sua renda. Na iniciativa, a aluna atuaria em uma escola pública para aprender a dar aula. O resultado foi melhor do que o esperado: o professor que a supervisiona conseguiu trazer mais dinamismo às aulas com sugestões de atividades trazidas pelos bolsistas e os alunos ficaram mais motivados.

Porém, o programa que fez Janaína se apaixonar pela sala de aula deve sofrer severas restrições. Em um e-mail distribuído para professores universitários ligados à iniciativa, Hélder Silveira, coordenador geral de Programas de Valorização do Magistério da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), afirma que haverá cortes que podem gerar interrupção total ou parcial no Pibid:

“Sempre tento ser portador de boas notícias, mas nem sempre conseguirei sê-lo. Todos têm acompanhado o ajuste fiscal que o governo federal tem realizado no ano de 2015. Isso implica em cortes orçamentários e em retrações nas ações de todos os setores. A Capes não fugiu à regra. O corte imposto à agência foi da ordem de R$ 785 milhões”.

Somente na Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica (DEB), da qual faz parte, o coordenador identifica mais de dez programas que devem ser “fortemente afetados com cortes, inclusive, na concessão de bolsas que estão em vigência, a partir de julho de 2015”.

No e-mail, o gestor afirma que houve esforço por parte da DEB em demonstrar a necessidade dessas iniciativas, mas que espera forte impacto em suas contas com o ajuste fiscal.

“O que sabemos, de fato, é que os cortes virão e serão agressivos, implicando na interrupção imediata — parcial ou total — de programas estruturantes da diretoria como o Pibid”, escreveu Hélder.

Segundo o Fórum dos Coordenadores Institucionais do Pibid (Forpibid), Hélder afirmou através videoconferência durante uma reunião do diretório nacional do grupo que o melhor cenário de corte para o programa será na ordem de 50% e que o impacto pode chegar de 75% a 90% até o final do ano. Atualmente, são 90 mil beneficiados.

O Pibid é visto como um dos programas estratégicos para a melhoria da educação básica, por se propor a fazer a ponte entre o mundo universitário e o banco da sala de aula. Nele, os bolsistas possuem coordenadores em suas graduações e supervisores nas escolas onde atuam para acompanhar seu desempenho. Para o estudante, a bolsa é de R$ 400.

— Quando entrei, foi até pelo dinheiro. Depois você vê que é quase simbólico, porque o gasta com passagem, por exemplo. Mas é uma formação muito importante. Quando soube dos cortes, fiquei chateada. Já vi alunos para quem dei aula irem para a faculdade e também conseguirem entrar no programa. Fico pensando agora o que os próximos estudantes vão perder — afirma Janaína.

AJUDA EM DISCIPLINAS COM CARÊNCIA

Assim como a brasiliense, quase quatro mil bolsistas também eram de Química. A disciplina é carente de professores no país e tem no programa uma ajuda para suprir esta demanda. Outro caso é o da Matemática, área com o maior número de bolsistas e a que apresenta mais falta de docentes na rede.

A mudança na realidade da sala de aula é afirmada por quem faz parte do programa. Professora de História há 20 anos, Ana Margaret do Vale viu seu cotidiano mudar na Escola Estadual Balthazar Bernardino, em Niterói, com a chegada dos bolsistas do Pibid:

— Eles trouxeram uma dinâmica totalmente nova. Para os meus alunos, trouxeram uma série de atividades que, sozinha, não consigo fazer. Quanto aos bolsistas, eles ganham experiência e saem da faculdade mais preparados para dar aula. Quem dera se eu tivesse tido isso no meu tempo.

A professora conseguiu viabilizar mais visitas a lugares públicos, criar aulas interativas, e diz também ter aprendido com os bolsistas:

— A gente está no meio de projetos importantes. Se as bolsas forem canceladas, será uma grande perda. Os prejudicados são os alunos do ensino básico. A gente vê que eles tiveram uma melhora substancial no desempenho depois do projeto. É um balde de água fria — constata.

A mesma sensação é vivida por Emmily Virgínio de Macêdo, aluna da Autarquia Educacional de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco. Com estudos em pedagogia focada em novas tecnologias, a estudante diz que perder a bolsa também é dar um passo atrás nesta pesquisa.

— Quando todos estão se perguntando o que fazer com as tecnologias no ensino, com o Pibid temos condições de tentar responder a estas perguntas — afirma. — É com programas como esse que a universidade e a escola podem pensar em como usar as tecnologias como novo método de ensino. O corte é um retrocesso.

CAPES AFIRMA QUE PROGRAMA CONTINUA

Para o professor Marcus Dezemone, um dos coordenadores do Pibid de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), as restrições no programa afetam toda a educação.

— São vários os exemplos que mostram como o Pibid não atua somente com o aluno da universidade. Já dá para ver seu impacto na redução da evasão e na retenção na educação básica.

Por se tratar de uma iniciativa que lida com escolas públicas, o professor lamenta os cortes feitos pelo MEC.

— A prática tem que ser o critério da verdade. Não adianta o ministro dar uma dessas declarações (de que o ensino básico será preservado) e depois tomar medidas que vão atingir programas como esse. O que eu espero é que o bom senso prevaleça e que a Pátria Educadora não seja um mero slogan.

Procurada pelo GLOBO, a Capes disse que está em “permanente diálogo com o MEC, de forma a garantir a manutenção dos programas e ações estruturantes e essenciais”.

“Ressaltamos que não haverá interrupção de programas em funcionamento, bem como não há, até o presente momento, qualquer decisão quanto a eventuais contingenciamentos em programas específicos no âmbito da Capes”, afirma a nota.

Entretanto, o término do e-mail do professor Hélder Silveira para os gestores do Pibid em que anuncia os cortes termina menos otimista. Ele diz esperar que “nos próximos comunicados tenhamos notícias melhores, e (…) superemos este momento delicado e preocupante que assola importantes ações voltadas à valorização da formação de professores no país e que fogem à nossa governança”.

Ciência sem Fronteiras tem 13,8% de bolsistas em universidades ‘top’ 100

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Programa tem brasileiros em 92 das 100 melhores do ranking Times Higher.
Cerca de 72% destes alunos são de cursos de graduação-sanduíche.

Cauê Fabiano, Ana Carolina Moreno e Paulo Guilherme no G1

1Entre as 100 melhores universidades do mundo, de acordo com o ranking Times Higher Education, divulgado no início de outubro, há 5.425 estudantes brasileiros que obtiveram bolsa pelo programa Ciência sem Fronteiras. O número representa 13,8% dos 39.091 brasileiros, de graduandos a pesquisadores realizando pós-doutorado, que estão atualmente em universidades do exterior por meio do programa do governo.

O resultado vem de um levantamento realizado pelo G1, com as bolsas vigentes e aprovadas até o dia 20 de outubro, a partir de dados disponibilizados pelo próprio programa.
São 3.953 alunos de graduação-sanduíche (ou seja, realizada parte no exterior e parte no Brasil), o que representa 72% dos brasileiros nas instituições “top 100”, mais 854 inscritos em doutorado e 401 bolsistas de pós-doutorado (veja tabela completa).

No total, são 2.733 universidades no exterior que recebem bolsistas do Ciência sem Fronteiras, oriundos de 850 instituições brasileiras, conforme dados informados pelo Ministério da Educação (MEC).

Para o secretário executivo do MEC, Luiz Claudio Costa, a presença de mais de 5 mil alunos do Programa entre as 100 melhores instituições de ensino superior do planeta é bastante significativa. “Desde o início do programa, foi uma determinação que nós trabalhássemos alocando os estudantes nas melhores universidades do mundo, então esse número que nós temos de 13,8% dos alunos entre as 100 melhores é extremamente importante”, avaliou.

No Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), dos Estados Unidos, eleito pela quarta vez a melhor universidade do mundo, há apenas um brasileiro estudando por meio do Ciência sem Fronteiras, ao realizar uma pesquisa de doutorado. De acordo com a instituição, há um total de cinco estudantes do Brasil atualmente matriculados.

Já na Universidade Harvard, segunda do ranking, estão 87 brasileiros do programa atualmente, sendo 19 de graduação, 25 de doutorado e 37 de pós-doutorado. Em Oxford, na Inglaterra, terceira do ranking, são 37 brasileiros. Stanford, a quarta colocada, tem 17. E Cambridge, quinta do ranking, conta atualmente com 47 bolsistas do Ciências sem Fronteiras.

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Ausência de brasileiros

Ao todo, das 100 universidades mais bem colocadas do ranking, 92 têm ao menos um brasileiro bolsista do programa. As oito universidades que não têm brasileiros do Ciências sem Fronteiras no momento são: três no Reino Unido (University College London, London School of Economics and Political Science e King’s College London), quatro na China (University of Hong Kong, Peking University, Tsinghua University e Hong Kong University of Science and Technology) e uma na Turquia, a Middle East Technical University.

Para o secretário-executivo do MEC, a maioria dessas ausências ocorre porque as instituições não se enquadram nas áreas contempladas pelo CsF, e que algumas instituições, mesmo não listadas no ranking, são as melhores em determinados campos do conhecimento. “[O ranking] pega a universidade como um todo, não em áreas específicas. É preciso estar entre as melhores do mundo, e em áreas específicas também”, argumentou.

Em nível internacional, algumas universidades podem não ter a mesma fama de Harvard”
Jefferson Brown, secretário-assistente de diplomacia pública

Partilhando da mesma opinião, o fato de só 13% das bolsas estarem nas 100 melhores universidades, de acordo com o ranking, não quer dizer que a maioria dos estudantes estão em universidades de baixa qualidade, segundo Jefferson Brown, secretário-assistente de diplomacia pública do Escritório de Negócios Ocidentais do governo americano.

Em visita recente ao Brasil, o diplomata contou ao G1 que os bolsistas brasileiros do CSF são alocados em universidades americanas de acordo com o currículo de seus cursos, que podem ser mais ou menos compatível com as instituições dos Estados Unidos.

“Sobre os rankings, precisamos olhar mais de perto. Se você quer estudar agricultura, você não vai para [a Universidade] Yale, você talvez vá para a [Universidade] Purdue [que fica no estado de Indiana]. Você precisa olhar as áreas de estudo. Em nível internacional, algumas universidades podem não ter a mesma fama de Harvard”, explicou ele.

“Nós vemos que as pessoas conhecem um número de universidades famosas, mas pode ser que haja uma da qual eles nunca ouviram falar, mas que é perfeita para eles.” Segundo Brown, dentro dos Estados Unidos há institutos que produzem rankings das universidades do país de acordo com as diferentes áreas de estudo.

O coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília (UnB), o professor Isaac Roitman, também avalia o posicionamento dos estudantes brasileiros entre as melhores universidades do mundo como positivo, mesmo que, para ela, sejam necessárias mudanças no programa. “O índice é bom, considerando que nenhuma universidade brasileira foi ranqueada como a melhores do planeta”, frisou Roitman.

Contudo, Isaac destacou medidas que considera importantes para o “aperfeiçoamento do Programa”, com destaque para definição de tutores no Brasil que façam acompahamento do andamento dos estudos do bolsista, além de apoio emocional dos alunos.

“[É necessária a] adequação das metas nas próximas edições de forma que possamos mandar para o exterior estudantes que apresentem potencial cognitivo e maturidade, iImplantação de um sistema de avaliação continuo nos egressos do programa após o retorno ao país e introduzir monitoramento do aprendizado acadêmico e de distúrbios emocionais”, enumerou o professor.

Graduandos, mestres e doutores

Apenas em instituições dos EUA, qualificadas no Top 100, existem alunos realizando dissertações de mestrado: 203 brasileiros entre bolsistas vigentes fazem a pesquisa em 26 universidades norte-americanas. A melhor colocada entre elas, a Universidade da Califórnia em Berkeley, que ocupa a 8ª posição no ranking, possui apenas um estudante dessa modalidade.

Já as universidades que mais recebem brasileiros inscritos no programa do governo, a Universidade de Toronto (21ª colocada do ranking) lidera com 648 estudantes, 95,2% desse total fazendo graduação. A escola canadense é seguida por duas universidades australianas: Universidade Monash (443 alunos) e a Universidade de Queensland, contando com 439 bolsistas brasileiros. Em ambos esses casos, a maioria é majoritariamente formada por alunos de graduação: 98,1% e 94,7%, respectivamente.

O Brasil deu um passo estratégico no sentido da internacionalização”
Luiz Claudio Costa, secretário-executivo do MEC

Por outro lado, há cinco entre as 100 melhores universidades que possuem apenas um bolsista brasileiro do programa no quadro de alunos. Além do Caltech, nos EUA, as universidades de Kyoto, no Japão, Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, a Scuola Normale Superiore di Pisa, na Itália e a Universidade Vanderbilt, nos EUA, possuem um único brasileiro pesquisador.

Internacionalização

Para Luiz Claudio Costa, os resultados parciais do programa mostram que o país caminha para uma troca mais produtiva no ponto de vista acadêmico, a partir do contato que os estudantes têm com o aprendizado no exterior. “O Brasil deu um passo estratégico no sentido da internacionalização”, avaliou Costa, frisando que o CSF atraiu a atenção de universidades estrangeiras.

“O programa hoje tem um reconhecimento mundial, vários países têm procurado o brasil para fazer conosco parcerias”, destacou o secretário-executivo, apontando que o projeto conseguiu aliar a qualidade das insituições de ensino em outras nações com os padrões de exigência da CAPES e CNPq, para que essas universidades figurem entre as instituições que podem oferecer bolsas a brasileiros.

“Isso vai trazer para as instituições brasileiras um avanço muito grande, e em pouco tempo. E mais: temos vários estudantes que já estão fazendo intercâmbio, e isso já está gerando intercâmbio de pesquisas”, concluiu.

Falta de proficiência

Desde julho de 2011, quando foi criado, o Programa Ciência sem Fronteiras já implementou 71.478 bolsas, conforme dados do Painel de Controle do programa. A meta, de acordo com o governo, é implementar 101 mil bolsas em até 2015. Depois de aprovado, o aluno tem direito a uma série de benefícios enquanto estiver realizando a pesquisa ou a graduação no país escolhido. Ao total, são 18 áreas de conhecimento contempladas pelo programa e que permitem a inscrição para bolsas de estudo, incluindo engenharia, nanotecnologia, biologia, ciências exatas, entre outras.

Os auxílios incluem mensalidade, adicional de localidade, acréscimo por dependentes, seguro saúde, auxílio instalação, ajuda para aquisição de material didático e auxílio de deslocamento. Todos os valores dependem da modalidade de bolsa (de graduação a pós-doutorado) e o país escolhido para a pesquisa.

Um dos principais problemas encontrados no Ciência sem Fronteiras foi a falta de proficiência em inglês de muitos estudantes. Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (12) aponta que o Brasil ocupa a 38ª posição no ranking mundial de proficiência em inglês.

No início, muitos optaram por estudar em universidades de Portugal, por causa da facilidade com o idioma. No ano passado, o governo decidiu excluir Portugal do programa para estimular a aprendizagem de outras línguas pelos estudantes. E ainda promoveu um programa de aprendizado em inglês de seis meses. Em abril deste ano, mais de 9 mil alunos que estavam em Portugal foram transferidos para outros países. Destes, 110 estudantes foram excluídos porque não obtiveram a proficiência em inglês.

Empresa pede desculpas por reclamar da falta de dedicação de estudantes do Ciência Sem Fronteiras

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Mensagem deveria ter sido destinada apenas a alguns bolsistas que não compareceriam às aulas, diz novo e-mail

Leonardo Vieira, em O Globo

RIO – Dias depois de ter enviado um e-mail a bolsistas do programa Ciência Sem Fronteiras reclamando da falta de empenho acadêmico na Universidade de Southampton, no Reino Unido, a empresa que intermedeia os contratos estudantis com a instituição, a Science without Borders UK (SWB UK), pediu desculpas aos alunos pelo transtorno. A confusão teria acontecido porque, em nome da universidade, a SWB enviou a mensagem no mês passado para todos os cerca de 90 estudantes de graduação brasileiros matriculados ali, e não somente para os casos específicos de baixo desempenho, que seriam “pontuais”.

O caso foi revelado pela Agência Brasil. No primeiro e-mail, a SWB UK diz que foi contactada “pela Universidade de Southampton devido ao número considerável de reclamações das faculdades em relação ao comparecimento e à aplicação nos estudos”. Outro trecho diz: “é muito decepcionante, para nós, ouvir da universidade que os resultados têm sido bastante baixos e que [os estudantes] não têm se esforçado. Eu entendo que isso não se aplica a todos vocês, no entanto, para aqueles [que estão nessa situação], gostaria de pedir que se esforcem mais e que cumpram todos os compromissos firmados, incluindo reuniões com o supervisor do projeto para monitorar o progresso.”

Dias depois, em novo e-mail ao qual O GLOBO teve acesso, a SWB pediu desculpas aos estudantes. Na mensagem, assinada pela diretora-assistente de Programas e Operações da empresa, Tania Lima, é dito que o alerta era para “poucos alunos”. E continua: “Por favor, aceite meu sincero pedido de desculpas por isso. Nós não queríamos inferir que você pessoalmente não está se esforçando”. Leia a mensagem na íntegra, em inglês.

Em novo e-mail, SWB pede desculpas pela generalização - / Reprodução

Em novo e-mail, SWB pede desculpas pela generalização – / Reprodução

No entanto, ao GLOBO, a SWB informou que o e-mail não era para ser enviado a ninguém, e que o episódio ocorrera apenas por um “erro administrativo”. A instituição parceira do CsF ressaltou que os estudantes brasileiros têm um “impacto positivo” nos campi e que, frequentemente, as universidades britânicas os elogiam.

O caso gerou constrangimento entre os estudantes. Muitos procuraram os respectivos departamentos para reclamar da mensagem e comprovar que tinham bom aproveitamento acadêmico. Uma aluna de bioquímica, que preferiu não se identificar, foi uma delas:

– Olha sinceramente acho que foi exagero. Todos nós nos sentimos muito ofendidos com o e-mail, e cada um procurou seu tutor na universidade. Eu inclusive procurei o meu pra pedir orientação. Meus amigos tiveram ótimo desempenho academico, todos levaram muito a serio seus projetos e as aulas. Todos nós estamos muito chateados com o que está acontecendo – disse ao GLOBO.

Alguns inclusive acreditam que apenas a mobilização dos estudantes fez com que a SWB voltasse atrás e pedisse desculpas. De acordo, Wladimir Faé Neto, que cursa Oceanografia na universidade britânica, ainda há certo desconhecimento tanto por parte do governo brasileiro quanto por parte da empresa sobre o que acontece com os bolsistas do CsF.

– O maior problema na história é que o UKK aparentemente não tem muita ideia do que ocorre dentro de cada universidade e em cada caso em especial, provavelmente muito menos a CAPES e o CNPq – afirmou Wladimir ao GLOBO.

O Reino Unido é o segundo na lista de destinos preferidos pelos candidatos às bolsas. São quase 9 mil bolsas implementadas, entre estudantes de graduação e pós. Segundo a SWB UK, mais de 100 instituições as que recebem esses alunos. Os Estados Unidos aparecem no topo da lista de países, com mais de 20 mil bolsas concedidas.

O CsF foi lançado em 2011, com o objetivo de promover a mobilidade internacional de estudantes e pesquisadores e incentivar a visita de jovens pesquisadores altamente qualificados e professores seniores ao Brasil. Oferece bolsas, prioritariamente, nas áreas de ciências exatas, matemática, química e biologia, engenharias, áreas tecnológicas e da saúde. A meta é oferecer 101 mil bolsas até o final deste ano. A partir do ano que vem, começa uma nova segunda etapa, com mais 100 mil bolsas, que devem ser implementadas até 2018.

Como houve desencontro de informações entre os e-mails enviados aos estudantes e ao GLOBO, a reportagem pediu novos esclarecimentos à empresa SWB sobre possíveis bolsistas com baixo rendimento acadêmico, mas ainda não obteve retorno.

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