Contando e Cantando (Volume 2)

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A borracha deveria ser banida da sala de aula?

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Borracha cria 'cultura de vergonha do erro' para cientista cognitivo que sugere proibí-la na escolas

Borracha cria ‘cultura de vergonha do erro’ para cientista cognitivo que sugere proibí-la na escolas

A velha e boa borracha seria um “instrumento do diabo”? É o que afirma o cientista cognitivo Guy Claxton, professor visitante do Kings College London, no Reino Unido.

Publicado na BBC Brasil

Em entrevista ao jornal Daily Telegraph, Claxton disse que a borracha cria uma “cultura de vergonha do erro” e sugeriu bani-la das escolas britânicas.

“É uma forma de mentir para o mundo, dizendo: ‘Não errei. Acertei de primeira’.”

Para ele, é melhor que alunos assumam seus erros na escola, porque é assim que ocorre no mundo real.

Ele está certo? Borrachas deveriam ser proibidas nas escolas?

“Acredito que isso seria severo demais”, afirma John Coe, porta-voz da Associação Nacional para Educação Primária do Reino Unido.

“No entanto, em certas ocasiões, a borracha não deveria ser usada. Se estou ensinando matemática, quero que os alunos mostrem seus cálculos. Não gostaria de ver meus pupilos tão preocupados com a resposta correta que não deixem indícios de como chegaram à resposta.”
Aprendizado

Enxergar os próprios erros é uma parte importante do aprendizado, diz especialista

Enxergar os próprios erros é uma parte importante do aprendizado, diz especialista

De fato, ver os erros cometidos por estudantes é uma parte importante do aprendizado.

“Observar os enganos cometidos por eles é uma parte essencial do trabalho de um bom professor”, acrescenta Coe. “É preciso ver as tentativas feitas para chegar à resposta para orientar melhor o aluno.”

Em sua proposta, Claxton defende que, ao negar ter cometido erros, os estudantes não estão sendo preparados para o mundo, onde enganos são cometidos – e é preciso conviver com as consequências disso.

“Para crianças pequenas, ser capaz de ver seu próprio erro é um passo importante”, afirma Anthony William, especialista em psicologia infantil da Universidade de Sheffield. “Mesmo quando somos adultos temos dificuldades em enxergar nossos erros.”

Mas, se as borrachas forem banidas, como Claxton sugere, ao que isso levaria?

“Cada vez mais aulas acontecem com equipamentos tecnológicos”, afirma Williams.

“Você tiraria a tecla delete do computador? Você conseguiria fazer seu trabalho sem ela? No mundo, estamos sempre cometendo pequenos erros, os revisando e os alterando.”

Antologia de poemas inspirados por protestos no Brasil é colocada na web

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Publicado por Folha de S.Paulo

Circula pela internet uma antologia de poemas inspirados pelos protestos por todo o Brasil contra o aumento das tarifas de ônibus –em especial, a manifestação da última quinta-feira (17) em São Paulo.

“Vinagre – Uma Antologia de Poetas Neobarracos” lembra em seu título do fato de a Polícia Militar de São Paulo ter procurado vinagre nas bolsas de manifestantes no protesto ocorrido na última semana –o líquido foi levado por alguns deles porque ajuda a amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

Os organizadores da coletânea se denominam como Os Vândalos.

No prefácio, dizem que é uma obra “feita por todos”, um “trabalho coletivo”, e dizem que ela nasceu como “gesto público de solidariedade a todos os movimentos que acontecem simultaneamente no Brasil (e também no mundo)”.

A antologia reúne mais de 75 poemas assinados por diversos autores, todos eles em referência ao momento de revolta no país.

O arquivo em PDF de “Vinagre – Uma Antologia de Poetas Neobarracos” pode ser lida neste link.

Veja alguns dos poemas abaixo:

“VINTE centavos
uma gota
transborda e
a borracha
o gás
a porrada
não vão cessar
essa progressão
infinita
não vão
calar o que
acordou
não mais
seremos sonhos
de línguas tesas”

(de Ana Lucia Silva)

*

COROLINDO

“(em paz)
o povo
acordou,
(no caos)
o povo
a cor deu”

(de Baga Defente)

dica do Edson Munck Jr

Os corvos e a nossa língua

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Milton Hatoum, no O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro, ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?

Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.

Por isso é melhor apagar nomes e números de telefone. Felizmente usei muito pouco a borracha: a imensa maioria dos amigos ainda está neste mundo. Alguns são tão jovens que parecem viver em outra era. Ou talvez seja o contrário: eu mesmo pertenço a um outro tempo.

Nas conversas com dois desses jovens, surgem estranhas expressões em inglês sobre jogos eletrônicos e complicadas redes virtuais; essas expressões se repetem até a saturação e não me dizem nada. Diante de tantas palavras desconhecidas, que aludem a um mundo virtual que também desconheço, só me resta o silêncio, nossa voz essencial, talvez a mais verdadeira. De qualquer modo, somos amigos, e quando lhes mostro um poema de Wallace Stevens, eles o leem com enfado, depois me olham com desconfiança, como se eu fosse um lunático. E enquanto eles se entusiasmam com redes virtuais e joguinhos barulhentos, eu continuo a conversar com um homem silencioso. Assim permanecemos amigos em nossos mundos cindidos, e vamos vivendo.

Na outra extremidade da ponte, os amigos longevos tampouco me abandonaram. Refiro-me a duas senhoras quase centenárias. A primeira, é a mulher que me alfabetizou e merece uma crônica à parte. A outra, Ludmila, foi minha professora no curso ginasial, e sua lucidez espantosa me surpreende e me humilha. Até hoje, examina meus escritos com lupa, e quando descobre um erro ou uma distração, me telefona a qualquer hora do dia ou da noite para dizer, com uma voz do além, que eu devia consultar um livro do gramático Said Ali antes de escrever barbaridades.

Ludmila nasceu antes de 1922. Nunca aceitou o tom coloquial dos escritores modernistas e condena o uso inadequado da próclise e de qualquer pronome oblíquo átono. Agora está enfezada com “esses conterrâneos que usam a segunda pessoa do singular com o verbo na terceira”.

Disse-lhe que esses erros de concordância já foram incorporados à fala popular, por isso são toleráveis, e até aceitos. Além disso, acrescentei, Machado de Assis já não escrevia como Camilo Castelo Branco nem como Eça de Queirós.

“Tu leste A Doida do Candal no meu colo, mas nenhum português diz ‘tu vai, tu fica, tu viu”, protestou Ludmila, com a mesma voz ríspida de 1965 ou 1964. “Essa forma bizarra dói-me os ouvidos. Daqui a pouco vão dizer que os cavalos cacarejam, as galinhas relincham, as onças crocitam e os corvos esturram.”

Disse que isso era possível na literatura, e também no sonho, que é a forma mais civilizada e mais livre de contar uma história sem escrever palavras. Depois perguntei, com ironia, se havia corvos em Manaus, nossa cidade amada.

“Há muitos”, ela respondeu. “Corvos que não crocitam nem esturram, mas roubam e mentem desde que eu nasci.”

Grande Ludmila: quase um século de vida e não perdeu a verve da revolta.

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