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Padre Brown: série da BBC sobre um padre detetive estreia hoje na TV Cultura

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Padre Brown (Divulgação)

Cristina Danuta

No ar desde 2013 pelo canal da BBC, a série estreia hoje, dia 28, pela primeira vez na televisão aberta brasileira.  No Reino Unido, Padre Brown já está em sua sexta temporada — com uma sétima prevista para o início de 2019.

A série é baseada no famoso padre investigador dos livros do escritor inglês GK Chesterton. No papel principal está o ator Mark Williams, o eterno Sr. Weasley dos filmes de ​Harry Potter.

Mark Williams como o Padre Brown na série da BBC. Foto: Des Willie/BBC

 

A série é ambientada  nos anos de 1950 e acompanha os misteriosos acontecimentos de uma pequena vila no interior da Inglaterra. A trama é recheada de drama, suspense e toques de comédia.

Para os fãs de histórias policiais como Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle e o icônico detetive Hercule Poirot, de Agatha Christie, Padre Brown certamente arrematará muitos fãs em terras brasileiras.

O primeiro capítulo de Padre Brown estreia hoje na TV Cultura, às 22:30, horário de Brasília.

Confiram a chamada da série:

UnB guarda manuscritos do século 14 e mais de 13 mil livros centenários

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Papiro português do século 14 mantido pela Universidade de Brasília (UnB) (Foto: TV Globo/Reprodução)

Setor de Peças Raras possui documentos em cofre climatizado desde a década de 1960.

Natalia Godoy e Luiza Garonce, no UOL

Um um ambiente climatizado de entrada restrita, a Universidade de Brasília (UnB) mantém três papiros do século 14. Pesquisadores estimam que os papéis escritos à mão tenham chegado de Portugal por volta de 1560. Além deles, cerca de 13.500 livros dos séculos 16 e 17 compõem o acervo.

Os documentos são objetos de estudo e ficam guardados em um cofre no Setor de Obras Raras, dentro da Biblioteca Central. Para manuseá-los, é preciso usar luvas e máscara. No caso dos papiros, feitos de couro, o cuidado é ainda maior.

Para minimizar os efeitos de temperatura e da umidade, os manuscritos são envoltos em camadas de papéis livres de acidez. Para diminuir a incidência de luz, eles são guardados dentro de uma caixa.

Para a bibliotecária e responsável pelo acervo, Néria Lourenço, “manter esses documentos disponíveis para os pesquisadores permite que a população conheça melhor um pouco da história”.

Bibliotecária Néria Lourenço é responsável pelo acervo de peças raras da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) (Foto: TV Globo/Reprodução)

Segundo Néria, os livros são de origem diversa, “tem da França, de Portugal e, alguns, escritos em latim”. Há, ainda, cerca de 10 mil exemplares de periódicos – a maioria, publicação brasileira. Todos eles chegaram à UnB na década de 1960 e foram obtidos, principalmente, pela compra de coleções.

Ao longo dos anos, a universidade também recebeu doações de pessoas físicas e de instituições.

Acervo é museu?

O acervo de peças raras da Biblioteca Central da UnB não tem a finalidade de um museu. Ele funciona como um arquivo de manutenção histórica e de fomento à pesquisa. “A prioridade é o ensino e a disseminação da informação”, disse a bibliotecária.

Por isso, quem entra no cofre com papiros, livros e periódicos de séculos atrás precisa ter um motivo acadêmico e tomar todos os cuidados necessários para não causar danos nos documentos.

“A política de segurança é que as pessoas encaminhem um e-mail para o setor explicando o motivo. Muitas vezes é uma curiosidade, mas pra isso, a gente disponibiliza na versão digital”, explica Néria.

Papiro português do século 14 mantido pela Universidade de Brasília (UnB) (Foto: TV Globo/Reprodução)

Os papiros, por exemplo – escritos em português arcaico com forte influência do latim – servem de base para pesquisas de linguística, evolução da Língua Portuguesa, estética caligráfica e artística.

O pesquisador norte-americano Robert Krueger é professor de português na UnB e, assim que descobriu os pergaminhos, começou a estudá-los.

O pesquisador norte-americano Robert Krueger é professor de português na Universidade de Brasília (UnB) (Foto: TV Globo/Reprodução)

Apesar da delicadeza e quantidade númerica baixa dos pergaminhos, quem se debruça sobre eles afirma que ainda há muito o que estudar.

“Cada pesquisador identifica alguma coisa nova. Com certeza ainda vamos descobrir muitas coisa interessantes e isso vai enriquecer o conhecimento sobre esses manuscritos”, disse a estudante de história Juliana Medeiros.

Crianças refugiadas publicam livros com suas histórias e sonhos

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Ludmilla Souza, no Jornal GGN

Os sonhos, pensamentos e desenhos de 22 crianças refugiadas no Brasil agora viraram livro. Entre as autoras está a síria Shahad Al Saiddaoud, de 12 anos. “A paz começa com um sorriso no rosto. Quero meu país, a Síria, feliz, sem guerras”, deseja ela. Suas irmãs Yasmin, 7, e Razan, 5, também participam da coleção, mas com desenhos que ilustram a alegria de estar no Brasil, longe da guerra civil que devasta a Síria há seis anos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), 5 milhões de sírios deixaram sua terra natal.

Refugiadas junto com seus pais no Brasil, Shahad, Yasmin e Razan e também outras 19 crianças, de 5 a 13 anos, puseram seus sonhos no papel e a partir de agora compartilham suas histórias e emoções na primeira coleção de livros infantis escritos por crianças refugiadas lançada no país.

“No livro falo sobre meu sonho, sobre a Síria, sobre meus parentes, eu queria todo mundo feliz na Síria, não queria guerra. Esse é meu sonho, queria todo mundo em paz”, emociona-se Shahad, que está há pouco mais de um ano no Brasil. Já as irmãs falam pouco o português ainda, mas afirmam que gostaram de participar da coleção. Já Shahad, quer escrever outro livro. “Quero fazer uma ficção agora”, adianta.

O projeto é resultado da parceria da AlphaGraphics, empresa de impressão digital, com o Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus) e a Estante Mágica, que atua com projetos editoriais pedagógicos voltados a crianças. “Virou mais do que um projeto, virou um sonho”, conta um dos idealizadores da coleção de livros, Rodrigo Abreu, conselheiro do Adus e CEO da AlphaGraphics Brasil.

Ele conta que a ideia surgiu depois que ele se tornou conselheiro do instituto e quis unir os dois projetos. “Pedimos para que as crianças nos contassem os seus sonhos e o resultado foi incrível, mostrando que o que falta para elas é uma simples oportunidade”, completa Abreu.

A AlphaGraphics foi a responsável pela impressão dos livros e a seleção das crianças ficou por conta do Adus. “Desde 2010, temos como missão no Adus atuar em parceria com refugiados e pessoas em situação análoga ao refúgio para sua reintegração à sociedade. Buscamos a valorização e inserção socioeconômica, cultural para que se reconheçam e exerçam a cidadania novamente”, explica Marcelo Haydu, diretor executivo da instituição.

Dois educadores da Estante Mágica prepararam o ambiente, conversaram com os pequenos autores, ouvindo as histórias e trajetórias de cada um. Imersos num mundo da imaginação e criatividade, cada uma das crianças se permitiu pensar nos seus maiores sonhos e então colocaram no papel todas as suas fantasias e expectativas.

Segundo Abreu, nesta primeira etapa os livros não serão vendidos. “A primeira edição foi para as famílias das crianças, para o Adus, e a imprensa, e agora vamos entregar para escolas e bibliotecas”. Futuramente, as vendas serão revertidas às famílias das crianças e a projetos que apoiam refugiados no Brasil. Para o idealizador, o projeto ainda não terminou. “Vamos dar oportunidade para novas crianças e as que participaram poderão fazer novas edições”.

Os sonhos das jovens autoras vão longe – de princesas a astronautas. No fértil imaginário infantil, bosques, arco-íris, helicópteros, Chapeuzinho Vermelho e a paz são alguns dos personagens e referências que dão vida às histórias e ilustrações de seus primeiros livros, agora eternizados. Acima de tudo, os pequenos sobreviventes compartilham suas histórias de resiliência e esperança.

“Meu nome é Bader Munir Bader. Tenho 5 anos. Gosto do sol. Dos pássaros. E das cores bonitas”, escreve Bader, 5 anos, nascido na Arábia Saudita. Na história, ele conta que adora futebol, pular e sua cor preferida é verde-claro.”As pessoas não têm coração para fazer o bem para outras pessoas”, conta a síria Hebra, fã de história, geografia, artes e educação física.

Crianças refugiadas

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), mais de 9 mil refugiados de 82 nacionalidades vivem no Brasil, principalmente vindos da Síria, Angola, Colômbia, República Democrática do Congo e Palestina. Do total acumulado de refugiados entre 2010 e 2015 (4.456), 599 eram crianças entre 0 e 12 anos, compondo 13,2% da população refugiada no país.

Para a legislação brasileira, a criança refugiada é aquela que foi obrigada a deixar seu país devido a um temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social, opiniões políticas de seus familiares, conflitos armados, violência e violação generalizada de direitos humanos.

No mundo todo, 91% das crianças estão matriculadas na escola primária, enquanto que entre as crianças refugiadas esse índice é de apenas 61%, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Na Suécia, escritora brasileira cria biblioteca infantil no jardim de casa

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A escritora carioca Ilana Eleá criar uma biblioteca infantil no jardim de casa, em Estocolmo Claudia Wallin

A escritora carioca Ilana Eleá criar uma biblioteca infantil no jardim de casa, em Estocolmo Claudia Wallin

Publicado na RFI

A poeta e escritora carioca Ilana Eleá transformou a dor de uma depressão na Suécia em um sonho literário: criar uma biblioteca infantil no jardim de casa, em Estocolmo, e transformar o quintal em um espaço literário para promover a leitura de livros entre crianças suecas e brasileiras.

O cenário é quase uma poesia concreta. A biblioteca de Ilana funciona em uma pequena réplica em madeira de uma idílica casa sueca dos anos 20. À sua volta, crianças e pais folheiam livros e fazem performances e leituras em voz alta. No jardim de mil metros quadrados, Ilana espalha mesas cheias de livros e bolos, e uma fogueira espanta o frio nos dias gelados do inverno.

“A proposta da biblioteca é oferecer um espaço de convivência literária aqui no bairro. Temos atividades semanais, e nosso acervo é diversificado. Mas o enfoque é claro: livros de literatura infantil que tenham uma linguagem poética, que sejam ricos em metáforas, belamente ilustrados. E livros que abordem questões existencialistas, porque perguntas sobre a existência são fundamentais.

Quando a crise vira uma oportunidade

A ideia nasceu de uma crise pessoal. Com doutorado em Educação pela PUC do Rio de Janeiro, Ilana dava aulas na universidade quando conheceu o marido sueco, Johan Averstedt, em um site de relacionamentos. Em 2011, ela desembarcou na Suécia. Foram tempos difíceis: era difícil aprender a língua sueca, era difícil se adaptar à nova cultura e aos dias escuros do rigoroso inverno nórdico.

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Dois anos mais tarde, Ilana chegou a conseguir trabalho como pesquisadora da Universidade de Gotemburgo. Mas a depressão se acentuou. E só foi superada, segundo ela, graças ao sistema sueco de apoio aos trabalhadores.

“A Suécia me salvou”, diz Ilana. “O sistema de previdência sueco me ofereceu um mês de licença para ficar em casa, com salário pago, e a prescrição médica foi muito simples: fazer longas caminhadas, e apenas coisas que eu gostasse de fazer. Fiz as longas caminhadas, li muito, fui a eventos literários. E meu coração indicou que era isso que eu tinha que fazer: mudar a direção, mudar de área e trabalhar com literatura. Começar do zero. Quando eu voltei um mês depois, muito constrangida por ter que dizer que eu pediria demissão, depois de todo o tempo que investiram no meu tratamento, a médica na verdade me parabenizou. E disse, ‘vai ser apenas uma questão de tempo para que você seja novamente produtiva para a Suécia, e como uma cidadã feliz, que é o que queremos’”, conta Ilana.

Café com bolo e livros

Mãe de Dante, de cinco anos, e Liv, de dois anos de idade, Ilana transformou a sua trajetória no livro “Ela foi para a Suécia”, com lançamento no Brasil previsto para fevereiro. E se dedicou a plantar no jardim de casa a biblioteca infantil, que acabou virando mais uma poesia de Ilana:

“Uma biblioteca para o bairro nasce em jardim de casa, pintada de amarelo, com telhado de tijolo, e livros e gentes e fogueiras e cantos e poesias e bolos de histórias, ilustrando as tardes das crianças e suas famílias. Páginas são sementes para um peito leitor. Esse que bate, esse que nasce em voz alta ou sussurada, quando a lâmpada deita com a noite. Livros semeiam quintais com literatura. Essas árvores, essas casas acesas, somos nós”, ela recita.

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Todas as quartas-feiras, Ilana abre as portas da biblioteca para pais e crianças a partir de dois anos de idade. Às quatro e meia da tarde, os bolos que Ilana faz começam a sair do forno. É a hora do que os suecos chamam de “fika” – a pausa para o café. Em seguida, começam as leituras de livros em voz alta, e as performances de música realizadas pelas crianças ou pelos pais.

Inaugurada em setembro, a biblioteca tem um acervo de cerca de 200 livros – que aumenta a cada dia, com as doações de livros que vão chegando. O plano de Ilana é expandir as atividades da biblioteca, que já começa a receber a visita de turmas de escolas locais, e criar um acervo de obras infantis brasileiras. A primeira doação já está a caminho: um lote de 50 livros doados a Ilana pela Biblioteca Pública do Paraná.

Pedro Cardoso estreia na literatura com romance situado num Brasil em convulsão

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Longe da tevê e do Brasil, Pedro Cardoso brinca com o seu ‘desemprego’ Foto: JF Diório/Estadão

Longe da tevê e do Brasil, Pedro Cardoso brinca com o seu ‘desemprego’ Foto: JF Diório/Estadão

 

Ator conta que quis escrever ‘O Livro dos Títulos’ na tentativa de organizar ideias e ansiedades sobre o País

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

“Escrever um livro é talvez a missão mais exigente entre todas as chatices que a humanidade inventou para se aborrecer. Organizar os infinitos detalhes que dão coerência a uma estória inventada é uma tarefa divina que queima o cérebro de um simples mortal; a demanda é sobre-humana.” Quem diz isso é o protagonista do romance de estreia do ator Pedro Cardoso que confessa, logo na primeira linha, que não gosta de ler – mas gosta de livros.

Desde cedo, carregava um exemplar porque achava que, se acreditassem que ele era um grande leitor, não sentiriam pena por ele estar sempre sozinho. Atrás de seu escudo, ele oscilava entre o sono e a vigília, pensava em coisas diversas, nunca lia. Mas ele se apaixonou, e decidiu escrever um livro para a moça – ela, sim, uma grande leitora.

Esse é, basicamente, o enredo de O Livro dos Títulos, uma história de formação, de amor e de loucura que acompanha o personagem ao longo de sua vida. Mas há mais. O pano de fundo é um Brasil socialmente insalubre, em “convulsão social com o surgimento de várias denúncias de casos de corrupção envolvendo todas as forças políticas”. Um país do pré e pós-guerra civil que, ao seu término, terá se dividido em “420 Estados independentes, oriundos das milícias que se formaram durante os anos de conflito. O novo mapa político terá sido definido em uma infinidade de tratados e armistícios, que ficarão conhecidos como Tratados da Des-União Brasileira ou Des-Tratos da Fundação”, conta o narrador.

Pedro revela que quis escrever o livro numa tentativa de organizar algumas ideias e ansiedades sobre o País e compartilhar suas inquietações. “Escrevi sob o impacto dos acontecimentos dos últimos anos e um pouco desesperado de tanta coisa sobre as quais eu gostaria de falar. Mas o livro é um romance e não um ensaio teórico. O que os personagens dizem não é o que eu diria. Eu acho que eu nem sei bem o que eu diria – estou vazio de certezas”, diz.

Ele prefere não dar detalhes sobre a história ou falar sobre o país que criou e que está em desintegração, mas, voltando aos dias de hoje, comenta que são muitos os motivos para nos preocuparmos – e a “tentação fascista que ilude os tolos” é o principal deles. “Nenhum caminho autoritário nos trará nada de bom. Todo totalitarismo é falso e covarde. E os moralismos que se esboçam, com reações descabidas contra a sexualidade e os muitos modos de amar que são próprios da humanidade, são mesmo inquietantes e devem sofrer a nossa mais serena e severa oposição”, diz.

Pedro quer ter esperança, porque “desesperança é um luxo de gente rica e indiferente”. O ator, no entanto, ainda não sabe no que acreditar. “Tenho fé que algo novo haverá de surgir, mas não sei o que seja nem de onde virá. Estou à espera. Ativamente, esperando que algo venha e me diga o que nunca imaginei que seria o futuro. Eu tenho a convicção de que só algo que ainda não se manifestou nos haverá de tirar desse atoleiro em que nos encontramos.”

Pedro Cardoso vive hoje em Portugal e diz que a decisão não tem a ver com o momento do Brasil. Sempre quis ter uma experiência como essa, mas tudo aconteceu rápido demais – carreira, família – e perdeu a chance de fazer isso mais jovem. Quando teve dinheiro para bancar o sonho, não conseguiu se desvencilhar das obrigações no Brasil – por mais de uma década, ele foi o Agostinho, da Grande Família, sucesso da Globo que chegou ao fim em 2014. Seus projetos atuais estão ligados à peça O Homem Primitivo, escrita por ele e por Graziella Moretto, sua mulher, que trata da gênese e das consequências do sexismo. Graziella planeja um filme sobre a peça que aborda uma questão que, comemora o ator, “está finalmente ganhando o protagonismo que lhe é devido”.

Fora isso, tenta emplacar uma série sobre o Brasil, seus ricos e seus pobres, que não teve, até agora, o apoio de nenhuma emissora. Se não der certo mesmo, o novo escritor considera transformá-lo num romance. “No mais, estudo inglês e francês como um adolescente”, brinca.

Ele está no País para uma série de lançamentos. O banner que coloca atrás da mesa de autógrafos diz: “Ator desempregado à procura de leitores”. Tudo não passa de uma graça, garante. “Uma brincadeira com o fato de eu ter ficado no ar por muitos anos e ter desaparecido desse convívio semanal com o público. Eu sinto saudade disso. O desemprego é brincadeira.”

Mas de volta à vida de escritor. Pedro Cardoso conta que lê desde sempre, o dia inteiro, muito devagar, porque é disléxico. Não se considera um grande leitor e muito menos um erudito ou um grande conhecedor de literatura. “Gosto de ler, simplesmente. Leio alguma teoria, alguma filosofia, bastante sobre história e muitos romances. Mas sou leigo, repito. E gosto de ser um leitor amador. E, muito provavelmente, eu sou também um escritor amador.”

Sua obra faz referências a muitas outras da literatura brasileira e estrangeira, e o título foi escolhido pelo fascínio que sente pelo nome que as coisas têm e pelo poder que ele evoca. A inclusão desses livros todos em sua história foi porque ele quis dar um testemunho de um possível cânone de uma pessoa de seu tempo. “Cada um de nós tem um biblioteca na memória onde estão guardados os livros que lemos e achei que seria interessante para o leitor cotejar o cânone dele com o do meu livro”, explica.

A certa altura, o protagonista, que gostava de deitar no chão e passar os olhos pelos títulos na estante, chegou a escalar uma seleção. “No gol: A Pedra do Reino; na defesa: Lucíola, Fogo Morto, Casa Grande & Senzala; no meio-campo: Quincas Borba, Ed Mort, Juca Mulato e Catatau; no ataque: Benjamim e Budapeste. Técnico: Romanceiro da Inconfidência. Escalou também o time adversário, e seleções para os diversos países combinando gêneros e épocas.

Para o personagem, eles tinham uma outra função. “Cada título me dava uma sugestão de pensamento que, por ser breve e concisa, eu conseguia penetrar; ou, melhor dizendo: eu conseguia me deixar ser por ela penetrado; e usufruía, imaginando que estória se conformaria com aquele título.”

Pedro Cardoso comenta que a história foi chegando a ele à medida que ele a ia contando para um possível leitor. Tem um certo humor ali, e o ator estranharia se ele não tivesse se manifestado. “O que me guiou foi sempre um desejo de agradar, de entreter, de criar um bom momento para o outro. Escrever é, certamente, um modo de organizar o próprio pensamento. E eu estava precisando organizar o meu”, finaliza.

TRECHOS

“Quando me tornei um jovem adulto, aceitei finalmente que eu jamais conseguiria ler um livro, que eu detestava fazer o esforço de me manter atento ao que estava escrito, que eu desejava mesmo era me entregar o mais rápido possível ao mundo dos meus pensamentos, para o qual eu escorregava embalado pelo mantra da leitura.”

“Os primeiros anos da guerra se caracterizarão por uma baderna absoluta. A estrutura administrativa do Estado entrará em agonia e colapsará em poucos meses. O país ficará entregue a bandos de vândalos que atacarão indistintamente, com o único intuito de se apoderarem de bens de consumo. Em um primeiríssimo momento, cada cidadão se encontrará responsável pela sua própria segurança. Formar-se-ão milhões de exércitos de um único soldado.”

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